Opressão “democrática”

(Hugo Dionísio, in Facebook, 09/01/2023)

As mentiras não são democraticas – SOS

O tratamento que a imprensa corporativa do Atlântico Norte deu à questão do cessar-fogo de 36 horas (de 6 para 7 de Janeiro), é um retrato fiel do uso destes órgãos para fins eminentemente propagandísticos. Perante a proposta de cessar-fogo, não foi apenas Biden que a ridicularizou, referindo que o seu homólogo estaria a tentar “ganhar oxigénio”. Foi o próprio regime banderista que declarou rejeitá-la.

Refira-se que, esta “rejeição”, muito raramente foi noticiada na imprensa do Norte Atlântico, em termos tão explícitos, como pudemos encontrar em órgãos noticiosos que operam fora desta órbita, como é o caso da Al-Mayahdeen ou mesmo da Al-Jazeera. O facto é que, não só assistimos a uma ridicularização da proposta unilateral, como não assistimos a qualquer consternação pela rejeição da proposta por uma das partes.

Passado o período das 36 horas, o que sucedeu? O que já se esperava. A intenção de aproveitamento, de uma suposta baixa de guardas, esbarrou num estado de alerta permanente e numa capacidade de resposta rápida, associada à prontidão ofensiva das frentes ligadas aos “músicos” mercenários. Foi simples: “já que não aceitam, também não pensem que aqui vamos estar de pernas abertas”. E a devastação fez-se sentir com 5 aviões derrubados e mais de 600 militares eliminados. E então sim, aí veio a consternação.

Assistimos a um desfilar de acusações porque as forças proponentes “não cumpriram” o seu próprio cessar-fogo. E até já se fala de queixas internacionais. Ou seja, rejeitaram o cessar-fogo e agora estão chateados porque os proponentes não o cumpriram. Mas o que esperavam? Que se deixassem atacar? Que aplicassem um rígido cessar-fogo unilateral enquanto a outra parte aproveitava para atacar sem dó nem piedade? Lógica da batata: “foi uma armadilha”! E se foi? Não serão as armadilhas próprias do combate? E porque rejeitaram a proposta de cessar-fogo? Não o fizessem, e já teriam moral para se queixar. Agora, não aderir e acusar a outra parte de recuar na sua pretensão…

Mas se o desespero é evidente, à medida que se aproxima o general Inverno, e as remessas multimilionárias de material de guerra nem suficientes são para repor o que foi perdido. A questão que se deve colocar é a seguinte: quanta mais destruição é necessária para que o regime banderista e os seus promotores considerem a hipótese de fazer a paz e não a guerra?

Imaginem que o dinheiro usado para comprar, preparar e reparar os 367 aviões, 200 helicópteros, 2,856 drones, 400 sistemas de defesa aérea, 7,460 tanques e outros veículos blindados, 972 lançadores de mísseis, 3,793 canhões e morteiros e 7,978 unidades de equipamento especial (julgo que jipes, pickups e outros), já destruídos pelas forças moscovitas neste conflito, ao invés de ser usado para a guerra, tinha sido usado para a paz? Imaginem que os acordos de Minsk não tinham servido para ganhar tempo para construir este exército (já confirmado por Merkel e Hollande), mas para evitar a guerra, como pretendia o povo e alguns envolvidos?

Para se ter uma ideia do que vale isto tudo, este exército, já destruído, equivale, a números calculados por diversos especialistas, a um ou dois Produtos Internos Brutos do país, quantia gasta durante 8 anos, desde que conquistaram o poder, em 2014.

Temos, pois, um país que estava em paz com os vizinhos, cujo governo, em 2014 – após um golpe de estado e extinção forçada de 13 partidos da oposição, que representavam cerca de metade da respetiva população (considerando as eleições de 2012) -, entra numa deriva militarista que resulta, não apenas, numa guerra civil contra uma das duas etnias mais representativas, como empreende um esforço económico absurdo para construir um exército absolutamente desproporcionado, face à sua dimensão.

Este país, à data, em paz com os vizinhos e, por isso mesmo, sem razões para esta deriva militarista, é vítima de um golpe de estado, trabalhado a partir do exterior, perpetrado para o dividir e o fazer entrar numa deriva belicista e por procuração, que se sabia ser, ela própria, desestabilizadora. O regime saído de 2014 faz isto tudo contra as pretensões do seu povo, prometendo a paz e a reconciliação nacionais, quando se preparava, apenas e só, para a guerra.

Este país, que o Ocidente coletivo diz representar a guerra da “democracia” contra “as autocracias”, manteve-se durante penosos oito anos como o mais pobre e corrupto país da Europa, usando fundos intermináveis para possuir uma das forças armadas mais preparadas DO MUNDO! A suposta “democracia” ocidental não impediu este povo de ser miserável, de se usarem centenas de milhares de milhões de euros em armas e preparação para a guerra, enquanto o FMI – pilar da sua destruição – sugava a propriedade pública que ainda restava, colocando-a nas mãos de obedientes oligarcas. Hoje a Blackrock tem uma parte importante das terras mais produtivas do país. Tudo se paga e a “democracia” garante-o.

Para se ter uma ideia da “importância” da “democracia” ocidental para este país, vejamos que, à data de 1991, este país tinha, de acordo com alguns estudos, o melhor nível de vida da URSS. No final de 2020, este país “democrata” não apenas tinha um PIB per capita 5/6 vezes inferior ao dos seus desavindos vizinhos “autocratas”, como as instituições, economia, cultura, infraestruturas desses dois países estão muito à frente das suas. A “democracia” ocidental não impediu este país de se manter atrasado, devastado e de ser terreno fértil de máfias da prostituição, armas e droga.

Mas se a situação deste país é em si emblemática sobre o papel e objetivos da implantação artificial (porque promovida a partir do exterior) da “democracia” ocidental, olhando para os países que dizem promover tais “valores” da “democracia” e dos “direitos humanos”, constatamos que, mesmo aí, nem todos se podem gabar de serem protegidos por tão “avançado” regime.

Assim, por muitos “valores” que sejam propagados, a verdade é que a “democracia” não impediu os EUA de: manter a pena de morte; abrir e manter em funcionamento um campo de concentração e detenção sem acusação ou direito a defesa, como Guantánamo; implementar legislação que permite a tortura em interrogatórios; criar uma forma de processo-crime sem garantias para o arguido quando se trate da acusação e espionagem ou de terrorismo – o espionage act que vitima Julien Assange; implantar e manter um apartheid sobre os negros e índios, que ainda hoje persiste em muitos estados e sectores sociais; manter sem sistema de saúde mais de 40 milhões de americanos; manter milhões de americanos a viver em tendas, nas ruas, em automóveis, roulottes ou casa pré-fabricadas sem saneamento básico.

Mas se isto não chegar, gostava de deixar uma questão: que outra “democracia” ou “autocracia” se pode orgulhar de possuir a maior população prisional do mundo? Com 5% da população mundial, os EUA têm atrás das grades 25% da população prisional mundial, sendo que, uma esmagadora maioria são negros e latinos. A “democracia” possui um sistema de encarceramento em massa superior e a fazer inveja a qualquer “autocracia”.

Esta mesma “democracia” ocidental, sempre tão leve e descomprometida para a elite ocidental, é tão pesada para o sul global. Afinal, esta mesma “democracia” não impede os países que a propagam, de aplicarem sanções a mais de 50 países pobres, matando de fome e privação alimentar centenas de milhares de crianças, jovens e mulheres, todos os anos. Nestes mais de 100 anos de sanções “democráticas”, são incontáveis os milhões de mortos, doentes e miseráveis causados por tanto respeito pelos “direitos humanos”.

Foi este mesmo respeito pelos “direitos humanos” que justificou – e justifica – as guerras de agressão a dezenas de países. Entre os mais recentes temos o Iraque, a Síria, o Iémen, o Afeganistão, a Jugoslávia, a Sérvia, a Líbia, num desenrolar de bombardeamentos “democráticos” que mataram e destruíram as vidas de dezenas de milhões de seres humanos, muitos deles arriscando as suas vidas em botes de borracha. Depois de verem os seus países destruídos pela pilhagem desenfreada iniciada há cerca de 500 anos, ainda são acusados pela extrema-direita – a face mais agressiva do sistema económico capitalista ocidental – de quererem “invadir” o Ocidente. O mesmo Ocidente que tanta “democracia” lhes levou.

A “democracia” ocidental também não impediu que em 1948 tenha sido implantado um estado apartheid na Palestina. Este estado, não apenas matou e deslocalizou milhões de seres humanos para aí se implantar, baseando as suas ações numa ideologia teocrática que busca na bíblia – e noutros textos religiosos – a base da legitimidade do seu supremacismo racial, e que se mantém até hoje, agravando-se sucessivamente, à custa de armas, entre elas, as nucleares. Hoje, com um governo de extrema-direita, com gente que defende a exterminação do povo palestiniano.

A mesma “democracia” que hoje justifica o “desacoplar” dos países “autocráticos”, classificados como tal, apenas e só, porque não sucumbem à pilhagem dos seus recursos; pilhagem que os manteria na profunda miséria de onde vieram por ação “protetora” dos “direitos humanos”, é aquela que agora é responsável pela degradação – injustificada e inexplicada – das condições de vida dos povos europeus, arrastados para uma luta que não é a sua, nem lhes interessa minimamente.

Considerar que temos de morrer à fome para proteger a “democracia”, deve fazer-nos questionar o papel que hoje tem a própria “democracia”. É que, a “democracia”, não pode constituir um emaranhado de palavras vazias, usadas para justificar todos os fins.

A “democracia” tem de constituir um instrumento do desenvolvimento das condições de vida e de trabalho dos povos, um instrumento e não um fim em si mesma. Tratada como um fim em si mesma, a democracia deixa de o ser, para se transformar num ritual vazio de sentido ao serviço de fins nada democráticos. É o problema da forma e da substância. E um exemplo desta contradição, que encontra no modelo ocidental um fim em si mesmo, é a comparação do comediante encartado, a Churchill.

Esta comparação, totalmente vazia de sentido, não deixa de comportar em si a contradição que a origina e que radica na desvalorização da própria democracia enquanto instrumento ao serviço do desenvolvimento. Se o objetivo é valorizar o comediante, tal só é possível perante a fábula. E, neste caso, podemos dizer que uma fábula – a de que Churchill era democrata – origina outra fábula – a de que o comediante é democrata e está ao serviço do seu povo.

Para se ter uma ideia do que valia a “democraticidade” de Churchill, basta olhar para o que foi o domínio britânico na India. Não é necessário ir a mais nenhum lado. De acordo com um estudo académico realizado, (ver aqui), no pico do poder imperial na India, entre 1880 e 1920, morreram 165 milhões de pessoas em resultado do agravamento das condições vida resultantes da pilhagem de recursos e da repressão.

Este é apenas um pequeno exemplo da brutalidade genocida do imperialismo. Churchill, não apenas o abraçou, como o continuou e como foi peça-chave no agravamento da repressão contra a luta de Gandhi, sendo ator principal de uma sangrenta história que, a contar-se e a recordar-se, faria esmorecer qualquer defensor do imperialismo. A “democracia” de Churchill não impediu a matança, o genocídio material e moral, de continuarem. Hoje, e a provar que a repetição histórica é uma farsa, o comediante de serviço, usa os recursos do Império para conduzir o seu povo para a morte, o seu próprio povo. Actor-chave na deriva belicista, no incumprimento dos acordos e Minsk, na promessa incumprida de paz e na utilização de fundos que fariam falta para desenvolver o seu país, na aquisição de armas, o Churchill farsola abraçou o projeto, continuou-o e deu-lhe ainda mais gás. A “democracia” não o impediu de o fazer.

Outro exemplo do valor da “democracia” ressalta de um olhar sério para a votação das resoluções, que se vai fazendo na Assembleia Geral da ONU. Rapidamente se chegará à conclusão do papel atual, que os poderes de facto, conferem à “democracia” e aos “valores” ditos “ocidentais”. Do ambiente aos direitos humanos, passando pela economia e política, o mundo divide-se constantemente em dois, uma minoria a que chamamos de “Ocidente coletivo” e uma maioria imensa a que chamamos de “Sul Global”, (ver aqui).

 Será que a “democracia” pode estar ao serviço da opressão e mesmo assim ser democracia?


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O Parlamento da Ucrânia aclama colaborador nazi

(Peoples Dispatch, in a Viagem dos Argonautas, 08/01/2023)

Uma colagem de uma fotografia de um comício de direita em homenagem a Stepan Bandera e o tweet do parlamento ucraniano a 1 de Janeiro de 2023

Desde 2014, o regime pós-Maidan na Ucrânia e as suas milícias de extrema-direita têm vindo a glorificar o legado de extrema-direita, hiper-nacionalista da Segunda Guerra Mundial, do colaborador nazi Stepan Bandera (…)


Ler artigo completo em:

A Viagem dos ArgonautasA Guerra na Ucrânia — O Parlamento da Ucrânia aclama colaborador nazi. Por Peoples Dispatch


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A estratégia maligna de “degradar” a Rússia

(Por Jacob G. Hornberger, in The Future of Freedom Foundation, 05/01/2023, Trad. Estátua de Sal)

Um dos aspectos fascinantes da guerra na Ucrânia tem sido a extrema relutância da grande imprensa e dos apoiantes do Pentágono-CIA em reconhecer, muito menos em condenar, o Pentágono pelo seu papel na provocação desta guerra. Afinal, os dois conceitos – o Pentágono provocando a crise e a invasão da Ucrânia pela Rússia – não são mutuamente exclusivos. Podemos ter os dois factos em simultâneo – o Pentágono inicia a crise com o objetivo de “degradar” a Rússia e então a Rússia cai na armadilha ao atolar-se numa guerra mortal e destrutiva contra a Ucrânia.

Mas quando alguém chama a atenção para a primeira parte desta equação – isto é, o papel do Pentágono no início da crise – a grande imprensa e os apoiantes do Pentágono-CIA ficam furiosos. Para eles, é uma heresia apontar o que o Pentágono fez para desencadear a crise. Para eles, o Pentágono e a CIA são inocentes, são bebés virtuosos na floresta que nunca fariam tal coisa. Para eles, o Pentágono e a CIA nada mais são do que uma “força do bem” no mundo. 

Mas sabe-se que o Pentágono e a CIA se envolvem nesses tipos de maquinações malignas. Na verdade, fizeram a mesma coisa com a Rússia em 1979. Atraíram os russos para invadir o Afeganistão, com o mesmo objetivo que tem com estas maquinações na Ucrânia – dar aos russos o seu próprio “Vietname”, o que significava “degradar” a Rússia através do assassinato de um grande número de soldados russos. 

“Teoria da conspiração”? Bem, não exatamente. Isto porque o Conselheiro de Segurança Nacional Zbigniew Brzezinski, num momento notável de franqueza, admitiu que eles fizeram isso de forma consciente, deliberada e intencional. Ele estava orgulhoso disso. Ele gabou-se de como eles conseguiram que os russos caíssem na armadilha. Todo o stablishment de segurança nacional adorava o fato de que dezenas de milhares de soldados russos estavam a morrer no processo. Quanto mais soldados morriam, mais a Rússia ficava “degradada”.

É por isso também que eles agora ficam tão extasiados, cada vez que mais soldados russos morrem na Ucrânia. Por cada soldado morto, a Rússia “degrada-se” um pouco mais. Quanto mais soldados morrerem, mais a Rússia fica “degradada”.

Iniciar uma nova Guerra Fria com a Rússia foi a ideia por trás de manter a existência da NATO após o fim ostensivo da Guerra Fria original. A Guerra Fria tinha sido uma grande vaca leiteira para o stablishment de segurança nacional dos Estados Unidos, e eles não iriam abrir mão dela tão facilmente. Então, usaram a NATO, que nessa época era apenas um velho dinossauro da Guerra Fria, para começar a absorver os países ex-membros do Pacto de Varsóvia. Isso permitiria ao Pentágono e à CIA instalar bases militares e mísseis nucleares cada vez mais perto da fronteira russa. 

Ao longo desse processo, a Rússia estava se opondo, e os funcionários do Pentágono e da CIA sabiam disso. Além disso, a Rússia sempre deixou claro que a absorção da Ucrânia pela NATO era uma “linha vermelha” para a Rússia, que faria com que a Rússia invadisse a Ucrânia para evitar que isso acontecesse. 

Depois da Rússia ter feito essa declaração, o Pentágono e a CIA tinham a Rússia colocada exatamente na posição que pretendiam. Armaram, então, o final da armadilha simplesmente anunciando que a NATO pretendia absorver a Ucrânia. Não surpreendentemente, a Rússia acabou por invadir a Ucrânia, o que deu à Rússia outro “Vietname”, assim como aconteceu em 1979 com a invasão russa do Afeganistão.

Não há nada de novo neste tipo de manobra. Em 1964, o Pentágono conscientemente, intencionalmente e deliberadamente iniciou uma crise falsa e fraudulenta no Golfo de Tonkin, perto do Vietname do Norte. O objetivo? Envolver os Estados Unidos na Guerra do Vietname. A estratégia funcionou. O presidente Lyndon Johnson usou a falsa e fraudulenta crise induzida pelo Pentágono no Golfo de Tonkin para garantir a aprovação de uma resolução do Congresso que o autorizou a envolver os Estados Unidos numa guerra que acabou por tirar a vida a mais de 58.000 soldados americanos e a mais de um milhão de vietnamitas. . 

Porque é que os apoiantes do Pentágono-CIA ficam tão fora de si quando alguém aponta para tais maquinações do Pentágono-CIA? Porque o Pentágono, a CIA e a NSA são uma tríade divina para essas pessoas. E por isso não gostam quando alguém expõe as más ações da sua tríade divina. Afinal, veja-se o quanto eles amam o que as autoridades americanas fizeram a Julian Assange e a Edward Snowden por revelarem as ações malignas de sua santíssima trindade.

Mas há algo importante a ter em mente sobre esta estratégia de “degradar” a Rússia. Todos aqueles soldados russos e ucranianos que foram mortos nesta guerra tinham famílias ou amigos, tal como os soldados americanos têm. Essas famílias e amigos estão de luto pela perda desses soldados, tal como as famílias dos soldados americanos estão de luto pela perda dos seus entes queridos.

É isso que torna as maquinações do Pentágono e da CIA tão perversas. Quando um regime celebra a morte de um grande número de pessoas, que morrem como resultado de uma estratégia que visa “degradar” um regime estrangeiro, isso é um sinal inequívoco de que há algo fundamentalmente errado, do ponto de vista moral, com esse regime.

Fonte aqui


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