Uma vitória que não parece “poucochinho” num cenário que pouco muda

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 26/05/2019)

Daniel Oliveira

Como nota prévia, a abstenção. A comparação com 2014 é enganadora. É verdade que a abstenção, há cinco anos, foi de 66,2% e este ano foi de 69%. Mas a verdade é que até votaram mais eleitores. Por uma razão: o registo dos emigrantes que vivem noutros países europeus é automático, o que correspondeu a um aumento de um milhão pessoas nos cadernos eleitorais (emigrantes), aumentando assim a base eleitoral e, por consequência, a taxa de abstenção. Para o que realmente interessa, a abstenção não aumentou de forma significativa. A abstenção é um excelente retrato do nosso europeísmo acrítico. Somos euroabstencionistas. Mas é a verdade é que fazemos parte do clube dos mais abstencionistas. Tenho uma tese sobre isso: nada se joga aqui. Em muitos países europeus, houve, por causa da extrema-direita, uma dramatização que levou mais gente às urnas.

Antes de tudo, temos de decidir o que é vencer ou perder nestas eleições. Uma parte é psicológica – não é nada irrelevante na política –, outra é importante para os efeitos que tem na vida político-partidária, outra é real no campo em que estas eleições acontecem: a Europa. Comecemos pela primeira. E socorro-me do excelente texto (https://expresso.pt/opiniao/2019-05-23-Europeias-o-que-e-ganhar-e-perder–para-nao-se-deixar-enganar–1 ) preparatório deste dia feito pelo David Dinis, escrito na última quinta-feira, que é um bom guia não adaptado aos resultados quando eles já se conhecem.

Nas Europeias de 2014, o PS teve 31,5%, pouco mais de um milhão de votos – nas legislativas seguintes, em outubro de 2015, teve 32,3%, tendo ficado atrás da coligação de direita. Nas últimas europeias, o PS ficou quatro pontos percentuais acima do PSD e do CDS e António Costa considerou isso “poucochinho”. Se somarmos a votação do PSD e do CDS temos um resultado da direita de 28,5%. Se ainda lhe juntarmos a Aliança, que é uma cisão do PSD, fica com 30%. No cenário mais simpático, o PS ficou cinco pontos acima da votação do universo que correspondia à coligação de há quatro anos. No mais antipático ficou apenas 2,5. Apesar do mau resultado da direita, não me parece que o PS tenha motivos para fazer uma festa de arromba. A diferença é a mesma que levou Costa a falar de “poucochinho”. Mas como estamos a falar de sensações…

Como a direita concorreu em conjunto nas últimas legislativas e europeias, só em conjunto pode objetivamente ser avaliada. É verdade que o PSD e o CDS tinham tido 27,7%, cerca de 900 mil eleitores. Tinham sete eurodeputados (seis para o PSD e um para o CDS). Mas não podemos ignorar que, nessas eleições, Marinho Pinto teve 7%. Um ano depois a PàF conseguiu 38,5%, que já eram uma grande queda em relação às eleições anteriores. Como recordou David Dinis, o pior resultado do PSD sozinho em europeias foi de 31,1%, em 1999, e a última vez que concorreu sozinho, em 2009, teve 31,7%. Os 22,5% são uma derrota evidente. Uma pesada derrota, na realidade.

Quanto ao CDS, a última vez que foi a europeias sozinho, em 2009, teve 8,4%. As outras vezes que concorreu sozinho foi em 1999 (8,2%), em 1994 (12,5%), em 1989 (14,2%) e em 1987, quando houve eleições legislativas simultâneas (15,4%). Manteve o eurodeputado eleito mas, com 6%, tem um resultado catastrófico. O que tivemos nestas eleições foi uma deslocação de votos para a esquerda. E o CDS ficou comprido num discurso radicalizado que não conseguiu segurar os eleitores. PSD e CDS podem ter sido punidos, numa eleição que mobiliza os mais convictos, os professores podem ter contado.

O Bloco teve 4,5% nas últimas europeias, com cerca de 150 mil votos. Só tinha conseguido eleger Marisa Matias. No entanto, este resultado aconteceu num momento extraordinariamente mau para o BE. Nas legislativas seguintes teve 10,2%. O melhor resultado do Bloco em Europeias foi em 2009, com 10,7%. O Bloco é, com o PAN, o maior vitorioso desta campanha. Teve 9,7%, elegeu dois deputados e isto foi um sinal fortíssimo para as próximas eleições.

Já a CDU foi o oposto. Teve um resultado especialmente bom em 2014: 12,7% e mais de 400 mil votos. Em termos de votos, quase o mesmo que teve nas legislativas (pouco menos de 450 mil), que corresponderam a 8,25% O mais importante no PCP, que sofre menos com a abstenção, são os votos. Um mau resultado nas europeias é um péssimo sinal para as legislativas. Teve 6,6% e perdeu um deputado. É verdade o que diz o PCP: o extraordinário resultado de 2014 teve relação com um forte sentimento antieuropeísta logo depois da intervenção da troika. As coisas são mais difíceis agora. Mas o mais importante, por razões mais psicológicas do que políticas, é a posição relativa em relação ao Bloco. Depois da perda da liderança à esquerda nas legislativas e de ter recuperado, nas últimas europeias, esse lugar, esta derrota terá fortes efeitos nos próximos meses. A estratégia de isolamento do BE, para uma “geringonça” a dois com o PCP, é cada vez mais improvável. Nunca os comunistas se meteriam em tal aventura.

Há ainda os pequenos partidos. Nas ultimas eleições, MPT (com Marinho Pinto), Livre, PAN e MRPP foram os extraparlamentares que ficaram acima de 1%. Graças ao resultado de Marinho Pinto, os partidos fora dos cinco grandes tiveram, juntos, cerca de 16% e mais de meio milhão de votos. Nestas tiveram cerca de 15%. Mas é evidente que se têm de destacar os resultados extraordinários do PAN: 5% e um eurodeputado. Tudo indica que os animalistas entraram definitivamente no cenário político português. Mas o resultado do PAN desmente a ideia de que o voto nos pequenos é a revolta de quem queria ouvir falar da Europa. O PAN foi, dos pequenos, o que menos o fez. E quem os ouviu a falar sobre o tema terá reparado que era, de todos eles, de longe, o menos preparado de todos. A diferença entre o PAN e Marinho Pinto é que o PAN, já estando na Assembleia da República, pode capitalizar isto para ser mais de um epifenómeno. Mas se este é o nosso fenómeno ecologista, estamos bem tramados. Mas é provável que o PAN venha a ser uma força importante na próxima legislatura. Talvez aquela com que o PS sonha aliar-se: uma aliança que sairia quase de borla. Como nota, Marinho Pinto, que teve direito a participar no debate dos grandes, ficou com 0,5%.

Em resumo: para o ambiente político de que precisa, o PS conseguiu o resultado que desejava, ficando bastante destacado do PSD. A verdade é que o PS tinha quatro pontos percentuais acima do PSD e do CDS juntos que, em 2014, lhe deu uma vitória “poucochinha”. Agora tem cinco. Ninguém fará esta conta e isso é que interessa.. O Bloco de Esquerda é, com o PAN, o que mais tem a festejar nesta noite, recuperando a vantagem à esquerda.

Uma vitória pessoal de Marisa Matias, que veremos se o BE consegue transportar às legislativas. A CDU fica numa situação muito difícil e a dificuldade dos comunistas mata à nascença o sonho infantil de fazer uma geringonça a dois. Não vai acontecer. O CDS talvez aprenda que a radicalização do discurso, tentada por Nuno Melo, não resulta. E o PAN, que terá um papel nas próximas legislativas, prova que não foram os temas europeus que moveram o voto de protesto. Bem exprimido, a esquerda à esquerda do PS teve 17% em 2014 e tem 16% em 2019. O PS teve 31,5% e tem 33,5%. A direita teve 28% e tem 28,5%. E um partido vindo de fora, e que serve bem a função do protesto, teve 7,% e agora tem 4,5%. Não mudou muito em cinco anos.

Depois há o impacto real que os resultados nacionais têm em Portugal, sobretudo sabendo que há eleições legislativas em outubro. Devemos ter em conta aquilo que já sabemos de europeias anteriores. Que os partidos extraparlamentares costumam ter a vida muito mais facilitada em legislativas, que não têm um circulo único e onde a pressão do voto útil é inexistente. Que o PCP, com um eleitorado mais fiel, costuma ser beneficiado em eleições onde a abstenção é maior. E que os partidos da oposição tendem a ter melhores resultados nas europeias, não sendo isso um padrão seguro. Vistos os resultados, percebemos o que andou a fazer António Costa. Não andou a falar da oposição à extrema-direita, andou a negociar com os liberais a forma destes e os socialistas poderem competir por lugares com os populares. É só sobre isso que se fala na Europa.

Nenhum destes resultados terá grande peso nos equilíbrios do Parlamento Europeu. Farei uma análise dos resultados no resto da Europa para o texto de terça-feira. Apenas uma ideia simples: que apesar do alívio absurdo a extrema-direita ganhou mais espaço, que os verdes foram os grandes vitoriosos da noite, que os conservadores caíram muito e os sociais-democratas se despenharam aparatosamente, não sendo provável que aprendam que alianças à direita os fazem perder votos para todos os lados. É provável que com os votos do partido unipessoal de Emanuel Macron chegassem para que os socialistas europeus ficassem à frente do PPE. Mas o aliado de Costa foi para os liberais. E é com eles que os socialistas falarão para conseguir lugares na luta contra os populares. As lições desta eterna cedência e incapacidade de construir um discurso próprio ficam para daqui a cinco anos, quando desaparecerem mais um pouco.

10 pensamentos sobre “Uma vitória que não parece “poucochinho” num cenário que pouco muda

  1. O Daniel está numa fase de desamor com o Costa. Fingir, sim porque ele sabe que não é igual, que ter 33% quando se está há 4 anos no governo é a mesma coisa, ou quase, que ter 31% quando se está na oposição do governo que mais austeridade infligiu aos portugueses é tratar os seus leitores como lambuzadores de gelados pela teste. São fases que o Daniel de vez em quando tem, a ver se passa rapido.

  2. Notas, várias

    Ainda um dia direi algumas outras coisas, sobre-sobre, mas.

    1. Entre os pequenos, flagelado agora pelo Daniel, ia a dizer vá-se lá saber porquê mas não é verdade!, no caso do PAN, dizia, o articulista parece não perceber que as coisas cada vez mais se passam muito para além do aparelhismo partidário em que a sua cabeça está formatada. Passam-se estas coisas ao nível das tendências, dos movimentos inorgânicos, de uma moda se por ela se identificarem as marcas de uma geração inteira. Daqui nasceu o PAN, portanto, que hoje tem um argumentário sofisticado a atirar para o indivíduo e para o interesse colectivo, exigente, que passou a exibir um excelente deputado na AR com trabalho realizado, carismático (é ver!), pelo que, simples observador me confesso, sempre considerei que o seu público tender-se-ia a multiplicar. 5,1 por cento?, seja, em minha opinião estavam à bica para elegerem um candidato low profile mas sem gaffes no cadastro. Dito isto, embora a tese não seja a do Daniel apesar da sua ser suficientemente confusa, mas considerar-se que o PAN é um qualquer voto de protesto entra no lote do disparate. Um fenómeno, que não aborda temas europeus*, glup!, e que não está em linha com os partidos ecologistas europeus congéneres? É ver a intervenção da tipa dos Grünen, ontem.

    Porra, asterisco e um desenho. Clima, ecossistema, Direitos Humanos, estilo de vida, veganismo, defesa dos animais, tudo isto e o mais que se pode acrescentar se não faz parte de uma escala global não sei o que o pensar talvez que, na cabeça do Daniel, devam ser coisas típicas de Parque Natural, do Museu do Pão, da National Geographic ou de umas tardes passadas no ZOO quando e onde se vão passear as crianças.

    2. Statement, um: o resultado do PCP é aritmeticamente mau, ponto. Não se percebe por isso, julgo mesmo que para os iniciados, o alcance do ataque à comunicação social sobre as alegadas «dimafações» (o caso dos contratos em Loures da Ana Leal da TVI, o frenesim entre camaradas, nicks e perfis anónimos na merda do Facebook apanhados pelo Expresso?). Bilis à parte e manias da perseguição idem, no entanto, considero que se há frase completamente cínica na noite eleitoral ela pertence a António Costa. Ciro-a, eu que, apesar de a ver citada, não a vi ainda esmiuçada por ninguém. Uma vitória, pá?…

    “Este resultado significa um voto de confiança no PS e assumimos este voto de confiança com humildade e profundo sentido de responsabilidade. É evidente destes resultados a derrota muito clara que o PSD e o CDS sofreram. E é também muito claro que os partidos da solução governativa que junta o PS, o Bloco de Esquerda e o PCP tiveram uma vitória na noite de hoje.”, cito.

    3. Não vi ninguém ainda, mas alguém o fará provavelmente, que analisasse algo mais complexo que é o tipo de posição negocial intransigente mantida pela Fenprof, e por Mário Nogueira, estratégia que esteve na origem do ponto de ruptura, ou de fuga?, do governo do PS aquando da birra do PM e que organizaram, não esquecer, comícios de agit-prop durante a campanha eleitoral. Encurtou o eleitorado do PS, sim e esse era o objectivo, mas benificiou quem? Pois, parece-me que não foi nem o PSD, nem o CDS, acho que não foi o PAN nem… o PCP. CGTP pós-Arménio e PCP pós-Jerónimo: visto daqui estão numa embrulhada, camaradas.

    Sinal de alarme na Soeiro, e olhem qu’este é a sério!

    4. Durante a birra de António Costa, disse-o n’A Estátua de Sal, o que a mim mais me impressionou no CDS foi e é o nível de impreparação, de leveza (!) e de ausência de substância política dos rapazes que rodeiam a Assunção Cristas quando, o que fazem num dado momento, é comparado com o que fazem perante as mesmas circunstâncias os outros partidos (no caso, na altura referia-me à posição mesmo que tardia do PSD face à do CDS). Ou seja, é simples, ponha-se com cuidado numa balança o discurso da Assunção Cristas na hora das catástrofes, escrito!, e o improviso marialva à forcado do Nuno Melo, ontem, e justo será reconhecer-se que, dali, aproveita-se… nada.

    É rever a performance do duo, deve estar algures.

    5. E, por fim, o PS. Statement, dois: 33,38 por cento e um milhão de votos não impressionam ninguém, ponto. Como nota fotogénica da noite diria que, para mim, foi algo confrangedor ver uma sala do Altis às moscas em que se distinguia uma série de anónimos e, apenas, o Duarte Cordeiro escarrapachado na cadeira a bater palmas, satisfeito e a entoar slogans. Intervenções da Ana Catarina “vitória clara” Mendes especializada em considerar-nos parvos, embora possamos adivinhar como as sondagens diárias que o PS faz deveriam estar pela hora da morte até à birra de Antonio Costa, apostamos?, discurso do Carlos César sempre a bater na tecla de quem acha que tem o Rei na barriga… dois pulpitos, dois gajos, tendo o Pedro Marques surgido amparado, mais uma vez, pareceu-me que em muletas, sexy e… sorridente.

    Mas, pergunta, e agora que fazer se se acabaram as bombas eleitoralistas, Marques Mendes dixit? Porque se acabou a dita pólvora e o que aí vem será comida requentada e este é que é o ponto, certo ou estou a ver mal a coisa?…

    • Adenda. Em estéreo isto ficou com um ponto final (sendo que as tais dimafas são «difamações»).

      […]

      … não sei o que o pensar. Talvez que, na cabeça do Daniel, devam ser coisas típicas de Parque Natural, do Museu do Pão, da National Geographic ou de umas tardes passadas no ZOO quando e onde se vão passear as crianças.

      Nota. Entretanto, o Valulupi lá continua entre cadáveres a puxar o burro e o burro a puxar por ele, coitados.

  3. “As lições desta eterna cedência e incapacidade de construir um discurso próprio ficam para daqui a cinco anos, quando desaparecerem mais um pouco.”

    Cria-se um fantasma mau e depois faz-se uma análise estilo catilinária soft segundo os desejos tão desejados que até são descritos como realidades factuais cuja análise é a descrição do desejo.
    Ainda vais bater a clarinha ao sprint, pá!.

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