As Palavras Não São Inocentes

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 09/10/2023)

Quadro de Alessandro Magnasco — Matança dos Inocentes

Guerra e Terrorismo — A propaganda de Israel e dos seus aliados (cúmplices) desenvolveram um dicionário específico para apresentar a situação em Gaza. Os porta-vozes de Israel e dos Estados Unidos foram treinados para o utilizar e difundir. Estão a fazê-lo e a servirem-no em doses maciças.

Israel está em guerra com o Hamas, garantem. É falso, o estado de Israel está em guerra com os palestinianos desde 1948, o Hamas foi criado em 1987. É um conhecimento de cultura geral. Sem investigação muito aprofundada é fácil saber que ocupação da Palestina foi e está a ser conduzida pelos judeus herdeiros dos movimentos terroristas desde os anos trinta do século vinte, quando começaram a lutar contra os ingleses, que tinham mandato da Sociedade da Nações de protetorado na Palestina desde o final da I Grande Guerra e que se manteve até ao final da II Guerra Mundial, quando os ingleses entregaram formalmente a Palestina à ONU, recém criada e aos Estados Unidos e à URSS para a condução prática do imbróglio do que fazer com os judeus sobreviventes do Holocausto. Esses movimentos lutaram através da imposição do terror para expulsar os palestinianos das suas terras e casas, sem olhar a meios.

O Exército de Israel, que se esconde debaixo da inocente, mas falaciosa designação de Forças de Defesa de Israel (IDF na designação anglo saxónica), tem antepassados que é fácil conhecer e que os jornalistas e comentadores só não apresentam porque esse conhecimento é inconveniente para versão da Verdade Única que deve ser imposta. O mais antigo e direto é o Haganá, uma organização de judeus sionistas, a primeira a utilizar o terrorismo na Palestina. Como é comum nas histórias dos movimentos terroristas, o Haganá, que também agiu como instrumento dos ingleses, sofreu várias dissidências, cada uma mais radical que a organização-mãe. Uma, o Irgun, comandado por Menhachem Begin, que chegaria a primeiro ministro de Israel, realizou a célebre operação de terror contra o Hotel Rei David, que matou 91 pessoas, na maioria quadros ingleses. Outra das dissidências designava-se Lehi, e os ingleses referiam-na como o Stern Gang. Estas organizações foram responsáveis pelo afundamento do navio Patria, com 1600 judeus, que o Reino Unido estava a transferir para as ilhas Maurícias. As organizações de judeus sionistas preferiram matar outros judeus (duas centenas morreram afogados) a deixar que fossem para um local que não a de povoar a “sua Palestina”. Todos estes “respeitáveis” movimentos sionistas se reconverteram de terroristas em Força de Defesa de Israel .

O “Exército de Israel” tem como base ideológica o sionismo e percebe-se assim melhor que o final de “cada ato de defesa” contra os palestinianos se tenha traduzido na conquista mais território, que irá até conseguirem criar a “Grande Palestina”, uma invenção dos sionistas com recurso a mirabolantes interpretações bíblicas.

O objetivo do Exército de Israel nesta operação em Gaza é, numa primeira fase, “limpar o território” dos seus habitantes, criar um espaço vazio, sem habitantes (no men land), para justificar a ocupação por israelitas, numa segunda fase. Não há nenhuma guerra contra o Hamas, que é apenas o mais recente movimento de resistência palestiniana, mas um ataque aos palestinianos de Gaza (que elegeram o Hamas para o seu governo) com a finalidade de deslocar um povo através do terror, porque a alternativa apresentada por Israel à sua fuga será a chacina!

O Hamas é apenas mais um dos vários movimentos organizados de resistência, como foram a OLP, a Fatah, a Frente Popular de Libertação da Palestina, as intifadas. Todas refletem a parcialidade e a violência da injustiça inicial da distribuição de terras da Palestina patrocinada pela ONU com a criação do Estado de Israel, o tal que tem o direito de tudo poder fazer para se “defender”: palestinianos, com 70% da população, tiveram direito a 45,4% do território, os judeus, com 30% da população, tiveram direito a 53,5% do território. Jerusalém seria partilhada. Os sentimentos resultantes de uma violação, de um assalto à mão armada, de uma ocupação não se destroem à bomba, mesmo que de fósforo, nem à metralhadora, nem com carros de combate, nem com F16!

Israel tem o direito de se defender — Todos têm o direito de se defender, mesmo os recém-chegados! A questão não é de direito, é de análise da realidade: tem sido e continua a ser Israel quem ataca para impor o seu modelo de sociedade. Os palestinianos são quem se defende e defende o direito de permanecer num território que nunca abandonaram! Não saíram da sua terra para atacar os judeus, alguns dos quais (os descendentes dos que não foram procurar outros destinos que de Damasco os levaram até à Rússia e à Península Ibérica) habitaram a Palestina em boa convivência com os palestinianos até um judeu austríaco pregar o sionismo no final do século dezanove e, meio século mais tarde, as potências europeias vencedoras da Segunda Guerra Mundial despacharem os judeus para uma terra onde se governassem e que até esteve para ser Angola.

O ataque do Hamas aos colunatos junto à fronteira de Gaza é um terrível ato de terror que merece a mais forte condenação, pois atingiu pacíficos civis que estavam em suas casas ou a divertir-se. A afirmação dos evangelistas ao serviço da verdade única contém vários sofismas (mentiras):

– Os colunatos, que substituíram os Kibutz, militarizando-os e eliminando os princípios de socialismo e de vida em comum que os distinguiu no início, são instalações militares e todos os seus membros (incluindo as famílias) são militares e cumprem funções dentro da manobra militar do Estado e das Forças Armadas. São sentinelas, postos de observação e primeira linha de combate. Desempenham, com as diferenças de tempo e lugar, o importante papel na manobra militar que as aldeias estratégicas desempenharam na guerra colonial portuguesa em Angola, Guiné e Moçambique. Ou o papel dos colonatos criados com portugueses idos da Metrópole para se instalarem em zonas de fronteira da guerra. Esteve prevista instalação de um milhão de colonos na região da barragem de Cabora Bassa, para servirem de barreira, em conjunto com a albufeira ao avanço da FRELIMO. São condenáveis todas as mortes violentas. Sem falsos moralismos, mas há violências mais condenáveis que outras, e há violências condenáveis e violências aceitáveis e há violências que merecem operações mediáticas e há violências silenciadas. Existem com certeza cenas de violência na Ucrânia tanto o mais chocantes do que a do ataque do Hamas ao colunato! Há violências desculpáveis, as dos nossos e violências condenáveis, as dos outros! Há violências cuja exploração e condenação é mais vantajosa para o desenvolvimento de dada a uma estratégia do que outras. Estamos em plena manobra de ação psicológica. A velha Psico da guerra colonial!

Para os portugueses, em particular para alguns dos ditos “especialistas militares” a classificação de terroristas e de ações terroristas devia ser muito cuidadosa, se o conhecimento da História fosse considerado fator indispensável à análise do presente. Em 1972 Marcelo Caetano, chefe do governo, afirmou ao general Spínola, governador e comandante-chefe na Guiné, que preferia uma derrota honrosa do que negociar com terroristas. Um afirmação que Marcelo Caetano iludiu, procurando conversações com o PAIGC, em Londres, com o MPLA através de um assessor da embaixada de Roma, e com a Frelimo através do engenheiro Jardim, que conduziu ao 25 de Abril de 1974 e ao reconhecimento dos “terroristas” como os únicos interlocutores viáveis para a independência das colónias, e que passaram a ser os políticos com quem os governos portugueses vieram a manter relações baseadas no mutuo respeito.

O governo de Israel optou pela política de Caetano afirmar que não negoceia com terroristas. A diferença é que o sionistas que dominam a máquina militar de Israel consideraram os palestinianos animais, seres que devem ser eliminados pelos homens do povo eleito, com que não podem conviver, nem negociar, embora os palestinianos sejam semitas, como os judeus. Os nazis só tinham classificado os judeus como sub-humanos e decidiram para eles a solução final das câmaras de gás. Imagina-se o que preparam os israelitas para os animais palestinianos!

O último sofisma é a introdução do Irão como base desta resistência dos palestinianos. É o inimigo do momento, como anteriormente já foram o Líbano, o Egito, a Síria, até a Jordânia, criados à medida dos interesses da grande estratégia dos EUA. O Irão foi há muito erigido como o objetivo principal e final da estratégia americana de destabilização do Médio-Oriente, que começou com a invasão do Iraque. Israel é a principal base dos EUA no Médio Oriente. É um clássico dos espetáculos de boxe: colocar um lutador em cada canto. Também é um princípio da propaganda de Goebbels: iluminar e referir apenas um inimigo, dar-lhe um rosto e um nome. Agora o que está a dar é apresentar o Hamas como o desafiador do campeão Israel! Resta, silenciada, realidade: a violência de 75 anos imposta por colonos vindos de fora anos sobre uma comunidade autóctone. Mas resta um problema sério: os Estados Unidos terão capacidade para lutar simultaneamente no Médio Oriente contra o Irão e na Eurásia contra a Rússia, na Ucrânia? Com que apoio dos EUA podem contar aqueles que fazem guerras em seu nome? Esta é a pergunta que fazem Netanyahu e Zelesnki. É de ucranianos e de palestinianos a carne que está a sofrer os efeitos do dilema dos Estados Unidos que prometeram apoio eterno e incondicional à Ucrânia e a Israel!

Desmontar as falácias do discurso de apresentar o vilão como vítima não significa a concordância com os métodos do Hamas — que reproduzem os do seu inimigo e devem merecer o mesmo repúdio — nem a preferência pelos valores e tipo de sociedade que propõe. Mas tão só a de recusar a parcialidade do discurso dominante, as grosseiras mentiras em que assenta e a comparar as soluções do sionismo para Gaza com a experiências portuguesas na guerra colonial contra organizações consideradas terroristas, mas que concentravam em si as ansias de afirmação dos seus povos, entidades portadoras de uma cultura e com direito a viver segundo os seus costumes na terra que desde sempre e sem hiatos ocuparam.

Gaza não pode ser um gigantesco massacre de Wiriamu. Mas há quem defenda que sim.


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A realidade dos interesses e a hipocrisia do moralismo de conveniência — Palestina

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 09/10/2023)


O que está a acontecer na Palestina é apenas mais um episódio sangrento do processo que teve início com a criação do Estado de Israel e que prosseguirá até este ser um Estado sentinela, habitado por eleitos que se reclamam da superioridade de raça e religião, com uma só história, um só deus. O primeiro massacre desta longa história de violência é, se me recordo, o que ficou conhecido por Deir Yassin, de 1948, ainda antes do fim do mandato britânico, quando milícias sionistas massacraram cerca de 150 refugiados palestinianos desarmados. O mais conhecido dos massacres talvez seja o de Sabra e Chatila, em 1982, no Líbano. Este recente “episódio” terá, de particular, a conjuntura internacional com a emergência de novos poderes mundiais, de redistribuição de fontes de energia, de moedas de troca, da multiplicação de focos de instabilidade em várias partes do globo que obrigam as grandes potências a dividir forças e a abrir “janelas de oportunidade” a potências regionais.

Entretanto, voltando à “guerra eterna” da Palestina, no nosso moralista Ocidente perdemos a conta aos mortos palestinianos e às iniquidades do Estado de Israel. O terror só teve e tem um rosto: palestiniano. A verdade é sempre a do mais forte. E nós, os ocidentais, somos mais fortes que os palestinianos, mais ricos e os palestinianos não têm nada a oferecer-nos. Israel, pelo seu lado, faz parte da nossa força e assegura parte do nosso modo de vida. Somos, os do ocidente, parte interessada no conflito e os nossos combatentes são israelitas! Já os queimámos por nada, mas agora desculpamos-lhes tudo!

O que aconteceu na Palestina há dias e ainda está a acontecer foi mais um ataque-resposta dos palestinianos à ocupação do seu território por europeus de religião judaica, os mais pobres em geral, de que os vencedores da II Guerra Mundial, em particular os EUA e a URSS, com a prestimosa ajuda do Reino Unido, se quiseram livrar. Nos seus estados as comunidades judaicas nunca se haviam integrado, exceto os grandes comerciantes e banqueiros, e eram um corpo estranho a que seria vantajoso dar alforria e terra (Angola teve para ser a terra eleita dos judeus no século XX! E o rei D. Manuel já os havia expulso de Portugal, no final do século XV, seguindo a opção dos reis católicos de Espanha). Para o efeito de atribuição da Palestina para instalar os seus judeus, os ocidentais utilizaram o belo argumento de recompensa pelos danos causados pelo nazismo e até pela santa inquisição.

A ocupação da Palestina tem uma história conhecida de violência e de corrupção até o Estado de Israel se transformar no que é: um estado teocrático, governado por um grupo que entende que só o domínio efetivo e total por judeus do território que ocupam garante a sua sobrevivência. Contam com o apoio dos EUA, que tomou Israel como o seu joker estratégico para o Médio Oriente e para o domínio das fontes de petróleo, mas também da Rússia, que enviou um forte contingente de colonos fundadores, asquenazes, que trocam informações e saberes com a grande comunidade judaica que se mantem em Moscovo e São Petersburgo, e tem um papel importante na ciência e no comércio internacional russos, também da Arábia Saudita e da União Europeia. Israel existe devido à sua localização estratégica e ao capital humano que promove saberes/conhecimento de altíssimo valor acrescentado na área das tecnologias de ponta, da informação, do espacial, da medicina, todas de duplo uso, civil-militar, garante ainda a ligação ao comércio de diamantes e de metais raros e ao sistema financeiro mundial. Por fornecer todos estes bens, e ter uma importância estratégica para o sistema de poder ocidental (o que inclui tanto os Estados Unidos como a Rússia) o Estado de Israel foi dotado capacidade militar nuclear e goza dos favores do mundo, que lhe asseguram a impunidade. A propósito do muito proclamado êxito da agricultura israelita. É uma falácia. A agricultura israelita produz colonos e colonatos que justificam a ocupação de terras dos palestinianos. As laranjas israelitas são um produto publicitário da extensão da ocupação de território pela força. A acompanhar os colonos encontram-se sempre os militares israelitas!

Para continuar a desempenhar o seu papel de “polícia mau” do Ocidente, Israel tem de dispor da plena soberania do seu território e concentrar os seus recursos ofensivos nos inimigos externos. O que significa que os palestinianos, o resto dos povos semitas que permaneceram na Palestina ao longo dos séculos e que se converteram ao islamismo, integrando vários impérios, não têm ali lugar. Têm de ser eliminados e é isso que têm estado a ser. A comunidade palestiniana não tem lugar no Estado de Israel. Qualificar qualquer ato de resistência à eliminação de terrorismo faz parte da Palestina faz parte do bê-á-bá da propaganda que serve esse objetivo. Há sempre boas almas a aliviarem a consciência com essas proclamações e uma massiva campanha de manipulação assegura o apoio generalizado aos fins não declarados de defender um forte Estado vassalo do Ocidente no Médio Oriente. A proposta de dois estados é uma falácia sem qualquer possibilidade de existência, não apenas porque as duas comunidades, a palestiniana e a judaica, não têm qualquer ponto de contacto e possibilidade de convivência, mas porque essa solução não serve a nenhum dos poderes fáticos. A quem interessa um estado palestiniano? Aos que ali instalariam bases de ataque a Israel. O estado palestiniano desempenharia para Israel o mesmo que a Ucrânia para a Rússia. Mas há quem defenda sem pestanejar e com o mesmo vigor o “direito à soberania absoluta da Ucrânia contra a Rússia invasora” e defenda o direito de Israel a impedir que os palestinianos sejam os zelenskis e os “azofes” do Médio Oriente e que considere uns heroicos nacionalistas e outros execráveis terroristas. A chamada moralidade “à la carte”!

De facto, não há lugar a um estado palestiniano e a moralidade é sempre hipócrita. O estado de Israel, com os falcões e os fanáticos reunidos à volta da Netanyahu, ou com as pombas que contestam o seu projeto de Estado totalitário, eliminará os palestinianos.

É da natureza e os europeus são históricos praticantes do método de eliminar autóctones para lhes ocuparem o território. O que os israelitas vão (estão) a fazer aos palestinianos é um pormenor, uma coisa pouca, quando comparado com o que os europeus fizeram a todo um continente, o americano, eliminando indígenas e culturas desde o Alasca, a Norte, à Terra do Fogo, no Sul. Os palestinianos que sobreviverem viverão como os índios em reservas. É este o destino que o Ocidente lhes reserva e sabe como fazê-lo.

Entretanto, a propaganda faz o seu papel, tocando em várias escalas, rotula como terroristas a generalidade dos palestinianos, divide-os entre bons, os que morrem, e maus, o Hamas e o Hezbolah, os que lutam, acusa diabólicos aliados (o Irão). Todos sabem que os palestinianos vão ser eliminados como pragas que se matam com um inseticida.


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25 de Novembro — O nanico tem razão na celebração

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 06/10/2023)


Mirrado e miúdo quando entrou para a Marinha e, depois, para a Infantaria, Francisco Franco iniciou a carreira militar com o apelido de “Fósforo nanico”. Era tímido, tinha a língua ligeiramente presa e passou anos a levar “caldos” dos colegas de academia militar. Não tinha propriamente o físico de futuro chefe, nem que fosse de turma. Mas “Paco”, seu outro apelido, tornou-se o mais jovem general europeu em 1926, passou a ser chamado de “El Caudillo” pelos seus camaradas de armas, designação até então reservada a guerreiros medievais, e comandou o período mais sombrio da história da Espanha moderna. A biografia é de Francisco Franco, mas podia adaptar-se com facilidade à de Carlos Moedas. Imaginem-no fardado e de bigodinho!

Franco, como Salazar, como Carmona, fazem parte de um tipo de políticos cinzentos, sombrios, que conseguem ofuscar e sobrepor-se a outros correligionários intelectualmente e profissionalmente muito mais competentes, brilhantes e carismáticos. Carlos Moedas é um exemplo contemporâneo desse tipo de “cinzentões” que surgem no topo das pirâmides de poder e levam as pessoas comuns a perguntar como é que um tipo como ele chegou ali.

Não foi por acaso. Eles, todos eles, trataram de colocar as pedras para percorrerem o seu caminho até porto seguro, no topo. Fizeram-no com vénias e sorrisos, como rafeiros, aceitando festas e palmadinhas, biscoitos. Mas sabendo sempre o que fazer. Por vezes estas personagens são associadas a estereótipos literários, caso de O homem sem qualidades, de Robert Musil, ou de Escuta Zé Ninguém, de Wilhelm Reich. É um perigoso erro de análise. A flexibilidade moral e indiferença pelos valores éticos transformam ‘um homem sem qualidades’ ou um zé ninguém em num ser reptiliano, serpenteante e invisível até lançarem o ataque. Estes nanicos conhecem a História. Numa época de aflição, de crise, será a eles que recorrerão os presidentes das grandes empresas, dos bancos, os dirigentes partidários, os filhos da burguesia arrependidos, os homens de Estado e os propagandistas. Eles, os nanicos, sabem que estes lhe darão o futuro e não lhes perguntarão pelo passado, nem pela consciência.

Moedas sabe porque deve anunciar a comemoração do 25 de Novembro de 1975, de que na atual geração ninguém (ou muitos poucos) sabe o que foi. Moedas sabe duas coisas: o seu mercado eleitoral é o dos neoliberais, dos adeptos do individualismo, do sucesso dos mais agressivos e sem escrúpulos, dos que acreditam na bondade e virtude da ditadura do mercado e que estão em transumância do PSD para a Iniciativa Liberal. Moedas quer ser o federador, o pequeno grande homem, o nanico dessa massa eleitora de direita. Depois, Moedas sabe o que foi a essência do 25 de Novembro de 1975. Basta ler um pouco do seu currículo.

Moedas é, antes de um tudo, um boy da grande banca de investimentos, um Goldman Sachs boy. Trabalhou em Londres na área de fusões e aquisições do Goldman Sachs, e no Deutsche Bank para montar o Eurohypo Investment Bank. No regresso a Portugal dirigiu a consultora imobiliária Aguirre Newman Cosmopolita, e criou a empresa de gestão de investimentos Crimson Investment Management. Sempre debaixo do guarda-chuva do Goldman Sachs, uma das principais empresas globais de banco de investimento e gestão de valores mobiliários. O único dos grandes bancos que sobreviveu à crise de 2008 e também aos enormes escândalos financeiros de desvio fraudulento de fundos e de corrupção política no sudoeste asiático.

Num artigo de Mafalda Anjos, na revista Visão de 4.8.2016, o Goldman Sachs materializa o que há de pior e mais imoral no capitalismo e na maior praça financeira do mundo. «A história do banco de investimento inclui ganância e jogos de poder, dinheiro a rodos, escândalos e escrúpulos q.b., arrependidos, denunciadores, cassetes secretas e até prostitutas contratadas para sacar negócios. A história do Goldman é feita com os mesmíssimos ingredientes da maior praça financeira do mundo e centro do capitalismo global: inteligência, trabalho e ambição, mas também imprudência e ganância, juntas num caldo de princípios éticos convenientemente deixados em “banho-maria”. Desde a sua fundação, em 1869, que a Goldman se tem visto envolto em escândalos financeiros de espécie vária, quase sempre no centro do furacão de bolhas especulativas e crashs estrondosos, e quase sempre com o mesmo desfecho: somar e seguir, maior e mais forte, depois de ajudar a evaporar milhões de euros dos bolsos dos investidores.»

É esta a escola de Carlos Moedas. A que pertencem outros portugueses ilustres: Durão Barroso, José Luís Arnaut e o falecido António Borges. “Goldmanites” é o epíteto pelo qual são conhecidos os altos quadros do Goldman Sachs, por vezes usado em tom de impropério, que ajudaram a fazer dele a mais desejada e vilipendiada instituição financeira do mundo.

Desde sempre que o Goldman Sachs se deita na cama com o poder político. Carlos Moedas não é o menino de coro que afirmou estar disposto a fazer tudo o que a Igreja Católica e o presidente da República (o patrono da sua carreira) lhe dissessem para fazer na preparação da Jornada Mundial da Juventude! Ele é um sabujo consciente e informado que está a fazer carreira política. Ele é um ativo da banca na política!

Ele sabe qual foi o objetivo principal do 25 de Novembro de 1975: desnacionalizar a banca! Abrir a banca, o coração do “sistema”, à iniciativa privada. A reprivatização da banca portuguesa teve como resultado a emergência de corsários bancários: BPN, BANIF, BPP, mas também o BPI, a espanholização da banca — isto é a colocação da banca portuguesa sob direção espanhola — e a eliminação dos bancos tradicionais, incluindo o Banco Português do Atlântico, o maior. Sobreviveu o BES até há pouco. O BES de Ricardo Salgado, que em desespero terá dito: Temos de pôr o Moedas a funcionar. Isto é, a fazer uns recados e a mover umas influências.

Ora, o Moedas está a funcionar, como sempre esteve, mas para ele. Vai celebrar o 25 de Novembro de 1975 e, sem qualquer pudor, referir os perigos da guerra civil, da substituição de uma ditadura por outra de sinal contrário. É um reportório mais do que estafado, mas o que interessa isso ao Moedas? Para ele a verdade é uma esponja! Ele é um faxina que está a funcionar com um balde e uma esfregona. Agora funciona por conta de Marcelo Rebelo de Sousa, que o tirou da manga como o seu jóker federador da direita, fiador dos grandes bancos, do clube Bildeberg, pau mandado do FMI e do Banco Central Europeu. Um homem acima de qualquer suspeita!

O 25 de Novembro de 2023 de Carlos Moedas é a celebração da vitória dos grandes banqueiros em 25 de Novembro de 1975. De fora ficará a memória dos tempos da troika, e também a memória de Ricardo Salgado, o que queria colocar o Moedas a funcionar antes de ser apunhalado. Talvez, no intervalo da sua doença, Ricardo Salgado repita a frase de Júlio César: Também tu, Brutus!

O Moedas, o nanico, está a funcionar, mas para ele próprio, servindo de tarameleiro de Marcelo Rebelo de Sousa, o verdadeiro pai da ideia de esvaziar as comemorações do 25 de Abril. Está montada mais uma farsa. Moedas é o truão da serviço. A comunicação social vai encarregar-se de soprar trombetas a anunciar o espetáculo!


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