O método do crachá

(Carlos Matos Gomes, in Facebook, 29/07/2022)

Os alemães são conhecidos por serem previdentes e racionais. O que são certamente é obedientes. Os seus chefes meteram a Alemanha numa barrica da qual não sabem como sair. Mas já estão a preparar os próximos invernos. Não haverá gás ´barato’ vindo da Rússia nos próximos anos. Para já, e a título de preparação psicológica, desligaram as luzes dos monumentos. No caso da imagem, a Catedral de Berlim. Aconselham banhos frios. E palmadinhas nas costas.

Segundo as agências, várias cidades alemãs começaram a reduzir a iluminação exterior dos monumentos e a impor banhos de duche frios em piscinas municipais e pavilhões desportivos. São medidas implementadas para tentar economizar energia, perante a ameaça russa do corte no abastecimento de gás.

Desde quarta-feira que poupar na luz e no gás passaram a ser gestos críticos para os alemães perante a iminente crise energética, desencadeada pela invasão da Ucrânia, em fevereiro.

As medidas parecem racionais aos alemães. Mas podiam ser mais inventivos. Podiam utilizar o método do crachá. A história é velha: um inspetor do Estado entra numa propriedade e o feitor aconselha-o a não entrar. Armado com a sua autoridade, o inspetor mostra-lhe o crachá e assegura que exibindo o crachá e chamando os malandros pelo nome pode obrigar todos a obedecerem-lhe. Entra. Passados minutos o inspetor foge à frente de um toiro a pedir auxílio. O feitor grita-lhe: Mostre-lhe o crachá, mostre-lhe o crachá e chame-lhe filho de Putin…

Os alemães podiam tentar a receita com um cantor daqui e evitavam tremer de frio e andar às cabeçadas pelas ruas escuras.

É apenas uma sugestão. Julgo que é o que o governo português está preparado para fazer quando chegarem as notícias da inflação, dos juros… Sai um Abrunhosa, que isto resolve-se, ou pelo menos não se perde nada em acreditar! (pelo menos há quem acredite).


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A falácia dos apologéticos

(Carlos Matos Gomes, Facebook, 28/07/2022)

A análise da guerra na Ucrânia fornece pistas muito interessantes sobre o estado do pensamento ocidental no século XXI.

Um deles é a persistência (resiliência) da raiz do pensamento grego de que somos herdeiros. O recurso, consciente ou não a essa raiz é particularmente evidente nos defensores da estratégia dos Estados Unidos e da crença de que por detrás dela se encontra a defesa de valores morais — ditos ocidentais — para a impor e justificar.

O pensamento grego aliou a filosofia e a teologia por razões apologéticas e, como estamos a ver todos os dias, ainda hoje essa aliança é eficaz como argumento de propaganda.

Um dos movimentos mais importantes na história do pensamento cristão chama-se “apologético” e os movimentos que o promovem funcionam como ratoeiras. O truque argumentativo reside em dar ao adversário um crédito baseado no pressuposto de que as suas ideias são, em última análise, as mesmas do inimigo e em levá-lo a acreditar na existência de verdades comuns. É uma concessão que funciona como isco e que ainda funciona em certos setores da comunicação e demagogia.

O apologeta, antigamente um pastor religioso e hoje, em geral, um comentador público, diz aos pagãos que são leitores, ouvintes ou telespetadores, que na verdade a sua negação de Deus — no caso da Ucrânia o Deus é a ausência de justificação para a invasão russa — é da mesma natureza da negação cristã da idolatria. Sendo assim, isto é, podendo a invasão russa ter justificação, tal como a defesa feita pelo regime de Kiev, por que, então, não se renderia o pagão (os que procuram analisar as razões e os interesses em jogo, fora da dicotomia de bons e maus) ao compromisso cristão, isto é, ao argumento de que a razão está do lado do regime de Zelenski e dos seus aliados ocidentais?

A falácia da argumentação apologética, conhecida desde a antiguidade, opera apenas de um lado. O apologeta diz ao adversário que ele está no caminho certo e que bem poderia dar um passo a mais e passar a defender o campo oposto sem perda de coerência.

Se repararmos, existem nas mesas do universo da manipulação de opiniões vários apologetas bem instalados, que vindos de áreas de pensamento social e critico, se converteram em ferozes ativistas da nova verdade. Os apologetas que se converteram do marxismo radical ao capitalismo neoliberal — os cristãos-novos — são hoje a tropa dominante na primeira linha do combate ideológico que anula as diferenças entre o vazio e a substância, que defende todos os meios para atingir os fins.

Nesta perspetiva, a doutrina da libertação dos povos do planeta através de invasões e imposição de modelos culturais e económicos dominantes no século vinte, o colonialismo e o neoliberalismo, pretende obter a mesma coisa. Um dos mais notáveis apologetas da igreja primitiva foi Justino, Mártir (filósofo cristão primitivo nascido na Síria e decapitado) que chegou ao limite paradoxal de afirmar que «tudo o que já foi dito sobre a verdade pertence a nós, cristãos»!

Estava e está aí o germe do totalitarismo e da supremacia de uma religião e de uma ideologia sobre todas as demais.

Os apologetas estão hoje por toda a parte e a sua crença faz com que se imaginem acima dos outros. É por isso que o conceito de heresia assume para eles enorme importância e representa para os não crentes o perigo da condenação e do julgamento por ofensa ao “pensamento correto”. A guerra da Ucrânia é também um revelador de totalitarismo, da imposição da verdade única e através dos mais poderosos meios.

A relação entre a teologia dos filósofos gregos e a teologia do pensamento único nos nossos dias dá-se no plano da manipulação. É dessa “substância” — a da indiferença imposta pela violência — que se alimentam os meios de comunicação, as escolas e instituições produtoras ideologia da resignação e da ausência de sentido critico, porque tudo está decidido e tanto faz ser assim como assado. Estamos no domínio da servidão voluntária.

fuck Putin!, lançado por um cantor é um grito de pastor a conduzir o rebanho ao redil. Não é um grito de liberdade. É o oposto.

Os apologetas pedem tribunais para decidir a respeito do que pode ser considerado verdadeiro ou falso. Mas quem julga tais tribunais? A que poder superior respondem? E se não houver nenhum poder superior? Além disso, os tribunais de julgamento também se julgam a si mesmos e, consequentemente, excluem-se mutuamente. É que, segundo os apologetas, se tudo é interpretação, qual seria a diferença entre a minha interpretação e a interpretação dos outros? Não será o grau de poder de cada um? Parece que sim!

É por isso que em lugar de perdermos tempo com julgamentos seria melhor se nos voltássemos para a busca de soluções viáveis para a convivência, como diria Heidegger, para nos levar a lugares e situações onde a vida seja alegre. Essas tentativas de convivência não necessitam de dogmas nem de catecismos. Pertencem tanto ao reino da fruição, da imaginação como ao da razão.

Os apologetas não aceitam as escolhas dos outros. Fuck them!

Nb: Apologética: Parte da teologia que ensina a defender a religião contra os seus detratores.


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A UE fora do jogo!

(Carlos Matos Gomes, in Facebook, 22/07/2022)

O resultado da política dos “Simplícios” de Bruxelas.

Há dias escrevi sobre comentadores de televisão nacionais alcunhando-os de “simplícios”, ver aqui. Pobres diabos intelectualmente incapazes de distinguir uma opinião de uma análise, de terem um outro método de abordagem de fenómenos sociais que não seja o do agradar ao patrão e de seguirem a corrente das ideias feitas. Enfim, carregadores de trapos que querem vender como bandeiras.

Os “Simplícios” estão no poder nos estúdios. Era mau, mas o ridículo não os deixava sair das tristes figuras do “digámos”! Mas o grave é que os “simplicios”, outros “simplicios”, mais aguçados e perversos, estão no comando das operações da União Europeia. Podemos imaginar que somos, enquanto europeus, comandados pelo estúdio da SIC equipado com botões para sanções e fornecimento de lança roquetes! Os trios dos noticiários podiam estar em Bruxelas!

É nesse ponto que nos encontramos hoje. Em Bruxelas temos uma unidade de drones comandados do outro lado do Atlântico. Drones com casacos e tailleurs da casa Givanchy, ou Dior, mas drones! Seres programados e dirigidos.

Hoje é um dia negro para a União Europeia, consequência da sua política de guerra. Assisti através da Euronews à cerimónia em Istambul, na Turquia, de assinatura de um acordo de trânsito e exportação de cereais da Ucrânia a partir dos portos do Mar Negro.

O acordo entre a Rússia e a Ucrânia foi intermediado e patrocinado pela Turquia e pelas Nações Unidas, contrariando as políticas de guerra, de mais guerra e mais armas, e de bloqueio, dos EUA, seguida pela União Europeia. Este acordo é um pequeno passo para uma futura solução do conflito.

Na cerimónia não estavam nem os Estados Unidos, evidentemente, por serem os verdadeiros patrocinadores da guerra, nem a NATO, o seu braço armado (de cujo espaço o Mar Negro faz parte). O grave é que a União Europeia não estava! A União Europeia, em vez de contribuir para uma solução, tem financiado a guerra e levado a cabo uma agressiva campanha de sanções económicas à Rússia por conta dos EUA. É um negro dia histórico: A União Europeia, que serviu e serve de instrumento de guerra por conta dos americanos, esteve ausente de um passo (pequeno, mas significativo) para a paz! Curiosamente (tristemente) a mesma União Europeia que recusou a entrada da Turquia, por ser autocrática e não defender os valores da Paz e da resolução pacífica de conflitos, nem os direitos humanos e etc, etc, fica de fora de um passo conduzido pela Turquia para uma futura solução negociada para uma complexa situação política numa zona de importância estratégica vital para a União Europeia, de onde recebia mais de 50% da sua energia!

Neste mesmo dia de um pequeno sinal de acordo para o fim da guerra em Istambul, os dirigentes da União Europeia anunciaram em Bruxelas que vão fazer pagar aos cidadãos europeus a sua política de guerra, com cortes de energia, inflação, desemprego, e, com esta significativa ausência de Istambul, dizem-nos que estão de fora do futuro, de qualquer solução futura. Dizem ao mundo e aos europeus que os países “democráticos” da União Europeia estão de fora de uma solução! Dizem que a União Europeia serve para bases de mísseis e de transbordo de material de guerra na Polónia e nos países bálticos, por exemplo, mas não para falar com a Rússia! Dizem que a União Europeia é boa para congelar contas bancárias da Rússia, mas não serve para desbloquear cereais de portos e de mares que a Rússia domina.

A União Europeia é feroz nas contas bancárias, é uma organização de banqueiros e especuladores, mas não tem qualquer força para intervir na defesa dos seus interesses, sejam eles quais forem e não parece serem outros que o de servir de “cobrador do fraque” dos EUA!

A ausência de qualquer burocrata da União e de qualquer cabo da guarda da Nato (talvez lá estivessem disfarçados de motoristas) em Istambul deixa a União Europeia fora de futuras soluções. A União Europeia das senhoras Leyden e Lagarde, dos senhores Borrell e Mitchel não conta numa guerra que se trava nas suas fronteiras e que as suas máquinas de propaganda titulam como: “Guerra na Europa”!

É este o lugar que os europeus querem para si? As próximas eleições na Europa vão dar a resposta e ela não vai perdoar estas indigências.


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