Europa – ou se redime ou morre

(Rodrigo Sousa e Castro in Twitter/X, 21/02/2025, revisão da Estátua)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Durante décadas a elite europeia sentiu-se confortável com a “proteção” americana. O largo e decisivo chapéu nuclear, as imponentes bases militares, a arrogante NATO avançando para Leste à procura do comunismo perdido, os fundos inesgotáveis que compravam as vozes convenientes e calavam as outras.

Afundados na sua comodidade burguesa, desprezaram os seus povos esquecendo o que tinha feito a grandeza da Europa, após a Segunda Guerra Mundial. O último lutador pela independência e unidade esclarecida da Europa, Charles de Gaulle, desapareceu e com ele levou os seus sonhos. Os valores europeus afundaram-se perante a subserviência aos interesses americanos. Adeus democracia, adeus ordem internacional e suas leis, adeus legitimidade das instituições internacionais. Tudo o que os americanos atropelavam era calcado, de seguida, pelos europeus. O embuste da guerra do Iraque, a mentira das armas de destruição massiva, a subjugação da Sérvia, a destruição da Líbia, o apaparicar dos grupos terroristas “do bem” a indiferença perante o sofrimento atroz do povo palestiniano.

Em boa verdade, em boa verdade histórica nós, europeus, vendemos a alma ao diabo.

Por último, e para cumulo da subserviência, decidimos acompanhar e participar no sonho da administração Biden/Harris tão bem expresso pelo general Austin, “vamos infligir uma derrota estratégica à Rússia” tornando-a irrelevante e eventualmente dividindo-a a nosso bel-prazer, como afirmou Kaja Kallas, ela que é a imagem perfeita do escravo encantado com o poder do senhor.

Porém os interesses americanos mudaram e os lacaios entraram em desvario. Os EUA querem agora afastar a Rússia da China, lançada aquela para os braços desta pela leviandade estratégica da UE. Ninguém sabe qual o resultado de tão dramática inversão, mas uma coisa é certa, a Europa está perante a sua própria miséria moral. Ou se redime ou morre.

A Europa sem saber o que fazer com a carta de alforria

(Carlos Matos Gomes, in Facebook, 21/02/2025, Revisão da Estátua)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

O dilema europeu: o escravo alforriado, entre a escravidão e a liberdade.

Escravidão, vassalagem e opressão em contraponto com a coragem, a resistência e a autonomia, são as marcas dominantes da História. A luta pela liberdade e a igualdade contra o domínio aceite ou forçado determina o papel dos povos ao longo dos tempos.

Existem dois tipos de atitudes perante a opressão; a dos que a aceitam a obediência voluntária e a dos que não sabem o que fazer com a sua autonomia e livre arbítrio. Este dilema foi particularmente visível com o final da escravatura nos Estados Unidos e nas colónias francesas. Com o fim da escravatura, os escravos viveram o paradoxo de serem livres e não terem senhor ou dono que lhes garantisse a segurança e a sobrevivência.

A Europa está a viver o paradoxo do escravo alforriado. Os Estados Unidos dispensaram-na e a Europa deixou de ser necessária para a sua estratégia e passou a ser um empecilho.

A Europa, tal como os escravos alforriados, mantem-se na fazenda dos patrões, oferece-se para ser trabalhador sem salário, ou com um contrato de prestação de serviços, disposta a tudo, sem armas, sem aliados, para já à mercê da venda dos seus melhores ativos à China.

Quanto à relação com os EUA, o que tem a União Europeia a oferecer e que justifica a ida de Macron a Washington? Os Estados Unidos de Trump estão a impor um negócio leonino à Ucrânia de Zelenski: o pagamento da guerra que desencadearam com as matérias-primas ucranianas. A Europa, agora alforriada, isto é dispensada pelos senhores, vai oferecer-se para fazer o papel de guarda e gendarme para assegurar que o negócio entre os EUA e a Ucrânia seja feito em segurança.

Elites e o exército de soldadinhos de chumbo

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 17/02/2025, Revisão da Estátua)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

O “espanto” e a “surpresa” que os dirigentes europeus dizem ter sofrido com o discurso de J. D. Vance, vice presidente dos EUA, na conferência de Munique deve ser entendido, isso sim, como causa de espanto e surpresa por parte dos cidadãos europeus. Esse espanto e essa surpresa das elites europeias revela a sua incompetência para entenderem vários aspetos essenciais mas básicos nas relações entre a Europa e os Estados Unidos.

Em Munique estiveram em confronto dois conceitos de sociedade e dois conceitos de elites, de classe dominante (ruling classes), que foram expostas numa obra clássica de 1945; “The American Business Elite: A ColIective Portrait”, Journal of Econorruc History de Wright MiIIs. Os burocratas europeus não leram e agora agitam-se como moscas dentro de um prato de azeite.

O que Wright Mills explicou, ainda mal a Segunda Guerra havia terminado, é que a elite americana é constituída por um grupo cujo elemento definidor se encontra no domínio do poder económico, o que a distingue das elites europeias que surgem associadas à produção de ideias e à administração pública. Na Europa a entrada na elite é feita maioritariamente através formação técnica, e pelo acesso às grandes escolas, depende em boa parte do background social dos candidatos que são maioritariamente destinados a administrarem o Estado. Pelo contrário, as elites dos Estados Unidos, são recrutadas no mundo dos negócios e dos produtores de violência (militares e agentes de serviços secretos — makers of violence). É esta elite económica e de ação violenta que controla o processo de tomada de decisão política para obter ganhos económicos. Para esta elite as guerras são negócios, um deve e haver.

Em Munique estiveram em confronto estes dois tipos de elites. A elite de Trump, semelhante à elite de Bush Jr que conduziu a invasão do Iraque e do Afeganistão, a elite de Clinton que conduziu o ataque à Sérvia e o desmantelamento da Jugoslávia. Os atores da trupe de Trump não são diferentes do vice Dick Cheney e de Rumsfeld no que diz respeito ao desprezo pelos europeus e pelos princípios! Os europeus presentes desconheciam estas personagens? Desconheciam Vitoria Nuland, funcionária da CIA (da elite dos makers of violence) que serviu nas administrações de Trump e de Biden e pilotou o processo que levou a Ucrânia à política de ameaça à Rússia?

J D Vance referiu que o inimigo da Europa é a cristalização em que a Europa vive, a sua resistência à mudança, o emaranhado de poderes que se esgotam em quezílias de vaidades. A União Europeia, em contra ponto à Rússia e à China, vive hoje como se o mundo fosse o da Guerra Fria, as suas elites são burocratas que administram programas a que falta um desígnio, um objetivo estratégico, além de satisfazer clientelas ao sabor das circunstâncias.

J D Vance foi a Munique o dizer o óbvio: a Europa não justifica um inimigo externo! (O desprezo é a mais dolorosa ofensa.) Veio dizer que os Estados Unidos concluíram que a Europa é um peso morto e as elites americanas no poder, as do MAGA, partilham essa visão com as novas elites russa e chinesa, pragmáticas, rudes e focadas nos resultados.

Um oligarca americano está muito mais próximo intelectualmente dos novos oligarcas russos ou até dos chineses (que são mais sofisticados) do que de um “enaca” ou de um politécnico francês, ou um de um graduado por Oxford ou Cambridge.

Sendo esta a visão que as elites americanas e russas partilham da Europa e dos seus dirigentes, porque carga de água a Rússia iria invadi-la e tomar conta dela, vir por aí abaixo, no imortal resumo de Ana Gomes, especialista em slogans dos gloriosos tempos de ouro do MRPP; para ocupar um continente de velhos e de burocratas, um asilo?

E assim chegamos ao absurdo delirante de, sem saberem o que fazer para se manterem no poder, os cérebros dos líderes europeus, os tais burocratas políticos, terem acendido a ideia luminosa de constituir um exército europeu! Isto num continente que não fabrica uma turbina para aviões de combate: a Rolls Royce a General Electic e a  Pratt&Whitney são americanas.

Uma passagem de olhos pela história da Europa revela que o último ataque à Europa ocorreu no cerco dos turcos (Império otomano) a Viena em 1693! Uma leitura superficial sobre os conflitos do século XX permite concluir que os exércitos europeus são exércitos historicamente derrotados. Na Primeira e na Segunda Guerra, os exércitos francês, alemão, polaco e italiano foram derrotados desde os Alpes a Estalinegrado, o exército inglês na Segunda Guerra, retirou-se da Europa continental com a dramática operação de Dunquerque. Foram os Estados Unidos e a União Soviética que impuseram a descolonização à Europa através das dinâmicas do Movimento Descolonizador. No século XX quem decidiu a sorte das armas na Europa foram os Estados Unidos, a ocidente, e a União Soviética, a leste, que dividiram o continente entre si em Ialta e Potsdam, como o vão fazer atualmente, parece que na Arábia Saudita, uma zona decisiva, essa sim, para negociar a divisão do poder do futuro entre dois dos atores que verdadeiramente contam.

Enquanto pelas arábias dois dos grandes poderes de facto decidem lancetar o furúnculo da Ucrânia para passarem ao sério conflito do Médio Oriente, em Paris um pequeno grupo de funcionários reúne-se para discutir um “exército europeu”!

Um “exército europeu” é uma figura que não passa de uma representação em miniatura da Grand Armée em miniaturas de soldadinhos de chumbo, um diorama! Os líderes europeus estão hoje em Paris, com Macron, de rabo para o ar a construir um diorama, ou um Lego. No final, se entre eles existir algum com senso e sentido de humor, esse gritará: Vamos mas é comer umas ostras!