O Shakespeare dos zulus

(António Guerreiro, in Público, 26/07/2019)

António Guerreiro

E de repente, a imaginária literatura dos zulus – coisa tão inexistente como as narrativas míticas na cultura erudita da Europa iluminista – reaparece como um zombie, subtraído por João Miguel Tavares ao eterno descanso a que tinha direito, para servir de prova de que há culturas superiores e inferiores. “Não é por acaso que não foi um zulu a escrever Romeu e Julieta”, disse ele, na sua primeira invocação do povo zulu, à qual se seguiu uma réplica: “De facto, a literatura zulu é inferior à literatura britânica”.

Esta invocação da literatura zulu tem um autor e uma história antiga que João Miguel Tavares omitiu, reduzindo um longo e sério debate a um apêndice anedótico com traços de caricatura grosseira. A história é esta: em 1988, numa entrevista ao The New York Timeso escritor americano Saul Bellowdisse ou terá dito (há algumas incertezas quanto à fidelidade da citação): “Who is the Tolstoy of the Zulus? The Proust of the Papuans? I’d be glad to read them”. A frase gerou uma enorme controvérsia, foi discutida ao mais alto nível do pensamento sobre o multiculturalismo e tornou-se, para o seu autor, uma vexata quaestio a que ele quis pôr termo, em Março de 1994, num artigo publicado no The New York Times. Aí, evocava a sua formação universitária em Antropologia, para depois tentar esclarecer o “mal-entendido que ocorreu durante a entrevista”. Segundo ele, as suas palavras, “sem dúvida pedantes”, na citação publicada, foram proferidas num contexto em que estava a fazer uma distinção entre sociedades pré-literárias (isto é, não baseadas numa cultura escrita) e sociedades literárias. E acrescentava: “As sociedades pré-literárias têm, sem dúvida, o seu próprio tipo de sabedoria, e os papuas têm provavelmente uma melhor compreensão dos seus mitos do que muitos americanos têm da sua própria cultura”.

A refutação mais importante da afirmação de Saul Bellow foi feita em 1994, pelo filósofo canadiano Charles Taylor, num livro sobre o multiculturalismo. Taylor mostrou como essa frase advém da lógica do “não reconhecimento” que inflige uma ofensa e causa uma forma de opressão. Segundo Taylor, o exemplo do “Tolstói dos zulus” é arrogante e inadequado porque avalia o mérito de uma outra cultura pelos nossos padrões de excelência e, por conseguinte, é incapaz daquilo a que Taylor chama “processo dialógico” e “respeito genuíno”. O pressuposto da famosa afirmação de Saul Bellow é o de que os zulus não mostraram ainda nenhuma contribuição cultural digna de ser reconhecida (não se vislumbra que deles tenha saído até ao momento um Tolstói) e que só sairão desta situação de menoridade quando produzirem monumentos culturais comparáveis ao nosso cânone. Então — fica dito com solenidade – nós cá estaremos para os reconhecer e ler com satisfação o Tolstói deles (na versão de Saul Bellow, mas corrigida pelo próprio) ou o Shakespeare deles (na versão incorrigida de João Miguel Tavares). Trata-se, como sublinhou Charles Taylor, de uma manifestação de “arrogância racial” e de imposição de um sistema de avaliação que pretende que todas as culturas são comensuráveis, como se todas falassem a mesma linguagem. João Miguel Tavares segue exactamente este raciocínio, mas para parecer indulgente com os zulus e afastar a ideia de que substituiu o pensamento pelo preconceito acrescenta que também a literatura portuguesa é inferior à inglesa. Esta operação é falaciosa porque a literatura portuguesa e a literatura inglesa podem ser incluídas no mesmo Atlas literário, podem até ser objecto de uma “literatura comparada”, mas a “literatura zulu” não é comparável, até porque não existe enquanto “literatura” (muito embora possam existir escritores zulus). 

Omitindo a longa história do “Tolstói dos zulus”, reeditando a anedota fazendo de conta que se pode ignorar o sério debate a que ela deu lugar em várias frentes, João Miguel Tavares não se limitou a apropriar-se ilegitimamente (e sem cumprir os protocolos da citação) de uma frase, ressuscitando o registo anedótico a que ela se prestou e do qual o próprio autor, Saul Bellow, a quis resgatar alguns anos depois. Muito pior do que isso: a sua omissão tem como pressuposto a ignorância dos leitores e a ambição de que tudo seja discutido numa esfera de ignorância.


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9 pensamentos sobre “O Shakespeare dos zulus

  1. Muito obrigado à estátua por colocar aqui textos do António Guerreiro, provavelmente o único comentador actual que merece ser lido com atenção e que muitas vezes põe o leitor a pensar. Pessoalmente, não tenho outra maneira de ler os seus textos, pois recuso assinar um jornal em que o asno do JMT é a figura de topo.

  2. «Muito pior do que isso: a sua omissão tem como pressuposto a ignorância dos leitores e a ambição de que tudo seja discutido numa esfera de ignorância.»

    Pois é, normalmente o alardear de ideias e conhecimentos literários ou políticos pelos nossos intelectuais, obreiros sem opus, não passa de copianço e plágio do que leram em revistas e jornais conceituados lá de fora onde os pensadores pensam e escrevem mesmo o que pensam sobre questões da actualidade social, política, literária, filosófica ou discorrem com autoridade intelectual sobre qualquer tipo de conhecimento.
    O intelectual de pacotilha à portuguesa tipo jmt pulula pelos jornais portugueses plagiando autores consagrados e muitas vezes até com versões incompreensíveis pois que nem sequer apreenderam a complexa ideia lida em todo o seu sentido e conceitos filosóficos.
    Quando pretendem brilhar cá dentro vão pescar lá fora algum texto muito específico e académico sempre segundo aquele pressuposto da ignorância dos leitores portugueses porque a sua normalidade corrente é opinar e tentar adivinhar o futuro como se fossem bruxos tontos.
    O nosso obreiro intelectual sem opus mínimo acerca de qualquer ramo do conhecimento fundamenta tudo sobre preconceitos adquiridos no anedotário da redacção do jornal ou cantina universitária e consequentemente opina sobre tudo com a ligeireza do taxista.
    Por cá são quase todos jmt que não nos dão ideias novas mas antes nos vendem tinta fresca todos os dias.

  3. Conheço o facies desse tal JMT mas não a obra; coisa que me não pesa na consciência
    O tipinho ainda vive no tempo da supremacia europeia, branca, de matriz cristã
    As culturas são um agregado coerente de práticas e conhecimentos que os povos sedimentam para viverem o melhor que podem, em função do espaço em que vivem, das relações que têm com outros povos; e durante milénios vigorou a tradição oral.
    Na Idade Média europeia, a população dos campos vivia em comunidades auto-suficientes tanto quanto possível e a transmissão dos conhecimentos fazia-se por tradição oral. O único que sabia ler e escrever era o padre que para se elevar junto da plebe lia e falava em latim, coisa que o povo não entendia, nem razia nada para lhes melhorar as vidas
    Na Ibéria a nora chegou vinda do norte de África e, mesmo não sendo em obra escrita melhorou bastante a vida das pessoas. Em contrapartida, o fanatismo anti-islâmico (os islâmicos estavam civilizacionalmente vários furos acima dos cristãos) empurrou para o exterior os mouros que eram os tipos mais habilidosos a tratar da terra e os artífices “industriais”. A tradição musical chamada andaluzi teve de emigrar da Ibéria para Constantinopa e Tlemcem onde contribuiu para a elevação da música do Levante e do Norte de África. Entretanto, por conta do preconceito e do fanatismo pode dizer-se que a música ibérica teve como pontos altos Afonso X o Sábio e Tomás Luís de Victoria; o resto é francamente menor e pouco entra na grande história da música europeia. O rei João V pagou para ter um dos Scarlatti a tocar para a corte.
    O flamenco que é o melhor da música popular ibérica só existe porque gerada e cultivada numa faixa segregada da sociedade. Na paróquia lusa, apesar de variada música popular com mérito – e valeu o Giacometti ter feito um levantamento – ainda se fala num tal fado como (duvidosa) canção nacional, como decretado pelo salazarismo
    PS – Os zulus, descalços, com escudos de pele e lanças, deram muito que fazer aos ingleses, com táticas militares provenientes das academias e com armas de fogo. E, creio não terem tido acesso a manuais de guerra; nem sequer o do Sun Tze que será o mais antigo do género

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