(Vasco Lemos Barreto, in Facebook, 13/10/2026, Revisão da Estátua)

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O Trump apresentou recentemente um acordo com pompa e circunstância com o Putin. O Putin ainda se deve estar a rir! Explico o porquê!
O recente anúncio de fornecimento de petróleo russo foi detalhado em fases e apresentado originalmente em toneladas métricas.
A fase inicial prevê um fornecimento imediato de 300.000 toneladas, seguida por uma entrega de 500.000 toneladas em novembro. As etapas seguintes estimam o envio de mais 1.000.000 de toneladas, com o potencial de atingir uma meta de curto prazo de até 3.000.000 de toneladas.
Mas a jogada é linda e fica-se a perceber que foi pura manobra eleitoral trumpiana. E os europeus caíram na esparrela. Muito blá-blá-blá saiu na comunicação social, mas ninguém fez as contas.
1. A Matemática Crua dos Volumes
Quando convertidos para a unidade padrão do mercado internacional, estes volumes traduzem-se em 2,2 milhões de barris na entrega imediata e 3,66 milhões de barris na fase de novembro. O lote subsequente equivale a 7,33 milhões de barris, enquanto o teto máximo projetado para o curto prazo soma cerca de 22 milhões de barris de petróleo.
Para colocar estes valores em perspetiva com o consumo diário real das maiores potências económicas, o cenário torna-se surpreendente:
Consumo da Alemanha: A maior economia europeia consome sozinha cerca de 2 milhões de barris por dia. Isto significa que a entrega imediata russa (2,2 milhões de barris) mal cobriria um único dia de consumo alemão.
Consumo da Europa: A União Europeia queima cerca de 10,5 milhões de barris diariamente. O maior volume total estimado no acordo (22 milhões de barris) seria completamente engolido por todo o continente europeu em apenas 2 dias.
Consumo dos Estados Unidos: Sendo o maior consumidor do planeta, os EUA gastam aproximadamente 20 milhões de barris por dia. Toda a soma das fases deste acordo mal conseguiria abastecer o mercado norte-americano por 24 horas.
2. O Grande Truque de Ilusionismo de Trump
Vamos pensar em misturas? Mesmo que o crude russo fosse misturado com crude americano, a percentagem de barris daria valores irrisórios pela quantidade do acordo.
O crude leve americano (WTI) é composto essencialmente por moléculas curtas. Numa destilação atmosférica direta, produz maioritariamente nafta e gasolina (cerca de 40% a 50% do barril). O rendimento natural de diesel e Jet A-1 a partir do WTI puro não passa dos 15% a 20%.
Para atingir rácios de 30% a 35%, os EUA dependem de crudes pesados como o venezuelano (atualmente entalado) ou o canadiano (cujos oleodutos já estão saturados e já são 95% das exportações canadianas portanto não dá para mais).
Com os stocks de segurança americanos a baterem mínimos históricos de apenas 21 dias de consumo e a infraestrutura saudita sob ataque, Trump percebeu que o galão de diesel ia explodir a dias das eleições. E percebeu pior: que não havia nada a fazer fisicamente, porque os prazos de transporte marítimo da Rússia e os tempos de extração e refinação garantiriam que qualquer gota de combustível só cairia no mercado muito depois das eleições.
A solução política foi contornar o mercado e negociar direto com a Rússia para criar uma ilusão analítica no povo americano. Um mero efeito psicológico para tentar acalmar a especulação financeira antes de se abrirem as urnas, tentando ganhar alguns votos perdidos. Trump sabe que se o seu partido perder demasiados votos corre o risco de impeachment.
Já basta perder grande força no Senado. Como está a aprovação do Orçamento de estado já será um pesadelo e veremos paragens em muitos sectores pela falta de carcanhol e muito pior que no ano passado. O que até pode ser a justificativa para Trump cortar uma data de bases na Europa.
3. A Raiz da Guerra e a “marosca” Europeia
Este teatro expõe a ironia de um conflito que começou quando a Europa tentou trazer a Ucrânia para a sua esfera económica, de olho nas massivas reservas locais de terras raras, metais e gás e petróleo, intrometendo-se nos interesses dos americanos que já compravam ativos locais às paletes.
Quando a Rússia percebeu o movimento, preparou-se para partir a loiça toda.
Embora Zelensky quisesse negociar logo de início quando a careca dele foi descoberta, Boris Johnson e Biden disseram que não.
A Rússia mandou uns petardos contra Kiev e rapidamente rumou precisamente aos territórios ricos em recursos que o Ocidente cobiçava. Em resposta, os europeus bloquearam a compra de petróleo e derivados russos.
O que fez a Rússia? Cortou a produção de refinados em 50% e enviou o crude Urals em massa para a Índia. Ficava com as refinarias a funcionarem a 50% mas pouco importava pois escoava crude.
Entretanto como a jogada venezuelana saiu na prática furada, Trump resolveu atacar o Irão pois achava que com o Irão controlado ganharia força para o petrodólar. Só não sonhava que os 5000 anos de história do Irão, fossem um adversário tão poderoso.
A China que reduziu o consumo de diesel por muitas razões, entre elas a passagem para o gás de grande parte da frota de camiões, e a redução de produtos de baixo valor de base petrolífera, tinha as refinarias privadas com pouca produção e as reservas cheias!
Quando o estreito é fechado pelo conflito trumpista, as refinarias indianas e as privadas chinesas (Teapots) entraram em força no negócio: processavam o petróleo russo, mudavam-lhe o carimbo para “origem asiática” e revendiam o diesel e o Jet A-1 aos europeus. Sabendo que não podia ficar sem combustível, a Europa simplesmente fechou os olhos e agradeceu a marosca indiana e posteriormente a chinesa. Ou era isso ou cortes brutais no core do funcionamento europeu.
Ao reagir ao acordo de Trump declarando orgulhosamente que manterá as sanções ao gasóleo russo, a Europa finge que não vê a realidade. O continente já compra cerca de 66% de todo o seu diesel e Jet A-1 diretamente à China e à Índia, obtidos precisamente do crude russo!
A decisão de Bruxelas de manter as aparências políticas significa apenas que os europeus aceitam pagar de bom grado a “taxa de fingimento”: fretes marítimos brutais contornando o Cabo da Boa Esperança e margens inflacionadas pela Ásia, que entretanto reduziu o processamento para puxar os preços para cima. E isto quando o custo do Urals está hoje a $120,94, muito acima do valor que a Europa queria. $60,00.
No grande teatro da energia, Washington encena um acordo de fumo por sobrevivência eleitoral imediata, a Rússia arrecada lucros com o Urals acima dos 120 dólares, a Ásia lava o produto e a Europa pune a sua própria população em nome de uma pureza moral que só existe no acordos e nos mass média.
No entanto…O mercado real não tem ideologia; tem custos. E a Europa escolheu o mais caro de todos. E o povo europeu bate palminhas de contentamento com a posição europeia. E os americanos, veremos se caem na esparrela.