(João Ferreira, in Facebook, 13/10/2026, Revisão da Estátua)

A Rússia não está só a ganhar a guerra. Já ganhou. O resto é missa da Igreja Universal do Reino dos Mirdia.
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Venho a escrever sobre isto desde 2015. E, ao longo destes anos, tenho assistido a um dos mais extraordinários espetáculos de domesticação intelectual colectiva de que tenho memória.
Não me surpreende a propaganda. A propaganda sempre existiu. Surpreende-me a quantidade de gente que, julgando possuir pensamento próprio, se limita a reproduzir aquilo que ouviu na televisão cinco minutos antes.
Os totós preferem a homilia da Igreja Universal do Reino dos Mirdia, essa extraordinária congregação de sacerdotes televisivos, analistas de conveniência e especialistas de ocasião, devidamente alinhados com a liturgia de Bruxelas e com as bênçãos da Frau Ursula von der Leyen.
Pensar tornou-se um incómodo. Questionar tornou-se uma heresia. Discordar tornou-se um pecado.
E assim nasceu um verdadeiro exército de zombies de sofá, criaturas intelectualmente domesticadas que repetem o teleprompter, aplaudem o vazio e confundem informação com conhecimento, propaganda com verdade e obediência com inteligência.
A Rússia não está a ganhar a guerra. A Rússia já ganhou.
E não estou a falar de vitórias anunciadas nos telejornais, de mapas coloridos por comentadores de ocasião ou de discursos inflamados de políticos que nunca ouviram um tiro fora de uma carreira de tiro.
Estou a falar de estratégia. De objectivos. De capacidade militar. De economia. De geopolítica. Daquilo que distingue quem compreende um conflito de quem se limita a consumir a sua representação televisiva.
A desmilitarização da Ucrânia era um dos objectivos declarados da operação militar especial russa. Mas, na minha leitura, a Rússia conseguiu muito mais do que aquilo a que inicialmente se propôs.
Porque esta guerra nunca foi, na sua verdadeira dimensão estratégica, uma simples guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Foi uma guerra entre a Rússia e a NATO, travada em território ucraniano, com soldados ucranianos e com armamento, financiamento, logística e serviços de informações ocidentais. A Ucrânia foi o campo de batalha. A NATO foi o adversário estratégico.
E o resultado, na minha perspetiva, é de uma ironia histórica extraordinária: a Rússia não se limitou a desmilitarizar a Ucrânia. Acabou por desmilitarizar também a NATO, no sentido do desgaste dos arsenais e das reservas mobilizadas para sustentar o conflito.
Aquilo que deveria ter provocado o colapso militar russo transformou-se num processo de desgaste da própria capacidade militar ocidental.
A NATO prometeu derrotar a Rússia através da Ucrânia. A minha conclusão é que a Rússia acabou por vencer a NATO através da mesma Ucrânia.
E enquanto isto acontecia, uma multidão de comentadores continuava a anunciar, com a solenidade de quem recebe revelações divinas, a derrota iminente de Moscovo.
Primeiro faltariam os mísseis. Depois as munições. Depois os soldados. Depois os tanques. Depois o dinheiro.
A Rússia estava sempre prestes a cair.
Uma falência permanente, anunciada diariamente, mas que teimava em não acontecer nos termos previstos pelos profetas de estúdio.
E a economia?
Ah, a economia!
Essa extraordinária arma de destruição maciça que Bruxelas prometeu utilizar contra Moscovo e que acabou por expor as fragilidades da própria Europa.
Anunciaram que as sanções colocariam a Rússia de joelhos. Que o rublo se transformaria em papel sem valor. Que a indústria russa entraria em colapso. Que o isolamento económico acabaria por provocar aquilo que a NATO não conseguia alcançar militarmente.
Mas a Rússia adaptou-se, reorganizou circuitos comerciais, reforçou relações com economias não ocidentais e demonstrou uma capacidade de resistência que os sacerdotes da propaganda nunca quiseram admitir.
Enquanto isso, a Europa confrontou-se com o encarecimento da energia, a pressão sobre a sua indústria, a perda de competitividade e o peso crescente das suas próprias contradições estratégicas.
Não significa que a economia russa não tenha custos, nem que todos os países europeus estejam em recessão. Significa que a promessa de um colapso rápido da Rússia falhou e que a Europa descobriu que sancionar um adversário não significa ficar imune às consequências das próprias sanções.
E que extraordinária ironia!
A Rússia, que deveria estar economicamente destruída, registou períodos de crescimento superiores aos de muitas economias europeias. A Europa, que deveria estar a celebrar a eficácia das suas sanções, viu-se obrigada a discutir preços de energia, competitividade industrial e a sustentabilidade das suas próprias opções.
Prometeram arruinar a economia russa. Conseguiram demonstrar até que ponto a economia europeia dependia daquilo que pretendiam sancionar.
E os Estados Unidos?
Aqui começa a parte verdadeiramente deliciosa desta ópera geopolítica.
Durante anos, Washington apresentou a Rússia como um adversário a isolar, um inimigo a enfraquecer, uma potência a submeter através de sanções, pressões económicas e confronto indirecto.
Mas a política internacional tem uma característica que os comentadores de sofá parecem desconhecer: os interesses não obedecem a sermões.
Quando os interesses americanos exigem pragmatismo, Washington procura pragmatismo. Quando exigem negociação, Washington procura negociação.
E quando surgem notícias ou declarações sobre a possibilidade de recorrer novamente a produtos energéticos russos, incluindo gasóleo, a contradição política merece ser escrutinada, sem transformar uma hipótese ou uma declaração numa compra comprovada.
Porque aquilo que para os europeus é apresentado como uma obrigação moral absoluta pode tornar-se, para Washington, uma questão de conveniência estratégica.
E é precisamente aqui que reside a diferença entre aliados e vassalos.
O aliado participa nas decisões. O vassalo recebe as consequências.
O aliado define interesses comuns. O vassalo adapta os seus interesses aos do senhor.
O aliado negoceia. O vassalo obedece.
E quando o senhor altera a sua estratégia, o vassalo descobre que afinal aquilo que lhe tinham apresentado como princípio inegociável era apenas uma orientação temporária.
A União Europeia, essa extraordinária construção política que tanto gosta de proclamar soberania, descobriu que a sua política externa continua profundamente condicionada pelas decisões de Washington.
Não tem uma estratégia verdadeiramente autónoma. Tem comunicados.
Não tem uma capacidade militar independente à altura das suas ambições. Tem dependências.
Não tem uma voz soberana suficientemente afirmada. Tem ecos.
E quando os interesses americanos se alteram, a Europa fica à espera de perceber qual será a próxima orientação, procurando apresentar como decisão própria aquilo que demasiadas vezes não passou de uma adaptação obediente.
Os Estados Unidos participaram decisivamente na arquitectura geopolítica que antecedeu este conflito, financiaram e armaram a resistência ucraniana e fizeram da contenção da Rússia uma prioridade estratégica.
Acusam a Rússia pela invasão de 2022, porém, negam a discussão sobre os interesses que antecederam, acompanharam e prolongaram esta guerra. Porque a geopolítica não é um concurso de virtudes. É um confronto de interesses. E os interesses dos Estados Unidos não são necessariamente os interesses da Europa.
O império não precisa de conquistar formalmente os seus vassalos. Basta convencer os vassalos de que a obediência constitui uma forma superior de liberdade. O senhor decide. O vassalo paga. E o comentador explica, com ar solene, porque razão pagar representa uma extraordinária vitória moral.
É uma arquitectura de submissão tão sofisticada que os próprios subordinados a defendem com entusiasmo.
Depois vêm as sanções, apresentadas como instrumentos infalíveis, apesar dos seus efeitos assimétricos e dos custos suportados também por quem as decreta.
Vêm as promessas de vitória, sucessivamente adiadas.
Vêm os discursos inflamados, as cimeiras extraordinárias, os anúncios históricos e os pacotes de ajuda celebrados como se cada transferência financeira representasse uma conquista militar.
E vêm, naturalmente, os especialistas.
Ah, os especialistas!
Esses extraordinários sacerdotes da evidência conveniente, capazes de anunciar o colapso da Rússia numa segunda feira e explicar, na sexta feira seguinte, porque razão a sua resistência afinal demonstra que as sanções estão a funcionar.
Nunca falham. Apenas reinterpretam os acontecimentos.
Nunca se enganam. Apenas actualizam a narrativa.
Nunca prestam contas. Limitam-se a mudar de assunto.
São profissionais da certeza retrospectiva. Sabem sempre o que aconteceu depois de acontecer, mas raramente conseguem explicar porque razão aquilo que garantiram que aconteceria nunca chegou a acontecer.
E quanto maior se torna a distância entre as previsões e a realidade, mais agressiva se torna a liturgia.
Porque o problema da propaganda não é apenas a mentira. É a construção de um ambiente intelectual onde a dúvida deixa de ser permitida.
Uma sociedade que deixa de questionar os seus próprios especialistas não está informada. Está domesticada.
Podem chamar-me louco. Podem chamar-me tudo aquilo que o vocabulário da intolerância reserva para quem se recusa a integrar o rebanho. Pouco me importa. Venho a publicar reflexões sobre este conflito desde 2015, muito antes de muitos destes comentadores terem descoberto a Ucrânia no mapa. Não reivindico infalibilidade. Reivindico o direito de pensar sem pedir autorização aos distribuidores oficiais da verdade. E mantenho a minha conclusão.
A Rússia já alcançou aquilo que considero ser a sua vitória estratégica fundamental. A Ucrânia perdeu a autonomia da sua capacidade militar e a NATO foi arrastada para um desgaste que, na minha interpretação, ultrapassou largamente os objectivos inicialmente anunciados por Moscovo.
A guerra pode continuar nos campos de batalha. Isso não me impede de considerar que o seu resultado estratégico essencial já foi determinado.
E é aqui que começa a parte mais interessante desta história.
Porque, em breve, muitos destes comentadores, analistas e especialistas começarão a desaparecer.
Não desaparecerão todos. Alguns limitar-se-ão a trocar de assunto, de estúdio, de convicções e, se necessário, de memória.
Outros retirar-se-ão discretamente quando a realidade tornar insustentáveis as homilias que durante anos venderam como análise militar, ciência política ou superioridade moral.
E talvez nem desapareçam por vergonha. Porque para sentir vergonha é necessário conservar alguma consciência crítica.
Desaparecerão porque a mercadoria que comercializavam deixará de encontrar compradores.
E ficará a pergunta que poucos terão coragem de fazer: quantos aceitaram os seus pratos de lentilhas em troca de homilias de propaganda barata, fútil e intelectualmente desonesta?
Uns receberam protagonismo. Outros receberam audiências. Outros conquistaram lugares à mesa do poder. E muitos limitaram-se a receber aquela recompensa que mais seduz a mediocridade intelectual: a possibilidade de parecerem importantes sem terem de demonstrar independência.
Tal como aconteceu com tantos comentadores do tempo da COVID.
Lembram-se? Aqueles que pareciam possuir uma linha direta com a verdade absoluta; aqueles que ocupavam horas intermináveis de televisão, distribuindo certezas, censuras morais e sentenças sobre quem ousasse formular uma pergunta inconveniente. Desapareceram todos, naturalmente. Nem tudo aquilo que disseram estava errado. Mas muitos perderam a centralidade mediática que os transformara em autoridades quase incontestáveis.
E quantos regressaram aos mesmos estúdios para confrontar, com igual solenidade, as suas previsões com os resultados? Quantos assumiram publicamente os seus erros? Quantos reconheceram que a ciência evolui, que o conhecimento tem limites e que a arrogância nunca foi uma metodologia científica?
Poucos se deram ao trabalho de prestar contas. Mudou o assunto. Mudaram os especialistas. Mudou a liturgia. A máquina continuou.
É esse o verdadeiro problema das sociedades contemporâneas ocidentais. Não é a existência de propaganda. A propaganda sempre existiu. É a facilidade com que uma sociedade que se proclama esclarecida abdica voluntariamente do pensamento crítico para consumir opiniões embaladas, certificadas e servidas à hora do jantar.
A História não costuma ser generosa com os profetas do poder quando o poder muda de narrativa.
E chegará o momento em que os mesmos que hoje proclamam certezas começarão a explicar que sempre tiveram dúvidas.
Dirão que foram mal interpretados. Que o contexto era diferente. Que as informações disponíveis eram incompletas. Que ninguém poderia prever aquilo que, durante anos, impediram os outros de discutir.
E os pratos de lentilhas terão sido consumidos.
As homilias terão sido esquecidas.
Os púlpitos estarão ocupados por novos sacerdotes.
Mas os arquivos permanecerão.
Porque a memória pode ser curta, mas a palavra escrita tem uma qualidade extraordinariamente inconveniente: sobrevive aos seus autores e às conveniências dos seus tempos.
A Rússia não está a ganhar a guerra. Na minha leitura, já ganhou. E considero que conseguiu ir além dos próprios objectivos militares inicialmente anunciados.
O resto continua a ser ruído, propaganda, encenação e liturgia.
E enquanto os fiéis da Igreja Universal do Reino dos Mirdia aguardam pela próxima homilia, eu continuarei a fazer aquilo que sempre procurei fazer: observar, questionar, pensar e retirar as minhas próprias conclusões.
Porque a inteligência não se mede pela capacidade de repetir aquilo que todos dizem.
Mede-se, sobretudo, pela coragem de questionar aquilo que ninguém quer ouvir.
E a História tem um hábito particularmente cruel: não aceita pratos de lentilhas como pagamento para absolver os seus falsos profetas.
Quero ver quando este russófilo, convencido, volta atrás, ao contrário do que diz dos comentadores, para desdizer alguns dos temas que abordou aqui, caso não se concretizem ou verifiquem. Porque assume, desde já, a sua verdade como absoluta… Fico a aguardar.
Subscrevo.