Quando o óbvio não é óbvio

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 08/08/2024)

A mudança na linguagem de Zelensky sobre conversações com Moscovo não é genuína, é um fingimento, um gesto de simpatia para aliviar a pressão a que começa a ser sujeito.


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Apesar das reticências em o admitir, tanto por Kiev como pelas chancelarias europeias, a guerra na Ucrânia só terminará quando Kiev mostrar disponibilidade para entrar em conversações com Moscovo, aceitar fazer concessões territoriais e adotar um estatuto de neutralidade estratégica semelhante àquele promovido pelo presidente Yanukovych, em 2010, uma inevitabilidade que começa aparentemente a fazer caminho e a impor-se. Mas será mesmo assim?

Para se encontrar uma resposta aceitável à pergunta há que compreender as inconsistências no discurso de Kiev relativamente à sua disponibilidade, manifestada em várias ocasiões, para conversar com Moscovo. Para a aparente abertura de Kiev ao diálogo com o Kremlin terão contribuído, sem qualquer dúvida, as dificuldades cada vez maiores de o Ocidente apoiar o seu esforço de guerra; mesmo excluindo do cálculo estratégico ucraniano a eventual vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais norte-americanas.

Como deixou escapar a Representante Especial dos EUA para a recuperação económica da Ucrânia, Penny Pritzer, vai sendo cada vez mais difícil ao governo norte-americano encontrar financiamento para apoiar Kiev. No mesmo sentido, o jornal “Die Welt” chamou à atenção para o facto de os aliados não se encontrarem em condições para aumentar o fornecimento de armamento à Ucrânia. Parece indiscutível a incapacidade de os europeus poderem colmatar a eventual redução do apoio norte-americano.

Para esta mudança de discurso contribuíram certamente muitos outros fatores, como sejam os avanços russos no terreno – que começam a ser significativos – e a incapacidade de lhes fazer frente, e o desespero causado pela falta de combatentes.

A mobilização forçada abriu feridas difíceis de sarar na coesão social ucraniana, tendo levado a levantamentos populares, curiosamente em cidades situadas na Volínia, na parte ocidental do país, o berço do nazismo ucraniano. A deserção assumiu números avassaladores, tendo os 30 mil casos registados nos primeiros seis meses de 2024 superado largamente os valores registados em todo o ano de 2023.

A isto poderíamos adicionar muitos outros fatores. A situação económica degrada-se a cada dia que passa. As agências de rating atribuíram à Ucrânia a classificação de “C”, o que significa quase incumprimento, ou seja, foi iniciado um processo de incumprimento pelo facto da capacidade de pagamento se encontrar irrevogavelmente comprometida.

A conjugação de todos estes elementos levou Kiev a condescender, e a permitir magnanimamente a presença de um representante da Rússia numa anunciada cimeira de paz a ter lugar, eventualmente, no final deste ano. Tendo como pano de fundo futuras conversações com Moscovo, o ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Dmitry Kuleba, numa intensa azáfama diplomática, deslocou-se à China e reuniu-se em Guangzhou com o seu homologo Wang Yi. Kuleba usou este encontro para assinalar a disponibilidade ucraniana para entabular conversações diretamente com a Rússia, não obstante ter alterado posteriormente o discurso após chegar a Kiev.

Segundo Kuleba, a China aproximou-se das posições de Kiev. A infelicidade deste tipo de declarações é reveladora da incapacidade de a elite ucraniana entender o que se passa à sua volta. Não percebeu ainda que não é o centro do mundo e que é descartável. A sua capacidade para influenciar Washington não é comparável à de Netanyahu, que até se pode dar ao luxo de ser ingrato, recuperando as palavras de Biden na sequência da conversa telefónica tida entre ambos.

Ao mesmo tempo que fala em paz, Zelensky também fala em guerra. Não perdeu ainda a esperança de infligir uma derrota militar significativa aos russos. Para isso, e apesar da dificuldade em as equipar e armar, está a preparar 14 novas brigadas. Entretanto, o CEMGFA ucraniano, o general Oleksandr Syrsky descaiu-se dizendo que foi forçado a utilizar algumas dessas unidades para reforçar as unidades em Volchansk e na frente de Pokrovsk.

Infantilmente, Zelensky continua a insistir no armamento maravilha que vai mudar o curso da guerra. A sua crença reside agora na dezena de F-16 que já terão chegado à Ucrânia, e que replicarão os inacreditáveis feitos do “Fantasma de Kiev”. Talvez influenciado pela derradeira e heroica carga a cavalo do que restava dos samurais contra uma barragem de metralhadoras do Exército japonês, protagonizada por Tom Cruise no filme “O Último Samurai”, Zelensky prepara-se agora para o seu último fôlego.

No meio do desnorte, não será de descartar mais uma aventura militar que venha a envolver as hostes ucranianas numa ofensiva final, muito provavelmente ainda este ano e antes da “conferência de paz” promovida por Kiev e pelos seus patrocinadores, convicto de que esmagará os russos e se apresentará na referida conferência na mó de cima, e em condições de lhes impor os termos da paz, fazendo-se passar por vencedor. Não deixa de ser insólito como é que o presidente de um país, com as suas forças a perder diariamente terreno e o país em ruínas, lucubre nestes devaneios ficcionais.

Segundo os rumores que correm, Kiev teria reformulado o seu objetivo estratégico. Em vez da recuperação total e completa dos territórios na posse dos russos, a preocupação seria agora apoderar-se da central nuclear de Zaporizia e aí apostar todas as fichas canalizando o que resta do seu potencial de combate, num último esforço, numa última oportunidade de obter uma posição negocial favorável. Isso explica a temporalidade das conversações com o Kremlin – só após este último confronto, que não terá lugar antes do outono. A jogada é extremamente arriscada. O falhanço conduzirá ao total colapso das forças armadas ucranianas, ditando o fim do regime ucraniano instaurado pelo golpe de estado em Maidan.

Por acreditar ser ainda possível impor aos russos os termos da paz, o lado ucraniano não se encontra próximo do designado impasse doloroso, uma condição indispensável para os litigantes se sentarem à mesa das negociações, o que poderá acontecer apenas no final deste ano. Por isso, a mudança na linguagem de Zelensky sobre conversações com Moscovo não é genuína, é um fingimento, um gesto de simpatia para aliviar a pressão a que começa a ser sujeito.

O caso ucraniano traz-me à memória o conflito entre a Finlândia e a União Soviética, em 1940, com a derrota e a cedência de território por parte da Finlândia. O discurso do comandante das forças armadas finlandesas, o general Carl Gustaf Mannerheim aos seus soldados, no momento da derrota, é incontornável. Zelensky devia lê-lo.

Mannerheim reconheceu que o resultado desfavorável obtido pela Finlândia resultou da valiosa promessa de assistência que as potências ocidentais fizeram e não concretizaram; e que há circunstâncias em que tem de se fazer a paz, mesmo em termos desfavoráveis. A imaturidade política dos líderes ucranianos não lhes permite entenderem isto. Por isso, o seu futuro pode não andar distante daquilo que aconteceu aos samurais.

A solução para o problema ucraniano

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 25/07/2024)

Apesar do futuro da Ucrânia resultar daquilo que os EUA e a Rússia acordarem, é importante perceber as contradições de Zelensky. A sua ação e a sua vida estão condicionadas.


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Apesar da resistência em o admitir, torna-se cada vez mais óbvia nas chancelarias europeias a necessidade de pôr fim à guerra na Ucrânia através de uma solução política. Vários analistas têm elaborado sobre possíveis soluções. Embora seja comum em todas as propostas a cedência de territórios ucranianos, já a adesão à NATO, a causa primária da intervenção russa, não o é.

Richard Haass, ex-diretor do Council on Foreign Relations veio admitir que a Ucrânia não tem hipótese de recuperar o território perdido e que a nova política de Washington e dos seus aliados tem de ser a proteção daquilo a que chama “núcleo da Ucrânia”.

O desespero causado pelo efeito conjugado de vários acontecimentos, a crescer no círculo próximo de Zelensky, terá levado a que este alterasse o tom do seu discurso sobre a possibilidade de uma solução política para o conflito e a abrir alegadamente a porta a conversações com Moscovo.

Na lista desses acontecimentos podemos incluir os resultados pífios obtidos por Kiev na cimeira da NATO, os sucessos militares da Rússia na frente de batalha, o incumprimento das promessas de ajuda militar dos países amigos, os desenvolvimentos na cena política norte-americana, a incerteza quanto ao futuro apoio dos principais aliados, e a disponibilidade de Trump para dialogar pessoalmente com Putin sobre o futuro da Ucrânia, sem intermediários, se vencer as eleições.

A juntar a isto, um assistente pessoal do candidato republicano à vice-presidência dos Estados Unidos, J.D. Vance, visitou secretamente Londres, onde se encontrou com o ex-CEMGFA ucraniano, general Valerii Zaluzhnyi e atual embaixador ucraniano no Reino Unido, o que sugere a possibilidade de uma vida curta de Zelensky na Bankova, se Trump for o próximo presidente dos EUA.

Mas, o comportamento de Zelensky tem sido errático. Ora diz uma coisa, ora diz outra. Umas vezes fala em conversações, outras no fim de Putin e no prosseguimento dos combates até à recuperação total do território perdido para os russos.

Não são visíveis sinais de uma vontade genuína de Zelensky querer entrar em conversações. Não há, até ao momento, movimentações no Verkhovna Rada para rever a lei que proíbe as negociações com a Rússia, enquanto o presidente Putin se mantiver no poder.

Se é um facto que Zelensky admitiu numa entrevista à BBC, que a Ucrânia não conseguirá conquistar pela força todos os territórios ocupados pela Rússia, “penso que o poder da diplomacia pode ajudar”; também é verdade que voltou à ribalta a possibilidade da Ucrânia lançar uma contraofensiva.

Independentemente de não sabermos com que tropas, com que munições e com que material o faria, uma vez que as suas reservas estratégicas estão a ser destruídas na região de Kharkov, o simples fato de Kiev equacionar essa possibilidade leva-nos a concluir não ter ainda atingido o chamado “impasse doloroso” e, portanto, não se encontrarem maduras, de momento, as condições para conversações.

Zelensky veio propor uma conferência de paz para novembro. Excetuando a possibilidade de convidar a Federação russa a participar com um representante, pouco mais se sabe sobre as suas intenções, para além de ser uma óbvia manobra de relações públicas como já tinha sido a pretérita “conferência de paz” na Suíça.

A Rússia estará eventualmente disponível para discutir um plano de paz que inclua não apenas a situação na Ucrânia, mas também os termos de uma futura arquitetura de segurança na Europa. Qualquer tentativa de congelar a situação tática através de um cessar-fogo, sem o respaldo de um plano de paz, está à partida condenada ao fracasso. O ministro dos negócios estrangeiros russo, Sergey Lavrov, foi bastante explícito sobre esta matéria em várias ocasiões, não perdendo a oportunidade para questionar a legitimidade institucional de Zelensky.

Das inúmeras propostas que têm sido avançadas – umas mais sérias do que outras – não podemos deixar passar despercebida a de Boris Johnson. Após se deslocar aos EUA para prestar vassalagem a Donald Trump, o principal responsável pelo fracasso das negociações de paz na Turquia (2022) e pelo Brexit, teve o descaramento de dizer que acredita na capacidade de Trump para acabar com a guerra em termos aceitáveis para a Ucrânia e para o Ocidente, entenda-se o acesso da Ucrânia às fronteiras em 24 de fevereiro de 2022 e a possibilidade de aderir à UE e à NATO.

Na sua prova de vida, insistiu na mesma fórmula que conduziu a Ucrânia ao estado em que se encontra, ou seja, aumentar a assistência militar a Kiev, acelerar os fornecimentos de armas e levantar as atuais restrições aos ataques contra a Rússia utilizando armas ocidentais. Hilariante mesmo, foi dizer que “no futuro, um exército ucraniano bem armado poderia substituir o contingente americano na Europa, o que permitiria a Trump poupar dinheiro, trazer os soldados americanos para casa e forçar a Europa a fazer mais pelas suas próprias capacidades de defesa.”

Independentemente do que Trump vier a decidir, se chegar a presidente dos EUA, o Center for American Security, o think tank onde são buriladas as propostas de Trump sobre várias matérias do foro governativo, já explicitou qual o entendimento dos conselheiros mais próximos de Trump sobre o assunto e a que este terá dado o seu acordo: forçar a Ucrânia a assinar a paz com a Rússia, fazer concessões territoriais e renunciar à adesão à NATO.

Dando nota da tensão política crescente em Kiev, o presidente da Câmara da cidade, Wladimir Klitschko, veio juntar-se ao debate defendendo a realização de um referendo sobre o compromisso territorial. “Não creio que ele [Zelensky] possa tomar decisões tão dolorosas sem a legitimação popular. A solução poderia ser a criação de um governo de unidade nacional, como aconteceu em Israel após o ataque do Hamas”. Independentemente de Klitschko não entender o que está a acontecer ao seu redor, é um facto que mais cedo ou mais tarde, Zelensky terá de explicar ao seu povo porque é que a morte de centenas de milhares de ucranianos, algo que podia ter sido evitado, não serviu para nada.

Também os articulistas da “Foreign Affairs” vieram dar as suas opiniões sobre como resolver o conundrum ucraniano. Por exemplo, Mary Sarotte veio explicar o que fazer, garantindo simultaneamente a entrada de Kiev na NATO. Desaconselha a adoção do modelo da DMZ coreana, manifestando preferência por um modelo de duas ‘ucrânias’, semelhante ao das duas ‘alemanhas’, tendo a Ucrânia que decidir qual o território a ceder.

A Ucrânia “ocidental” seria então autorizada a entrar na NATO, com a promessa de reunificação num futuro indeterminado, adotando o modelo norueguês. Ou seja, comprometendo-se a não serem instaladas bases militares de outros países no seu território, a não ser em caso de agressão.

O estado do debate sobre os termos de um previsível acordo de paz é, na maioria dos casos, de uma qualidade confrangedora. A realidade virtual gerada por falsas narrativas em que têm vivido certas chancelarias, em particular as europeias, cria fantasias e ilusões, o que as impede de separar os factos da ficção. Não perceberam ainda que: (1) a solução que se vier a encontrar, nomeadamente em matéria de concessões territoriais, dependerá do que for ditado pela fortuna das operações militares; (2) a Ucrânia nunca será membro da NATO.

Apesar do futuro da Ucrânia resultar daquilo que os EUA e a Rússia acordarem, é importante perceber as contradições de Zelensky. A sua ação e a sua vida estão condicionadas. O chefe do estado-maior da brigada Azov ameaçou matá-lo caso tenha a aleivosia de se envolver em conversações de paz com a Rússia. Afirmando que as questões territoriais não poderão ser deixadas para outras gerações, alertou que teria vida curta quem estivesse disposto a fazer concessões territoriais, mesmo que temporárias.

O controlo dos neonazis sobre o futuro do país continua a ser decisivo e incontornável, ao ponto de, no final de junho de 2024, um dos seus chefes, Bogdan Krotevych, ter “aconselhado” Zelensky a substituir o comandante das Forças Conjuntas das Forças Armadas da Ucrânia, o tenente-general Yuri Sodol, recomendação que ele seguiu diligentemente. Qualquer passo em direção à paz terá de levar em consideração as reticências dos dirigentes do Azov, e lidar com elas. Entretanto, e surpreendentemente, a Administração Biden levantou a interdição da entrega de armamento às forças das unidades nacionalistas, como o Azov.

Poderia Trump ser o salvador da Europa?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 11/07/2024)

Não faltaram à Europa oportunidades para afirmar o seu projeto. Referimo-nos concretamente às relações com a China e a Rússia, e à sua intervenção como um mediador internacional incontornável.


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Ainda nos recordamos de quando Angela Merkel, em maio de 2017, num comício em Munique, aludindo às dificuldades com Donald Trump, disse que os europeus não podem depender completamente dos outros. “Nós, europeus, temos realmente de tomar o nosso destino nas nossas próprias mãos – naturalmente em amizade com os Estados Unidos da América, em amizade com a Grã-Bretanha, ser bons vizinhos de quem quer que seja, também com a Rússia e outros países”.

No fundo, o apelo de Merkel não passava de wishfull thinking, uma vez que as elites europeias estavam devidamente sociabilizadas, “condenadas” a comportarem-se bem e de modo servil perante os desígnios da potência hegemónica. Embora alguns políticos fizessem oportunisticamente a quadratura do círculo e se apresentassem simultaneamente como atlantistas e defensores do projeto europeu (independentemente do que isso possa significar), a verdade é que na sequência da guerra na Ucrânia a ideia de uma Europa estrategicamente autónoma é colocada na gaveta pelos líderes europeus.

A ideia de um polo de poder europeu estrategicamente autónomo foi objeto de várias formulações desde a Estratégia Europeia de Segurança (Solana, 2003) até à Estratégia Global da União Europeia (2019, Mogherini) e à Bussola Estratégica (von der Leyen, 2022), que não passaram de alívios de consciências.

Entre tornar-se num polo de poder alternativo, credível e mediador, explorando e beneficiando da competição entre outros polos de poder (Washington, Pequim e Moscovo), a Europa optou por se auto subalternizar e colocar-se disciplinadamente ao serviço de um deles.

Na sua formulação inicial, o projeto europeu ambicionava ser uma entidade geopolítica de atuação planetária, com objetivos geoestratégicos muito concretos e precisos, em que a atuação global e a autonomia estratégica andavam de mãos dadas, dotada de capacidade para participar na construção de uma ordem securitária mundial, a qual, para além de ter de se apoiar numa grande estratégia europeia requeria a existência de uma estratégia militar. Aspirava, pois, a ser um par interpares dos atores maiores da cena internacional, em vez de um ator secundário funcionando como apêndice de um qualquer outro projeto hegemónico.

Nesta conceção de ator global, para além de capacidade para se defender e/ou deter agressões militares, a União Europeia (UE) precisaria de recursos para impor as suas escolhas políticas pelo uso da força militar, de modo a transpor para a cena política internacional um poder que correspondesse ao seu poder económico e à sua dimensão humana e tecnológica. É difícil conceber essa ambição de outra maneira, com outras premissas.

Apesar do desencorajante droit de regard exercido por Washington sobre os penosos desenvolvimentos europeus no capítulo da segurança e defesa comuns, em que Londres funcionava geralmente como um spoiler para impedir o seu avanço, não faltaram à Europa oportunidades para afirmar o seu projeto. Referimo-nos concretamente às relações com a China e a Rússia, e à sua intervenção como um mediador internacional incontornável. No primeiro caso, na competição entre os EUA e a China e, no segundo, entre os EUA e a Rússia.

Faltou esclarecimento às elites europeias para o fazer. Em ambos os casos, Bruxelas soçobrou colocando-se ao dispor da potência hegemónica, pondo os interesses desta à frente dos seus, com as consequências que já se começam a sentir e se agravarão no futuro.

Costuma dizer-se que todos têm uma oportunidade na vida. A UE poderá ter duas, caso Donald Trump se venha a tornar presidente dos EUA e tome duas decisões cruciais, envolvendo a NATO e a Ucrânia. O pensamento de Donald Trump sobre estas duas matérias começa a ser discernível.

Através de colaboradores próximos, Trump já deu a entender que tem um plano para pôr fim à guerra na Ucrânia e ao projeto belicista da clique liberal intervencionista que se encontra presentemente instalada na Casa Branca, apoiada pelos atlantistas europeus.

A ser implementado, provocará uma mudança radical na atual política externa norte-americana assente na escalada do conflito, como emergiu da reunião do G7, em Itália, e da Conferência de paz, na Suíça, ambas realizadas em junho de 2024, onde foi defendida a perpetuação da guerra.

Dois conselheiros de Trump, o Tenente-general reformado Keith Kellogg e Fred Fleitz, um antigo analista da CIA, que ocuparam cargos importantes em questões de segurança nacional durante a presidência de Trump, e que desempenham presentemente funções importantes no Center for American Security (Kellogg é copresidente e Fleitz é vice-presidente), um influente think-tank fundado em 2022 por veteranos da Administração Trump, publicaram recentemente um artigo (America First, Russia & Ukraine) onde apresentaram esse plano pormenorizadamente.

De uma forma sintética, o plano propõe forçar a Ucrânia a assinar a paz com a Rússia e a fazer concessões territoriais, ameaçando cessar o apoio a Kiev se não se sentar à mesa das negociações, e renunciar à adesão à NATO.

No artigo, refere-se que “Trump mostrou-se aberto à cooperação com a Rússia e ao diálogo com Putin… procurando encontrar formas de coexistência e de diminuição das tensões… mantendo-se simultaneamente firme na defesa dos interesses e da segurança americana.” Sem que esta postura possa significar “brandura”, Trump pretende, através da negociação, desanuviar as relações entre Washington e Moscovo.

No que respeita à NATO, em declarações ao “Politico”, Dan Caldwell, outro conselheiro de segurança do círculo próximo de Trump, fala de uma nova abordagem, que não passará pela retirada dos EUA, nem pela destruição da organização, mas pela sua reformulação. Trata-se de uma “reorientação radical” em que Washington passa voluntariamente para segundo plano em relação à Europa. “Já não temos [os EUA] escolha”, argumentando com o aumento da dívida do país, a diminuição do recrutamento militar e uma base industrial de defesa que não consegue acompanhar o desafio da Rússia e da China.

Essa reformulação significa “uma redução importante e substancial do papel da América na segurança europeia, reservando-se apenas para intervir em situações de crise”. Os EUA continuariam a garantir o guarda-chuva nuclear na Europa, manteriam o seu poder aéreo e as bases na Alemanha, Inglaterra e Turquia, bem como as suas forças navais. A responsabilidade primária pelas forças terrestres e da logística passaria dos americanos para os europeus.

O plano considera ainda a possibilidade da NATO funcionar a dois níveis: os que gastam 2% do PIB em defesa e os que não gastam. Estes últimos “não desfrutariam da generosidade da defesa e da garantia de segurança dos Estados Unidos”. Em ponderação está a possibilidade de um acordo, segundo o qual a NATO se compromete a não se expandir mais para Leste, em particular para a Ucrânia e Geórgia. A possibilidade de se desenhar uma nova arquitetura de segurança para a Europa não está fora da agenda.

A concretização do plano de Trump poderia representar uma oportunidade histórica para a Europa concretizar as suas aspirações de autonomia estratégica articulada pelos seus fundadores. Os dirigentes europeus passariam a ter, aparentemente, mais liberdade de manobra. Resta saber se serão capazes de a utilizar. O ceticismo é grande, dado o processo de socialização a que foram sujeitos e o modo como adotaram as crenças substantivas e os ideais normativos da potência dominante, manifestando o comportamento típico de líderes de Estados secundários.

A concretização destas suspeitas são um indicador de que os dirigentes europeus andaram todos estes anos a enganar os seus povos. Sabiam que não tinham capacidade nem intenção para implementar um projeto de tamanha envergadura, preferindo repousar à sombra da potência hegemónica. Passados cerca de oito anos, as declarações de Angela Merkel soam a conversa fiada.

Para concretizar a “tal” autonomia estratégica facilitada por uma mudança de política em Washington e explorar um possível “vazio estratégico” que se possa vir a colocar são precisos líderes esclarecidos e determinados, que não existem e não se perspetiva que venham a existir no curto e médio prazo, o que condena a União e os Estados europeus ao definhamento, remetendo-os para um papel secundário. Como disse Shapiro, do European Council on Foreign Relations, “os líderes europeus estão em negação”, “não têm realmente qualquer ideia de como substituir os Estados Unidos”.