As pessoas não votam porquê?

(Anselmo Crespo, in Diário de Notícias, 27/05/2019)

Anselmo Crespo

Há países onde os extremismos crescem e o populismo toma conta dos Estados. Em Portugal, ficamos todos muito contentes porque estes fenómenos não vingam. Porque os PNR desta vida são praticamente irrelevantes do ponto de vista eleitoral. Ou porque André Ventura não ficou sequer perto de ser eleito. Mas há uma ameaça muito maior à nossa democracia à qual não estamos a dar a atenção devida: a abstenção.

Foi ela a grande vencedora destas eleições europeias. Quase 70% de abstenção é uma vitória com maioria absoluta, o que significa que a legitimidade dos nossos eleitos é hoje muito menor do que era. O que significa um divórcio dos eleitores com os seus eleitos, que pode ter consequências catastróficas para a nossa democracia.

Importava, por isso, que os líderes políticos que falaram na noite eleitoral deste domingo estivessem conscientes de que ninguém ganhou e todos perderam. Que em vez de se abrirem garrafas de champanhe por causa de pouco mais de um milhão de votos, se refletisse sobre os motivos que levaram mais de sete milhões de portugueses a ficarem em casa ou a irem para a praia e a faltarem a um dever cívico. Há uma reflexão profunda a fazer e não é apenas na forma como se fazem campanhas eleitorais em Portugal. É também na forma como se faz política.

Rui Rio tem razão quando defende que é preciso repensar o modelo das campanhas e de comunicação dos partidos. Mas, para isso, é preciso que os partidos políticos tenham nos seus quadros gente nova, qualificada, séria e capaz de construir a disrupção de que todos eles andam à procura. Ora, o PSD consegue ser um dos piores exemplos de comunicação política que existe atualmente no país. Não só pela mensagem equívoca e permanente, mas, sobretudo, pelas escolhas que o próprio Rui Rio fez. Basta lembrar a figura de Rodrigo Gonçalves, um cacique da política rasteira que integrou a equipa de comunicação do presidente social democrata e que acabou por se demitir recentemente, na sequência de uma notícia do DN sobre a existência de perfis falsos nas redes sociais do PSD.

Nada que não exista – a política rasteira -, de forma mais ou menos evidente, noutros partidos políticos em Portugal, a começar pelas intervenções tantas vezes patéticas de deputados nas redes sociais, que gastam grande parte do seu tempo em discussões de baixa política e a destilar ódio. Tudo isto faz parte da forma como os partidos comunicam com os seus eleitores. Tudo isto afasta as pessoas das urnas.

Mas, para além da forma como comunicam, há uma outra reflexão ainda mais profunda a fazer sobre as elevadas taxas de abstenção: o conteúdo – ou a falta dele – da mensagem política que, claramente, não está a chegar às pessoas. E isso não é apenas evidente nos partidos de centro-direita (PSD e CDS), que, nos últimos quatro anos, a cada eleição, perdem mais eleitorado.

É também óbvio na dificuldade que um Partido Socialista, depois da crise, depois do défice quase a zero, depois de uma taxa de desemprego que desceu, tem em conseguir vitórias maioritárias. Alguma coisa está a falhar na mensagem política e nas ideias que o PS tem para Portugal porque a maioria dos portugueses – nenhuma sondagem o indica – continua a não lhe dar mais do que 33% ou 34% das intenções de voto.

E estão o Bloco de Esquerda e o PCP a crescer muito? Não. Os dois partidos continuam a fazer a dança das cadeiras – ora agora tenho eu mais deputados do que tu, ora agora tens tu mais deputados do que eu -, mas nunca se afastam muito da barreira dos 10%. Mais uma vez, alguma coisa estará a falhar e o mais provável é que sejam as políticas.

Que não se estranhe, por isso, o crescimento do PAN. Não apenas nestas Europeias, mas, sobretudo, nas próximas eleições legislativas. A TSF extrapolou as votações deste domingo para as legislativas de outubro e a primeira conclusão é que o PAN poderia eleger seis deputados à Assembleia da República com o resultado que teve. Três em Lisboa, dois no Porto e um em Setúbal. E porquê? Porque tem uma mensagem política que as pessoas compreendem e pela qual se interessam cada vez mais. Sobretudo os eleitores mais jovens. Isto aliado ao fator novidade, de um partido que ainda não é conotado com “o sistema”, justifica plenamente este crescimento eleitoral. E, já agora, o Livre de Rui Tavares e o Aliança de Pedro Santana Lopes elegeriam um cada um.

O pior é que, se do PAN, do Livre ou do Aliança ninguém receia – para já – qualquer fenómeno de populismo, as elevadas taxas de abstenção que se têm verificado não deixam de ser um ecossistema perfeito para outros partidos, menos recomendáveis, se alimentarem e progressivamente fazerem o seu caminho. A mesma extrapolação da TSF dos resultados das Europeias deste domingo para as legislativas de 6 de outubro dá um deputado para o Basta de André Ventura. É um mero exercício académico, bem sei, mas suficientemente importante para obrigar todos os responsáveis políticos e todas as instituições que têm a obrigação de garantir a nossa democracia a refletirem e a tomarem medidas urgentes. Caso contrário, quando menos esperarmos, deixamos de ser um país livre de radicalismos e de populistas bacocos.


5 pensamentos sobre “As pessoas não votam porquê?

  1. Como está farto de saber,as pessoas votarsm bem mais agora do qur nas anteriores europeias.
    Mas que rsio de vonversa será a sua?

  2. A nossa democracia ja nao é tao jovem quanto isso. Mas infelizmente o neonatal cresceu torto, e com ele toda uma camada de profissionais da politica que dela se aproveitou indevidamente. Assim o eleitor cheio de esperança no novo modelo que o Estado Novo proibiu, numa simples geraçao perdeu toda a fé no sistema. So uma democracia corrupta (como a nossa ou como a brasileira) gera Bolsonaros, e na minha humilde opiniao também em Portugal vai aparecer um. Foram e sao muitos os casos de corrupçao e impunidade politica que afastaram os eleitores, e é normal escutar em qualquer lugar publico a expressao “os politicos sao todos iguais o que eles querem é mama”. Neste contexto os eventuais eleitores sabem que nada muda ou vai mudar com o seu voto, porque seja quem for que seja eleito vai esquecer o mandato popular que o elegeu e engordar-se a ele à familia e amigos. Para que algo mude (e ha exemplos sobretudo nos paises nordicos) o politico tem que vestir a camisola do partido mas sobretudo do pais. Nao pode ter o salario que tem e muito menos poder mexer nele, nao pode ter as mordomias que tem, e tera que existir uma severa lei de incompatibilidades com penas mais severas ainda que trave, evite, ou elimine o trafico de influencias e as cedencias, ou seja a promiscuidade que existe entre os poderes politicos économico e judicial. O zé nao é parvo e ja entendeu o que é a politica neste rectangulo à beira-mar plantado. Assim nao é a forma nem o conteudo da mensagem que falha. Quem falha sao os politicos como pessoas dignas e de bem.

  3. Pois é, os políticos são todos uns bandidos. Os que se estão marimbando para os deveres cívicos, que preferem a praia, ou, o que quer que seja, em vez de irem fazer essa coisa chata que é votar. Que vivem de dedo apontado aos outros mas, que pouco ou nada fazem pelo país. Esses são os coitadinhos, deste país que, foi sempre de “coitadinhos”. Sabe que mais, Snr jornalista? Vá bardamerda.

  4. Nada de novo na ocidental praia lusitana

    O atual modelo de representação é democrático? NÃO, de todo

    E, qualquer debate que considere o atual modelo como democrático, está condenado a esbracejar dentro de um poço de água podre

    Onde todos podem votar mas só alguns e, indiretamente são eleitos, através de partidos, oligarquias, igrejas laicas, mafias como preferirem, a democracia não existe. A não ser que se pretenda cingi-la à possibilidade de dizer cobras e lagartos do poder sem ter uma pide a bater à porta. O que é muito , muitíssimo curto.

    Qualquer safardana que consiga manter os sapatos do chefe partidário bem reluzentes pode ter a vida facilitada, com abertura a cargos, rendas vitalícias e portas escancaradas para nomeações, mordomias, esquemas corruptos…

    Qualquer tipo ao ser legitimado numa romaria eleitoral pode, de imediato, proceder às mais evidentes alarvices porque a populaça que o elegeu não tem meios de o mandar bugiar. O referendo só existe, na realidade quando as oligarquias o decidem e, o seu regime é um verdadeiro tratado de manigâncias anti-democráticas, de truques para impedir que hajam referendos propostos pela plebe.

    As diferenças entre os membros das listas que são eleitos – no caso da AR – e os que lá irão manter as cadeiras sem pó, é imensa. Ninguém liga a isso mas, de facto é uma burla pois as pessoas votaram numa lista, os eleitos foram uns que desandaram para várias outras funções e quem vai exercer a “representação” são as segundas linhas, por regra mais nabos e mais ineptos.

    Qualquer mandarim – no caso das autarquias após três mandatos – tem de mudar de ares para continuar a sua vida de mandarim. Vai para o governo, para uma empresa onde o Estado ou a autarquia o possa colocar, para uma Área Metropolitana ou Comunidade Intermunicipal, ou renascer numa outra autarquia

    A constituição do governo é feita com indivíduos avulsos, na maior parte dos casos sem serem objeto de qualquer eleição, mesmo no modelo atual, em que as eleições são paródias. Na realidade, a votação para a AR, determina muito pouco a constituição do governo

    E, para terminar, a figura do PR não passa de uma reminiscência monárquica, vista como a figura de um pai, um protetor, como o czar da santa Rússia; e, como este último, uma figura cara e inútil. O fabuloso Cavaco tinha 31 assessores e, certamente o melhor deles era o “assessor do cônjuge”! O avatar atual não sei quantos tem mas não terá um do cônjuge. O PR continua a ser uma reminiscência monárquica para dar uma referência patriarcal a um povo de analfabetos, como era em 1910

    Nas autarquias, o número de vereadores mais parece uma assembleia e não um executivo; e a assembleia municipal é um areópago que nem sequer pode demitir ninguém do executivo

    Vejam a pompa e as mordomias do Tribunal constitucional

    Num modelo de representação democrático quem elege tem o direito de retirar o mandato atribuido. Pois…
    O exercício da representação é um dever de cidadania a que todos podem e devem aceder, de forma tão dedicada como transitória. Porém, o que temos é um bando de oligarcas, instalados, inchados na sua majestade e, na sua maioria, trastes e ignorantes

    O modelo de representação é uma palhaçada. Se tiverem paciência vejam o que escrevi, anos atrás sobre esses temas.

    Sobre a figura de um PR
    http://grazia-tanta.blogspot.pt/2016/01/presidente-da-republica-figura.html
    Sobre a AR
    http://grazia-tanta.blogspot.pt/2015/08/sobre-constituicao-crp-uma-assembleia.html
    A Constituição (CRP) e alguns dos seus princípios oligárquicos
    http://grazia-tanta.blogspot.pt/2015/08/sobre-constituicao-crp-uma-assembleia.html
    Para os municípios
    http://grazia-tanta.blogspot.pt/2015/05/um-modelo-democratico-para-os-municipios.html
    e há mais…

    Think big, meus caros
    VL

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