Para que serve a identidade?

(António Guerreiro, in Público, 06/07/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

À  ideia, já antiga, de que as tradicionais categorias da Direita e da Esquerda perderam o poder de subsumir as diferenças de posição no espaço da representação política, sucedeu mais recentemente uma inversão de papéis, geradora de novas configurações: a Direita extrema entrou no espaço da Esquerda e esta fez o movimento inverso. Analisada de perto e com apurados instrumentos, esta reversibilidade é apenas aparente.

Mas na política, como sabemos, as aparências produzem efeitos bem reais. Um factor que tem promovido activamente a amálgama dos dois pólos opostos do espectro ideológico é o conceito de “populismo”. Expurgado de todo o rigor e disponível para as mais mistificadoras utilizações, ele tornou-se um lugar-comum do discurso político quotidiano e passou a designar coisas completamente diferentes: tanto as injunções e os incitamentos racistas e xenófobos clamados por aprendizes dos chefes carismáticos do fascismo clássico, como o cumprimento do contrato democrático e legítimo com os eleitores.

Assim, em vez de designar, como lhe competia, um estilo político, “populismo” passou a designar uma ideologia. Responsável por uma boa parte desta indefinição quanto ao que é pertença da Esquerda e o que é pertença da Direita, está uma palavra mágica, um significante-mestre, como em tempos se dizia, elevado a categoria geral, simultaneamente vazia de todo o conteúdo e aplicada às particularidades individuais.

Essa palavra é identidade. As reivindicações identitárias, que estão hoje na ordem do dia, vêm carregadas com essa ambiguidade: tanto podem ser, por exemplo, a tradução pragmática e política da teoria do género, como a matiz ideológica da extrema-direita que emergiu na Europa, nos últimos anos. A questão da identidade está por isso armadilhada e é preciso saber desactivar os seus perigosos mecanismos. É certo que a encarniçada ofensiva — às vezes com violência física à mistura — contra aquilo a que relutantes ideólogos chamam “ideologia do género” tem sido um revelador da Direita, a qual, por outro lado, também se tem mostrado, em alguns sectores, permeável a novas regras, roubando à Esquerda o terreno de uma modernidade sexual.

Mas é evidente que há usos ambíguos da questão da identidade. Ela tanto pode reenviar para uma identidade biológica, para uma noção de enraizamento, para o dado imutável (e estamos neste caso inclinados para a Direita), como para uma identidade que responde pura e simplesmente ao gesto reflexivo que consiste em perguntar: “Quem somos nós?”, sem que a resposta remeta para uma dimensão ontológica.

Do ponto de vista da Direita, a identidade significa sobretudo identificação, o que implica políticas de controle das populações, nos seus fluxos e migrações. O poder biopolítico, tal como Foucault o definiu, está ligado a estes dispositivos de controle das populações, ao serviço de uma noção de identidade que atribui às nações uma condição orgânica (e, de maneira análoga, fixa a identidade de género na condição do sexo biológico).

Já as políticas identitárias de Esquerda são de natureza diferente: não procedem pela exclusão, mas pelo reconhecimento, não pela negação ou limitação dos direitos dos outros, mas pela reivindicação dos mesmos direitos. Mas esta é uma maneira simples e esquemática de explicar as coisas. Elas revelam-se sempre muito mais complicadas e uma prova disso é que o discurso identitário, à Esquerda e à Direita, está cheio de derivas, hesitações, ambiguidades. Por isso é que, em matéria de ordem sexual e de género, uma Esquerda aparentemente muito progressista facilmente faz o jogo de uma Direita sexualmente conservadora.

 

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