O último suspiro?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 26/09/2024)

O apoio dos EUA tem limites. Os pacotes da ajuda têm vindo a reduzir e as sondagens na Ucrânia mostram uma sociedade cada vez mais cansada da guerra, e o aumento dos que estão dispostos a considerar a paz sem uma vitória total.


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mainstream mediático tem passado a ideia, ao longo dos últimos dois anos e meio da guerra na Ucrânia, de que a Rússia é chefiada por um indigente louco, é fraca e incapaz no campo de batalha. Sem capacidade industrial sofrerá facilmente uma derrota estratégica. Essa apresentação simplista, deliberadamente falsa e enganadora das capacidades da maior potência nuclear do globo é perigosa. Criou nos analistas do ar condicionado perceções enviesadas da realidade. Não obstante a falsidade óbvia, a tese foi profusamente difundida e convenientemente subscrita.

Mas nada do propalado se concretizou. A economia russa não só não descambou como se reforçou ultrapassando a alemã (com base no PPP), e Putin reforçou a sua posição. Ao invés, a Ucrânia está feita num farrapo. A lista dos problemas que atormentam Kiev é longa. A ajuda militar insistentemente implorada não chega na quantidade nem com a qualidade desejada; Kiev não consegue mobilizar e treinar capazmente novos recrutas, nem produzir energia suficiente para o inverno que se aproxima; Zelensky tem uma taxa de aprovação abaixo dos 20%, etc. Quem questionou a infantil subvalorização do potencial estratégico russo foi malevolamente apresentado como um membro da longa manus desinformativa de Moscovo.

O caso ucraniano traz-nos à colação a incapacidade de se aprender com os repetidos erros de cálculo estratégico de Washington. Esquecemos as armas de destruição massiva de Saddam Hussein, para não falar do Vietnam, Afeganistão e Líbia, entre outros, para os quais fomos de uma ou de outra forma arrastados, sem sermos ouvidos e sem participarmos na decisão. O fim da intervenção internacional no Afeganistão é o exemplo mais recente do que se acaba de afirmar. Tal, justificará, porventura, avaliações mais sensatas antes de se comprar o bilhete e se embarcar no comboio.

Tardiamente, começa-se agora a perceber aquilo para que poucos têm vindo a alertar. O recente relatório elaborado por Mario Draghi enumera os desafios com que a Europa se confronta sem, no entanto, explicar as suas causas diretas e imediatas. Recentemente, o “Washington Post” (WP) alertava para o erro de se subestimar Moscovo, ao afirmar que “os EUA e a UE já não acreditam que a Rússia vá perder no campo de batalha, ou que a sua economia vai ser destruída pelas sanções.” “A Rússia continua a ser um poder formidável. O Ocidente não deve presumir que é uma força militar esgotada. E, é por isso, que os parceiros da Ucrânia estão agora mais inclinados para negociar e estão a dar à Ucrânia várias pistas nesse sentido.”

Um outro artigo de opinião publicado também pelo WP, afirmava que a Ucrânia está a sangrar e não consegue lutar indefinidamente. Apoiar a Ucrânia “as long as it takes” não corresponde à realidade deste conflito. O chanceler alemão Olaf Sholz veio juntar-se aos que defendem “a necessidade de “explorar possibilidades” que “abram uma saída pacífica” para guerra da Rússia contra a Ucrânia”, falando abertamente em ser tempo para se pensar seriamente em conversações.

Alguns dos patrocinadores de Kiev começaram a questionar o realismo dos objetivos estratégicos da aventura ucraniana e a perceber que Kiev não tem capacidade para expulsar as forças russas do seu território, mesmo com ajuda internacional.

Numa entrevista ao The New York Times, o antigo chairman do Comité Militar da NATO e presidente da Chéquia Petr Pavel, apoiante indefetível da Ucrânia, apelava ao realismo de Kiev e à necessidade de reconhecer que terá de fazer cedências territoriais, indo ao ponto de considerar idealista o sonho da Crimeia retornar ao controlo ucraniano.

O desespero de Kiev aumenta quando percebe que não vai recuperar os territórios perdidos, e que a ajuda internacional vai reduzir-se, qualquer que seja o presidente que ganhe as eleições nos EUA. Como se vê o apoio dos EUA tem limites. Não pode continuar indefinidamente a alimentar o buraco negro ucraniano, sem ter boas notícias. Os pacotes da ajuda têm vindo a reduzir. Aumenta a preocupação com a diminuição das reservas norte-americanas e o que isso pode vir a representar para a sua segurança nacional. As sondagens na Ucrânia mostram uma sociedade cada vez mais cansada da guerra, e o aumento dos que estão dispostos a considerar a paz sem uma vitória total.

Zelensky e os seus próximos sabem que não conseguirão vencer o confronto com Moscovo. Com o terreno a fugir-lhe debaixo dos pés, ensaiam uma fuga para a frente, que passa por escalar a guerra tentando, entre outras ações, desencadear um conflito entre a NATO e a Rússia. A crença e a acrisolada fé de que as deep strikes e a utilização sem restrições de armas ocidentais de longo alcance vão alterar o curso da guerra está novamente na ordem do dia.

Nesta ilusão são acompanhados, por exemplo, pela “esclarecida” primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen: “acabemos com a discussão sobre as linhas vermelhas. Não, não, as linhas vermelhas são um dos melhores filmes de comédia” Amedrontado, Putin continuará a fazer bluff e não vai reagir. Fazendo escárnio da paciência estratégica do Kremlin, alguns conselheiros de Kiev empurram-na para o precipício.

Aproveitando a ida à Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque, Zelensky vai apresentar o seu “Plano para a Vitória”, ao atual ocupante da Casa Branca e à candidata Kamala Harris para os convencer da bondade das suas ideias. Donald Trump declinou o encontro com o Presidente ucraniano. Embora se desconheçam os detalhes do plano, as ideias principais são públicas.

O “Plano para a Vitória” considera a adesão acelerada de Kiev à NATO e beneficiar, entretanto, de um estatuto análogo ao proporcionado pelo artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte; ter garantias de segurança por parte dos países ocidentais, semelhantes às de um pacto de defesa mútua aquando da adesão à NATO; assistência financeira para a recuperação económica do país. O plano incluirá ainda a utilização do equipamento ocidental com menos restrições, e a possibilidade de forças da NATO serem colocadas em território ucraniano libertando os contingentes de Kiev para combaterem no leste do país.

Com a informação de que se dispõe quando este texto foi redigido, o “Plano para a Vitória” de Zelensky não passa de um ato de desespero, de alguém desfasado da realidade. É completamente inverosímil admitir que Paris e Berlim aceitem neste momento a adesão da Ucrânia à NATO, ou as garantias de segurança exigidas. O Plano não passa de uma lista de desejos, sem surpresas e sem propostas que alterem o curso da guerra a seu favor.

A recente entrevista de Zelensky ao “The New Yorker” foi confrangedora pela falta de clarividência e pelo assustador desencontro com a realidade. Alguém terá de lhe explicar que quem está na mó de baixo não dita ao adversário os termos da paz. O seu plano de vitória esbarra com a realidade do campo de batalha onde as forças ucranianas perdem terreno todos os dias. Quando questionado sobre o objetivo do seu plano, Zelensky respondeu “que não sendo apenas isso, seria enfraquecer consideravelmente a Rússia, o que ameaçaria a própria posição de Putin”.

Ao mesmo tempo que diz que se o seu programa não for aprovado por Washington irá para negociações, coloca a possibilidade de continuar a negar a possibilidade de perdas territoriais, e tornar a situação numa espécie de guerra eterna, defendendo uma solução diplomática, mas sem negociações.

As suas contradições são cada vez mais notórias e estendem-se a alguns comentadores. O “The Times” dava conta disso quando entrevistou alguns observadores atentos sobre o “plano de vitória” de Zelensky. Se, por um lado, estão convencidos de que a Ucrânia não será capaz de recuperar os seus territórios a curto ou médio prazo – as negociações para Kiev serão “muito, muito, muito difíceis e dolorosas” – por outro, afirmam que congelar a guerra na linha da frente e negar à Ucrânia a adesão à NATO, “seria um resultado catastrófico” e “definitivamente não pode ser a base para negociações”. Como Zelensky, não sabem o que querem.

Um artigo no “Politico” interrogava se estamos a fazer as perguntas suficientemente difíceis sobre a Ucrânia. Como dizia o autor, “quando a poeira assentar, será que a cobertura mediática do Ocidente terá uma nota de aprovação, ou será que, por vezes, permitimos que a nossa simpatia pela causa ucraniana ignore assuntos que não devíamos?” Quanto tempo mais demorará a perceber a dura realidade de se ter entrado no comboio errado?

O futuro da segurança europeia

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 30/08/2024)

A linguagem belicista que promove jogos de soma nula será prejudicial à Europa, como sempre o foi no passado. A arquitetura securitária europeia que vier a ser desenhada terá necessariamente de incluir a Rússia como um igual.


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Haverá seguramente melhores oportunidades para lucubrar sobre o tema. Não obstante, não nos devemos esquivar a fazê-lo quanto antes. Apesar de não serem ainda evidentes os termos em que a guerra na Ucrânia irá terminar, o status quo ante não será seguramente a solução final. O futuro desta guerra ditará o futuro da segurança europeia assim como da arquitetura de segurança no velho continente. Em causa está, acima de tudo, o relacionamento da Europa com a Federação Russa (Rússia) e o papel desta nessa arquitetura.

Nesse debate deve introduzir-se também a presente incerteza quanto ao futuro da política externa dos EUA e o que isso poderá representar para a dependência da Europa dessa mesma política para a sua segurança. Se é relativamente claro qual será a posição de Washington, caso vença o candidato Donald Trump, começam a surgir algumas pistas sobre o que poderá ser, caso vença Kamala Harris. Dois artigos publicados recentemente na “Foreign Affairs”, a revista do Council on Foreign Relations, habitat da elite norte-americana que se dedica a questões de segurança e defesa, dão-nos algumas indicações sobre a futura política externa norte-americana, ganhe um ou outro candidato.

O primeiro artigo, com o título “A Post-American Europe: It’s Time for Washington to Europeanize NATO and Give Up Responsibility for the Continent’s Security“, da autoria de Justin Logan e Joshua Shifrinson, próximos de Trump, propõe deixar a defesa europeia para os europeus, por ter deixado de ser do interesse norte-americano fazer o trabalho deles, uma vez que têm os recursos económicos e demográficos para tal. Segundo eles, desapareceu o perigo de emergir na Europa um polo de poder hegemónico que possa desafiar o poder americano. A Rússia não representa essa ameaça. Concluindo que “sem nenhum candidato à hegemonia europeia à espreita, já não há necessidade de os Estados Unidos assumirem um papel dominante na região.

O segundo, com o título “A Foreign Policy for the World as it is“, da autoria do Ben Rhodes, antigo vice Conselheiro para a Segurança Nacional do Presidente Barack Obama, vem propor um afastamento da política externa norte-americana seguida até agora, sugerindo o abandono da ideia da primazia americana. Não procurar recuperar uma hegemonia perdida, mas adaptar-se ao “mundo tal como ele é”, em que os EUA coexistem com as outras potências e não como a potência que precisa de dominar o resto do mundo. Ben Rhodes vai mais longe e chama à atenção para a insanidade de “enquadrar o confronto entre adversários geopolíticos como uma batalha entre democracias e autocracias”, sugerindo que se evite interferir na mudança dos sistemas políticos de outros países.

Apesar de distintas, estas duas abordagens apresentam algumas premissas não muito distantes. A Alemanha, o putativo embrião de um projeto hegemónico no velho continente, isoladamente ou em parceria com a França, está de rastos e tornou-se num Estado vassalo dos EUA, com tendência a aumentar.

A Europa não será um polo de poder autónomo, um par entre pares no núcleo restrito das grandes potências. Está condenada a um papel secundário subordinada aos interesses dos EUA, independentemente do presidente que se sentar na Casa Branca.

Apesar dos arrufos e das bravatas do presidente Macron, a situação da França não difere essencialmente da alemã. E com o Reino Unido não se pode contar para colaborar no levantamento de um projeto securitário europeu. Corre sempre em carril próprio. Se os líderes europeus tivessem rasgo poderiam explorar alguma margem de manobra que ainda têm e que poderá aumentar.

Qualquer que venha a ser a futura arquitetura da segurança europeia no pós-guerra na Ucrânia contará sempre com a NATO e a manutenção da relação transatlântica, mas esta última adornada com outros matizes em que os europeus terão de assumir maiores responsabilidades, o que poderá ser interessante para quem fala de autonomia estratégica, mas que até agora não deu passos consistentes para a sua concretização. Os apelos plasmados nos dois últimos conceitos de uma grande estratégia de segurança europeia – a Estratégia Global da União Europeia (UE) e o Compasso estratégico –, que visavam estabelecer um roteiro para converter a UE num ator estratégico chave tiveram uma concretização desprezível.

O debate sobre a segurança na Europa deve ainda incluir a sua dependência de recursos energéticos e de matérias-primas cuja abundância noutras latitudes limita as suas pretensões autonómicas, sobretudo se incluirmos na agenda a ambição de acompanhar a transição energética e industrial em curso. O pensamento europeu em matéria de segurança deverá levar estas dependências em consideração.

O comportamento da Europa em matéria de segurança tem sido irresponsável e contraditório. Ao mesmo tempo que desinvestia em segurança contribuía para o aumento da tensão ao participar na expansão da NATO até às fronteiras da Rússia, dois movimentos de direção oposta, dada a hostilidade da Rússia a esse projeto por não ter em conta as suas preocupações securitárias. Como se não bastasse, o ambiente de elevada volatilidade em que nos encontramos, provocado por uma medida que não interessa à Europa, somos agora confrontados com dirigentes políticos e militares europeus a falar irresponsavelmente na necessidade do continente se preparar para uma guerra contra a Rússia dentro de 3 a 5 anos.

Em oposição a estas tiradas belicistas, a Europa deveria aproveitar os sinais que emergem sobre o pensamento em curso nos EUA e substituir os discursos beligerantes por propostas de cooperação e entendimento. A linguagem belicista que promove jogos de soma nula será prejudicial à Europa, como sempre o foi no passado. A arquitetura securitária europeia que vier a ser desenhada terá necessariamente de incluir a Rússia como um igual. Tratá-la como um ator secundário não será a forma mais correta para se conseguir estabelecer com Moscovo uma relação de coexistência pacífica e de longo prazo.

As ideias atrás avançadas são cruciais para moldar o exercício prospetivo que se propõe fazer. As ferramentas e as instituições existem. Em matéria de possíveis soluções não se está a partir do zero. Pode recorrer-se a fórmulas testadas, algumas delas durante a guerra fria, que apesar de bem-sucedidas foram sendo progressivamente abandonadas. Refiro-me, por exemplo, à recuperação de medidas de construção de confiança, adaptadas às novas circunstâncias, como o Tratado sobre Forças Convencionais na Europa (1990), o Tratado sobre os Céus Abertos (2002), e o Documento de Viena (1990 e atualizações subsequentes).

Falamos de medidas assentes a montante no conceito de Defesa não Ofensiva (non offensive defence), uma forma de defesa dissuasora que exclui a opção de ataque armado contra outros Estados, com origem nos círculos de investigação sobre a paz, intimamente ligado ao conceito de segurança comum e que subverte o argumento realista do dilema de segurança.

A arquitetura a criar será sempre o reflexo do que for a evolução do pensamento norte-americano para a segurança na Europa, e estará sempre ligada à política externa norte-americana e o papel que os EUA vieram a ter no mundo, seja de nação excecional ou de par entre pares. Mas terá sempre de refletir a nova correlação de forças mundial e europeia e considerar a Rússia como um ator de primeira ordem. O facto de isso não ter acontecido no passado teve como consequência o dilema em que a Europa se encontra.

Seria interessante revisitar o conceito de Ostpolitik, independentemente das adaptações de que se possa vir a revestir. Sem virar as costas ao parceiro transatlântico, a UE deveria considerar uma política de reconciliação, o desenvolvimento de uma política realista de coexistência com a Rússia, e o estabelecimento de um pacto de não ingerência na política interna dos Estados, que termine com operações de mudança de regime na vizinhança geoestratégica das grandes potências, promova o controlo de armamento, nomeadamente do nuclear, e o estabelecimento de medidas de verificação.

Fará sentido que os europeus revisitem a proposta russa de 2008, do então presidente Dmitri Medvedev, de um tratado de segurança europeia que tornaria juridicamente vinculativo o princípio da indivisibilidade da segurança e do princípio do não reforço da segurança à custa dos outros, a qual nem sequer obteve resposta dos Estados-membros da Aliança. Essa revisitação não significaria a sua adoção total e completa, mas teria subjacente, de certo modo, o alargamento do conceito da indivisibilidade da segurança vigente no seio da NATO, a um universo mais alargado, em moldes a negociar. Seria no fundo montar um sistema de garantias multilaterais de segurança que até agora só estão disponíveis para os membros de NATO.

Isto implicaria um reforço do papel da Rússia em assuntos de segurança na Europa, que nos parece difícil de contornar, sobretudo se vier a prevalecer no conflito em curso na Ucrânia. A busca dessa solução cooperativa poderia desenvolver-se no seio da OSCE, ajustando-lhe a missão. Seria fácil reativar as moribundas medidas de construção de confiança levadas a cabo no seu seio, onde existe experiência acumulada. Isso teria como resultado o aumento de importância da OSCE na nova arquitetura de segurança europeia.

Uma arquitetura de segurança assente nas ideias acima referidas tornaria a Europa um lugar mais seguro. Dramaticamente, a Europa não tem um pensamento estratégico para a Rússia e não vê para além do ciclo político, independentemente das lideranças que se encontram num determinado momento no Kremlin.

Os europeus terão de perceber de uma vez por todas que terão mais a beneficiar em relacionar-se numa base cooperativa do que com acrimónia. Não aprenderam com o passado. Afinal, vivem no mesmo espaço geográfico e isso não vai alterar-se. A hubris impede-os de ver, como diz Rhodes “o mundo tal como ele é”. A nova correlação de forças mundial terá inevitavelmente de se refletir na futura arquitetura de segurança europeia a criar, goste-se ou não dessa opção. O não entendimento desta realidade terá consequências imprevisíveis para o continente.

Kursk, um ponto de viragem ou um erro estratégico?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 24/08/2024)

A incursão militar ucraniana não pode nem deve ver-se de modo isolado. Insere-se numa campanha mais geral de desinformação para criar nas opiniões públicas europeias um sentimento sobre a guerra favorável à Ucrânia.


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As opiniões dos analistas dividem-se quanto ao mérito da incursão militar ucraniana em território russo, na região de Kursk, levada a cabo no dia 6 de agosto de 2024 e que apanhou o alto comando russo de surpresa e desprevenido. Criou uma situação embaraçosa e difícil para o Kremlin, e aumentou o grosso das críticas ao general Gerasimov, provenientes de setores do establishment opinativo russo, que gostariam de o ver substituído pelo general Surovikin. Todos se interrogam como foi possível não detetar a concentração das forças ucranianas.

Uns consideram a operação um ponto de viragem na guerra, virou o jogo contra a invasão da Ucrânia por Vladimir Putin; outros um enorme erro estratégico com Zelensky a procurar marcar pontos politicamente, mesmo que isso possa vir a implicar suicídio militar. É na resposta a estas duas abordagens que reside a questão central do debate.

A incursão tinha dois objetivos principais: (1) apoderar-se da central nuclear de Kursk e obrigar o Kremlin a sentar-se à mesa para negociar a sua troca pela de Zaporíjia; (2) aliviar a pressão militar russa nas frentes do Donbass e de Zaporíjia, com o deslocamento de forças para acorrer a Kursk. Para já, os objetivos estratégicos de Kiev foram gorados. Não conseguiu apoderar-se da central de Kursk, nem as unidades russas noutras frentes acudir a essa área.

Quando se tornou evidente que o primeiro objetivo não era alcançável, Zelensky reformulou-o e passou a dizer que afinal o que Kiev pretendia era criar uma zona tampão junto à fronteira, à semelhança daquilo que Putin tinha anunciado uns meses antes na zona de Kharkiv, para ser utilizada como moeda de troca em futuras conversações.

A operação foi planeada exemplarmente, começando pelo secretismo que a rodeou. Os comandantes das unidades participantes foram informados com reduzidíssima antecedência. Por outro lado, Kiev fez uso intenso da guerra cibernética. Os ucranianos entraram no sistema informático russo e conseguiram criar o pânico na população. Por exemplo, controlaram as câmaras de vídeo das autoestradas russas e monitorizaram o deslocamento dos reforços russos. Para contrariar a ação dos drones russos, as unidades em primeiro escalão foram acompanhadas por elementos de guerra eletrónica. Passada a fase inicial e terminada a execução do planeado, a campanha passou a ser gerida de forma ad hoc.

Não obstante a confusão inicial, o alto comando russo reagiu rapidamente e destacou unidades para conter o avanço ucraniano. Apesar de detidas, as unidades ucranianas continuam, até à data, a manter iniciativa tática e a atacar as forças russas tentando alargar o território sob o seu controlo. Veremos qual será a capacidade ucraniana para o manter.

Uma vez contidas, as unidades ucranianas começaram a ser atacadas ferozmente pela aviação e drones russos, o que está a causar tremendas baixas nas suas hostes, expostas a enorme atrição, aquilo que os russos sabem fazer bem. Como alguém afirmou, a Rússia tem utilizado até agora uma estratégia minimalista, recorrendo a contingentes relativamente pequenos para exaurir as forças ucranianas.

Segundo a “Forbes”, o número de baixas ucranianas na frente de Kursk duplica o das outras frentes. O hospital de Sumy, a cidade ucraniana mais próxima da frente, não tem tido mãos a medir. Multiplicam-se nas redes sociais os pedidos de doação de sangue e de viaturas frigoríficas para transportar os mortos.

Enquanto os civis não forem extraídos da região não é previsível uma ação ofensiva russa de envergadura. Entretanto, os russos não desperdiçarão a oportunidade de explorarem a presente situação tática e a exposição das forças ucranianas, que insistiram, uma vez mais, numa operação ofensiva sem supremacia aérea e de fogos indiretos.

Há fortes indícios técnicos de que as forças ucranianas se preparam para atacar na região de Zaporíjia, nas proximidades da central nuclear de Energodar, sob controlo russo. Os deslocamentos noturnos de camiões de transporte de combustível e de viaturas com os faróis desligados, na direção de Orekhovo e Kamiansk, são forte evidência disso.

Foi insensatez pensar que com a abertura da frente de Kursk, sacrificando a do Donbass, onde as tropas russas fazem todos os dias avanços, se iria conseguir distrair a atenção russa da região de Zaporíjia. Segundo o “Financial Times”, as forças armadas ucranianas no Donbass ficaram sem soldados e granadas após a ofensiva na região de Kursk, o que permitiu acelerar o avanço russo.

Outra componente da operação ucraniana reside no domínio comunicacional. Recorrendo sistematicamente à desinformação e às operações psicológicas, Kiev tentou criar a sensação de uma dinâmica de sucesso, longe da realidade. Kiev insistiu no velho truque de colocar a manobra militar ao serviço da propaganda. Concebeu o emprego do instrumento cinético, isto é, o desenho da operação militar em proveito do elemento não cinético, do domínio cognitivo e da moldagem das perceções, algo permanente nestes dois anos e meio de guerra, dando a ilusão de uma capacidade que não tem.

Um dos casos mais caricatos, foi a publicação da montagem fotográfica de um soldado ucraniano à frente da placa toponímica de Lgob, uma povoação a cerca de 30km da central nuclear, onde as forças ucranianas nunca sequer estiveram por perto. Esta prática é repetida constantemente, nalguns casos, de forma bizarra e até mesmo incompetente.

Esta incursão tratou-se, acima de tudo, de uma campanha de propaganda bem gizada, veremos se o terá sido igualmente do ponto de vista militar. Com esta ação, a Ucrânia procura mostrar aos seus patrocinadores que ainda tem capacidade para desafiar a Rússia, e assim convencê-los a “abrirem os cordões à bolsa”, destruindo a narrativa de vitória do Kremlin, que começava a prevalecer.

Politicamente, Zelensky pretendia obter algo que lhe permitisse ir para conversações com Moscovo na mó de cima, ou pelo menos, numa situação de paridade. Perante as incertezas políticas que pairam no horizonte, é duvidoso que uma nova Administração democrata continue a apoiar a Ucrânia do modo que fez até agora, Zelensky procura desesperadamente e a todo o transe obter uma solução política ainda este ano, antes das eleições presidenciais norte-americanas. A incursão em Kursk insere-se neste plano. Uma vez frustrada a possibilidade de usar a central nuclear de Kursk como moeda de troca pela de Zaporíjia, passaram a servir os territórios que a Ucrânia presentemente controla, não se sabe por quanto tempo.

Afinal, o ataque a Kursk visava forçar a Rússia a negociar com a Ucrânia. Com esta artimanha dava-se a ideia de quem está desesperado por negociações e pela cessação do conflito é a Rússia e não a Ucrânia. Sobre esta matéria, Putin e Lavrov foram muito claros, após a invasão da região de Kursk Moscovo não estão disponíveis para conversações com a Ucrânia. O risco de Zelensky ser compelido a ir para conversações numa situação de maior vulnerabilidade, daquela em que se encontra hoje, é cada vez maior.

Parece ser cada vez mais evidente que os EUA não foram informados da operação em Kursk. Terá sido o Reino Unido a incitar a Ucrânia a meter-se numa aventura tão arrojada. Ao contrário dos EUA, o Reino Unido está a fazer tudo o que pode para aumentar a escalada, o que vem trazer à liça, segundo o “Sunday Times” (ST), clivagens antigas entre os EUA e o Reino Unido sobre o conflito, com o Reino Unido a defender uma postura radical, e a Administração Biden a inclinar-se para uma abordagem mais contida.

Ainda segundo o ST, o comandante militar ucraniano general Syrsky tinha recebido anteriormente “ordens” dos EUA para se afastar de uma “determinada missão” o que, segundo consta, terá levado a manter a operação de Kursk em segredo, especificamente para evitar a necessidade de aprovação americana.

A incursão militar ucraniana não pode nem deve ver-se de modo isolado. Insere-se numa campanha mais geral de desinformação para desacreditar o Kremlin, visando criar nas opiniões públicas europeias um sentimento sobre a guerra favorável à Ucrânia, convencendo-as de que a situação na Rússia se está a deteriorar lentamente e a levar Putin ao desespero.

Se não, vejamos como a invenção de conversações no Catar entre Moscovo e Kiev para discutir os ataques mútuos contra infraestruturas energéticas serve aquele propósito. Afinal, foram os ataques “incapacitantes” às infraestruturas energéticas russas, levados a cabo por drones ucranianos, que levaram o desesperado Kremlin a suplicar a Kiev que não as ataque mais, mostrando-se disponível para em troca cessar os ataques à rede elétrica ucraniana.

Esta falácia visa criar nas mentes a ideia de que quem está desesperado por negociações é Moscovo e não a triunfante Kiev na sua campanha de ataques contra as refinarias russas, que colocaram o Kremlin de joelhos. Esta tática, recorrendo a montagens mais sofisticadas, é uma continuação da campanha da falta de equipamento e munições, falência da economia russa, etc., dando uma imagem de deterioração da situação política, militar, social e económica no país.

Mas Zelensky não consegue enganar todos ao mesmo tempo. As elites ocidentais estão cientes da realidade no terreno. O jornal alemão “Die Welt” trouxe à tona o sussurrar secreto, que perpassa nas chancelarias europeias, da impossibilidade da Ucrânia prevalecer ao afirmar que “não se atrevem a dizê-lo publicamente”. “Em Bruxelas, ninguém espera que a Ucrânia recupere os territórios perdidos. Só que ninguém quer falar sobre isso – pelo menos oficialmente”. Há uma diferença significativa entre o que se diz publicamente e o que é reconhecido em privado.

A procissão ainda nem chegou ao adro. Os que vaticinam um ponto de viragem no conflito terão, mais cedo do que tarde, de fazer um ato de contrição. Subscrevendo o que Andrew Latham escreveu no “The Hill”, o desvio de recursos críticos escassos da frente do Donbass, não só não proporciona a Kiev ganhos estratégicos significativos, como é um enorme erro de cálculo estratégico, que pode vir a ter graves consequências:

“Embora a incursão esteja a fazer as manchetes dos principais órgãos da Comunicação Social internacional, a verdade é que essas vitórias superficiais pouco alteram a dinâmica fundamental do conflito.” “O caminho para a vitória não reside em atos simbólicos de desafio, mas na procura metódica e implacável da libertação do território. Coragem sem orientação estratégica é uma receita para o desastre.”