É fatal. Quando se menciona um atleta português, seja por glórias alcançadas seja por qualquer acontecimento que o justifique, logo aparecem os especialistas em minudências – capazes de descobrir uma qualquer frase infeliz que alguém escreveu algures, há anos, ou medir o mérito pelo clube a que pertence algum atleta – , os juízes políticos, os avaliadores cromáticos – que, note-se, não parecem ter a mesma tolerância com todo o espectro de cor da pele – e, os piores, os especialistas em certidões de nascimento, os guardiões da pureza da raça, os campeões da adversativa – “sim, ganhou uma medalha, mas…”
O que é um português? É alguém que adquiriu essa condição por nascimento, por por ela poder optar sem grandes formalidades nas condições prescritas por lei, quem opta pela nacionalidade por escolha sujeitando-se ao devido processo – nem sempre fácil. É sobre estes últimos que parecem surgir as maiores reservas. Curiosamente, reservas – para não usar outras palavras mais…expressivas – vindas, as mais das vezes, de gente que parece lamentar constantemente ter nascido “neste país”. Chega-nos a ocorrer a dúvida sobre quem é mais português: o que escolheu essa condição ou o que a tem por fatalidade de nascimento.
Curiosamente, num país maioritariamente católico, parece haver pouca compreensão para quem escolhe novos caminhos, quem revê o seu projecto de vida, para quem quer começar de novo. E, em vez de ficarem satisfeitos com a escolha que os adventícios fazem do nosso país, parecem ver-lhes um defeito no facto de não serem “nativos”. Mais: parecem só descobrir-lhes esse “defeito” se a cor da pele for um pouco mais escura, facto que dá à palavra superficialidade outro nível.
Tudo isto num país que, pela sua história, devia ser um modelo de cosmopolitismo. Mas parece que o outro tinha razão: a maioria de nós não descende dos que à aventura partiram, mas dos que ficaram.
Por mim, viva Portugal na sua diversidade, vivam os que nos escolhem se vierem por bem, vivam os cosmopolitas e que deles seja o futuro.
E de repente, a imaginária literatura dos zulus – coisa tão inexistente como as narrativas míticas na cultura erudita da Europa iluminista – reaparece como um zombie, subtraído por João Miguel Tavares ao eterno descanso a que tinha direito, para servir de prova de que há culturas superiores e inferiores. “Não é por acaso que não foi um zulu a escrever Romeu e Julieta”, disse ele, na sua primeira invocação do povo zulu, à qual se seguiu uma réplica: “De facto, a literatura zulu é inferior à literatura britânica”.
Esta invocação da literatura zulu tem um autor e uma história antiga que João Miguel Tavares omitiu, reduzindo um longo e sério debate a um apêndice anedótico com traços de caricatura grosseira. A história é esta: em 1988, numa entrevista ao The New York Times, o escritor americano Saul Bellowdisse ou terá dito (há algumas incertezas quanto à fidelidade da citação): “Who is the Tolstoy of the Zulus? The Proust of the Papuans? I’d be glad to read them”. A frase gerou uma enorme controvérsia, foi discutida ao mais alto nível do pensamento sobre o multiculturalismo e tornou-se, para o seu autor, uma vexata quaestio a que ele quis pôr termo, em Março de 1994, num artigo publicado no The New York Times. Aí, evocava a sua formação universitária em Antropologia, para depois tentar esclarecer o “mal-entendido que ocorreu durante a entrevista”. Segundo ele, as suas palavras, “sem dúvida pedantes”, na citação publicada, foram proferidas num contexto em que estava a fazer uma distinção entre sociedades pré-literárias (isto é, não baseadas numa cultura escrita) e sociedades literárias. E acrescentava: “As sociedades pré-literárias têm, sem dúvida, o seu próprio tipo de sabedoria, e os papuas têm provavelmente uma melhor compreensão dos seus mitos do que muitos americanos têm da sua própria cultura”.
A refutação mais importante da afirmação de Saul Bellow foi feita em 1994, pelo filósofo canadiano Charles Taylor, num livro sobre o multiculturalismo. Taylor mostrou como essa frase advém da lógica do “não reconhecimento” que inflige uma ofensa e causa uma forma de opressão. Segundo Taylor, o exemplo do “Tolstói dos zulus” é arrogante e inadequado porque avalia o mérito de uma outra cultura pelos nossos padrões de excelência e, por conseguinte, é incapaz daquilo a que Taylor chama “processo dialógico” e “respeito genuíno”. O pressuposto da famosa afirmação de Saul Bellow é o de que os zulus não mostraram ainda nenhuma contribuição cultural digna de ser reconhecida (não se vislumbra que deles tenha saído até ao momento um Tolstói) e que só sairão desta situação de menoridade quando produzirem monumentos culturais comparáveis ao nosso cânone. Então — fica dito com solenidade – nós cá estaremos para os reconhecer e ler com satisfação o Tolstói deles (na versão de Saul Bellow, mas corrigida pelo próprio) ou o Shakespeare deles (na versão incorrigida de João Miguel Tavares). Trata-se, como sublinhou Charles Taylor, de uma manifestação de “arrogância racial” e de imposição de um sistema de avaliação que pretende que todas as culturas são comensuráveis, como se todas falassem a mesma linguagem. João Miguel Tavares segue exactamente este raciocínio, mas para parecer indulgente com os zulus e afastar a ideia de que substituiu o pensamento pelo preconceito acrescenta que também a literatura portuguesa é inferior à inglesa. Esta operação é falaciosa porque a literatura portuguesa e a literatura inglesa podem ser incluídas no mesmo Atlas literário, podem até ser objecto de uma “literatura comparada”, mas a “literatura zulu” não é comparável, até porque não existe enquanto “literatura” (muito embora possam existir escritores zulus).
Omitindo a longa história do “Tolstói dos zulus”, reeditando a anedota fazendo de conta que se pode ignorar o sério debate a que ela deu lugar em várias frentes, João Miguel Tavares não se limitou a apropriar-se ilegitimamente (e sem cumprir os protocolos da citação) de uma frase, ressuscitando o registo anedótico a que ela se prestou e do qual o próprio autor, Saul Bellow, a quis resgatar alguns anos depois. Muito pior do que isso: a sua omissão tem como pressuposto a ignorância dos leitores e a ambição de que tudo seja discutido numa esfera de ignorância.