O pequeno homem do castelo alto

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 10/03/2017)

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Esta semana, uma longa reportagem/documentário da SIC do jornalista Pedro Coelho (o nome é mera coincidência), intitulada “Assalto ao Castelo”, veio dar a conhecer uma parte da actuação da regulação bancária no pré e durante a queda do BES. Depois de ter visto a reportagem, começo pela moral da história: o respeitinho é muito bonito.


Recordo o que já escrevi aqui em tempos, em Agosto de 2014. Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, veio garantir que não havia perigo de falência porque o “BES está sólido” e “tem uma almofada financeira que garante a estabilidade do banco”. O mesmo Carlos, mais tarde, viria confessar que estava a vigiar um banco de esperma que, afinal, era só condicionador para cabelo.

Nesta reportagem, “Assalto ao Castelo”, há dois conceitos muitos importantes. Um é o conceito DDT – Dono Disto Tudo – e tudo indica, pelo que temos vindo a conhecer, que a sigla era correcta. O outro é o conceito de Supervisão Bancária, que é manifestamente exagerado e não faz sentido.

O conceito DDT é abrangente. Se existe Supervisão Bancária e há um DDT, obviamente também é dono da Supervisão Bancária. Não fosse assim, Salgado seria conhecido como DDTMDSB – Dono Disto Tudo Menos Da Supervisão Bancária.

Perante Salgado, e tudo o que ele representava, a Supervisão Bancária de Carlos Costa foi substituída pela Supersubserviência ao banqueiro. Carlos Costa tinha dois grandes problemas nesta sua relação com Salgado. Quando o ex-presidente do BES fazia anos, devia ser complicado saber o que oferecer a quem já tem tudo. O outro era tentar tirar alguma coisa a quem é dono de tudo.

Na reportagem “Assalto ao Castelo”, Carlos Costa é acusado de ter desconsiderado um relatório do BPI que apontava para o caos no GES. Perante os avisos de Ulrich sobre a periclitante situação do BES, o governador do Banco de Portugal terá respondido – ai aguenta, aguenta.

Em sua defesa, o governador do Banco de Portugal veio dizer o que já tinha dito aquando da comissão parlamentar pós-queda do BES: ele não tinha poder para afastar Ricardo Salgado da presidência executiva do Banco Espírito Santo. O que podia fazer era utilizar a persuasão. Se isto é verdade, qual a lógica de ter um senhor de idade, de cabelos brancos, à frente do Banco de Portugal? Se, para evitar a queda de um banco, tudo o que nos resta é persuadir um banqueiro, não faria mais sentido ter uma boazona, sexy, como governadora do BdP?

Resumindo, se estão a pensar fazer uma remodelação no Banco de Portugal, recordo que Monica Bellucci está a viver em Lisboa. Estou certo de que os olhos da Monica Bellucci serão bem mais persuasivos do que a supervisão de Carlos Costa.


TOP 5

Em castelo

1. O secretário da Habitação e Desenvolvimento Urbano de Trump, Ben Carson, disse que os escravos negros eram imigrantes que foram para os USA à procura de nova vida – e usavam grilhetas porque era o “bling-bling” daquela altura.

2. Maioria dos franceses considera a Frente Nacional um perigo para a democracia – por isso, vão votar em massa nela.

3. Actores de “The Walking Dead” estiveram em Lisboa – para promover a série e adquirir o livro de Aníbal Cavaco Silva.

4. Sérgio Monteiro sai do Banco de Portugal e passa a consultor externo – é pena, mais dois meses de salário e já tinha dinheiro para comprar o Novo Banco.

5. Trump acusou Obama de ter feito escutas na Trump Tower durante a sua campanha para a presidência dos EUA – isto é grave, porque só um sádico, para além dos discursos, se ia entreter a ouvir o que dizia Trump em casa.

Uma montanha de carácter

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 03/03/2017)

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O ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, assumiu a sua “responsabilidade política” pela não publicação de dados relativos às transferências de dinheiro para “offshores”, pedindo o abandono das suas funções actuais no CDS-PP. Acho que não chega, e vai em desterro para as ilhas Caimão.

Núncio “quis libertar o partido” a que pertence [CDS-PP] “de quaisquer controvérsias ou polémicas nesta matéria”. Se é para libertar o CDS de controvérsias, o melhor é sair do PP e inscrever-se no PSD.

Assunção Cristas veio dizer que Paulo Núncio, ao assumir a sua “responsabilidade política” pela não publicação de dados relativos às transferências de dinheiro para “offshores”, revela “uma grande elevação de carácter”. Acho que uma elevação com mais de 10 mil milhões já é considerada uma montanha. É pena não haver uma fossa das marianas de lisura para a Assunção mergulhar. Se Paulo Núncio “mostrou uma grande elevação de carácter” ao assumir responsabilidades políticas, como é que fica o carácter de quem disse que foram notícias plantadas?

Recordemos o percurso que nos leva ao topo da elevação de carácter:

1 Núncio diz que é culpa do fisco
2 Cristas diz que são notícias plantadas
3 Fisco desmente Núncio
4 Núncio demite-se do… CDS
5 Cristas diz que Núncio é de grande elevação e que Portugal deve-lhe muito.
Agora, fica a faltar a condecoração ao Núncio. Aliás, com a carrada de dinheiro que voou daqui, e como Assunção Cristas diz que Portugal deve muito a Núncio, o mínimo é dar o nome do homem ao novo aeroporto. Aeroporto Paulo Núncio, voe para paraísos.

Eu mandei um e-mail para agradecer ao Doutor Núncio tudo o que fez por nós mas, infelizmente, tenho um “bug” no sistema informático e ele não recebeu a informação. Sendo assim, se a senhora Assunção não levar a mal, se calhar, vou deixar os agradecimentos ao Núncio para a semana, porque agora estou ocupado a agradecer ao Miguel Macedo o negócio dos Vistos Gold. Seja como for, em 2016, Núncio foi considerado personalidade do ano da Associação Portuguesa de Fundos de Investimento, Pensões e Património. Se calhar, já lhe agradeceram o suficiente.

Em Dezembro, num artigo no jornal online Eco, Paulo Núncio escrevia: “O Natal convoca-nos a perspectivar a nossa vida e a hierarquizar as nossas prioridades” – e passaram quatro quadras natalícias e ele não foi capaz de pôr no topo da hierarquia das suas prioridades as transferências para “offshores”. Tem uma desculpa, estava ocupado a sortear uns Audi para premiar os cidadãos que ajudavam a evitar fugas ao fisco.

Conhecendo as prioridades de Núncio, e como o Natal é quando um homem quiser, fica a pergunta: já investigaram o sorteio dos Audi?


TOP 5

Agradecido

1. SIC: “Técnicos do Banco de Portugal defenderam saída de Salgado nove meses antes da derrocada” – Dava para o Carlos Costa ter um filho.

2. “Arrastão ‘pesca’ bomba ao largo da Nazaré” – A Nazaré tem bombas e canhões, ponham-se a pau com o Trump, ainda a confunde com a Coreia do Norte.

3. Futebol feminino bate recorde de público num jogo com 9.263 pessoas em Alvalade – Madeira Rodrigues diz que eram só 1.000.

4. “Barack e Michelle Obama vendem publicação de memórias por 60 milhões de dólares” – Rói-te, Aníbal.

5. SIC Notícias, Negócios da semana, Tiago Caiado Guerreiro – “não invistam na GGD que aquilo é para enganar velhinhas” – A seguir, anúncio cogumelo do tempo.

Contar zeros para adormecer

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 24/02/2017)

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Foi uma espécie de virar de mesa. Quando o PSD e o CDS tentavam prolongar a novela das SMS de Domingues e Centeno, surge a notícia de que houve vinte declarações de IRS que não foram fiscalizadas, e transferidas para “offshores”, no valor de dez mil milhões de euros entre 2011 e 2015. Este: “Vinte declarações no valor de dez mil milhões de euros” faz-me largar de imediato o cadáver das SMS da CGD e começar salivar de curiosidade: vinte declarações, de quem são?! Tenho mais curiosidade em saber o que raio se passou aqui do que conhecer as SMS do Domingues e do Centeno mesmo que incluíssem “nudes” da Monica Bellucci.

O antigo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, veio dizer que não teve conhecimento de falhas no tratamento dado pelo Fisco a transferências relativas a “offshores”. Já foi assim com a lista VIP das Finanças. Núncio não fazia ideia de nada. Na altura, quem se demitiu foi o director-geral da Autoridade Tributária. A lista era VIP, mas demitiu-se o mexilhão. Tenho a teoria de que o problema do Núncio foi ter andado a sortear carros. O pessoal das finanças não lhe passa cartão porque pensam que ele tem a sagacidade de uma apresentadora do Euromilhões.

Neste momento, já surge a hipótese de ter sido “um erro informático das Finanças”. Tinham demasiados zeros e a máquina das finanças só está afinada para menos. Foi feita para estar de olho, e apitar desalmadamente, em contas com dois zeros. Curioso que os alarmes soavam quando alguém espreitava as finanças dos VIP, mas adormecia com declarações de mil milhões. Provavelmente, o sistema informático adormece a contar zeros.

O CDS, partido dos contribuintes, reagiu de imediato a este escândalo, Cristas veio dizer: “O Governo plantou notícias para vir aqui fazer o número.” E que número, Dona Cristas, 10 mil milhões. Na SIC Notícias, João Vieira Pereira não pôs de parte a hipótese de notícias plantadas pelo jornal Público, dizendo que esta notícia deu jeito ao Centeno e que não sabe se foi propositado e que “não sou de teorias de conspiração, mas…”.

Resumindo, o jornalista do canal e jornal, que não revela quem são os jornalistas avençados do BES, porque são inocentes até prova em contrário, diz que coiso e tal, os seus colegas do Público, se calhar, plantaram notícias para ajudar o Governo. É também o mesmo canal onde Marques Mendes debita recados e notícias falsas ao domingo e onde andam a explorar as SMS do Centeno até ao tutano “porque é o que nós queremos ver”.

Não sei quem é o “nós”. Por mim, só queria ver tanta dedicação aos avençados dos Panama/BES como às SMS. E troco ver a declaração de rendimentos do Domingues por ver a parte da massa que fugiu voltar a casa. Eu sei, sou um anjinho, mas tenho esperanças de que o Lobo Xavier também tenha cópias de SMS com esta temática.


TOP 5

Plantado

1. Aníbal Cavaco Silva justifica o lançamento do seu livro de memórias com uma forma de prestar contas aos portugueses – Vai devolver aos portugueses o que ele e a filha ganharam com as acções do BPN.

2. Cristas vai queixar-se a Marcelo do “que se passa neste Parlamento” – Se o PR estiver ausente do país, tem de se queixar ao Ferro Rodrigues.

3. “Costa diz que assunto da CGD ‘acabou’ na segunda-feira com intervenção do PR” – Parece a minha mãe quando dizia que já não havia bolachas, mas havia.

4. Trás-os-Montes: australianos confirmam uma das maiores reservas de lítio da Europa – Com tanto lítio e temos um país de deprimidos.

5. Marquise da casa de Cavaco Silva passou a ter vidros espelhados – Também, quem é que quer ver lá para dentro?! Só se for um decorador de interiores com tendências suicidas.