Violência, Massacres e Unicistas

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 20/12/2022)

Passaram no dia 16 de Dezembro de 2022 cinquenta anos sobre o massacre de populações de Wiriamu, um conjunto de aldeias no centro de Moçambique. Segundo os testemunhos de sobreviventes e relatórios de várias entidades e instituições terão sido mortas por militares portugueses 385 pessoas, homens, mulheres e crianças em situações de crueldade extrema.

O essencial dos factos é conhecido, está descrito em várias publicações: No âmbito da progressão das forças de guerrilha da FRELIMO para sul do rio Zambeze e em direção à cidade da Beira, da tentativa da FRELIMO criar o máximo de dificuldades à construção da barragem de Cahora Bassa, e perante informações táticas da PIDE/DGS da reunião de grande número de guerrilheiros da FRELIMO, da ordem dos 600, o comando militar português da zona operacional de Tete (ZOT) decidiu realizar uma operação de heli-assalto — «Operação Marosca» — com uma companhia de comandos, apoiada por meios aéreos de ataque ao solo. O assalto do que, segundo as informações da PIDE/DGS (a quem o governo português atribuíra a função de órgão de informações táticas e estratégicas), deveria ser uma base militar era, afinal, uma vulgar aldeia.

A ação da força de assalto foi realizada com grande violência, bombardeamento prévio e a prática de atos de chocante crueldade durante o assalto, que estão relatados.

A revelação desses atos foi efetuada em primeiro lugar por organismos missionários católicos e depois por jornalistas próximos do engenheiro Jorge Jardim. Causaram um fortíssimo impacto internacional, que perturbou o governo de Marcelo Caetano, nas vésperas de uma viagem de Estado ao Reino Unido. O governo português inicialmente negou as acusações, vindo a admitir mais tarde a ocorrência de factos criticáveis, atribuindo responsabilidades ao general Kaúlza de Arriaga, comandante-chefe das Forças Armadas em Moçambique, que seria demitido no Verão de 1973, ao brigadeiro Armindo Videira, comandante da Zona de Tete, com responsabilidades civis e militares e ao major Jaime Neves, comandante do Batalhão de Comandos a que pertencia a companhia que realizou a ação.

O massacre de Wiriamu tem sido apresentado por alguns militantes mais dados à propaganda do que à análise histórica como uma consequência direta da violência do colonialismo. Como um fruto estrutural do colonialismo. É uma falácia que desvirtua a análise histórica e ilude a essência do colonialismo, da natureza humana e da história da humanidade. Mas é hoje politicamente correto e atrativo como produto promovido pelos meios de comunicação. E isso é que conta. Constituem a versão laica dos Unicistas, uns religiosos cristãos que defendem a doutrina da Unicidade absoluta do seu Deus, rejeitam a pluralidade de apreciação dos factos.

A violência é um dos conceitos mais esquivos e mais difíceis das ciências sociais, afirma o «International Handbook of Violence» no seu introito, adiantando que a forma expedita de abordar um ato de violência é reduzi-lo ao confronto direto e pré-estabelecido entre agressor e vítima. Em regra, a abordagem dos atos de violência no contexto do anticolonialismo tem seguido esta metodologia redutora e ideologicamente pré-determinada, assumindo que a raiz da violência é o colonialismo, apresentado como a origem da violência em África, tomada esta e os seus povos como entidades homogéneas, sem passado e sem conflitos, um espaço de humanidade a-histórico! Fixada a causa da violência na natureza do colonialismo, a maioria dos militantes unicistas na sua versão de historiadores não discute nem analisa o papel que nela pode desempenhar a natureza dos homens, nem as circunstâncias em que ocorre, nem as fraturas e conflitos que podem existir no interior das organizações que a exerceram, nem os fatores que a desencadearam. É uma abordagem simplista, centrada na exploração das imagens chocantes, no sofrimento das vítimas e na condenação sans merci, de preferência com frases muito adjetivadas. No campo oposto, a violência é relativizada, por vezes até à negação da evidência dos atos e à responsabilização das vítimas pelos seus males. É igualmente redutora e ideologicamente enviesada. Defender uma análise racional das causas deste massacre é, para uns, branquear o colonialismo, e para outros diabolizar a “ação civilizadora” dos europeus em África.

Apesar dos preconceitos e das emoções é possível analisar racionalmente os fenómenos de violência, seja em África, no contexto do colonialismo, seja na Palestino no contexto do sionismo, na Alemanha durante o nazismo e na Terra Santa durante as cruzadas. Em «Representações da Violência», obra coordenada por António Sousa Ribeiro, são levantadas algumas questões essenciais, como a distinção entre violência estrutural e cultural, violência institucional e violência individual.

A análise do que ocorreu em Wiriamu durante a «Operação Marosca» exige o domínio dos conceitos destes três níveis de violência. Neste caso, existe uma violência estrutural que é inerente ao conflito de interesses entre sociedades humanas desde que o homem se tornou um ser social que luta por território e recursos, mais, nesta região o conflito estrutural entre a sociedade portuguesa e as sociedades locais era tão antigo quanto a instalação de portugueses nos “prazos da coroa”, em Tete, logo no século XVII! Existia também uma violência institucional entre os interesses de várias instituições, os do governo português amarrado aos compromissos de segurança da construção da barragem de Cahora Bassa, os do general Kaúlza de Arriaga, das suas aspirações e ambições políticas, os de engenheiro Jorge Jardim e das suas conceções de organização política para o futuro de Moçambique, os da Igreja Católica e até os da PIDE/DGS enquanto órgão zelador de ideologia do colonialismo do Estado Novo. Existe, por fim, uma violência individual, inerente às respostas do ser humano a situações de tensão. A violência individual é a que tem mais explorada pelas sociedades do espetáculo informativo e pelos militantes que sabem ser a exploração das emoções a mais rentável forma de promover causas, em detrimento da racionalidade.

A análise sem preconceitos do comportamento daquela companhia e dos agentes da PIDE/DGS que participaram no massacre poderia ajudar a compreender o colonialismo português, a perceber porque durou tanto a guerra e porque acabou com uma revolta dos militares que comandavam unidades deste escalão, que se viram envolvidos em situações com caraterísticas de guerra civil, pois eram moçambicanos 54% dos efetivos militares portugueses que em Moçambique combatiam a FRELIMO, cerca de 50% os angolanos nas forças portuguesas de Angola e 30% dos guineenses que lutavam contra o PAGC.

Isto é, a abordagem dos massacres de Wiriamu deveria ser mais do que o aproveitamento de um ato escandaloso para concluir o que é evidente: o massacre é moral e incondicionalmente condenável. Mas isso todos o são desde que o homem se reuniu em bandos para atacar outros bandos! O que teve este massacre, ou conjunto de massacres de específico?

Wiriamu não pode, ou não deve ser apenas um memorial nem uma fonte de reportagens ou trabalhos de doutoramento académico. Acordar os mortos de Wiriamu deveria servir para nos interrogarmos sobre a questão colonial portuguesa, a questão que levou um regime a conduzir um exército à perda de força anímica, e daí à descrença de uma solução militar, a um exército a recusar ser o instrumento do vergonhoso caos para onde o arrastava um governo que apenas tentava sobreviver à desagregação dos grupos de interesses que representava.

O massacre de Wiriamu foi um acelerador da tomada de consciência dos militares portugueses, que se estavam a ver, tal como em 1961, na Índia, na situação de bodes expiatórios de um desastre adivinhado. É uma das causas do 25 de Abril de 1974. Os militares de média patente que estiveram na origem do Movimento das Forças Armadas tinham a consciência, mesmo que pouco estruturada, de que, seguindo a política de prolongamento indefinido da guerra outros Wiriamus se seguiriam, cada um causando feridas mais profundas na relação entre povos. As vítimas de Wiriamu contribuíram para o fim da guerra, mas infelizmente não para o fim da violência nem em Moçambique, nem em qualquer parte do mundo.

A análise sem preconceitos do comportamento da companhia que praticou aqueles atos e homenagem devida às vítimas que, segundo a tradição africana continuam a viver junto dos seus familiares, devia ajudar-nos a compreender que não é a guerra que gera a violência, a guerra é o resultado do acumular de violências por causas identificáveis. Decidir desencadear uma guerra é o ato que desencadeia a violência e esse é um ato eminentemente político, da responsabilidade dos políticos. Os agentes da violência — os agressores e as vítimas — são apenas instrumentos.

Cinquenta anos passados sobre o que se passou em Wiriamu e em Tete continua a faltar uma análise que enquadre esse chocante acontecimento na história da violência resultante de conflitos entre fações no interior das sociedades e dos regimes — traduzidos em traições, em falsas notícias para levar os adversários a cometer erros. Esses processos ínvios de obter vantagens estiveram presentes na origem do massacre e no seu aproveitamento a posteriori. Seria importante abordar o massacre de Wiriamu sob um ponto de vista que ultrapassasse a condenação primária, de nada existir entre o colonialismo por natureza mau, violento, opressor, explorador e os movimentos nacionalistas, por natureza bons, libertadores, criadores do novo homem africano.

Sobre Wiriamu escreveu Lídia Jorge no romance «A Costa dos Murmúrios»: “Eu conhecia o significado desse cheiro… será esse cheiro que se desprenderá de Wiriamu, Juwau, Mucumbura, será esse cheiro que se desprenderá dos abatidos, dos queimados dos que ficaram a arder ainda vivos…” O comandante da companhia de comandos confessou que tinha usado um lenço impregnado de Old Spice para disfarçar o cheiro dos corpos queimados e em putrefação e que nunca mais suportou esse perfume. Continua a ser importante procurar a origem deste cheiro.


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A corrupção dos valores começa na nossa casa

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 18/12/2022)

A eurodeputada grega e vice-presidente do Parlamento Europeu, Eva Kaili, enfrenta acusações de corrupção e lavagem de dinheiro.

Miguel Sousa Tavares publicou no Expresso de 16 de Dezembro, (Ver aqui), um excelente texto sobre a corrupção no Parlamento Europeu, neste caso envolvendo a eurodeputada grega Eva Kaili, a propósito de subornos feitos pelo Qatar. Este meu texto é uma adaptação do texto de Simon Tisdall, do The Guardian, (Ver aqui), que reforça a ideia de estarmos a assistir à corrupção por dentro dos regimes de democraca representativa e de Estado de Direito.

Boas notícias para os autocratas do mundo — a mesquinhez (corrupção e cupidez) da UE é um grande golpe contra a democracia. Artigo de Simon Tisdall (The Guardian)

O texto de Simon Tisdall começa com uma provocação:

O escândalo do Qatargate (que envolve a eurodeputada grega Eva Kaili) mostra como a corrupção interna e o tráfico de influências podem corroer a confiança pública. A democracia é uma planta vulnerável, facilmente negligenciada e enfraquecida por parasitas. Ela enfrentou ataques abertos, às vezes letais, em 2022, de autocratas em lugares tão distantes quanto Estados Unidos, Brasil, China, Rússia, Irão e a Turquia. No entanto, quando a democracia é silenciosamente corrompida e subvertida por dentro — esse é o verdadeiro assassino. O caso da eurodeputada grega está nesta categoria, de inimigo interno, de cancro insidioso. Se provada, a corrupção no Parlamento Europeu constituirá uma enorme traição à confiança pública.

No entanto, aconteça o que acontecer, o escândalo prejudicará a UE, que gosta de dar lições ao mundo sobre valores democráticos, incluindo padrões na vida pública. O escândalo já está a ser sendo utilizado pelos inimigos internos da U E. Basta escutar os da Hungria, da Polónia, ou até do Reino Unido. “Onde está o problema com o estado de direito? Na Polónia ou na UE?” perguntou o deputado Dominik Tarczyński, do partido eurocético PiS. Marine Le Pen, da União Nacional da França, reclamou que, enquanto os eurodeputados questionavam as finanças de seu partido, “o Qatar entregava malas cheias de dinheiro”. O escândalo já está a chegar à atual presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que bloqueou as perguntas sobre o papel de sua vice-presidente da comissão, a grega Margaritis Schinas, que representou a UE na cerimónia de abertura do Campeonato do Mundo e publicou tweets elogiando as práticas de exploração do trabalho na construção das infraestruturas do campeonato.

Os funcionários e deputados do Parlamento Europeu são em grande parte autorregulados e enfrentam um escrutínio mínimo. Além do salário, os deputados podem reivindicar € 9.500 por mês em despesas e subsídios sem fornecer recibos. Podem ter outros empregos remunerados e não precisam registar publicamente contactos com agentes de estados estrangeiros. O PE resistiu até agora a impor regras de responsabilidade mais rígidas. Michiel van Hulten, chefe do gabinete da Transparency International na UE, afirmou que as revelações da semana passada podem ser a ponta de um iceberg. “Há uma influência indevida em uma escala que não vimos até agora”. A “ombudsman” (provedora) da UE, Emily O’Reilly, advertiu que salvaguardas anticorrupção ineficazes minavam os esforços da Europa para projetar os seus valores no cenário mundial. O escândalo também pode chamar a atenção para o comportamento de alguns parlamentares britânicos antes do Campeonato do Mundo. Eles afirmam que seguiram as regras parlamentares do Reino Unido ao aceitar um total de £ 251.208 em presentes do Qatar, incluindo hotéis de luxo e voos de classe executiva, enquanto participavam de missões de “apuramento de factos”. Vários defenderam o Qatar em debates subsequentes. Isso pode ser legal, mas como parecem aos olhos da opinião pública?

As instituições da UE e do Reino Unido também não são os únicos alvos das forças internas antidemocráticas. Na Turquia, o presidente Recep Tayyip Erdoğan está a “trabalhar” para abolir a eleição democrática, numa tentativa de manipular as próximas eleições. A inclusão de fanáticos e racistas de extrema-direita no novo governo de Israel parece uma auto-sabotagem da democracia representativa para a substituir por um regime iliberal de ditadura religiosa e militar.

As traições democráticas que emanam de dentro tornam-se mais comuns — e mais visíveis. No Reino Unido a contínua subversão dos direitos civis é efetivamente sufocada pela teoria de Rishi Sunak de “pragmatismo robusto”. A reverência covarde da Grã-Bretanha aos valentões dos diplomatas chineses em Manchester é outra punhalada nas costas.

Passado o campeonato, o Parlamento Europeu pode proibir funcionários do Qatar de entrar em instalações. (O Parlamento português condenou a atribuição da organização do campeonato ao Qatar!)

Os princípios fundadores dos EUA, um modelo para o mundo, estão sendo atacados em casa. A rejeição por Donald Trump e muitos republicanos do resultado da eleição presidencial de 2020 produziu ondas de choque globais. O seu efeito corrosivo ainda é sentido internacionalmente, explorado por atores malignos como a Rússia (que apoiou Trump em primeiro lugar). Trump desceu a um novo nível de perfídia democrática ao qual os imitadores seguem. No entanto, seu sucessor, Joe Biden, dificilmente pode ser considerado perfeito. Ele condenou ao ostracismo o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, pelo assassinato de Jamal Khashoggi e pelos abusos dos direitos humanos do reino. No entanto foi cumprimentá-lo durante uma humilhante viagem a Riad em uma busca inútil por petróleo barato.

A mensagem de Biden foi e é: os princípios democráticos são negociáveis; tudo tem seu preço. A confiança dos eleitores na integridade na vida pública e a governação através da democracia representativa são sub-repticiamente negociadas em jogos cínicos de tráfico de influência e política monetária.

Nesta luta global, os parlamentares desonestos são apenas pequenos conspiradores na grande traição da democracia.

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Desglobalização!

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 11/12/2022)

A globalização correu mal, voltemos aos nossos redis! — Este é o ponto da situação da ordem mundial. A globalização é uma das causas da guerra na Ucrânia e a sua desmontagem uma das consequências. O puzzle de um planisfério com as peças ajustadas e ligadas desfez-se. Esse puzzle finou-se. As peças estão a ajustar-se e a constituir outros grupos. Começa a surgir um pensamento que reconhece a necessidade de derrubar os velhos ícones e pensar como sair da armadilha da globalização. É o caso de uma entrevista de um antigo banqueiro do Goldman Sachs à revista liberal francesa L’ Express.

O neoliberalismo resultou do processo de evolução do globalismo. As novas tecnologias e a implosão da União Soviética criaram no Ocidente ilusões sobre a possibilidade de êxito do imperialismo como fase superior do capitalismo, a tese de Lenine, de consolidação de um imperialismo global e mundial com uma moeda, um exército, uma língua, um centro a dominar uma constelação de colónias.

O neoliberalismo teve uma época primordial, a de Frederich HayecK, da Escola Austríaca do «Individualismo e Ordem Económica», seguida da operação de sucesso da escola de Chicago, de Milton Friedman e os Chicago Boys, que utilizou o Chile de Pinochet como laboratório, tendo Ronald Reagan e Margareth Tatcher como promotores políticos e o papa João Paulo II como caucionador moral. A época de glória!

O neoliberalismo como filosofia assenta no individualismo — não existe sociedade, mas indivíduos — a conhecida definição de Margareth Tatcher; nos resultados financeiros como único elemento de avaliação das atividades económicos — o lucro a todo o custo e sem qualquer requisito de ética (e até de senso); e na globalização — o universo como um mercado.

O neoliberalismo produziu um conceito: O fim da História! (titulo de uma obra de Fukuyama). A leitura preconceituosa da História decretou a morte do socialismo com a implosão da União Soviética, que afinal nada mais era do que o regime de uma superpotência militar concorrente dos EUA, e o mundo neoliberal descobriu o seu casal bíblico resgatado da maldade do socialismo: Reagan e Tatcher, que substituíram não já Adão e Eva, mas Noé e a mulher Noéma, os justos da sua geração que iriam refundar a humanidade após o dilúvio. Tratava-se de mais uma versão do milenarismo que é recorrente na História ocidental e no islamismo.

A globalização, com a admissão da China na Organização Mundial do Comércio (2001), passou a constituir a resposta para todas as questões. Com a globalização não haveria mais questões. As empresas de trabalho intensivo europeias e americanas deslocalizaram-se para espaços de baixos custos de produção (China e Ásia), conseguidos através do trabalho quase-escravo, de desrespeito absoluto por direitos humanos e de desprezo por consequências ambientais.

O neoliberalismo, na realidade um neoimperalismo, assentou em três fatores: globalização (o planeta como um mercado e os humanos como consumidores); domínio das fontes de energia e de matérias-primas através de um exército imperial (o dos Estados Unidos); a imposição de uma moeda de troca universal, o dólar, com um valor determinado pelo seu emissor. Era o Fim da História! Uma gigantesca operação de manipulação das consciências foi desenvolvida para impingir a nova verdade.

As redes de televisão, os satélites, a publicidade, as plataformas digitais, encarregaram-se de difundir o que corresponde a duas das mais determinantes mensagens do pensamento ocidental, uma vinda do Antigo Testamento: o discurso de Moisés aos judeus depois de ter recebido a tábua dos mandamentos no Monte Sinai, e outra já do Novo Testamento cristão, do Sermão da Montanha, de Cristo aos “simples e pobres de espirito.” Um Deus único, uma lei única, um paraíso para os crentes e obedientes: os mansos do sermão.

O picante da proclamação do filósofo Francis Fukuyama é que ele pode ter tido razão quanto ao fim da História, mas não pela causa que aponta: a humanidade haver chegado ao ponto em que, como as águas de um longo rio após um percurso acidentado, as suas tentativas para encontrar a satisfação haverem desaguado no lago final das democracias liberais, mas sim porque a humanidade se encarregou de destruir o frágil equilíbrio dos quatros elementos definidos pelos antigos gregos — a Terra, a Água, o Fogo e o Ar — que lhe permitia viver. O fim da História por suicídio da humanidade! (E andam uns excitados a discutir a eutanásia e o direito ao aborto, dois direitos individuais!)

Na realidade basta escutar um homem tão sereno, crente na bondade humana e na providência divina como António Guterres, o secretário-geral da ONU, sobre a reduzida esperança de vida humana no planeta como resultado da sobrexploração dos recursos para obtenção de lucros custe o que custar.

O fim da História pode ser o fim da humanidade como a conhecemos, morta às mãos dos seus seres, de fome, de sede, queimados numa explosão nuclear ou sufocados pela poluição. Mortos às mãos dos que entendem que cada individuo apenas tem como objetivo a sua riqueza e está liberto de responsabilidades sociais. Salve-se quem puder! Os mais fortes vencerão, a lógica suicida do neoliberalismo.

Perante a evidência da catástrofe, os sacerdotes neoliberais têm vindo a apresentar duas linhas de fuga para os seus clientes privados. Uma representada por Elon Musk e os neocons americanos, que recorrem às possibilidades tecnológicas para garantir a sua sobrevivência durante o inevitável e previsível tempo do caos (que eles causaram), seja construindo abrigos com vida autónoma, ou de fuga para outros planetas. A outra saída defendida pelos liberais europeus mais esclarecidos, que defendem uma “desmundialização” ou “desglobalização”. Reconhecem que “Isto deu errado!”

É o ponto de vista de Thomas Friedberger, antigo diretor do banco Goldman Sachs, a instituição que tem empregado a elite dos cardeais do neoliberalismo. Thomas Friedberger concedeu uma entrevista ao semanário francês liberal «L’ Express» (10/12/22) onde afirma: «É necessário refundar um capitalismo mundializado que até aqui tem suscitado demasiadas angústias e sofrimentos.»

A esta refundação ele deu o nome de “remundialização”, que tem já um novo Graal com uma apelativa sigla promocional: “ESG” (preocupações ambientais — Environement, Sociais e de bom governo — Governance). Para que os especuladores das oligarquias não se assustem, o antigo banqueiro afirma que estas novas preocupações não visam somente preservar o ambiente e promover o bem-estar humano, a sua finalidade é assegurar os melhores retornos financeiros a longo prazo num mundo inflacionista e tendencialmente “desmundializado”.

Estamos, pois, já muito afastados da doutrina predadora de Milton Friedman (Prémio Nobel da Economia 1976), para quem a “responsabilidade social” era um custo e tinha um impacto negativo nos resultados das sacrossantas empresas. A História não acabou e as preocupações com o ambiente e as reações sociais passaram a ser um fator importante nas decisões dos investidores.

A nova vaga de neoliberais europeus, aqui representada por Thomas Friedberger, chegou finalmente à conclusão de que a busca do crescimento infinito se tornou disfuncional a ponto de ameaçar a vida humana no planeta. «Este modelo — esta doutrina — degradou a biodiversidade, o clima, acentuou desigualdades e criou bolhas de mau emprego do capital (crise do subprime)». Ele prevê que os próximos 20 anos serão de “desglobalização”, de um processo semelhante ao que ocorreu na Europa das sociedades mais desenvolvidas com a Reforma Protestante do século XVI para salvar o essencial de uma religião ao serviço da luxúria dos papas de Roma, ver aqui.

«Critérios extra-financeiros serão determinantes na decisão de performances financeiras. Este novo modelo de capitalismo passa pela criação de ecossistemas localizados, da recolocação da produção de bens e serviços próximos do consumidor, da tributação nos países onde as empresas exercem as suas atividades. » Garante o antigo banqueiro e ainda: «A imposição do PIB como único indicador económico e de desenvolvimento é apenas um truque que permite ao atual sistema de ditadura do lucro sem qualquer preocupação social se perpetuar.»

Será, ao que parece, num mundo “desglobalizado” que as próximas gerações vão viver. Num mundo com vários polos de poder, várias moedas de troca, com múltiplos conflitos, desregulado, atomizado, com o reforço de nacionalismos, de muros e barreiras, de deliberadas incompatibilidades tecnológicas. O Ocidente deu o pontapé de saída para esta nova era. E deu-o deliberada e conscientemente. “Isto” não começou com a traiçoeira invasão da Ucrânia pela Rússia!

A guerra na Ucrânia, independentemente do que for acordado para o fim das ações militares, marcou a inevitabilidade deste novo modelo de organização planetária, de vários blocos em tensão e competição. Os tristes líderes da União Europeia e os mordomos ingleses optaram por fazer do continente Europeu um beco americano, entre os velhos e novos bairros que se estão a organizar no planeta, levantando muros dentro dos quais cada grupo procurará abrigo.

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