Querem ir para um contentor?

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 21/03/2020)

Concordo com o estado de emergência. Sei que são detestáveis as medidas de suspensão das liberdade, direitos e garantias, mas esta situação é excecional, e quem nos governa e superintende não tem a unha longa do ditador nem a garra do abutre. Nem temos o excecional sistema antidemocrático, semidemocrático ou democraticamente musculado da Ásia. Não sabemos quanto tempo a pandemia vai durar, não sabemos se vai regressar uma vez controlada e não sabemos quando teremos uma vacina para nos salvar.

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A razão para decretar o estado de emergência é simples. E não tem a ver com o facto de as pessoas estarem a desobedecer, a ignorar a distância social ou o isolamento e a quarentena. Estamos na fase positiva, otimista e humorada da crise. Trocamos palavras de encorajamento, memes e mensagens, anedotas, vídeos, notícias falsas e verdadeiras. Estamos na fase do combate. Do choque.

Tal como com o anúncio súbito de uma doença grave, esta fase passará. A última fase é a da aceitação. No meio vêm a ira, a negociação e a depressão. O isolamento prolongado de seres humanos dentro de casas e famílias acabará por provocar estragos. Vamos irritar-nos uns com os outros e com os governantes e não existe escape. Não há entretenimento, arte, futebol, desporto, convívio, conversa de bar. Não há ar livre, a contemplação do céu e do mar, o cheiro da terra e da chuva, o brilho da luz do sol e da lua. A prisão domiciliária, mesmo com saúde, testa a nossa resiliência, e as redes tecnológicas não substituem a vida. O contacto humano extremo, na família, raspa os nervos. A ansiedade também.

No rescaldo da crise do coronavírus, a ser clinicamente debelada, virá a fase da reconstrução depois da destruição planetária. Esta fase necessita de medidas estritas de comportamento. Há que evitar o caos social, a criminalidade, os aproveitadores e todos os que florescem nas ruínas e numa economia de guerra e de mercado negro. A violência da situação ainda não nos atingiu.

Percebi isto com clareza. Que a ira virá. Estou em clausura há dias, interrompida para passear e correr pelo parque, onde reparei que ninguém mantinha a distância social e os turistas se comportavam como turistas, com as selfies do costume. A esplanada regurgitava. Os jovens bebiam cerveja na relva e contavam anedotas sobre o vírus, a centímetros uns dos outros, contentes das súbitas férias. Isto irritou-me.

Em casa, fui tratar das plantas, arrancar ervas daninhas, regar a lavanda, cortar as flores mortas do inverno. O silêncio de sepulcro foi interrompido por uma viola clássica. Uma melodia de intensa beleza, que ecoava nos pátios e iluminava o dia gelado. Depois das imagens de Nápoles e Roma a cantar à varanda, pensei que a natureza humana se redime a buscar beleza onde a pode encontrar. Até ao homem do Black & Decker. Um som estrídulo veio cortar o ar como uma faca mal afiada. O tipo do bricolage. Todos conhecemos este tipo de coca-bichinhos, assombra o Leroy Merlin, o IKEA e o AKI por distração, passa os fins de semana nos arranjos, conserta coisas por desporto e invade os vizinhos e os domingos com o ruído da broca infatigável. Do prego preciso. Da serra elétrica e da ferramenta das porcas e parafusos. O homem do Black & Decker nunca descansa e por vezes completa a tarefa com um relato de futebol. A música, envergonhada, calou-se e nunca mais voltou.

Leitores, desejei bater no homem do Black & Decker. Podia ter esperado um pouco, ter-se sentado a apreciar a melodia que nos era oferecida como um prémio na prisão. Mais tarde, na mercearia do bairro, gritei com um homem que passou à frente de toda a gente, pessoas mais velhas com máscaras, e começou aos berros a fazer perguntas em cima de mim. Foi-se embora. Estou a ficar irritada.

No fim de semana passado, fui recebendo mensagens de vários médicos, alguns do Porto, outros de Lisboa, uns destacados para a frente de guerra, outros à espera de serem destacados, uns já separados das famílias, outros em contacto com médicos italianos que lhes enviavam notícias do centro do terror. E percebi que os médicos estavam nervosos e irritados. Porque não tinham proteção e ninguém tinha pensado nisso a tempo e horas, porque se estavam a infetar, porque se iriam infetar juntamente com os trabalhadores e técnicos de saúde, porque eles são os nossos soldados e se não os tratarmos bem eles vão morrer e primeiro do que nós. O que mais os irritava era o facto de as medidas serem tardias e as pessoas não acatarem as regras. Cada português que desobedece está a pôr-nos em risco de vida, somos a carne para canhão, diziam.

Os internos em estágio foram chamados, os mesmos que a senhora ministra queria pôr a trabalhar de graça, como se fossem missionários em África. A relação dos médicos com a ministra não é boa nem de confiança, é o mínimo que se pode dizer. O stresse no meio clínico era evidente, e a raiva fustigava gente que costuma manter a calma olímpica. Os do parque, entretidos nas anedotas e cervejas, nunca pensam nos outros. Nos que estão em contacto com doentes infetados e nem proteção têm. Esta falha, ou a falta de testes, ou a infeção do Hospital de Santa Maria por incúria, a infeção de tantos médicos logo no princípio são sinais de incompetência. Querem ir para um contentor?, gritava um médico.

E que esperar dos ricos, os que podem atravessar esta crise sem problemas? Que esperar da banca que salvámos e que continua a aumentar as comissões? Que esperar do absoluto silêncio desta gente? Gostava de ouvir dizer: eu vou oferecer dinheiro para a compra de material, para a investigação, para ajudar a frente de guerra. Eu tenho um plano para ajudar os outros, os que não têm plano.

Um amigo bem abastado e abastecido contou-me que amigos dele fugiram para o Brasil e os trópicos, em aviões e jatos privados. Abandonaram o barco. Eu mesma ouvi um grupo de brasileiros ricos no restaurante do topo do El Corte Inglés a beberem vinho, em cima uns dos outros, a rirem às gargalhadas e a dizerem que no dia seguinte marchavam de avião para o Brasil e “prà ilha”. Essa Europa já era. Apeteceu-me metê-los de quarentena num contentor, ao frio. Vamos ficar irritados. Se vamos.


Licença para matar

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 07/03/2020)

Coisas estranhas estão a acontecer.

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A primeira vítima do pânico coletivo é a racionalidade. A Austrália tem, no momento em que escrevo, 41 casos de Covid-19 diagnosticados. A Austrália tem 24,6 milhões de pessoas. A Austrália, um país avançado e civilizado, desatou a açambarcar papel higiénico. Nos supermercados, o papel higiénico foi racionado e quando chegava dos fornecedores era logo arrebanhado. Quando uma cadeia de notícias tentou perguntar às pessoas uma razão específica para a escolha do papel higiénico, alguém respondeu: se calhar, uma pessoa começou a comprar muitos rolos de papel higiénico e as outras foram atrás. Também compraram latas de conserva e pasta de dentes, mas por uma razão decerto metafísica, ontológica, o papel higiénico tornou-se um bem precioso.

Este o comportamento que esperamos de povos ditos primitivos. Em crises de pânico, são os povos avançados que se portam mal. Nas vidas confortáveis, o medo torna-se uma incógnita maligna e uma autorização para o disparate, incluindo a xenofobia, a desconfiança, o proselitismo, a mentira, a acusação, o linchamento, o açambarcamento. Uma estudante de Hong Kong foi tratada como uma leprosa em Itália. As pessoas afastaram-se dela, disseram-lhe para se colocar imediatamente em quarentena, deixar de aparecer em público, usar máscara e, de um modo geral, ir morrer longe. Por causa de uns olhos asiáticos. Veio a coisa descrita no “NY Times”. A estudante ficou desapontada com a Itália.

Uma das formas primitivas de atacar esta crise é apontar o dedo aos media. Os jornais sérios, dizem alguns. Nos últimos dias, com olhar reprovador, disseram que a culpa era nossa. Os media criaram esta histeria, os media são responsáveis, os media não têm padrões de comportamento, os media massacram as pessoas, os media propagam o vírus. Só falta dizer que os media foram os responsáveis pela criação do vírus em laboratório. Algures na China.

Compare-se esta crítica com a oposta. Na China, os media não reportaram a verdade, o regime comunista censurou as notícias, controlou a narrativa, não podemos acreditar em nada do que dizem os chineses. Ou o Irão, onde está em vigor uma censura oficial de todas as notícias respeitantes ao vírus. Se os media reportam em liberdade, são histéricos. Se omitem, são censurados ou mentirosos. Numa crise de pânico, os media são o mensageiro e o mensageiro é fácil de culpar. Há uma licença coletiva para matar o mensageiro.

Os media, ou como se diz, com a boca franzida e o sobrolho erguido, os “jornais sérios”, nem têm sido muito alarmistas e certamente não têm sido os autores das fake newsmemes, vídeos e conspirações virais que contaminam a informação, circulam nas redes sociais e são disseminados pelas mesmas pessoas que estendem o dedinho. Saem do rumor do Facebook e do Twitter para o discurso moralista sobre a histeria mediática e os jornalistas. O inferno são sempre os outros. Nunca compreendi a raiva contra o jornalismo sério, tão ameaçado, enquanto o falso, o especulativo, o sensacionalista, é celebrado como forma extrema da liberdade de expressão.

Enquanto a atenção mundial está mobilizada para o vírus, ou as primárias americanas, o resto do mundo passa despercebido. O raio de atenção da geração tik tok são 15 segundos, podemos avaliar a dificuldade de fazer passar uma ideia. Ou conceber uma ideia. Não admira que ninguém se interesse por notícias que seriam grandes noutra ocasião em que o papel higiénico não se tornasse essencial.

O Presidente Trump disse uma coisa extraordinária, mais uma. “Tive uma boa conversa com o mullah.” E cumprimentou os talibãs pela sua dureza e resistência. Trump acaba de assinar o que os Estados Unidos querem fazer passar por um acordo de paz para a retirada das tropas e mais não é do que uma derrota militar e uma capitulação. Em Doha, no Qatar, um país até há pouco tempo na lista negra da diplomacia americana por via dos sauditas e do príncipe louco, as negociações para a retirada das tropas americanas chegaram mais ou menos a termo. Quase 20 anos passados sobre o 11 de Setembro, e triliões de dólares mais tarde, a América descobriu que perdeu a guerra. Milhares de soldados “aliados” morreram no Afeganistão para entregar Cabul de novo aos talibãs. O país mudou nestas duas décadas, pelo menos na capital, mas os talibãs não mudaram. O mullah de Trump é o mesmo fundamentalista que era o mullah Omar, e ninguém duvida de que uma sociedade islâmica repressora, violenta e medieval será a consequência política deste “acordo”, e que a retirada das tropas apenas dará aos novos chefes fundamentalistas licença para matar todos os “inimigos” e retirar às mulheres os direitos adquiridos.

O Afeganistão continua tão tribal, belicoso, dividido, corrupto e primitivo como era, e o verniz de Doha estalará. Uma guerra civil entre senhores da guerra não é de excluir. A grande diferença é que ninguém quer saber. E os terroristas? O Paquistão tratará disso, à sua maneira. Com a Rússia do outro lado. Decerto em mais conversas positivas com os mullahs. Eis como a América passou de ameaçar bombardear o Paquistão até à Idade da Pedra, frase que os generais gostam de dizer desde o Vietname e com os bons resultados que sabemos, para a constatação de que o mullah afegão é um duro, um tough cookie na linguagem Trump, e um parceiro a convidar talvez para um fim de semana em Mar-a-Lago. Melhor do que Camp David. Umas torres em Cabul, logo se verá.

E quem quer saber de mais uma crise humanitária nas fronteiras e mares da Grécia e da Turquia? Os sírios, ainda? Mais os afegãos, refugiados da paz que há de vir? A Síria, tal como a Líbia, não estavam arrumadas?, cogitam as massas. O Putin tinha tratado disso. Putin e Erdogan zangaram-se e a Turquia entrou em guerra com a Síria.

E não se concebe maior miséria moral do que bombardear com gás pimenta gente que foge da guerra e do extermínio, que tenta salvar os filhos e que é usada como arma dos turcos contra os europeus. Gente que não sabe nadar e afunda o próprio barco para ser resgatada. E tudo isto às portas da Europa, ocupada a desinfetar as mãos.


O Sacrossanto Martírio Universal

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 22/02/2020)

Clara Ferreira Alves

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Lembro o dia em que deixei o catolicismo praticante. Não é o mesmo que deixar Deus, ou a ideia de Deus. Deixei o ritual e a crença segundo o dogma. Ou, como dizem as crianças, deixei de ir à missa. Ainda vou à missa de vez em quando, uma missa de Páscoa cantada numa catedral, missas em igrejas por essa Europa fora, entradas à hora meditativa do crepúsculo. Continuo a achar a igreja, a luz que escorre dos vitrais, as cores esbatidas, a púrpura doirada das imagens, um lugar de paz e serenidade. E uma emoção ética e estética. Naquele dia estava em Espanha, no sul. Rodeada de espanhóis, no meio de família. Um desastre tinha vindo abanar aquelas terras e o país. Uma família titular, com um daqueles nomes sonantes de Espanha, acabara de perder cinco crianças, cinco meninas, num acidente de automóvel. Viajavam com a nanny, também morta. O choque e a estupefação, a funda e humana consciência do horror, o pavor do horror, tomaram conta das pessoas. Não se pode conceber tamanho sofrimento. Nos dias seguintes não se falava de outra coisa na imprensa e televisão.

Até que um dos membros da família, creio que o avô, deu uma entrevista a dizer que tinha sido a vontade de Deus. E que aceitavam o sofrimento que lhes levara aqueles “anjos “como vontade de Deus. Esta frase gerou uma discussão entre mim e os espanhóis, todos católicos praticantes (e o catolicismo espanhol não é como o português, é mais devoto, dogmático e fundamental) sobre a vontade de Deus, a ideia de Deus, e o martírio como expiação aceite com resignação e sacrifício. Com os ombros vergados à vontade divina. Argumentei pelo lado da racionalidade e todos me disseram que a única maneira de aguentar tamanho sofrimento era, justamente, concebê-lo como um ato vindo da transcendência. Na discussão, descobri como esta ideia se me tinha tornado estranha e equívoca, desumana no limite. Com aquele Deus que planeia a morte de cinco crianças como vontade, vontade de anjos, eu nada tinha a ver. Nem queria ter a ver. Um dos católicos argumentou que eu não era católica, talvez tivesse razão, se o reduto do catolicismo era a aceitação do extremo sofrimento físico e moral como uma emanação divina. A discussão foi longa e violenta. Lembro que fiquei moralmente exausta e exasperada pela teimosia dos crentes.

Até hoje, não mudei. Recuso o sofrimento e o martírio como uma obrigação perante Deus que implica toda a obrigação perante a vida. Do mesmo modo que recusei, numa longa conversa com um mestre budista, a ideia de que o sofrimento de uma criança doente, uma criança com uma doença terminal, era carma. Logo, natural. A minha racionalidade levou a melhor, nada daquilo fazia sentido e a busca de sentido deve nortear a consciência e os atos morais. Sei que esta recusa me afasta do catolicismo dogmático e me aproxima do Iluminismo e do antropocentrismo, mais de Newton e dos “Principia Mathematica” do que da Bíblia, se quisermos ser simples.

É uma ideia complexa, a de sofrimento, o pessoal e o alheio, o próximo e o distante. E é uma ideia inseparável do cristianismo, o maior legado doutrinário da Paixão de Cristo. Toda a ideologia e iconografia cristãs fazem assentar a redenção no sofrimento. Apesar de o próprio Cristo ter pedido ao Pai para afastar o cálice. A crucificação é o momento da redenção dos pecados, da salvação. Uma das conversas mais estimulantes da minha vida tive-a com um padre católico, sobre a hipótese “perversa” do suicídio de Cristo. Não sendo dogmático, e estando aberto a discutir a hipótese do suicídio como um ato volitivo predestinado, ainda vontade divina, do Pai, o padre negou-a em termos absolutos. Nunca seria um suicídio. Mais uma vez, coloquei-me do lado da racionalidade e não da fé, o lado do “advogado do diabo”, uma expressão que é uma revelação.

A ideia de martírio consentido enforma toda a religião, podíamos dizer todas as religiões monoteístas, e é inseparável da crença na vida como uma criação de Deus e no corpo humano como uma extensão de Deus. Só Deus os pode terminar, “naturalmente”. Aqui chegados, podemos ver como a ciência incorporou este conceito da sacralização da vida, um conceito religioso, ao ponto de rejeitar não só a argumentação racional sobre a negação ou alívio do sofrimento terminal como ao ponto de as ordens científicas, sobretudo as médicas, rejeitarem qualquer interferência jurídica no processo de terminação da vida, embora se aceite a pena de morte como punição. E é comum ouvirmos dizer, depois de um desastre ou fatalidade, que temos de aceitar e resignar, como uma forma nublada de expiação.

Esta ideia dominante é fortíssima. Muito mais do que a negação e prevenção da eugenia ou do homicídio, do extermínio ou, se quisermos ser latos, do mal, outras ideias prevalentes, a negação da morte assistida como ato volitivo humano, vigiado e condicionado, e a obrigação do sofrimento terminal, foram universalmente interiorizadas. A Paixão de Cristo tornou-se, e é um feito extraordinário que ultrapassa as questões de uma fé, a paixão da humanidade. Os budistas acham que a vida não passa de sofrimento e reencarnação para mais sofrimento, até ao dia da iluminação e do fim do carma. Buda continua a reencarnar. E o islamismo está hoje ligado, nas suas formulações martirológicas, ao radicalismo desviante e homicida do terrorismo ideológico. Uma ideia gerou outra bem mais perigosa.

Ao entrarmos no Museu Nacional D’Art da Catalunya, onde passei largos dias a ver decapitações por causa de um romance que estava a escrever, podemos verificar como as representações do martírio dos santos, os martírios místicos, inundam a arte gótica do Norte de Espanha. As representações são gráficas, cabeças cortadas, corpos despedaçados, assados no caldeirão, pregados, martelados, torturados, assassinados com crueldade. Os instrumentos e ferramentas entram na representação fazendo uso de imaginação digna das torturas chinesas descritas por Octave Mirbeau em “O Jardim dos Suplícios”.

No íntimo de cada um de nós espreita um assassino, e daí as reservas colocadas à terminação da vida por um estranho ao corpo a terminar. Já a condenação geral do suicídio como cobardia, desprezando a doença “moral”, entronca diretamente na fórmula cristã da vida como ato divino. Nos martírios dos santos, emulações da crucificação que querem ir ainda mais longe no sofrimento, e são desejadas e suicidárias, o misticismo é recompensado na vida para além da morte. O sofrimento torna-se uma delícia, um masoquismo visionário que distingue o mártir do comum mortal. A agonia torna-se êxtase. O sofrimento como condição da santidade. Os santos aparecem sereníssimos no martírio e nimbados da luz divina, a luz da aprovação da tortura e da morte. Eles sabem o que os espera e não se importam de morrer. Têm prazer em morrer. Na vida, não é bem assim.

Na era do cientificismo devocional que é a nossa, a ideia de que não estou autorizada a controlar ou terminar o sofrimento último recorrendo à ciência, não posso querer terminar a dor do meu corpo e o sofrimento moral da dor, que é posto de parte como um apêndice, continua a ser estranha à minha razão. Sem prescindir de um ente divino que usa a compaixão e abomina o martírio.