Um regime, como uma empresa, como um Exército, como um navio, tem a existência em perigo quando os seus dirigentes, comandantes ou chefes são indivíduos sem referências, sem capacidade para distinguir o importante do acessório, por indivíduos que, nas inesquecíveis palavras de Eduardo Catroga elegem os pintelhos como objeto principal das suas preocupações. Estamos nesse ponto.
O espetáculo dos representantes dos partidos ao terramoto que hoje fez ruir as já podres estacas onde assentava o Ministério Público, uma instituição basilar no regime democrático, é revelador da “bicheza” que tem vindo a corromper o estado de direito, que é, saliente-se, antes de tudo, um regime de decência. O Ministério Público é (ou devia ser – e foi criado para o ser, um guardião da decência: do respeito pela lei e pela dignidade das pessoas.)
Dado o lamacento passado do MP na sua atuação política contra políticos, a questão deste caso “influencer” era de particular importância para ajuizar da credibilidade do Ministério Público (uma questão de elementar senso).
A pergunta dos portugueses era e é: Qual foi o papel que o MP desempenhou no que tem sido entendido como um golpe levado a cabo pela justiça – lawfare? Ora, do que falaram os “representantes dos partidos”? Da demissão de um ministro de um governo já demitido! E demitiu-se porquê? Respondem os dirigentes aos jornalistas: Porque não tem condições políticas para ser ministro!
Já não surge a pergunta lógica e embaraçosa: E porque não tem? Adivinha-se que a mais consistente resposta seria: Porque a Sandra Felgueiras, a nossa Joana D´Arc da integridade, honestidade e da decência política, fez um programa que o Galamba classificou como estrume. E quem diz que a Felgueiras faz programas que são estrume não pode ser ministro das infraestruturas! E há uns tempos o Presidente da República disse que não o queria!
E porque não o queria? Ele não disse? Podemos pintar um cenário: O Galamba é o ministro das grandes obras, do dinheiro gordo. E o Presidente é um democrata: esse dinheiro tem de ser dividido entre as clientelas… e o Presidente tem de contentar vários clientes… é a democracia a funcionar… E o mercado? O mercado é a arte de escolher os clientes…
Quanto à procuradoria da República e a sua Procuradora Geral, nem uma palavra. São, para os dirigentes políticos, um não assunto e uma personalidade irrelevante. No entanto, a ação dos procuradores, de derrube de um governo causa milhões de euros em despesas diretas (eleições), milhões em despesas indiretas: paralisia de serviços, prejuízos incalculáveis: adiamentos de projetos, aumento de juros e transferência de investimentos. Sobre esses temas de relevo, nem uma palavra dos dirigentes políticos. O que lhes interessa é a pequena rasteira. Esses assuntos são “pintelhos” para os dirigentes dos principais partidos e para a cambulhada de comentadores arrebanhados por uma comunicação social mercenária e cúmplice.
Quando o caso do regime é a demissão de um ministro sem que ele seja acusado com provas credíveis, e não a discussão do papel do Ministério Público num ato inaudito de efetivo golpe de Estado e de consequências desconhecidas – mas certamente desastrosas -, estamos num momento de naufrágio.
E não há salvador. Não há um recuperador como os heróis dos helicópteros da Força Aérea que resgatam náufragos nas tempestades.
O Presidente da República é parte do mundo de golpes baixos e ajustes de contas nas sombras das vielas, construído segundo as prioridades da comunicação social, que tem o expoente em Marques Mendes. Marcelo Rebelo de Sousa era uma vedeta – a principal vedeta na construção de cenários e de criação de falsos casos. Continua a ser.
30 de Outubro de 2023. Gilad Erdan, embaixador de Israel na ONU, com uma estrela amarela ao peito, numa reunião do Conselho de Segurança da ONU.
9. Gaza e o gueto de Varsóvia
O embaixador de Israel na ONU, Gilad Erdan, pôs ao peito a estrela amarela que a Alemanha nazi obrigou os judeus a usarem, como prelúdio para a “Solução Final” que ficou conhecida como Holocausto. Fê-lo, esclareceu, por duas razões:
― para protestar contra a resolução da Assembleia da ONU que exige uma «trégua humanitária imediata, duradoura e sustentada que conduza à cessação das hostilidades» em Gaza (assim como a protecção de civis e bens civis, e do pessoal humanitário; e o fornecimento imediato, contínuo, e sem entraves de bens e serviços essenciais aos civis em toda a Faixa de Gaza, incluindo, água, alimentos, suprimentos médicos, combustível e electricidade), que considerou representar «um dia escuro para a humanidade»;
― para mostrar que o ataque do Hamas a Israel, em 7 de Outubro de 2023, foi uma acção semelhante à “Solução final da questão judaica” de Hitler, que o Conselho de Segurança da ONU não condenou como tal.
«Alguns de vós não aprenderam nada nos últimos 80 anos. Alguns de vós esqueceram a razão pela qual esta organização [a ONU] foi criada. De hoje em diante, cada vez que vocês olharem para mim, vão lembrar-se do que significa permanecer em silêncio perante o mal», disse o embaixador israelita.
Mas o gesto de pôr a estrela ao peito não poderia ser mais grotesco e a analogia com a “Solução Final” de Hitler não poderia ser mais falsa e enganadora. Quem não aprendeu nada da história dos últimos 80 anos é este embaixador.
Não sabe, ou finge não saber, que quem poderia pôr a estrela amarela ao peito com toda a legitimidade era a população palestiniana de Gaza que o governo israelita de Netanyahu quer dizimar à bomba, à fome, à sede e à míngua de auxílio médico, para, em seguida, expulsar definitivamente, de Gaza para o Egipto (península do Sinai), o que dela restar [5]. Isso sim, é um émulo da “Solução Final” de Hitler e a sua camarilha genocida.
E há, de facto, um episódio da história dos judeus que o embaixador Erdan poderia evocar para descrever a componente militar (a componente principal) do ataque das brigadas Izz al-Din al-Qassam a Israel, em 7 de Outubro 2023. Seria a insurreição armada dos judeus do gueto de Varsóvia contra as tropas da Alemanha nazi, em 19 de Abril de 1943 [6].
Segunda quinzena de Maio de 1945. Pessoas emergem dos escombros do gueto de Varsóvia depois de os nazis o terem incendiado e reduzido a cinzas.
Se fosse vivo, Marek Edelman (1919-2009) ⎼ o comandante judeu que, com apenas 24 anos, substituiu Mordecai Anielewicz quando este morreu (com 23 anos), e o único dirigente dessa insurreição armada que sobreviveu à sua honrosa derrota ⎼ poderia lembrar ao senhor Gilad Erdan que a situação infernal que Israel impôs à população palestiniana de Gaza [7] é em tudo semelhante à situação infernal que as tropas da Alemanha nazi impuseram aos judeus do gueto de Varsóvia. Mas como Marek Edelman já não está entre nós, cabe-nos recordar as suas palavras:” Lutámos pela dignidade e pela liberdade. Não por um território, nem por uma identidade nacional» [8].
Marek Edelman (1919-2009), o único dos cinco comandantes da insurreição do gueto de Varsóvia que sobreviveu.
Mas a coisa mais importante que Marek Edelman disse, no que diz respeito ao modo como podemos avaliar a situação que hoje se vive em Gaza foi esta: «Ser judeu significa estar sempre com os oprimidos, nunca com os opressores».
Por conseguinte, Marek Edelman estaria hoje, com certeza, ao lado dos palestinianos de Gaza, contra o Estado de Israel. Seria o primeiro a reconhecer no embaixador de Israel na ONU, Gilad Erdan, no ministro da guerra de Israel, Yoav Galant, e no primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, indivíduos da mesma estirpe que o general das SS Juergen Stroop que mandou os seus esbirros incendiarem o gueto de Varsóvia e matarem ou deportarem para campos de extermínio os seus habitantes, como, de facto, foi feito. 7-13 mil judeus polacos desse gueto foram assassinados e 56-58 mil foram deportados para campos de extermínio.
Notas e Referências
[5] Quando o bombardeamento maciço de Gaza por Israel entrou na sua terceira semana, fazendo mais de 5.000 mortos e pelo menos um milhão de residentes deslocados, um centro de estudos [Ingl. “think tank”] com sede em Tel Aviv, denominado “Instituto de Segurança Nacional e Estratégia Sionista”, delineou «um plano para a recolocação e reabilitação final no Egipto de toda a população de Gaza», baseado na «única e rara oportunidade de evacuar toda a Faixa de Gaza» proporcionada pelo último ataque de Israel ao enclave costeiro sitiado. Publicado em hebraico no sítio eletrónico da organização, o artigo é de autoria de Amir Weitman, «um gestor de investimentos e investigador visitante» do Instituto que também dirige a bancada libertária do Partido Likud, actualmente no poder em Israel. O documento começava por referir que existem 10 milhões de unidades habitacionais vagas no vizinho Egipto que poderiam ser «imediatamente preenchidas» por palestinianos. Weitman garante aos leitores que o «plano [é] sustentável e se alinha bem com os interesses económicos e geopolíticos do Estado de Israel, do Egipto, dos EUA e da Arábia Saudita» (Kit Klarenberg, “Zionist think tank publishes blueprint for Palestinian genocide.” The Grayzone, October 24, 2023).
[6] «No Verão de 1942, cerca de 300.000 judeus foram deportados de Varsóvia para Treblinka. Quando as informações sobre os assassinatos em massa nos centros de extermínio chegaram ao gueto de Varsóvia, um grupo de judeus, na sua maioria jovens, formou uma organização chamada Z.O.B. (Organização Judaica Combatente; em polaco, Zydowska Organizacja Bojowa). A Zob, comandada por Mordecai Anielewicz, de apenas 23 anos, divulgou um manifesto no qual pedia aos judeus que resistissem contra a embarque nos vagões dos comboios [OBS: os judeus não sabiam para onde estavam sendo levados]. Em Janeiro de 1943, combatentes da Zob no gueto de Varsóvia dispararam contra soldados alemães quando estes tentavam arrebanhar outro grupo de moradores do gueto para deportá-los. Os resistentes usaram as poucas armas fabricadas por eles próprios e as armas que tinham conseguido obter por meio de contrabando, e após alguns dias de luta os soldados alemães recuaram. Aquela pequena vitória deu alento aos combatentes do gueto para se prepararem para novos conflitos.
Em 19 de Abril de 1943, quando as tropas alemãs e a polícia alemã entraram no gueto para levar mais judeus para os campos de extermínio, “A insurreição do Gueto de Varsóvia” teve início. Setecentos e cinquenta combatentes judeus, pobremente armados e enfraquecidos por doenças e pela fome, lutaram contra um número muito maior de soldados alemães bem alimentados, fortemente armados e bem treinados. Os combatentes do gueto conseguiram defender-se durante quase um mês mas, em 16 de Maio de 1943, a revolta acabou. Lentamente, os alemães subjugaram a resistência. Dos mais de 56.000 judeus capturados, cerca de 7.000 foram assassinados a tiro e os restantes foram deportados para os campos de concentração onde foram mortos» (“O Levante do Gueto de Varsóvia”. Enciclopédia do Holocausto) [Editei o artigo original para o adaptar ao Português europeu padrão].
[7] Essa situação já era infernal muito antes do dia 7 de Outubro de 2023. Ver José Catarino Soares, “O que é Gaza?”. Tertúlia Orwelliana, 4 de Novembro de 2023 (https://tertuliaorwelliana.blogspot.com/)
[8] Depois da Segunda Guerra mundial, Marek Edelman condenou o sionismo como uma ideologia étnica supremacista, utilizada para justificar o roubo de terras palestinianas. Tomou o partido dos palestinianos, apoiou a sua resistência armada contra Israel e reuniu-se frequentemente com militantes da causa palestiniana. Insurgiu-se contra a apropriação do Holocausto por Israel para justificar a sua repressão do povo palestiniano. Vale a pena acrescentar que Israel fez (e faz) questão de exaltar o heroísmo dos combatentes judeus que fizeram a insurreição armada do gueto de Varsóvia. Ao mesmo tempo, Israel sempre tratou o único comandante sobrevivente dessa insurreição, Edelman, como um pária, por este ser anti-sionista e se ter sempre recusado a abandonar o seu país natal, a Polónia, e a emigrar para Israel. Edelman compreendeu que a lição a tirar do Holocausto e da insurreição armada do gueto de Varsóvia não era a de que os judeus são moralmente superiores ou vítimas eternas. A história, disse Edelman, pertence a todos. Os oprimidos, incluindo os palestinianos, têm o direito de lutar pela liberdade, dignidade e igualdade, recorrendo, se necessário for, à luta armada contra os seus opressores.
Há quem julgue que a desfaçatez é um desinfetante histórico. O jornal Público de 7 de Novembro de 2023 notícia que o presidente da Alemanha, Frank-Walter de sua graça, pediu perdão pelos atos cometidos pela Alemanha no início do século vinte na costa oriental de África, onde terão sido mortos entre 200 e 300 mil tanzanianos (de passagem podia ir à Namíbia e pedir perdão pelo genocídio de 80% dos Hereros, os habitantes originais). Quanto ao rei da Inglaterra, Carlos, de sua graça, condenou os atos de violência “abomináveis” do colonialismo — só à conta do herói inglês Cecil Rhodes terão sido mortos 60 milhões de africanos para grandeza e enriquecimento das suas companhias, a The Beers e a British South Africa Company .
Entretanto, antes das lágrimas e do perdoem-me, desculpem lá, mas tinha de ser, o colonialismo europeu cumpriu o seu papel histórico de explorar as riquezas e os povos, de ocupar territórios. Agora está em curso um simulacro de reparação com a devolução de objetos de arte africana (o que inclui um padrão português que se encontra na Alemanha). «Meus amigos, para vos compensar vamos devolver a bonecada de pau e de marfim que temos nos esconsos dos nossos museus! O que importa agora é fazer bons negócios, e evitar que vocês nos troquem pelos chineses e pelos russos!» Esta é a mensagem sublimar que os dois dignitários levam nos lenços de assoar as lágrimas.
As desculpas e as lágrimas de presidente da Alemanha e do rei de Inglaterra são tão sérias como as de um antigo distribuidor de pastilhas para a diarreia que aparece dias depois com o melhor sorriso a vender rolos de papel higiénico!
A esta atitude chama-se desfaçatez com os seus múltiplos sinónimos: descaramento, atrevimento, insolência, desrespeito, insulto, desaforo, cinismo, desavergonhamento. A este ato de contrição chama-se ainda atirar areia aos olhos do rebanho, mesmo que à custa do Walter-Frank e do Carlos de Inglaterra assumirem a sua desonestidade estrutural. É assim que cumprem o seu dever de patriotas, vendendo o caráter, a que porventura nunca atribuíram valor.
Eles sabem que o passado de há cem anos é o presente da Palestina, por exemplo. O Walter-Frank e o Carlos de Inglaterra sabem que daqui a cem anos os seus sucessores estarão, com o mesmo descaramento, a pedir perdão pelos atos abomináveis do Ocidente Alargado, ou o que lhe tiver sucedido, no Iraque, no Afeganistão, na Líbia, na Síria, na Sérvia, no Chile, na Argentina, no Brasil, na Indonésia, em Jerusalém, em Gaza… Os sucessores destas tristes figuras, a que se podem adicionar os de Ursula Von der Leyen, da marioneta que é secretário da NATO, pedirão desculpa por terem andado a vender guerras como os vendedores de praia vendem óculos Ray Ban, camisas Lacoste, relógios Rolex genuínos e saídos das melhores fábricas de candongueiros e que só passado um século descobriram que tudo era falso!
Estamos, pois, e em primeiro lugar, perante pantomineiros, mas não de idiotas que não sabem o que andam a fazer. Sabem. O perdoem-me queridos africanos tem tanto de sincero quanto as condolências de um cangalheiro durante uma epidemia. Os pedidos de desculpa do cavalheiro alemão e do cavalheiro inglês — duas personagens de representação — pretendem transmitir aos africanos uma mensagem muito explícita: queremos continuar a fazer negócios convosco, esqueçam o passado. Não nos troquem pelos russos e pelos chineses porque se arrependerão.
As desculpas destas duas tristes figuras são apenas toalhetes desinfetantes para os homens de negócios e os militares do Ocidente Alargado continuarem no mercado de África, a tomarem os africanos como gente inferior que não percebe o que se esconde no perdão dos brancos! Atrás destas figuras de representação surgirão em África os assassinos, os agentes promotores de golpes de Estado, de guerras civis pelo petróleo ou pelos diamantes de sangue… o Walter Frank e o Carlos de Inglaterra sabem quem os seguirá depois de verterem as suas lágrimas.
Há quem respeite gente que se presta a estes papéis, que respeite gente como o Walter-Frank e como o Carlos de Inglaterra.