O paradoxo da Rainha Vermelha

(António Guerreiro, in Público, 02/08/2019)

António Guerreiro

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Um dos grandes paradoxos do nosso tempo consiste no seguinte: as novas tecnologias e o desenvolvimento da inteligência artificial deveriam ter diminuído consideravelmente o volume e o horário de trabalho humano — ao ponto de se ter chegado a projectar o fim da sociedade do trabalho —, mas o que se passa é que as pessoas trabalham cada vez mais. E muitos são aqueles que se queixam de que o horário de trabalho estabelecido por contrato se tornou uma ficção porque ninguém regressa a casa enquanto houver tarefas urgentes a cumprir. A categoria do “proletário”, nas suas representações políticas, pertence ao passado, mas na verdade deu-se uma proletarização que atinge até as profissões liberais (os professores são um bom exemplo).

Em 1858, num célebre Fragmento sobre as máquinas que faz parte da Introdução à Crítica da Economia Política, Marx colocou uma hipótese que só em tempos recentes suscitou uma grande atenção, tendo sido mesmo considerada “espantosa”, na medida em que parece não estar nada sintonizada com os fundamentos do marxismo. Essa hipótese é a de que a “lei do valor”, que estabelece uma equivalência entre o valor de uma mercadoria e a quantidade de trabalho que nela está investida, será ultrapassada por um sobrevalor que é o do conhecimento e da inteligência, num sentido muito próximo daquilo a que hoje chamamos “informação”, a que Marx dá o nome de “General Intellect” (ele utiliza a expressão em inglês). Segundo esta hipótese de Marx, as máquinas iriam tornar-se tão eficazes e produtivas que os homens ficariam libertos de todo o trabalho maquinal de produção de mercadorias e iriam aumentar ainda mais o conhecimento, a inteligência colectiva, que, por sua vez, faria aumentar a riqueza global. Um “cérebro humano colectivo” seria a figura de um novo e imenso poder.

Marx estava, no entanto, consciente de que não adviria daí o Paraíso e anteviu que as potencialidades do “General Intellect” — produzir muito mais com muito menos trabalho — iria fazer crescer exponencialmente a actividade económica e, por conseguinte, também a energia requerida e a extensão do território explorado, até ao ponto em que não não haveria — e, de facto, já não há — nenhum recanto isento e exterior a esta lógica.

Ele intuiu que se daria um fenómeno que outros, recorrendo a uma personagem de Alice do Outro Lado do Espelho, vieram a chamar o “paradoxo da Rainha Vermelha”, que se traduz desta maneira: é preciso correr cada vez mais depressa para permanecer no mesmo lugar. Este paradoxo contém tanto a explicação para o aumento do trabalho, quando estava prometido o contrário, como a explicação para o facto de que a velocidade da degradação a que está sujeito o ambiente é sempre superior à velocidade da informação sobre o estado da degradação.

A ideia marxiana do “General Intellect”, de um “cérebro mundial”, serviu de inspiração a um “cibercomunismo” de extracção tecno-hippie, a que um filósofo chamado Mark Alizart chamou “criptocomunismo” e para o qual actualizou uma célebre formulação leninista: “criptocomunismo é os sovietes mais o wi-fi”. Somos, assim, remetidos para um passado cheio de esperanças e promessas, quando um grupo de hippies lançou, no final dos anos 60, uma revista que se pretendia visionária e de contracultura — de que fala Mark Alizart no seu livro sobre o criptocomunismo — chamada Whole Earth Catalog, que misturava cibernética, ecologia e socialismo.

Meio século depois, somos obrigados a verificar que houve um excesso de optimismo. A Internet, com todas as suas vantagens, também permitiu que se erguesse uma sociedade de controle, nos antípodas dos sonhos libertários, e fez prosperar monopólios colossais (comerciais, publicitários, reticulares) que condicionam fortemente a democracia.

A grande utopia do diálogo intercultural degenera cada vez mais em conflitos identitários e indignação que se alimenta em circuito fechado. E até aquilo a que se chamou, com imensa alegria e benevolência, “economia de partilha” caiu rapidamente sob o domínio de um “capitalismo cognitivo” que soube apropriar-se de trabalho grátis. Por isso é que se trabalha cada vez mais e uma nova escravatura está em marcha — aqui mesmo, diante de nós — para o bem-estar da economia mundial.

O Shakespeare dos zulus

(António Guerreiro, in Público, 26/07/2019)

António Guerreiro

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E de repente, a imaginária literatura dos zulus – coisa tão inexistente como as narrativas míticas na cultura erudita da Europa iluminista – reaparece como um zombie, subtraído por João Miguel Tavares ao eterno descanso a que tinha direito, para servir de prova de que há culturas superiores e inferiores. “Não é por acaso que não foi um zulu a escrever Romeu e Julieta”, disse ele, na sua primeira invocação do povo zulu, à qual se seguiu uma réplica: “De facto, a literatura zulu é inferior à literatura britânica”.

Esta invocação da literatura zulu tem um autor e uma história antiga que João Miguel Tavares omitiu, reduzindo um longo e sério debate a um apêndice anedótico com traços de caricatura grosseira. A história é esta: em 1988, numa entrevista ao The New York Timeso escritor americano Saul Bellowdisse ou terá dito (há algumas incertezas quanto à fidelidade da citação): “Who is the Tolstoy of the Zulus? The Proust of the Papuans? I’d be glad to read them”. A frase gerou uma enorme controvérsia, foi discutida ao mais alto nível do pensamento sobre o multiculturalismo e tornou-se, para o seu autor, uma vexata quaestio a que ele quis pôr termo, em Março de 1994, num artigo publicado no The New York Times. Aí, evocava a sua formação universitária em Antropologia, para depois tentar esclarecer o “mal-entendido que ocorreu durante a entrevista”. Segundo ele, as suas palavras, “sem dúvida pedantes”, na citação publicada, foram proferidas num contexto em que estava a fazer uma distinção entre sociedades pré-literárias (isto é, não baseadas numa cultura escrita) e sociedades literárias. E acrescentava: “As sociedades pré-literárias têm, sem dúvida, o seu próprio tipo de sabedoria, e os papuas têm provavelmente uma melhor compreensão dos seus mitos do que muitos americanos têm da sua própria cultura”.

A refutação mais importante da afirmação de Saul Bellow foi feita em 1994, pelo filósofo canadiano Charles Taylor, num livro sobre o multiculturalismo. Taylor mostrou como essa frase advém da lógica do “não reconhecimento” que inflige uma ofensa e causa uma forma de opressão. Segundo Taylor, o exemplo do “Tolstói dos zulus” é arrogante e inadequado porque avalia o mérito de uma outra cultura pelos nossos padrões de excelência e, por conseguinte, é incapaz daquilo a que Taylor chama “processo dialógico” e “respeito genuíno”. O pressuposto da famosa afirmação de Saul Bellow é o de que os zulus não mostraram ainda nenhuma contribuição cultural digna de ser reconhecida (não se vislumbra que deles tenha saído até ao momento um Tolstói) e que só sairão desta situação de menoridade quando produzirem monumentos culturais comparáveis ao nosso cânone. Então — fica dito com solenidade – nós cá estaremos para os reconhecer e ler com satisfação o Tolstói deles (na versão de Saul Bellow, mas corrigida pelo próprio) ou o Shakespeare deles (na versão incorrigida de João Miguel Tavares). Trata-se, como sublinhou Charles Taylor, de uma manifestação de “arrogância racial” e de imposição de um sistema de avaliação que pretende que todas as culturas são comensuráveis, como se todas falassem a mesma linguagem. João Miguel Tavares segue exactamente este raciocínio, mas para parecer indulgente com os zulus e afastar a ideia de que substituiu o pensamento pelo preconceito acrescenta que também a literatura portuguesa é inferior à inglesa. Esta operação é falaciosa porque a literatura portuguesa e a literatura inglesa podem ser incluídas no mesmo Atlas literário, podem até ser objecto de uma “literatura comparada”, mas a “literatura zulu” não é comparável, até porque não existe enquanto “literatura” (muito embora possam existir escritores zulus). 

Omitindo a longa história do “Tolstói dos zulus”, reeditando a anedota fazendo de conta que se pode ignorar o sério debate a que ela deu lugar em várias frentes, João Miguel Tavares não se limitou a apropriar-se ilegitimamente (e sem cumprir os protocolos da citação) de uma frase, ressuscitando o registo anedótico a que ela se prestou e do qual o próprio autor, Saul Bellow, a quis resgatar alguns anos depois. Muito pior do que isso: a sua omissão tem como pressuposto a ignorância dos leitores e a ambição de que tudo seja discutido numa esfera de ignorância.


O turista exasperado

(António Guerreiro, in Público, 14/06/2019)

António Guerreiro

Sabemos que o turismo chegou à fase última da sua condição de paródia da mobilização total e, exasperado, tenta escapar ao círculo vicioso que é a lei da sua existência, quando lemos a notícia de que as expedições para subir o Evereste estão a saturar a montanha de filas de gente aventureira e de que Chernobyl, onde ocorreu uma catástrofe nuclear em 1986, é um novo lugar de atracção turística.

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Se já quase não existem as terras virgens, abertas à exploração e à descoberta, então é preciso recorrer aos redutos que já nem são um território de aventura, mas de alto risco. A analogia militar que o turismo evoca encontra aqui a sua legitimação sem reservas. A aventura, que foi outrora uma motivação fundamental do turista, consistia em sair para um lugar exterior à vida comum e procurar momentos de vida excêntrica ou extravagante. Agora, já não se trata de aventura, mas de desafio radical. Aventura era o que procuravam os jovens dos anos 50 e 60 do século passado, que renunciavam ao conforto e, hostis aos meios turísticos em fase de grande desenvolvimento, punham-se em viagem com um saco às costas e chegavam mesmo a criar artificialmente as duras condições para uma experiência singular. Sobretudo, uma experiência que lhes proporcionava a evasão do mundo dos pais, dos adultos.

Um cruzeiro gigante que atravessa, descontrolado, a Laguna e choca com Veneza, corpo contra corpo (e isto não é um modo de dizer metafórico, esta cidade está exposta a estes choques, literalmente entendidos), como aconteceu há duas semanas, não tem nada de extraordinário, faz parte do curso normal da indústria do turismo. É verdade que o acontecimento fornece imagens fotográficas que mostram ao mundo inteiro a Serenissima cidade tão vulnerável como um urso polar na nova era do Antropoceno. Mas, aí, estamos perante um desastre ocasional que muitos farão os possíveis para subtrair à lógica desastrosa que o originou, enquanto que as viagens turísticas à zona de radioactividade de Chernobyl são a fruição de um desastre ainda a ocorrer, silencioso. Quanto ao aventureiro que sobe ao Evereste, ele vê o mundo aos seus pés, mas para lá chegar passa por provações e perigos do mais elevado teor. Em todos os casos, o mundo parece completamente domesticado, atravessado de lado a lado e de baixo para cima. Este mundo completamente profano e fanérico é como que rebaixado à condição de parque de diversões. As consequências, como sabemos, é que já não há nada para ver, há apenas umas últimas coisas, perigosas, para experimentar. A Europa invadida pela “sight-seeing people” é uma coisa que, vista de fora, vista por aqueles que vêem os outros a ver, tem um lado cómico (bem sei: pode ter também um lado irritante e, quanto aos seus efeitos, pode mesmo tornar-se um mal maior), exactamente porque parece que entramos num mundo às avessas, mas todos sabemos que “a coisa a ver”, que era de uma importância decisiva para os turistas, já não existe. Existiu, de facto, para quem lia o “red book” para viajantes, que o inglês John Murray, um profeta do turismo, publicou em 1836, fazendo nele o inventário das curiosidades da Holanda, da Bélgica e da Alemanha, recomendando ao mesmo tempo os trajectos mais pitorescos.

O movimento que fez do turismo o mais importante fenómeno mundial do nosso tempo é tão poderoso que não pode admitir que o seu destino é o falhanço e que, por isso, só pode lançar-se em esforços cada vez maiores para não parar, em renovar incessantemente as suas promessas para não desacelerar.

Até onde pode chegar nas suas promessas e realizações insensatas, às vezes estapafúrdias, não se sabe. Temível seria vê-lo a regredir, porque o que ele deixa geralmente, quando desaparece, são cidades vazias e devastadas. Quem não gosta do que ele vai fazendo a tudo o que está à sua frente, também não se pode sentir feliz com o que ele deixa atrás de si. Por isso é que o melhor, ainda, é vê-lo exasperado, como ele está hoje condenado a ser, quase sempre, enquanto o resultado de todos os esforços para não desacelerar. Quem ousa hoje imaginar a situação anterior ao nascimento do turismo, quando as viagens tinham um carácter essencialmente prático?