PS mais absoluto, PSD em queda livre. Aliança e Iniciativa Liberal podem eleger

(Anselmo Crespo, in TSF, 31/08/2019)


A descida ao inferno do PSD continua, mês, após mês. Na mais recente sondagem da Pitagórica para a TSF e para o JN, o partido liderado por Rui Rio volta a perder intenções de voto, desta vez, a favor do Aliança e do Iniciativa Liberal. PS dá mais um passo rumo à maioria absoluta….


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As crises existenciais do centro-direita

(Anselmo Crespo, in Diário de Notícias, 06/06/2019)

Anselmo Crespo

A crise do centro direita não é nem um mito nem um prognóstico. É uma realidade que nasceu muito lá atrás e que, não tendo ainda atingido o seu epílogo, pode estar muito próximo dele. Há quatro anos, António Costa não se limitou a “roubar” o poder ao PSD e o CDS. Roubou-lhes também a agenda e desatou a correr em direção à esquerda, enquanto o centro direita ficou a esvair-se em sangue. Até hoje.

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Passos Coelho, que resistiu até às autárquicas com o discurso do diabo, acabou mesmo por chocar de frente com ele. Não foi para o inferno, mas acabou por ser atirado para uma espécie de purgatório político, de onde muitos – incluindo, quem sabe, o próprio – ainda esperam que, um dia, consiga sair.

Se Santana Lopes representava uma espécie de evolução na continuidade, Rui Rio era uma velha novidade que acabou por tornar-se na única esperança do PSD para recuperar um eleitorado que Passos Coelho e a troika tinham deitado borda fora, mas que o Partido Socialista, apesar de tudo, não tinha conseguido aproveitar até às legislativas de 2015. Mão de ferro, limpezas profundas, recentramento do partido, uma política para a classe média, sem nunca perder o foco no rigor das contas públicas, Rui Rio prometia ser tudo isto e, ao mesmo tempo, um político de carne e osso, que diz o que pensa e pensa tudo o que diz.

Há quatro anos, António Costa não se limitou a “roubar” o poder ao PSD e o CDS. Roubou-lhes também a agenda

Um ano e meio depois, o que sobra deste PSD? Para quem fala o partido? Que alternativa tem para o país? Quem é o eleitorado deste PSD? Entre crises internas, discussões estéreis e uma estratégia de oposição ziguezagueante e permanentemente equívoca, Rui Rio perdeu-se na tradução dos objetivos que delineou para o partido e para si próprio. Para lá de dois acordos que assinou com o governo – sobre fundos comunitários e descentralização -, todos os temas que tentou impor na agenda política nacional acabaram por implodir nas contradições internas, nos protagonistas que lhe deram voz ou no amadorismo da comunicação. Não sendo o único responsável pela situação do partido – longe disso – é, neste momento o principal. Por ser o presidente do PSD em funções, mas, sobretudo, porque Rio insiste em seguir em contramão achando que todos os que estão a vir contra ele é que estão errados e ele é que está certo.

O teste não será muito difícil de fazer. Basta encomendar um estudo de opinião e perguntar às pessoas: qual é a principal mensagem do PSD hoje em dia? O que distingue, neste momento, o PSD do PS? As conclusões, estou em crer, não serão muito animadoras para a liderança de Rui Rio.

Não por acaso, esta semana, na TSF, Manuela Ferreira Leite sentiu necessidade de sugerir ao centro direita uma nova abordagem de oposição ao Governo: o défice das contas públicas, que antes nos afetava por excesso e que agora, segundo a ex-ministra das finanças, nos afeta por defeito.

Um ano e meio depois, o que sobra deste PSD? Para quem fala o partido? Que alternativa tem para o país? Quem é o eleitorado deste PSD?

Do lado do CDS, a crise é proporcional à dimensão e às características do partido. Menos óbvia e sempre com o efeito de arrastamento do PSD, que é historicamente o motor do centro de direita em Portugal. Assunção Cristas confundiu ambição com realismo. Oposição com guerrilha. No processo, esqueceu-se que o eleitorado, apreciando um bom soundbyte de vez em quando, não é estúpido. E que a política também se faz de propostas concretas – prova disso é a mudança óbvia de estratégia depois do desaire das Europeias -, de bandeiras que as pessoas compreendam e, sobretudo, de coerência.

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E este é outro dos fatores que ajuda a explicar a crise do centro direita. Aos olhos do eleitorado, o PSD e o CDS perderam legitimidade para criticar a elevada carga fiscal, a falta de investimento público, as cativações ou a obsessão pelo défice. Porque fizeram igual ou pior. Porque, enquanto houver um Novo Banco para pagar, dificilmente alguém se esquecerá de quem tomou a decisão. Não que esta leitura seja totalmente justa, porque não o é. Com todos os erros que foram cometidos – muitos deles assentes em preconceitos ideológicos -, PSD e CDS governaram num período de crise e de assistência financeira. Dito de outra forma, governaram um país falido. O problema é que a memória humana, às vezes, é curta. Outras vezes, é muito seletiva.

Quatro anos depois, o centro direita em Portugal não só continua amarrado a um dos períodos mais negros da vida do país – mesmo havendo outros responsáveis -, como não teve a capacidade de se reinventar, no conteúdo e na forma. É por isso que Marcelo Rebelo de Sousa tem razão quando antecipa uma crise, ainda que o tenha feito com uma ligeireza pouco própria de um Presidente da República.

O eleitorado do centro direita não desapareceu, só decidiu não comparecer. Está distante, confuso e, claramente, à espera que o PSD, o CDS ou outro partido qualquer lhe ofereçam uma visão para o país. Para já, o PS continua virado para a esquerda. Mas, um dia, talvez mais cedo que tarde, António Costa regressará para tentar reconquistar o centro de que abdicou nos últimos quatro anos. Porque é aí que pode estar a chave para a maioria absoluta.


As pessoas não votam porquê?

(Anselmo Crespo, in Diário de Notícias, 27/05/2019)

Anselmo Crespo

Há países onde os extremismos crescem e o populismo toma conta dos Estados. Em Portugal, ficamos todos muito contentes porque estes fenómenos não vingam. Porque os PNR desta vida são praticamente irrelevantes do ponto de vista eleitoral. Ou porque André Ventura não ficou sequer perto de ser eleito. Mas há uma ameaça muito maior à nossa democracia à qual não estamos a dar a atenção devida: a abstenção.

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Foi ela a grande vencedora destas eleições europeias. Quase 70% de abstenção é uma vitória com maioria absoluta, o que significa que a legitimidade dos nossos eleitos é hoje muito menor do que era. O que significa um divórcio dos eleitores com os seus eleitos, que pode ter consequências catastróficas para a nossa democracia.

Importava, por isso, que os líderes políticos que falaram na noite eleitoral deste domingo estivessem conscientes de que ninguém ganhou e todos perderam. Que em vez de se abrirem garrafas de champanhe por causa de pouco mais de um milhão de votos, se refletisse sobre os motivos que levaram mais de sete milhões de portugueses a ficarem em casa ou a irem para a praia e a faltarem a um dever cívico. Há uma reflexão profunda a fazer e não é apenas na forma como se fazem campanhas eleitorais em Portugal. É também na forma como se faz política.

Rui Rio tem razão quando defende que é preciso repensar o modelo das campanhas e de comunicação dos partidos. Mas, para isso, é preciso que os partidos políticos tenham nos seus quadros gente nova, qualificada, séria e capaz de construir a disrupção de que todos eles andam à procura. Ora, o PSD consegue ser um dos piores exemplos de comunicação política que existe atualmente no país. Não só pela mensagem equívoca e permanente, mas, sobretudo, pelas escolhas que o próprio Rui Rio fez. Basta lembrar a figura de Rodrigo Gonçalves, um cacique da política rasteira que integrou a equipa de comunicação do presidente social democrata e que acabou por se demitir recentemente, na sequência de uma notícia do DN sobre a existência de perfis falsos nas redes sociais do PSD.

Nada que não exista – a política rasteira -, de forma mais ou menos evidente, noutros partidos políticos em Portugal, a começar pelas intervenções tantas vezes patéticas de deputados nas redes sociais, que gastam grande parte do seu tempo em discussões de baixa política e a destilar ódio. Tudo isto faz parte da forma como os partidos comunicam com os seus eleitores. Tudo isto afasta as pessoas das urnas.

Mas, para além da forma como comunicam, há uma outra reflexão ainda mais profunda a fazer sobre as elevadas taxas de abstenção: o conteúdo – ou a falta dele – da mensagem política que, claramente, não está a chegar às pessoas. E isso não é apenas evidente nos partidos de centro-direita (PSD e CDS), que, nos últimos quatro anos, a cada eleição, perdem mais eleitorado.

É também óbvio na dificuldade que um Partido Socialista, depois da crise, depois do défice quase a zero, depois de uma taxa de desemprego que desceu, tem em conseguir vitórias maioritárias. Alguma coisa está a falhar na mensagem política e nas ideias que o PS tem para Portugal porque a maioria dos portugueses – nenhuma sondagem o indica – continua a não lhe dar mais do que 33% ou 34% das intenções de voto.

E estão o Bloco de Esquerda e o PCP a crescer muito? Não. Os dois partidos continuam a fazer a dança das cadeiras – ora agora tenho eu mais deputados do que tu, ora agora tens tu mais deputados do que eu -, mas nunca se afastam muito da barreira dos 10%. Mais uma vez, alguma coisa estará a falhar e o mais provável é que sejam as políticas.

Que não se estranhe, por isso, o crescimento do PAN. Não apenas nestas Europeias, mas, sobretudo, nas próximas eleições legislativas. A TSF extrapolou as votações deste domingo para as legislativas de outubro e a primeira conclusão é que o PAN poderia eleger seis deputados à Assembleia da República com o resultado que teve. Três em Lisboa, dois no Porto e um em Setúbal. E porquê? Porque tem uma mensagem política que as pessoas compreendem e pela qual se interessam cada vez mais. Sobretudo os eleitores mais jovens. Isto aliado ao fator novidade, de um partido que ainda não é conotado com “o sistema”, justifica plenamente este crescimento eleitoral. E, já agora, o Livre de Rui Tavares e o Aliança de Pedro Santana Lopes elegeriam um cada um.

O pior é que, se do PAN, do Livre ou do Aliança ninguém receia – para já – qualquer fenómeno de populismo, as elevadas taxas de abstenção que se têm verificado não deixam de ser um ecossistema perfeito para outros partidos, menos recomendáveis, se alimentarem e progressivamente fazerem o seu caminho. A mesma extrapolação da TSF dos resultados das Europeias deste domingo para as legislativas de 6 de outubro dá um deputado para o Basta de André Ventura. É um mero exercício académico, bem sei, mas suficientemente importante para obrigar todos os responsáveis políticos e todas as instituições que têm a obrigação de garantir a nossa democracia a refletirem e a tomarem medidas urgentes. Caso contrário, quando menos esperarmos, deixamos de ser um país livre de radicalismos e de populistas bacocos.