A falácia dos apologéticos

(Carlos Matos Gomes, Facebook, 28/07/2022)

A análise da guerra na Ucrânia fornece pistas muito interessantes sobre o estado do pensamento ocidental no século XXI.

Um deles é a persistência (resiliência) da raiz do pensamento grego de que somos herdeiros. O recurso, consciente ou não a essa raiz é particularmente evidente nos defensores da estratégia dos Estados Unidos e da crença de que por detrás dela se encontra a defesa de valores morais — ditos ocidentais — para a impor e justificar.

O pensamento grego aliou a filosofia e a teologia por razões apologéticas e, como estamos a ver todos os dias, ainda hoje essa aliança é eficaz como argumento de propaganda.

Um dos movimentos mais importantes na história do pensamento cristão chama-se “apologético” e os movimentos que o promovem funcionam como ratoeiras. O truque argumentativo reside em dar ao adversário um crédito baseado no pressuposto de que as suas ideias são, em última análise, as mesmas do inimigo e em levá-lo a acreditar na existência de verdades comuns. É uma concessão que funciona como isco e que ainda funciona em certos setores da comunicação e demagogia.

O apologeta, antigamente um pastor religioso e hoje, em geral, um comentador público, diz aos pagãos que são leitores, ouvintes ou telespetadores, que na verdade a sua negação de Deus — no caso da Ucrânia o Deus é a ausência de justificação para a invasão russa — é da mesma natureza da negação cristã da idolatria. Sendo assim, isto é, podendo a invasão russa ter justificação, tal como a defesa feita pelo regime de Kiev, por que, então, não se renderia o pagão (os que procuram analisar as razões e os interesses em jogo, fora da dicotomia de bons e maus) ao compromisso cristão, isto é, ao argumento de que a razão está do lado do regime de Zelenski e dos seus aliados ocidentais?

A falácia da argumentação apologética, conhecida desde a antiguidade, opera apenas de um lado. O apologeta diz ao adversário que ele está no caminho certo e que bem poderia dar um passo a mais e passar a defender o campo oposto sem perda de coerência.

Se repararmos, existem nas mesas do universo da manipulação de opiniões vários apologetas bem instalados, que vindos de áreas de pensamento social e critico, se converteram em ferozes ativistas da nova verdade. Os apologetas que se converteram do marxismo radical ao capitalismo neoliberal — os cristãos-novos — são hoje a tropa dominante na primeira linha do combate ideológico que anula as diferenças entre o vazio e a substância, que defende todos os meios para atingir os fins.

Nesta perspetiva, a doutrina da libertação dos povos do planeta através de invasões e imposição de modelos culturais e económicos dominantes no século vinte, o colonialismo e o neoliberalismo, pretende obter a mesma coisa. Um dos mais notáveis apologetas da igreja primitiva foi Justino, Mártir (filósofo cristão primitivo nascido na Síria e decapitado) que chegou ao limite paradoxal de afirmar que «tudo o que já foi dito sobre a verdade pertence a nós, cristãos»!

Estava e está aí o germe do totalitarismo e da supremacia de uma religião e de uma ideologia sobre todas as demais.

Os apologetas estão hoje por toda a parte e a sua crença faz com que se imaginem acima dos outros. É por isso que o conceito de heresia assume para eles enorme importância e representa para os não crentes o perigo da condenação e do julgamento por ofensa ao “pensamento correto”. A guerra da Ucrânia é também um revelador de totalitarismo, da imposição da verdade única e através dos mais poderosos meios.

A relação entre a teologia dos filósofos gregos e a teologia do pensamento único nos nossos dias dá-se no plano da manipulação. É dessa “substância” — a da indiferença imposta pela violência — que se alimentam os meios de comunicação, as escolas e instituições produtoras ideologia da resignação e da ausência de sentido critico, porque tudo está decidido e tanto faz ser assim como assado. Estamos no domínio da servidão voluntária.

fuck Putin!, lançado por um cantor é um grito de pastor a conduzir o rebanho ao redil. Não é um grito de liberdade. É o oposto.

Os apologetas pedem tribunais para decidir a respeito do que pode ser considerado verdadeiro ou falso. Mas quem julga tais tribunais? A que poder superior respondem? E se não houver nenhum poder superior? Além disso, os tribunais de julgamento também se julgam a si mesmos e, consequentemente, excluem-se mutuamente. É que, segundo os apologetas, se tudo é interpretação, qual seria a diferença entre a minha interpretação e a interpretação dos outros? Não será o grau de poder de cada um? Parece que sim!

É por isso que em lugar de perdermos tempo com julgamentos seria melhor se nos voltássemos para a busca de soluções viáveis para a convivência, como diria Heidegger, para nos levar a lugares e situações onde a vida seja alegre. Essas tentativas de convivência não necessitam de dogmas nem de catecismos. Pertencem tanto ao reino da fruição, da imaginação como ao da razão.

Os apologetas não aceitam as escolhas dos outros. Fuck them!

Nb: Apologética: Parte da teologia que ensina a defender a religião contra os seus detratores.


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3 pensamentos sobre “A falácia dos apologéticos

  1. O carimbo “Este senhor”, nos tempos que correm, dito ou escrito como quem cospe, equivale a “Cala-te ou morre, sacana de herege, que me perturbas a digestão!”. Solução? A inteligente seria abstinência de Estátua, dieta sem Sal. A clínica, talvez pastilhas Rennie. Desgraçadamente (ou não), os borregos recauchutados em mastins não passam sem a companhia dos infiéis, precisam deles como os heroinómanos de ‘branquinha’. Fuck them!

  2. Como vê ,CMG ,por aqui e por cá ,vá-se preparando para as garras dos Torquemadas ,pq os rebanhos precisam de “pastores” e estes “Novos Pastores” não dormem e escorraçam qualquer “Lobo” se aproxime do Dogma dos seus “Redis” ::::::coragem pois ,pq eles andam ai esfaimados…..

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