Not clean, not safe

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 27/06/2020)

Clara Ferreira Alves

Agora, os mesmos que disseram que éramos um destino de eleição para as férias inglesas, ou britânicas, dizem que somos pestíferos. Em vez do recorte da Praia da Rocha com água verde-esmeralda, vêm os números da peste.


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Não somos o Estado pária, estamos logo abaixo do Estado pária. A Suécia. Os entusiasmados do costume, mais ou menos os mesmos que se comoveram com a vitória de Trump com o voto das massas, humedeceram os olhos com a “experiência sueca”. Sem tomarem medidas de confinamento ou proteção, sem fecharem a economia, os suecos guiados por um único epidemiologista e as suas teorias esdrúxulas sobre a imunidade de grupo, ou de manada, ordenaram a eugenia. Os velhos internados com 65 anos ou mais foram abandonados, ordens para não serem tratados ou assistidos, acabando por morrer na solidão e na agonia, visto que dois terços dos trabalhadores dos lares desertaram quando a epidemia atingiu o sector. Dois terços. A Suécia exibe agora um número de mortos muito superior ao dos civilizados vizinhos, a Noruega e a Dinamarca, e tem a entrada barrada em todos os países europeus. Se fossem os alemães a tentar a experiência, não faltariam os gritos e acusações de nazismo e ressuscitação de Goebbels. Sendo os suecos, bom, sendo os suecos, torna-se um sinal de uma superior civilização.

Em Portugal, somos grandes admiradores das civilizações superiores, praticamente todas as dos países mais ricos do que o nosso. Assim se explica a quantidade de notícias em jornais portugueses sobre jornais estrangeiros que publicam notícias sobre portugueses. O “Sunday Times” disse, o “Telegraph” disse, e inchamos o peito de orgulho com a distinção. Pode ser uma notícia com três parágrafos, nós nos encarregaremos de a dilatar. Pode ser uma notícia falsa, ou mal informada, nós nos encarregaremos de a reproduzir, porque estas breves contribuem para a chamada autoestima dos heróis do mar.

Agora, os mesmos que disseram que éramos um destino de eleição para as férias inglesas, ou britânicas, dizem que somos pestíferos. Em vez do recorte da Praia da Rocha com água verde-esmeralda, vêm os números da peste. Os novos surtos. Em compensação, a Espanha aparece como o eldorado, aberto a receber as hordas da cerveja e do peixe frito, do vinho reles e da salsicha. Vivam Benidorm e Torremolinos, abaixo a Quarteira e Albufeira. Como é que isto nos aconteceu? Simples, bastava termos mentido. Uma criança saberia como fazer.

Recapitulemos. Ainda não há muito tempo, a Espanha estava carregada de mortos, de infetados e de problemas. Tivemos de os defender dos holandeses. Os números eram tão superiores e as medidas tão desordenadas que as “autoridades espanholas”, uma coisa que ninguém sabe bem o que seja, decidiram fechar as fronteiras não as abrindo tão cedo. A fronteira com Portugal foi fechada de um dia para o outro e sem comemorações, cada país tratou de si como pôde. É o período do chamado “milagre português”, tão grande como o de Fátima e tão mitificado como este. A fé tem muita força.

O tempo foi passando, as autoridades portuguesas, que são muitas e várias, entrando em contradição, disseram que podíamos sair de casa. Numa praia onde num dia não podiam estar dez pessoas juntaram-se 180 mil, com a augusta presença do senhor primeiro-ministro. Sem transição e sem raciocínio logístico. Confina, desconfina, vamos festejar. Em Espanha, tudo continuava na mesma. Mal.

É possível que tenha sido uma invenção nossa, na sequela de corredores entre países com baixa taxa de infeção. Enquanto os outros abriam corredores seguros, éramos o único país do mundo a querer negociar e abrir um corredor com os inseguros ingleses. O primeiro e único. A Grécia disse que não abriria, para não borrar a pintura dos campeonatos de infeção e mortalidade, e a Espanha secundou. A decisão portuguesa parecia assim deslocada e imprudente. O “Telegraph” publicou uma notícia a dizer que Portugal era bestial. A seguir, veio a quarentena inglesa, que a gente do turismo e da aviação aguentou e vituperou. Orgulhosamente sós, perseverámos na negociação do corredor, e parece que estava a correr bem, o Boris aceitava, o nosso ministro dos Negócios Estrangeiros rejubilava com este negócio estrangeiro. Criámos o selo Clean & Safe e prometemos desinfetarmo-nos bem para receber hóspedes de um país com uma taxa de mortos e infetados tão grande que era a primeira do espaço europeu. Pior que a Espanha e a Itália. Ia ficar tudo bem.

Entretanto, de Espanha chegaram mudanças repentinas nas datas de reabertura da fronteira com Portugal, sem comunicação prévia aos portugueses. Assentou-se o 1 de julho, e os portugueses ficaram todos contentes, a coisa ia meter chefe de Estado e primeiro-ministro. Do lado de lá, o rei, muito útil justamente para cerimónias destas. Ia ficar tudo bem.

Não ficou. Enquanto o desconfinamento acelerado nos trazia mais mortos e infetados, a Espanha aparecia com zero mortos. De um dia para o outro, zero mortos. Zero tudo, os números não atinavam. Enquanto exibia zero mortos, a Espanha ia negociando um corredor com os ingleses, prometendo a abertura de fronteiras. Numa clara operação de propaganda, a Espanha passou-nos a perna, como de costume, e anunciou que estava aberta para o turismo além-mancha, o alemão, o que se quisesse. O “The Guardian” noticiou a coisa, como um acontecimento grandioso, o “Telegraph” também. ABRIRAM. Ninguém falou mais de Portugal, que continuava aberto, nunca fechou, mas sem corredor, à espera da cerimónia fronteiriça. E até a Grécia, tão sóbria, tão fechada a infetados, resolveu abrir o corredorzinho com os ingleses e colocar Portugal na lista negra, numa operação de concorrência desleal que brada aos céus. Chama-se a isto, em bom português, esperteza saloia.

Entretanto, por aqui, negociando a final do Champions, com as autoridades aos saltinhos, deixámos a coisa descambar e a Europa virou-nos as costas. Estado pária, abaixo da Suécia. A Grécia e a Espanha tinham agora o verão desimpedido pela concorrência portuguesa. A Espanha passava por imaculada, mas a versão estava tão estragada como a Imaculada Concepção de Murillo desfigurada por um carniceiro armado em restaurador de arte antiga.

Ou seja, a Espanha mentiu. Mentiu sobre os mortos e infetados porque sonegou os números durante 12 dias, 12, camuflando a desonestidade com a desculpa de que estava a rever os “critérios de contagem”.

O “The Guardian” fez mais uma notícia dizendo que a direita espanhola atacava o Governo com isto, como se o argumento fosse uma invenção política. A Espanha reviu os números, e não eram bonitos. Continuavam as mortes. Por cá, tratando-se de um Governo amigo, socialista, de esquerda, optou-se por enterrar o assunto. E continuamos na lista negra, à espera da fotografia com o rei, em que, para a coisa ser devidamente oficializada no dia 1 de julho, se aconselha o uso de um barrete bem enfiado na cabeça dos nossos chefes de Estado. Para cúmulo, o britânico país mais infetado da Europa veio rever a sua apreciação de Portugal e disse que considerava pôr o nosso país na lista negra, arredando a hipótese de um corredor aéreo ou do turismozinho em Portugal.

Logo fazerem-nos isto a nós, os mais velhos aliados, que pusemos um enfermeiro português a oxigenar o Boris Johnson. E quando encomendámos tantos selos Clean & Safe.

Nota: Escrito na quarta-feira. Pode ser que no sábado nos tenham perdoado. Ele há milagres.


Deixar a bonacheirice de vez

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 06/06/2020)

Clara Ferreira Alves

Em Portugal, nação valente e imortal, morre-se clandestinamente. O Presidente e o primeiro-ministro andam por aí em concertos, almoços e praias como se nada se tivesse passado, no torvelinho de regras de desconfinamento que obedecem a conveniências económicas e a contraditórias indicações da nova autoridade sobre as nossas vidas, a DGS. Posso ir ao Campo Pequeno, não posso ir à praia nem ao ginásio. Para as vítimas de covid, nem uma palavra pública e sonante.

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Nem um ramo de flores. Como sempre, envergonhado, horrorizado pela sua condição de pobreza ou de doença, ou das duas, o país fez de conta que nada se tinha passado. Há enterros de covid clandestinos, morreu de quê, ninguém sabe, e pessoas que estiveram doentes e fingem que nunca estiveram doentes. Psicologicamente, os danos permanecem invisíveis e confinados, dentro das famílias. O atavismo faz de nós sobreviventes medrosos e clandestinos. Ninguém conhece ninguém que tenha morrido de covid, não vá dar-se o caso de sermos confundidos com putativos portadores do vírus. Teve uma pneumonia, não era covid, era outra coisa. Em Portugal, tudo é sempre outra coisa.

Ao contrário de países onde os mortos tiveram um rosto e um nome, aqui tornaram-se o que só acontece aos outros. Uma psicóloga veio dizer que era melhor assim, para não traumatizar. Os ricos têm horror de dizer que apanharam, exceto se tiver sido “na neve”, chique, e os pobres têm horror de perder qualquer coisinha. Incluindo o emprego ou o subsídio. Quanto aos trabalhadores da saúde, não sabemos quem teve e não teve. Nem quantos, nem onde, muito menos porquê.

Há uma razão atávica para isto, classista e estratificada na consciência coletiva, que aprecia a clandestinidade como um serviço público, assim tendo sobrevivido ao apagão da História secular e a uma ditadura, e uma razão turística para isto. Quanto menos se souber sobre o covid em Portugal, melhor. Por mais que este período aconselhasse recolhimento intelectual e pensativo sobre o futuro, sobre o clima, o ambiente, o modelo, a infraestrutura, o uso dos fundos europeus, sobre a educação e a saúde públicas, a agricultura intensiva e os usos e abusos da mão de obra imigrante, sobre as terras, as águas e o ar, sobre os meios de transporte, o que vai acontecer é o que costuma acontecer. Lisboa como a grande estalajadeira da Europa e do mundo, e Portugal como lar de terceira idade para pensionistas ricos.

O Presidente veio anunciar uma “boa notícia” lá para agosto, quando estivermos entretidos na fila do semáforo para a praia. Champions, um campeonato de futebol, pode vir cá parar. Estamos salvos. O país da Web Summit e das magnas reuniões e cimeiras, do turismo religioso e laico, o país dos estádios e recintos, marcha em frente com glória. Venham os turistas, infetados ou não porque o aeroporto vai abrir sem restrições, venham todos, somos o país covid free. Os mortos não falam. Há para aí uns surtos, em regiões sem interesse para o turismo, nos subúrbios de Lisboa e nos meios de operários e imigrantes. Estamos salvos.

A qualidade do ar em Lisboa, cidade verde, não esqueçamos, que nunca foi boa conforme atestam os medidores mundiais, em breve vai voltar a ser péssima e altamente poluída porque os carros regressam em força, e as horas de ponta também. Se pensam que meia dúzia de pistas de bicicletas vão mudar isto, pensem duas vezes. Com o desespero acrescido da paragem forçada, vamos ter o abandono de todas as regras e o salve-se quem puder. Mais alojamento local, mais barato, mais turismo, mais barato, mais voos, mais carros, mais poluição. As lojas grandes não podem abrir, dentro dos aviões voa-se lado a lado. E os turistas vão desembarcar, claro. Covid free, não esqueçam. O que são mil e tal mortos? A Grécia, menos mortos e infetados, acolheu já um avião do Qatar (a Qatar Airways nunca parou e o hub de Doha também não, sendo agora o único hub ativo da Ásia) com 12 pessoas com covid lá dentro. E recuou. Imaginem o movimento entre Portugal e o Brasil. Ou Espanha. Não interessa, covid free, enfiem-se dentro dos carros porque os transportes públicos são perigosos, e venham trabalhar. Em agosto, podemos ter Champions. E estamos em saldos.

O turismo vai ser repensado? Não. Podemos continuar a depender do turismo low cost e que consome escassos recursos naturais? Não. É assim a vida, a nossa vocação não é inventar, é servir.

Depois de tantos meses de sacrifícios e privações, regressar à normalidade significa o quê? Regressar à normal normalidade de ver Lisboa histórica convertida num parque temático onde não existia uma casa para arrendar e os alojamentos locais se tornaram, com a famosa hospitalidade, o único modelo de negócio? Ouvir as rodinhas no empedrado, esbarrar nos tuk tuks e ouvir os aviões aterrar e descolar da Portela de dois em dois minutos? Abrir as portas de par em par a todos os estrangeiros que queiram fugir de países infetados? A Tailândia, que depende mais do turismo do que nós, não abrirá à Europa e aos Estados Unidos antes do último trimestre, para acautelar novos surtos, e nós falamos de estabelecer corredores bilaterais com o infetadíssimo Reino Unido, que ultrapassou os 50 mil mortos. Aproveitando o facto de a Espanha exigir quarentena e que baixe o britânico número de mortos e infetados. Corredores bilaterais significam apenas que os ingleses desembarcam quando e como querem em Portugal, sem serem maçados pela vigilância. E nós desembarcaremos no Reino Unido? Não, obrigado, podem ficar com as praias. Ninguém por aqui passa férias em Margate ou Blackpool. E, se vier o ‘Brexit’, cada vez mais hard devido à incompetência épica de Boris e amigos, abriremos corredores nos aeroportos, para não serem maçados com a fila dos não europeus. Lá para o sr. D. Fradique é o que quiser. É este o interesse da pátria. Temos o Algarve à disposição de Vexas. E damos a água para o golfe.

Apreciar-se-ia um plano económico de um Governo que respeitasse o ambiente, diversificasse do turismo para outras formas de criação de riqueza e de investimento, pusesse um travão no desenvolvimentismo sem regras e sem gosto, preservasse regiões do Norte e do Alentejo (o Algarve perdeu-se), cuidasse do interior e das zonas costeiras, diminuísse a selvajaria imobiliária e especulativa das capitais e dos capitais e pensasse, por uma vez, não nos estrangeiros mas nos portugueses. Nos que pagam impostos e não nos que não pagam impostos. Usando os fundos europeus não para meia dúzia de compinchas do crony capitalism, ou para empresas e empreendimentos fictícios, para enriquecimento sem causa e para obscuros negócios escorados na banca e aconchegados nos escritórios da advocacia milionária.

Deixemos de vender o país a retalho a quem quer comprar, a angolanos e chineses, e de vender os esmaltes e joias. Portugal tem uma nova geração qualificada e empreendedora que não obedece às regras do passado e ousa arriscar. Está na altura de deixarmos de exportar os cérebros e empreendedores que educámos e qualificámos, os verdadeiros champions, e importarmos turistas baratos e capitalistas infames. De deixarmos de vez a bonacheirice, a relassa fraqueza que nos enlaça a todos nós Portugueses, nos enche de culpada indulgência uns para os outros e irremediavelmente estraga toda a disciplina e toda a ordem.


Rapariga bonitinha precisa-se

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 10/04/2020)

Clara Ferreira Alves

Terça-feira, 7 de abril de 2020, 13h.

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Abro a homepage de quatro jornais, o “Público”, o “Diário de Notícias”, o “Observador” e o meu jornal, o Expresso. Todos os dias faço este exercício, para ver se me engano. Conto as fotografias publicadas dos homens e das mulheres, incluindo as de publicidade ou promoção, as colunas de opinião, as notícias nacionais e internacionais. Corro tudo. Corro a homepage até ao fim e faço a contagem. Excluo as fotografias de grupo confusas e os conjuntos de futebolistas, mas não as repetições, porque as repetições ajudam a compreender o fenómeno da omnipresença. As mulheres não estão apenas em minoria em todas as representações, as mulheres são uma ínfima parte do espaço público e são usadas para ilustração de três coisas básicas: família ou casal, trabalho considerado feminino, como coser ou cuidar dos filhos, e limpeza.

Vamos ao dia em que escrevo, terça-feira, 13h.

No “Público”, um jornal com fama de feminista, conto 39 fotos de homens, onde se incluem chefes políticos, e quatro, 4, fotografias de mulheres. Mesmo as ilustrações de notícias covid, as prisões, a quarentena, quem morre no hospital, fotografias genéricas incluem mais homens do que mulheres, e temos também o homem mais velho do mundo. Haverá uma mulher?

app da empresa Idealista, publicidade, tem como ilustração um homem, género normalmente escolhido pela publicidade para tudo o que não seja detergente ou cosmética. As fotografias de banqueiros? Homens. De autarcas? Homens. Até a ilustração de uma rua de Londres traz um homem numa trotinete. A opinião masculina tem um destaque fotográfico que a opinião feminina muitas vezes não merece. Tenho vindo a investigar estas discriminações há muitos meses, desde antes da covid, sei do que falo. Nos conteúdos comerciais, as mulheres são largamente postas de lado, exceto na venda de carne a peso, caso das raparigas que entretêm o olhar masculino ou de celebridades. Uma ilustração de sem-abrigo traz um homem, e um abraço plastificado, covid recomenda, é entre pai e filha. A fotografia da possível abertura das escolas? Um grupo de rapazes.

Entretanto, esta semana morreu uma Bond girl, Pussy Galore, com quase 100 anos, e teve destaque nas respetivas homepages, porque Pussy Galore é um protótipo feminino velho como o mundo. A Bond girl, bonitinha e inútil. Mesmo que nada disto se aplique hoje à nossa sociedade, a Pussy teve mais fotos do que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

Vamos ao “Diário de Notícias”. Conto 45 fotos de homens, incluindo publicidade, e 23 de mulheres, incluindo uma promoção à Portugal Mobi Summit, que usa mulheres profissionais como ilustração. Para ilustrar a defesa das mulheres da limpeza do Luxemburgo lá vem uma mulher de vassoura. E no fabrico de máscaras lá está a máquina de costura. Na opinião, o “DN” dá voz a várias especialistas de circunstância, incluindo uma que ensina a sobreviver aos filhos. Numa rubrica, uma mulher aparece agarrada ao telemóvel com o título “Esta não é a altura de mandar mensagens ao ex”. O lugar-comum da ex-namorada histérica e que não larga o osso, assediando ex-namorados.

Num momento histórico em que o abuso e a violência doméstica estão a aumentar devido ao confinamento, não há sobre isto muitas linhas nos jornais portugueses, ao contrário do que fez “The Guardian”. Em compensação, a notícia da série de televisão “A Espia” tem no “Público” a melhor foto de mulheres, uma rapariga bonita e fresca. Os homens velhos aparecem em todo o lado. As mulheres velhas raramente são vistas em página. Falta de fotogenia. As exceções são Lagarde, que aperta os cordões da bolsa, e Merkel, pela mesma razão.

No “Observador”, temos 50 fotos de homens, com repetições, e Cristiano Ronaldo, António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa são os reis da repetição em todos os jornais, e 14 fotos de mulheres, com algumas repetições. Lá anda por entre as notícias a nossa Pussy Galore. Um anúncio da Cofidis, “Conta Connosco”, tem um homem por ilustração, porque sabemos que pedir dinheiro emprestado, tal como comprar casas, é privilégio masculino. Na opinião do “Observador”, as mulheres são clara minoria. Em compensação, a opinião masculina abunda e orneia, como diria o Eça ao Camilo.

No Expresso, conto, às 13h06, 44 fotografias de homens e 19 de mulheres, incluindo um torso feminino a ilustrar uma notícia. O destaque feminino vai para uma interessantíssima peça sobre Ming Hsu, a milionária chinesa que doou quase cinco milhões de euros de material médico a Portugal. Este perfil estava em primeiro lugar nos mais lidos, o que demonstra que as boas peças sobre mulheres poderosas são lidas. Mas Ming não é apenas uma mulher poderosa, é apresentável e sobretudo, a avaliar, muitíssimo generosa. Apesar de Ming constar dos “Paradise Papers”, que o Expresso e o Consórcio Internacional de Jornalistas publicaram, ela revela uma “paixão filantrópica” pelos lusitanos e pelo torrão nacional, onde tem investimentos. Tal como a Fosun, do Partido Comunista Chinês, que também doou material médico aos portugueses. Ming, figura nebulosa, recorda-me dois aforismos. O primeiro: a cavalo dado não se olha o dente, com um ponto de interrogação. O segundo: não há almoços grátis.

Tal como Isabel dos Santos, que por aí continua nos rodapés, figuras femininas como as de Ming Hsu ou outras, e há muitas, atraem leitores, mas este tipo de notícias, reportagens ou investigações são minoritárias. O grosso do que é produzido nos media, e não apenas portugueses, é supervisionado por homens para ser consumido por homens, visto e lido por homens. Boys will be boys. O preconceito está tão arreigado que nem as mulheres o notam. Sempre que é necessário produzir uma opinião de potestade, o homem é convocado. A mulher é relegada para a opinião de nicho, moda e design, cozinhados (mas não de chefe, categoria superior), família, filhos, crianças, cuidados, limpezas. Nessa disciplina essencial que é a economia, ou a gestão do dinheiro e da banca, as mulheres foram relegadas para o secretariado e a máquina de café. Olhe-se para a composição do Banco de Portugal ou dos conselhos de administração das empresas. Quando Cláudia Azevedo, filha de Belmiro de Azevedo, sucedeu ao irmão, Paulo Azevedo, como CEO da Sonae, as ações desceram, num sinal de desconfiança, entretanto recuperando. Apesar de tudo, o Governo de António Costa é mais ou menos representativo do “eterno feminino”, mas o PSD de Rui Rio é um imenso patriarcado.

De Jane Austen para cá, parece às vezes que nada mudou. E nem falo da discriminação salarial. As mulheres são quem mais consome informação e cultura, quem compra mais livros e quem mais lê. E votam. Façam as contas.