O Quarteto de Kiev — Três tristes e um outro coitado

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 17/06/2022)

A ida a Kiev do trio de dirigentes europeus que representam o antigo coração da Europa, o império de Carlos Magno: a Gália, a Germania e a Lotaríngia teve aspetos de cerimónia de Extrema-Unção, ou de exibição de homens estátua. A viagem a Kiev dos três chefes de governo e de Estado da França, da Alemanha e da Itália significa a desunião da União Europeia. Há dias tinha passado por lá a presidente da Comissão Europeia. Tratam, ou trataram de quê com o coitado do Zelenski, que já deve ter percebido que representa o papel do marido enganado, mas ninguém tem coragem de lho dizer e, pelo contrário, vão lá bater-lhe nas costas. Fazê-lo mexer e abrir a boca, ou dar-lhe corda.

A imagem de Zelenski como um boneco articulado parece-me real.

Mas os três tristes que apareceram numa fotografia em amena cavaqueira numa carruagem de comboio em trajes de turistas, um deles até de jeans, também não são mais que pobres diabos postos fora de jogo. A guerra na Ucrânia trava-se entre a Rússia e os Estados Unidos. A União Europeia é apenas uma serventia para os dois contendores. Um trio que faz umas animações à frente da cortina do palco nos intervalos entre atos.

O Quarteto de Kiev, com ou sem acompanhamento de funcionários como Ursula Van Der Leyen, Borrel, ou Charles Michel não tem qualquer instrumento de atuação, empenharam-nos, e não tocam qualquer música. Talvez tenham umas gravações, talvez assobiem para o ar, talvez façam play back, ou Karaoke! A UE é um grupo de Karaoke!

Entretanto há outra instituição da União Europeia que, como dizem os brasileiros, também se escafedeu: o formigueiro que se reúne no edifício transparente do Parlamento Europeu.

O que dizem aos eleitores os deputados europeus sobre a guerra, as sanções, as soluções, o presente, o futuro? Nada! Aos costumes dizem nada. Elegemo-los para quê?


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A heresia do papa Francisco

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 14/06/2022)

Estava a ler textos sobre a “guerra da comunicação” em que estamos envolvidos, felizmente sem os custos em sangue e destruição da que ocorre na realidade do campo de batalha, na Ucrânia. Parti de um filósofo cujo pensamento conhecia um pouco, Paul Virílio, francês, autor de livros sobre as tecnologias da comunicação, e deste cheguei a um outro, desconhecido, Slajov Zizek, esloveno. Paul Virílio, com formação base em arquitetura, define a sociedade da informação como perigosa, já que a informática nos leva à perda da noção da realidade ao proporcionar uma quantidade gigantesca de dados.

É sobre a relação entre a realidade e a imagem que dela nos é transmitida que se travam hoje os combates da informação, desinformação, manipulação que nos são apresentados pelos meios de comunicação, que pretendem camuflar a sua qualidade de armas, atrás de um colete com a palavra PRESS, de uma direção editorial, ou de pastores com a pele de comentadores.

Para Zizek, com formação em sociologia, professor nas universidades de Lubiana e de Londres, o “real” é um termo que corresponde a um conceito enigmático, e não deve ser equiparado com a realidade, uma vez que a nossa realidade está construída simbolicamente; o real, pelo contrário, é um núcleo que não pode ser simbolizado, isto é, expresso com palavras ou com imagens. Só existe como abstrato. Para Žižek, a realidade tem a estrutura de uma ficção. Ou seja, acaba sendo apenas uma espécie de interpretação da “coisa em si”. Há quem não se limite a interpretá-la, mas a fabrique.

Esta minha tentativa de separar o real da realidade, de tentar entender as intenções de quem escreve o enredo da realidade que me é apresentada nas TVs, em particular, como arma de artilharia pesada, surgiu depois de ler e de confirmar tanto quanto possível a opinião do Papa Francisco sobre a guerra, em que, segundo os meios de comunicação e contra o discurso ocidental, terá criticado a Rússia pela crueldade na Ucrânia, mas dito que a guerra pode ter sido provocada, uma opinião que os manipuladores das TV (os grandes meios) escamotearam.

Sou agnóstico, mas reconheço as qualidades de coragem, inteligência e a capacidade de análise de personalidades religiosas, dos que têm uma visão do mundo criado e regulado por um Ente metafísico, que também determina o comportamento dos seres homens, lhes estabelece uma moral que não se reduz à crença, aos que conjugam fé e razão.

É o caso do Papa Francisco, que preside a uma instituição milenar, com influência histórica na vida dos humanos, em todo o planeta e em particular na Europa, que dispõe de uma dos mais eficientes serviços de informação mundiais e a quem presto a mais proveitosa atenção, assim como leio com proveito Tomás de Aquino, Santo Agostinho, ou o Padre António Vieira, os clássicos politeístas gregos, o escuto Dalai Lama.

O Papa Francisco tocou na ferida da discussão sobre aquilo que vemos nos ecrãs sob a aparência de informação, e que é, de facto, a criação de espetáculos da autodestruição humana, através das formas sofisticadas encontradas pelos meios de comunicação — o cinema, a televisão e a Internet — que utilizam as técnicas perigosas a que se referia Paul Virílio para promover o confronto com o “real”, com o objetivo de impor a ideologia hegemónica.

Este processo de espetacularização da destruição com fins políticos, com o objetivo de assegurar um poder, que o Papa Francisco deixa mais do que subentendido — quem quiser percebe — apoia-se na ideia, que a Igreja Católica, como outras desenvolve e cultiva, de que a autoridade é conferida com mais facilidade aos que falam da posição de vítima.

O esloveno Slajov Zizek reparou que o establishment americano conservador utilizou todas as potencialidades desta a lógica da vitimização (mártires e heróis) com o ataque às Torres Gémeas em Nova Iorque para justificar sua atitude de domínio na política mundial a partir o início do terceiro milénio DC.

O governo americano, utilizou um fenómeno da realidade (provocado por quem? — deixa o Papa no ar a propósito da Ucrânia) para manipular e congregar as populações do seu império e levá-los a aceitar e a pagar uma outra realidade de violência, terror e intolerância, que, no caso das Torres Gémeas, teve a sua representação máxima no fundamentalismo islâmico, e justificou a invasão do Afeganistão, e o incêndio do Médio Oriente é agora trocado pela invocação da “brutalidade russa” na Ucrânia. A repetição do mesmo número com sucesso, que o papa ensombreceu.

Esse enfrentamento de realidades e ficções foi traduzido pelos meios de condicionamento da opinião na dicotomia pela oposição: “Eixo do Bem x Eixo do Mal” — “Ocidente x Oriente”. Esta contextualização maniqueísta foi amplamente difundida através dos termos ideologizados do Bem e do Mal absolutos que comprometem a interpretação dos factos.

Ambos os acontecimentos, o 11 de Setembro, a guerra na Ucrânia, mas também o ataque à Sérvia, ocorreram de maneira camuflada e justificada sem direito a contraditório, nem a critica, pelo princípio de que a sociedade ocidental é essencialmente democrática e permite a coexistência de diversas opiniões. Pelo que é essencialmente Boa e pratica o Bem. Se essa é a realidade, tudo o que a contrarie é antidemocrático e antiocidental, q.e.d.

A postura autoritária do governo norte-americano, a elevação a objeto de culto (sacralização) do atentado de 11 de setembro e agora de Zelenski só deixa uma alternativa ao público consumidor de mensagens visuais: pense, reflita, mas chegue à conclusão “certa”. Fora de nós não há salvação!

Slajov Zizek chamou a estes atos de manipulação “efeito espetacular do real”. O Papa Francisco veio tirar, mesmo que muito cautelosamente, o véu que cobria a caixa do truque do ilusionista Biden. Dali, do sacrário da Casa Branca, não vai sair uma pomba branca…


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Há alguma novidade nos hospitais?

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 15/06/2022)

Se compreendi bem todas as notícias que li sobre a degradação do Serviço Nacional de Saúde, uma onda que desta vez começou por causa do colapso de algumas urgências de obstetrícia, a conclusão a tirar é que… não há notícia.

Não é notícia a falta de médicos e de enfermeiros, cada vez mais grave, no Serviço Nacional de Saúde.

Quem não se lembra da promessa de António Costa, em 2016, de garantir um médico de família para todos os portugueses? Essa promessa pressuponha que faltavam médicos no sistema, o que era verdade, e que Costa ia resolver o problema, o que seria mentira, pois ele, entretanto, agravou-se.

Não é notícia a fuga de profissionais de saúde do serviço público, seja para o estrangeiro (quando isso é possível), seja para o setor privado, que se expande cada vez mais.

Ainda agora, só para exemplificar, deram mais uma medalha ao enfermeiro português, um dos que decidira emigrar, que tratou a covid-19 de Boris Johnson.

Não é notícia a evidente suborçamentação do Ministério da Saúde, que o impede de resolver os problemas de vez. Uma das razões da queda da “geringonça” foi, precisamente, essa.

Não é notícia a crónica falta de dinheiro para o serviço público de Saúde, é um assunto com décadas, foi uma política comum a vários governos que, aliás, subsidiaram, simultaneamente, indiretamente, o crescimento do setor privado de várias maneiras, a começar pelas Parcerias-Público-Privadas e a passar por frequentes benefícios fiscais, para indivíduos e para empresas, dados a quem subscrevesse seguros de saúde, sustentando assim um início de crescimento, que era difícil, para os hospitais e as clínicas privadas,.

Não é notícia aparecer todos os anos o conjunto habitual de cromos político-corporativos a defender que a solução não está em colocar mais dinheiro no Serviço Nacional de Saúde, em pagar decentemente a médicos e enfermeiros para eles não se irem embora, em fixar mais profissionais no quadro.

Não, para esses profetas das consultas universais a 100 euros a solução é dar dinheiro às empresas privadas de saúde para elas fazerem o mesmo serviço.

De resto, a prática já é frequente, embora na sombra: vários sindicatos estão há anos a denunciar o recurso crescente a empresas de prestação de serviços, através das quais há médicos a receber mais por hora do que os clínicos dos quadros do Estado!

Não é notícia a incompetência, desleixo ou intenção de governar mal o Serviço Nacional de Saúde, que dá cada vez mais argumentos a quem defende a sua entrega para os privados – chegámos ao ponto de, a partir de 2006, mandarmos bebés portugueses, de mães que vivem na fronteira alentejana, nascerem em território estrangeiro, a Badajoz!

Não é notícia a acusação de “preconceito ideológico” feita sobre todos os que não concordam com a doação do Serviço Nacional de Saúde às empresas privadas. O papão de “o comunismo é a culpa disto tudo” é usado em Portugal há pelo menos 101 anos.

O problema não é ideológico, a não ser que achemos que, no que diz respeito à saúde, todos os portugueses não devem ter o mesmo direito de acesso a serviços de qualidade equivalente e que, também aí, o mundo tenha de se dividir entre ricos e pobres.

O problema é que a partir do momento em que se monte um sistema onde, generalizadamente, o Estado passa a pagar a privados ou ao setor social o fornecimento de um serviço de saúde universal e tendencialmente gratuito, perde uma estrutura que depois não será capaz de remontar. Se, ao fim de uns anos, com o SNS estatal praticamente desmontado, com a legislação entretanto produzida a defender, inevitavelmente, os interesses dessas empresas, elas disserem ao governo, “o contrato que temos não presta, queremos cobrar mais ou vamos embora”, o governo não tem outro remédio que não seja aceitar a fatura, seja qual for o preço a pagar, ou então deixar os portugueses mais pobres ao Deus dará.

Não tenhamos ilusões: veja-se o que se passa por esse mundo fora (Portugal, o que é incrível, ainda é dos melhorzinhos em Serviços de Saúde) ou o escândalo global dos preços dos medicamentos, para se perceber o espírito que impera nestes negócios da doença.

Se uma notícia pressupõe a existência de uma novidade, de uma informação nova que não conhecíamos, então a minha conclusão inicial estava certa e este debate é um “dejá vu“, é “old news“.

Respondo, por isso, para se perceber o que pode vir aí se não salvarmos o verdadeiro Serviço Nacional de Saúde, com o título de outra velha notícia, de 28 de outubro de 2020: Hospitais privados sem disponibilidade para receber doentes covid-19 em Lisboa.

Jornalista


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