O primeiro capítulo de uma tragicomédia de fim-de-semana

(Jorge Rocha, in Blog Ventos Semeados, 17/02/2018)

cartoon_antonio

Há quem faça gala em dizer-se incapaz de ler o «Expresso», não só para escusar-se a contribuir para o negócio da família Balsemão, mas também por sempre nele adivinhar textos capazes de lhes suscitar justificada indignação ao situarem-se invariavelmente muito à direita.

Discordo claramente desse posicionamento, mais emotivo do que racional. Não constitui regra imprescindível das teorias militares que se procure saber o que se passa no outro lado da trincheira? Como se pode vir a ser eficaz no combate a quem nela se situa se não se lhe conhecerem as estratégias?

A publicação em papel desta semana traz muitas matérias a merecerem o nosso comentário e por isso serão tratadas em mais do que um texto.

A começar temos a colaboração regular, que mais costuma merecer a minha atenção: o cartoon de António, normalmente capaz de por si mesmo substituir mil palavras. É o caso do que se passa esta semana com o calvário de D. Manuel Clemente, subitamente confrontado com o quão disparatada terá sido a mediática opinião sobre o sexo entre recasados. Por isso arranjou forma de tentar corrigir o erro, fazendo-se entrevistar pelo próprio diretor do semanário. Afinal  não teria querido dizer propriamente o que terá saído da sua pena. Pelo contrário nós é que somos culpados da situação, porque o teremos interpretado mal. Pondo-se no papel de vítima incompreendida, o cardeal quer sair bem no filme, mas foi tão evidente o seu ultramontanismo, que nem pintando-se de que cor fosse, conseguiria apagar mais uma significativa mancha no seu já escuro currículo.

Chamado também para assunto de capa veio Cavaco Silva de quem se publica extensa entrevista na Revista. Sem prejuízo do que sobre ela virei a comentar fica já sublinhado o grande objetivo dos editores, que dela selecionaram como tema preferencial o da renovação do mandato de Joana Marques Vidal. O que vai ao encontro do que se tem ouvido a vários participantes no Congresso do PSD: para a direita será fundamental que as coisas continuem tal qual estão no reino corrupto do Ministério Público. Quanto temem que, com a saída da Procuradora-Geral, a Justiça se manifeste menos zarolha e, em vez de parecer cingir-se politicamente ao que lhes convirá explorar, se passe a dar maior atenção a casos até aqui desprezados como os dos submarinos ou o da Tecnoforma!

É igualmente curiosa a preocupação do principal órgão de comunicação enfeudado às direitas em dar voz à sinistra múmia, que tanto mal causou a milhões de portugueses, apesar de por eles ter sido sucessivamente guindado aos principais cargos da República (o que nos fez, amiúde, desconfiar da sua sageza!). Será que querem preparar-lhe um vistoso funeral de Estado, quando alguém for suficientemente persuasivo para o informar de estar há muito morto e ninguém lhe ter dito nada? Se o filho do gasolineiro ainda tem alguma ilusão quanto a ser homenageado na mesma dimensão em que o foram Mário Soares e, sobretudo, Álvaro Cunhal, bem pode tirar o cavalinho da chuva. Nem a persistência dos seus tenazes admiradores bastará para que a cerimónia venha a ser pouco mais do que privada.

Saindo dos assuntos trazidos para a capa do primeiro caderno entramos na segunda página e, finalmente, Martim Silva consegue pôr António Costa a encabeçar os Altos da sua coluna sobre quem está em evidência pelo que ele ajuíza serem bons ou maus motivos. Nem o esforçado Martim consegue ignorar “o maior crescimento real deste século (…) em convergência real com a Europa.” Tal reconhecimento confirma que, na redação do «Expresso», se adivinham tempos difíceis para quem lhes vai no coração, politicamente falando. E isso é óbvio no tom lastimoso de Pedro Santos Guerreiro, diretor do jornal, no seu editorial. Pressente-se-lhe a angústia de constatar um Congresso laranja marcado pelo cinismo de quem aplaude Rio “com as mãos moles e a ponta e mola no bolso.” E, logo identifica quem se apresta a conspirar contra o novo líder: “São os da corte ameaçada, são os patinadores no gelo que nunca passam das ameaças e são as máquinas de calcular futuros, os seus próprios futuros. Ouve-se o barulho do acelerador mas cheira a embraiagem. Para meter a próxima mudança.” Pode-se não apreciar o que lhe vai na alma, mas tem de se reconhecer o bom estilo!  E acaba com um apelo lancinante: “[Rio] ganhou o direito de ser apoiado pelo partido que, antes dele, já sofria de raquitismo político, intelectual – e eleitoral”.

Na mesma página outro dos jornalistas mais conotados com a direita no semanário (Filipe Santos Costa) alinha as áreas sobre as quais seriam desejáveis acordos do Bloco Central e a que insiste em chamar «reformas estruturais»: a Justiça (ou seja dar ainda mais força aos que querem dela servir-se para conseguirem que a vontade expressa pelos eleitores  possa impedir coisas esdrúxulas como foi exemplo a investigação a Mário Centeno), o sistema político (ou seja o favorecimento de condições para maiorias absolutas de direita e limitações engenhosas às que se possam formar à esquerda), a descentralização (ou seja a criação de muitos cavaquistões) e a Segurança Social (ou seja privatizando-a e cortando a eito na “peste grisalha”). Por muitas ilusões que as direitas tenham quanto à exequibilidade de tal projeto não contará com o beneplácito de um Partido Socialista que, pela voz de Pedro Nuno Santos já veio esta semana expressar outra interpretação para o que considera reformas necessárias para o país.

Ficámos ainda assim a saber que, nem sequer entre os seus, Rio consegue ter garantidos apoios para as armadilhas internas, que lhe estenderão passo a passo, contando, ainda assim, na sua equipa com um valete cavaquista do gabarito de Nunes Liberato, que em Belém terá assistido e quiçá participado em muitas inventonas contra José Sócrates. Tratando-se de um notório cortesão da já referida múmia podemos depreender que o sentido da expressão «diz-me com quem andas…» faz todo o sentido para quem da política se cola a ajudantes de caudilhos tão pouco recomendáveis…


Fonte aqui

As claras linhas de demarcação entre as esquerdas e as direitas

(Jorge Rocha, in Blog Ventos Semeados, 15/02/2018)pedro_nuno

«Os Desafios da Social-democracia» é o artigo de opinião assinado por Pedro Nuno Santos na edição de hoje do «Público» ( Ver aqui ) e em que traça uma clara linha de demarcação entre as políticas que defende para o Partido Socialista – quão diferentes das dos seus congéneres europeus que devem  aos seus erros ideológicos e estratégicos os maus resultados eleitorais, que vêm acumulando! – e já antecipando ainda maiores divergências com o PSD, que deverá emergir do Congresso do próximo fim-de-semana, mormente em relação à questão de um salário universal, independente de se ter ou não um emprego.

Reiterando aquilo que, há muito vem defendendo, Pedro Nuno Santos considera urgente que a esquerda recupere para si o domínio de conceitos que foram seus e de que as direitas se apossaram e desvirtuaram sem o mínimo pudor. Como, por exemplo o do que significa fazer reformas: Houve um tempo em que, à esquerda, reformas foram a edificação de um Serviço Nacional de Saúde, a construção da escola pública, a criação e subida do salário mínimo ou a introdução do subsídio de desemprego. Quando hoje nos são pedidas reformas, sabemos que nos estão a pedir a facilitação dos despedimentos ou o plafonamento da Segurança Social. As “reformas” têm de voltar a significar o que sempre significaram para nós: progresso social, concretização de direitos e aumento de bem-estar.

Esse dividir de águas entre o que significa ser de esquerda ou de direita também se depreende da atitude relativamente à importância do Estado nas grandes questões políticas e sociais: só a defesa de um Estado social forte e universal pode garantir liberdade para todos, e não apenas para alguns: só um sistema de saúde público e universal garante a todos, do nascimento até ao fim  da vida, cuidados independentemente do seu rendimento; só um sistema público de pensões garante que ninguém chega à reforma dependente de terceiros ou da estabilidade dos mercados financeiros; só a legislação laboral pode proteger os trabalhadores da eventual discricionariedade dos empregadores.”

Fica aqui anotada, porém, a minha distância relativamente ao que defende Pedro Nuno Santos e que justifica o facto de me assumir como socialista em vez de social-democrata: falta o reconhecimento do papel determinante do Estado na economia, cabendo-lhe gerir e determinar as estratégias para o que nunca deveria ter sido privatizado, desde as redes elétricas aos combustíveis, dos correios aos transportes.

Algo que até na conservadora Inglaterra já é questão na ordem do dia por se encontrar número crescente de defensores da nacionalização do que, indevidamente, Thatcher & Cª tinham privatizado. Daí que me saiba a pouco o programa político defendido pelo autor do texto: O desafio da social-democracia não é hoje muito diferente do passado: garantir, num mundo em rápida mudança, a liberdade, a igualdade e a prosperidade dos cidadãos numa comunidade política que assenta num denso tecido de direitos e de deveres, de valores morais de justiça e de cooperação e de laços de interdependência e de reciprocidade.

Os tempos não voltam para trás e os reptos colocados às atuais esquerdas são muito diferentes dos do passado, quando a financeirização da economia mundial não atingira os níveis de acumulação de capital hoje verificados. Mas, quase no fim do texto, Pedro Nuno Santos deixa nas entrelinhas a  evidência de, também ele, não se contentar com o programa de mínimos denominadores comuns porventura justificado pela contenção devida ao cargo governamental que ocupa.

Porque o que depreender  da sua defesa do “papel do Estado no desenvolvimento da economia através do investimento público e de políticas de inovação, e na redistribuição do rendimento através da provisão de serviços públicos e de prestações sociais. Até onde quererá Pedro Nuno Santos avançar nesse investimento público com que o Estado pode desenvolver a economia?


Fonte aqui

Mas temos mesmo de os aturar?

(Por Jorge Rocha, in Blog Ventos Semeados, 08/02/2018)

marcelo_bispo

Gostava de ser mais novo, mas a idade já me é suficiente para ainda ter passado pelo indesejado «privilégio» de ter assistido a um discurso ao vivo do «venerável» presidente Américo Thomaz. Foi na abertura do ano escolar 1973 na Escola Náutica Infante D. Henrique, com os pides no fundo da sala a espreitar o comportamento dos alunos para impedirem que algum ousasse algo semelhante ao que, anos antes, Alberto Martins tinha pretendido fazer na Universidade de Coimbra.

Os mais sagazes de entre nós aproveitaram a oportunidade para escalpelizar as palavras lidas pelo orador na expetativa de nelas encontrar algum disparate, que se acrescentasse à comprometedora antologia de que ele era autor. O risco de dar a palavra ao último presidente do Estado Novo era que, sem a rede de proteção da que constasse no discurso escrito, ele saísse com uma daquelas involuntárias boutades, que constituíam absurdas anedotas.

Se julgávamos que, com fatias de bolo-rei de permeio, a sucessão de Thomaz tinha sido garantida por Cavaco Silva, o atual titular do cargo tem andado a mostrar-se perigoso concorrente do antecessor, ameaçando ultrapassá-lo pelo número de vezes e pela qualidade das anedotas de que começa a ser repetido criador. Caso para perguntar se, apesar de comprovadamente bom cirurgião, Eduardo Barroso não terá mexido em algo de mental, quando cuidou da hérnia do seu mais dileto paciente.

Se o discurso aos economistas da COTEC pareceu cingir-se a uma miopia política, que o levava a atribuir louros pela atual situação económica a quem, na realidade, os não merecia (Passos & Cª), a ideia peregrina de propor a um sem abrigo, que se abastecesse em pão no balcão em que repetia mais um dos seus números clownescos, raiou o absurdo thomaziano ao aludir-lhe a possibilidade de o poder utilizar na torradeira.

A anedota presidencial é risível, mas tem a ver com a sua desqualificação absoluta para o cargo a que ascendeu à conta de anos e anos de autopropaganda nas televisões privadas. Apesar de ter andado a distribuir beijos, abraços e selfies na campanha presidencial, ele não chegou a conhecer verdadeiramente o país. Porque como interpretar doutra maneira a sua surpresa por existirem muitos mais sem-abrigo do que julgava? (Ver aqui). Em que país julgava viver? Que efeitos imagina terem sido suscitados pelo governo de Passos Coelho, apesar de lhe continuar a louvaminhar os «méritos»?

Mas os disparates thomazianos não se ficam pela mais alta figura na hierarquia do Estado. Também a da igreja nacional, lhe compete no dislate: a sugestão de abstinência formulada por D. Manuel Clemente para os casais recasados (Ver aqui) só pode ser explicada pela idiotice de quem a formula. Porque, se não fosse para colherem o melhor da relação conjugal, para que é que esses casais se consorciavam?

Estamos a viver tempos estranhos em que, a par da inteligência de alguns dos nossos protagonistas políticos – com António Costa a liderá-los – também nos vemos incomodados com a lerdice de uns quantos outros.


Fonte aqui