O catastrofismo quotidiano

(António Guerreiro, in Público, 13/07/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

(O meu comentário a este texto não é meu. É um poema de Manuel António Pina:

“Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde”

«Os tempos não vão bons para nós, os mortos.
Fala-se de mais nestes tempos (inclusive cala-se).
As palavras esmagam-se entre o silêncio
que as cerca e o silêncio que transportam.

É pelo hálito que te conheço no entanto
o mesmo escultor modelou os teus ouvidos
e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos
fala-se de mais são tempos de poucas palavras.

Falo contigo de mais assim me calo e porque
te pertence esta gramática assim te falta
e eis por que não temos nada a perder e por que é
cada vez mais pesada a paz dos cemitérios.»

Estátua de Sal, 14/07/2018)


Em França, as lojas anunciam os saldos com uma frase que parece retirada de um canto apocalíptico ou das assombrações dos fins: “Tout doit disparaître” (tradução literal: “tudo deve desaparecer”). Se traduzíssemos para francês o regime da finitude em que mergulhou o nosso tempo, diríamos que entrámos há algum tempo em época de saldos e já estamos na fase última da “liquidação total” (também em português a linguagem da publicidade está cheia de conotações metafísicas).

Na verdade, estamos expostos a uma obsessão pelos fins, pelos declínios, pelo que se extinguiu ou está à beira de se extinguir. Não se trata propriamente de uma escatologia porque não há sequer escathon, Juízo Final. É um apocalipse sem redenção. Não me refiro ao grande medo do fim do mundo, dos oráculos e previsões a que a ideia de uma nova era geológica a que foi dado o nome de Antropoceno deu legitimidade científica (há um livro notável do antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro e da sua mulher, filósofa, Deborah Danowski, intitulado Há Mundo Por Vir?, de 2014, que é um ensaio sobre o medo e o imaginário do fim e do catastrofismo ecológico).

Refiro-me sobretudo a outros fins mais parciais. Primeiro, foi o fim das “grandes narrativas”, que deu lugar a que se falasse do “fim da arte”. Devemos esse discurso a Arthur Danto, um crítico e filósofo americano que morreu em 2013 (evidentemente, o fim da arte, para Danto, não significa que deixa de haver artistas e obras de arte).

Quase ao mesmo tempo, apareceu o livro de Fukuyama sobre o fim da História e o fim da política entrou no repertório dos lugares-comuns. Mas, entretanto, a corrida para o regime das finitudes acelerou-se e alargou-se em muitas outras direcções.

Esta exacerbação da ideia dos fins produz verdadeiros hinos zombies. Ou melhor, estamos prestes a tornarmo-nos todos zombies. A lista das nossas obsessões apocalípticas é cada vez mais vasta: há o fim do Ocidente, mas esse é já um clássico, em exibição há pelo menos um século (muito embora a sua tonalidade cultural tenha sido substituída por uma tonalidade económica).

A esse, veio acrescentar-se uma outra modalidade derivada, que é o fim da Europa. Mas a temática apocalíptica torna-se muito menos metafísica e até um pouco cómica quando se fala do fim do homem branco, do fim do macho, do fim da heterossexualidade. Estas três últimas figuras condenadas à extinção não são uma grande preocupação para os metafísicos, mas são objecto de grandes elaborações literárias. Um escritor como Michel Houellebecq deve grande parte do seu sucesso ao facto de as suas ficções narrativas configurarem um mundo onde se chegou ao fim dessas figuras.

Esta nossa obsessão pelos fins é muito desinteressante e nem sequer tem aquela beleza decadente, nitidamente kitsch e decorativa, do “alegre apocalipse” vienense, quando o Império austro-húngaro estava a ruir por todos os lados enquanto se dançava a valsa no palácio do Imperador que continuava a dirigir-se “aos meus povos”.

Imersos em tantos fins, talvez seja útil e uma boa ideia lermos um livro fundamental, uma compilação póstuma de materiais, de um antropólogo italiano, um génio tardiamente reconhecido chamado Ernesto De Martino. Chama-se La fine del mondo e, pelo subtítulo, anuncia-se como um “contributo para a análise dos apocalipses culturais”. O conceito de apocalipse cultural é um importante contributo de De Martino para os instrumentos da análise cultural e para história das ideias.

Ele chama apocalipses culturais aos momentos em que se dá uma forte sensação de perda, uma sensação que não é só física, orgânica, mas também psíquica. Eis um conceito que o nosso tempo nos convida a revisitar.

Para que serve a identidade?

(António Guerreiro, in Público, 06/07/2018)

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António Guerreiro

À  ideia, já antiga, de que as tradicionais categorias da Direita e da Esquerda perderam o poder de subsumir as diferenças de posição no espaço da representação política, sucedeu mais recentemente uma inversão de papéis, geradora de novas configurações: a Direita extrema entrou no espaço da Esquerda e esta fez o movimento inverso. Analisada de perto e com apurados instrumentos, esta reversibilidade é apenas aparente.

Mas na política, como sabemos, as aparências produzem efeitos bem reais. Um factor que tem promovido activamente a amálgama dos dois pólos opostos do espectro ideológico é o conceito de “populismo”. Expurgado de todo o rigor e disponível para as mais mistificadoras utilizações, ele tornou-se um lugar-comum do discurso político quotidiano e passou a designar coisas completamente diferentes: tanto as injunções e os incitamentos racistas e xenófobos clamados por aprendizes dos chefes carismáticos do fascismo clássico, como o cumprimento do contrato democrático e legítimo com os eleitores.

Assim, em vez de designar, como lhe competia, um estilo político, “populismo” passou a designar uma ideologia. Responsável por uma boa parte desta indefinição quanto ao que é pertença da Esquerda e o que é pertença da Direita, está uma palavra mágica, um significante-mestre, como em tempos se dizia, elevado a categoria geral, simultaneamente vazia de todo o conteúdo e aplicada às particularidades individuais.

Essa palavra é identidade. As reivindicações identitárias, que estão hoje na ordem do dia, vêm carregadas com essa ambiguidade: tanto podem ser, por exemplo, a tradução pragmática e política da teoria do género, como a matiz ideológica da extrema-direita que emergiu na Europa, nos últimos anos. A questão da identidade está por isso armadilhada e é preciso saber desactivar os seus perigosos mecanismos. É certo que a encarniçada ofensiva — às vezes com violência física à mistura — contra aquilo a que relutantes ideólogos chamam “ideologia do género” tem sido um revelador da Direita, a qual, por outro lado, também se tem mostrado, em alguns sectores, permeável a novas regras, roubando à Esquerda o terreno de uma modernidade sexual.

Mas é evidente que há usos ambíguos da questão da identidade. Ela tanto pode reenviar para uma identidade biológica, para uma noção de enraizamento, para o dado imutável (e estamos neste caso inclinados para a Direita), como para uma identidade que responde pura e simplesmente ao gesto reflexivo que consiste em perguntar: “Quem somos nós?”, sem que a resposta remeta para uma dimensão ontológica.

Do ponto de vista da Direita, a identidade significa sobretudo identificação, o que implica políticas de controle das populações, nos seus fluxos e migrações. O poder biopolítico, tal como Foucault o definiu, está ligado a estes dispositivos de controle das populações, ao serviço de uma noção de identidade que atribui às nações uma condição orgânica (e, de maneira análoga, fixa a identidade de género na condição do sexo biológico).

Já as políticas identitárias de Esquerda são de natureza diferente: não procedem pela exclusão, mas pelo reconhecimento, não pela negação ou limitação dos direitos dos outros, mas pela reivindicação dos mesmos direitos. Mas esta é uma maneira simples e esquemática de explicar as coisas. Elas revelam-se sempre muito mais complicadas e uma prova disso é que o discurso identitário, à Esquerda e à Direita, está cheio de derivas, hesitações, ambiguidades. Por isso é que, em matéria de ordem sexual e de género, uma Esquerda aparentemente muito progressista facilmente faz o jogo de uma Direita sexualmente conservadora.

 

Pseudo-Ernesto e os Professores

(António Guerreiro, in Público, 29/06/2018)

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António Guerreiro

Quase ao mesmo tempo em que o jornalista João Miguel Tavares se aplicava a responder a uma pergunta tormentosa formulada no título de um dos seus textos recentes, “Porque é que os professores irritam tanta gente?”, uma revista francesa feita maioritariamente por gente irritante – professores e “cientistas sociais”, que uma convenção da escrita jornalística costuma colocar entre aspas – acolhia um jornalista do Le Monde para responder a uma pergunta de flagelo: “Porque é que os jornalistas são tão detestados?”.

O demónio da simetria deve ter alguma responsabilidade neste confronto telepático. No seu exercício reflexivo, o jornalista francês apontava quatro factores para explicar a irritação clamorosa que os jornalistas provocam: 1º) a imagem dos jornalistas está completamente identificada com a imagem dos políticos, o que é um fenómeno novo na história do jornalismo, e ambas as classes são vistas como fazendo parte do mesmo mundo, dito justamente “político-mediático”; 2º) os jornalistas são assimilados às elites; é uma “assimilação paradoxal”, um erro que se foi propagando pelo discurso livre da opinião, diz o jornalista do Le Monde, porque mais de 90% deles  “estão muito distantes das elites”, em todos os planos: “no estatuto social, nos recursos financeiros, na formação cultural”; a pequeníssima percentagem de stars que serve o regime do espectáculo mediático tem um poder de amplificação e irradiação tão grande que não há mais brilho que se veja; 3º) a representação negativa dos jornalistas enquanto mensageiros das más notícias e anunciadores de um mundo cheio de tragédia, crise e infelicidade, sendo muito embora inerente à profissão, acentuou-se e ganhou no nosso tempo uma dimensão quase demagógica; 4º) graças à evolução das novas tecnologias, os jornalistas tornaram-se cúmplices desse novo edifício político que é a “democracia da opinião”, o discurso moral e prescritivo, o triunfo do imediato, a submissão às tonalidades emotivas. Acumulando estes quatro factores, escreve o jornalista do Le Monde, “chega-se a uma imagem da profissão jornalística que se parece com o carregar uma cruz”.

Recuemos, incitados pela maldita simetria: nos anos 70 do século passado, Ivan Illich concebeu o projecto utópico de “descolarizar” a sociedade (o objecto da sua irritação não eram os professores); mais de 70 anos antes, um outro austríaco, Karl Kraus, tinha encetado uma luta mortal pela “desjornalização” da sociedade (o objecto da sua irritação eram mesmo os jornalistas).  Avancemos agora para o epílogo: alguns dias depois de João Miguel Tavares ter colocado a magna questão, um outro jornalista desta casa escreveu uma crónica sobre a escola partindo da personagem de um livro e de um filme de Marguerite Duras, Ernesto, que ao chegar a casa depois do primeiro dia de escola declara à sua mãe: “Não voltarei à escola porque na escola ensinam-me coisas que eu não sei”. Na versão do autor da crónica, Ernesto teria dito que não voltaria à escola porque os professores só lhe ensinavam o que ele já sabia. O equívoco é inocente, provavelmente o filme tinha sido visto há muito tempo e a memória atraiçoa. Mas em abono de uma simetria recorrente, apraz-me pensar que à pergunta do jornalista João Miguel Tavares deu Vítor Belanciano uma resposta competente, embora involuntária, ao retirar à recusa de Ernesto todo o seu sentido filosófico.

Os professores irritam, acima de tudo porque têm uma missão impossível (Freud desenvolveu a questão da “impossibilidade” que caracteriza todo o ensino). Que pena João Miguel Tavares não se chamar Ernesto!