Ai, tia Maria, que vem aí a revolução amaricana

(Por José Gabriel, in Facebook, 23/07/2024)


Os comentadores televisivos de direita – passe o pleonasmo – estão em doloroso estado de dissonância cognitiva. Eles querem apoiar a direita norte- americana, mas, oh inclemência, essa direita é representada, nos tempos que correm, pelo partido Republicano e por Trump – que, “‘tá a ver, tia Batata, não é pessoa que se possa levar a qualquer lado, sem corrermos o risco de uma vergonha e assim, pe’cebe? E p’ra tomar chá, ele, só se for com Putin”.

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Deste modo, fazem os mais patéticos contorcionismos argumentativos para procurar a direita-mais-direita dentro do próprio partido Democrata, dividindo-o em imaginárias fatias, tendências, feitios até. E já proclamaram: Kamala Harris representa uma fação minoritária de extrema-esquerda do seu partido. Uma Passionária, por assim dizer. Extremista, radical de esquerda, divisiva – já ouvi, só hoje, todos estes atributos e mais alguns.

 Estamos no domínio do puro delírio. Da agitação de fantasmas. Ou, mais escatologicamente, da diarreia mental. Estão a conseguir igualar-se a uma personagem que frequentava muito o comentário televisivo há umas décadas, e proclamava “eu até vejo comunistas debaixo da cama!”.

 Os/as parlantes, ditos especialistas, imaginam moderadas alternativas, diagnosticam uma espécie de delírio dos democratas por apoiarem tão rapidamente a vice-presidente candidata, tocam os sinais de alarme. Se não há argumentos substantivos, recorrem à via do não-ser, que, já Parménides avisava há milhares de anos, não leva a lado nenhum.

O não-assunto preferido é o “ai valha-nos deus que Obama ainda não disse nada nem apoiou a candidata”. O silêncio de Obama passou a ser o tema. Sobre ele discorre-se em retorcidos esforços retóricos. A coisa está a atingir foros de debate bizantino. Ainda não desesperei pelo momento em que começarão a discutir o sexo dos anjos, quantos anjos se podem sentar na ponta de uma agulha e outros momentosos problemas, daqueles que tanto nos tiram o sono.

Hoje, vi e ouvi a prédica da dona Diana Soller. Custou, mas ouvi. Por curiosidade científica – se eu fosse mau diria curiosidade médica. E o seu excitado discurso ilustrou tudo o que escrevi atrás. Passou pela fase ignorante, entrou pela fase irritante, passou pela fase hilariante e terminou na fase repugnante. Ela exemplifica bem o que se está a passar pelas nossas televisões – e ainda a procissão vai no adro. Claro que, subliminarmente, não é só da situação norte-americana que se está a falar. Longe disso. Mas há sempre quem goste. Podíamos até, já que falamos em anjos, iniciar um debate sobre quantos anjinhos ainda aderem a este lixo argumentativo.


O excluídos: Não penses, que é subversivo

(Por José Gabriel, in Facebook, 29/06/2024)


(Sim, a purga está em andamento. Já nem sequer se preocupam em manter as aparências. Como sabem aqueles que seguem este blog, quer Carmo Afonso quer Bernardino Soares tiveram os seus textos variadas vezes publicados na Estátua. Mas a censura está aí e agora foram os dois “abatidos”, a primeira do Público e o segundo da CNN. O horizonte é negro. Mas enquanto tivermos voz, a Estátua sempre pugnará pela Liberdade.

Estátua de Sal, 30/06/2024)


Eles, até há pouco tempo, pareciam querer simular pluralismo, livre opinião, diversidade. Assim, aceitavam, quais cisnes num lago de jacarés, jornalistas, comentadores e colaboradores, aqui e ali, em doses espartanas, mas ainda assim visíveis. Carmo Afonso no Público, Bernardino Soares na CNN – para referir os mais recentes excluídos -, e uns poucos mais, publicados, lidos, vistos e ouvidos em doses homeopáticas.

No geral, o que abunda pelos órgãos de comunicação social são os obedientes à voz do dono. Que, muitas vezes, à custa da sua vontade de obedecer a quem lhes dá corda – por puro interesse ou por entusiástica convicção – são tão servis que os seus textos, comentários, intervenções em painéis sortidos, não só se empobrecem intelectualmente como se tornam desinteressantes e pouco úteis aos que pensam fazer o favor.  A sua pouca adesão à verdade e aos factos torna-os inúteis. Mas eles perseveram e continua a haver quem, apesar do acentuada decadência dos jornais com pretensões de “referência” – e sucesso dos tabloides – parece valer-lhes a pena. Com prejuízos e tudo.

A situação convoca uma premissa incontornável: a maioria dos leitores de jornais a sério tem o defeito de ser exigente. Logo, perante a perda de qualidade – e de decência, sejamos claros – de que padece a maioria, se não a totalidade, dos jornais portugueses, os leitores afastam-se deles.

Depois, ouvimos as queixas e as perguntas como que dirigidas à divindade: “porquê, leitores, porque nos abandonastes”? Eu respondo: cada vez há menos razões para se comprar jornais – de papel ou online. E agora, com a exclusão – gostaram do eufemismo? – de Carmo Afonso, menos razões há, no caso do Público.

Todos nós conhecemos a experiência de, ao longo dos anos – estou a falar, sobretudo, a gente de uma “certa idade” – estimar especialmente esta ou aquela página, coluna, colaborador dos jornais que comprava. Tal chegava a determinar o modo como geríamos a sua leitura. Ora lendo imediatamente os nossos preferidos, ora deixando-os para o fim como uma apetecida sobremesa. Por mim, não mais. A indigência do que enche as páginas dos jornais, a compreensão das meias verdades – que são sempre uma mentira completa -, a manipulação e os truques subliminares mais básicos, deixam-nos a sensação de que nos desrespeitam, que nos ofendem a inteligência sem pudor e sem consciência – penduraram a consciência.


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A sopa da pedra

(Por José Gabriel, in Facebook, 10/02/2024)


Conhecem, certamente, a sopa de pedra, a lenda do frade espertalhão e a versão que tão popular se tornou nos restaurantes e tascas de Almeirim. Como todos sabemos, a pedra não está lá a fazer nada. Na lenda, serviu só para enganar incautos e atrair a sua curiosidade para o desfecho da sua história da treta. Nos debates eleitorais que as nossas televisões têm passado, o debate é a pedra da sopa. A substância são as horas intermináveis que comentadores de ideologia variável, posto que tanto os há de direita como de extrema-direita e tudo entre estes dois polos, gastam a avaliar – como aqueles juris dos concursos de canções em que os concorrentes são, não raro, melhores e mais talentosos que os jurados – com uma obscena prosápia o desempenho dos participantes dos vários partidos.

A diferença na comparação que usei – e, espero, os meus amigos de Almeirim não levarão a mal – é que a sopa é deliciosa e os comentários aos debates são repugnantes e fedem à consciência dos comentadores e de quem lhes dá corda. De quem os patrocina.

Espero que tenham apreciado a minha contenção em não falar, nas comparações possíveis, em proxenetismo e prostituição – não são só os corpos que se vendem.


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