O “caos” na Saúde, dizem eles

(Isabel do Carmo, in Público, 11/01/2020)

Isabel do Carmo

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A direita portuguesa é incapaz de auto-organizar-se mas tem competências em agitprop. É inábil e arcaica nos seus arranjos partidários, mas capaz na propaganda e manipulação da opinião, quando se trata de defender os interesses da classe que representa. Deste modo escolhe palavras-chave ou palavras de ordem, que repete liturgicamente, ritualmente, para que se transformem em “verdades”. Durante oito anos ouvimos a palavra bancarrota aplicada ao Governo de 2005-2011. E agora ouvimos a palavra caos aplicada à saúde.

O uso do termo bancarrota, aplicado à crise vivida pelo nosso país a partir de 2008, insere-se num claro estilo populista. Tudo era explicado como se não houvesse uma crise mundial económica e sobretudo financeira, como se o caso Lehman Brothers dos EUA não tivesse existido, como se houvesse apenas o caso português, devido a um governo, por sinal do Partido Socialista (PS), que seria fraudulento, tinha gasto o dinheiro e ele tinha desaparecido dos bancos. As acções criminalizadas de um primeiro-ministro diabolizado eram habilidosamente sobrepostas à tal “bancarrota” do Estado numa construção causa-efeito. Diga-se de passagem que os responsáveis do PS nunca explicaram nada disto e passaram adiante por questões tácticas.

Esta campanha, organizada na base de uma palavra, abusou da credulidade de uma população que está habitual e historicamente afastada do que se passa no Mundo, que maioritariamente não lê as análises das questões internacionais e vê noticiários na televisão que dão mais tempo ao futebol do que aos problemas políticos e económicos mundiais. O terreno é esse e os que organizam o discurso bem o sabem. O “povo” ouviu o que queria ouvir: havia uma razão simples e clara para explicar as agruras que estava a passar. Chama-se a esta cena populismo. 

Prevista e depois consumada a derrota política, dois outros termos chave ocuparam a propaganda: “carga fiscal” e “caos na saúde”. Várias vezes por dia, em vários meios de comunicação, nacionais e locais. Era interessante que um estudo académico quantificasse. No espectro político da direita, a Iniciativa Liberal repete-os para os mais “finos” e o Chega para o “Povo”. Quanto à “carga fiscal”, é evidente que se tivermos mais produção e menos desemprego há mais rendimento fiscal, mas isso não afecta os de menor rendimento. Não é meu propósito falar do que compete aos respectivos especialistas, embora a explicação seja acessível a todos os cidadãos, se alguém quiser e puder explicar em termos claros e meios apropriados (televisão, horas nobres, sem discurso de “economicês”).

Mas é do “caos” na saúde que aqui se trata. Quem tem um infarto de miocárdio ou um AVC e vai às urgências de um hospital e depois é internado e tratado, acha que a saúde está num “caos”? Aqueles a quem é diagnosticado um cancro e depois são seguidos e tratados nos IPO de Lisboa, Coimbra e Porto ou nos Hospitais Centrais acha que a saúde está num “caos”? Aqueles que têm diabetes e são seguidos nos hospitais ou nos Centros de Saúde em consultas especializadas, com medicamentos ou gratuitos ou de baixo preço, acham que a saúde é um “caos”?

Vou a sessões falar sobre o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e oiço o contrário: pessoas que tiveram ou têm estas doenças e que agradecem à existência do SNS a sua situação actual. Mas também oiço as que dizem perante um problema agudo ou sub-agudo: “Vou ao privado porque dizem que o SNS está um caos”, “tenho um seguro porque dizem que o SNS está um caos”. Não vou falar desses serviços privados, porque seria outro artigo. Mas deste “caos” de que se está a falar, dizem, repetem todos os dias. Dizem os jornais em manchetes, diz a televisão, diz a Ordem dos Médicos. Este clima atinge algo que é precioso – a relação utente ou doente com os serviços públicos e nomeadamente a relação médico-doente, que deve ir além da mera tecnocracia do diagnóstico e terapêutica.

Não são estranhas a este ambiente as recentes agressões a médicos dentro do SNS. E, no entanto, O perfil da Saúde do país em 2019, relatado pela independente OCDE, diz o contrário. Diminuiu o número de mortes por causas evitáveis, o que decerto é devido ao elevado grau de vacinação de crianças e adultos com mais de 65 anos, superior à média da União Europeia (OMS/Unicef, 2018, Eurostat 2017), e as hospitalizações evitáveis, abaixo da média da UE, sugerem cuidados primários eficazes (dados relativos a 2017). Há, de facto, problemas, alguns resolúveis a curto e médio prazo, outros difíceis de resolver: o aumento da esperança de vida é um bem adquirido por parte da humanidade. Mas mais vida significa mais doenças: osteoporose, doenças cardiovasculares, cancros. Significa mais terceira idade sozinha e vulnerável: em 2017 havia quase meio milhão de pessoas maiores de 65 anos a viverem sozinhas, mais do dobro do que em 1981 (INE, Pordata); as inovações medicamentosas e os dispositivos e equipamentos clínicos aumentaram de preço em flecha; felizmente, a preocupação das pessoas em relação à saúde e à prevenção também aumentou.

E o período da crise e da troika deixou uma herança na saúde que perdura – veja-se o artigo de autores portugueses publicado em 2018 em prestigiada revista internacional, Changes in socioeconomic position among individuals with mental disorders during the economic recession in Portugal: a follow-up of the National Mental Health Survey, precedido de outro de 2016 e agora premiado com o Prémio Fundação Pulido Valente.

Mas há outra questão, a mais forte, que atravessa os países e o sistema dominante – a Saúde tornou-se um negócio. A barbárie mercantil invadiu a Saúde na Europa como foi sempre nos EUA. Os serviços de saúde entraram na lógica da mercadoria e os cuidados passaram a falar a linguagem mercantil. Passa-se em outros países da Europa o que se passa em Portugal e a causa é a mesma: os privados escolhem e captam os médicos e o dinheiro para os serviços públicos está garrotado pela política hegemónica na Europa – o mercado, a concorrência, a desigualdade de facto como motor do “desenvolvimento”.

Em França, noticia o Le Parisien de 31.12.19 que o Instituto Francês de Sangue “procura desesperadamente recrutar profissionais” porque há “colheitas de sangue acumuladas por falta de médicos”. Diz Eric Jacquot: “Tal como os hospitais, as urgências e mesmo a medicina da cidade, temos muita dificuldade em encontrar novos colegas.” E a proposta é dispensar a presença de médicos… O prof. Bernard Granger, do Hôpital Cochin, presidente do Conselho Nacional de Psiquiatria, diz que o sistema de Saúde está “ameaçado” e cita “a desconfiança em relação aos profissionais”. Segundo ele, “o garrote que nos estrangula tem que ser desapertado”. E decorre “uma greve à codificação de 1000 médicos, quase todos chefes de serviço, que simboliza a rejeição do hospital-empresa”.

Até na Suécia os governos de centro-direita privatizaram o que puderam e o actual governo eleito em 2014 e reeleito em 2019 está a tentar reverter, com dificuldade, as consequências. Quanto ao Reino Unido, já muito aconteceu durante os governos conservadores e a Escócia quer a independência sobretudo para preservar o Serviço Nacional de Saúde. Vimos por aí nos meios de comunicação social a imagem revelada pelo Guardian da criança com pneumonia deitada no chão de um hospital público inglês. Logo acorreu o populista Johnson a pedir grandes e populares desculpas à família. É claro que tem um consultor de imagem. A nossa ministra, muito competente mas muito atacada, não tem claramente consultor de imagem.

Médica; professora da Faculdade de Medicina de Lisboa; activista política

A complacência com Trump é um erro monumental

(José Pacheco Pereira, in Público, 11/01/2020)

Pacheco Pereira

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Volto a Trump, a única coisa relevante que há hoje para discutir. É pouco mediático num país que é muito indiferente às questões internacionais, não dá títulos saborosos como os pequenos “casos” nacionais, cansa e parece monotemático, mas é decisivo para o nosso futuro. O que fizer ou não fizer Trump, e o que nós lhe permitimos, vai decidir as próximas décadas. E cada vez parece mais uma obrigação ética travar o combate para o deter, porque estamos num desses momentos da história, em que esta se acelera, e, como na maldição, se torna “interessante”. Pensam que isto é um exagero e Trump um epifenómeno? Puro engano. Vejam só que ele já fez.

O que é perigoso na actual discussão é que mais uma vez se verifica algo que vi toda a vida: quando alguém tem força, essa mesma força é interiorizada como razão, como explicação, como realismo e dá-se uma falência crítica e perde-se clareza. E mais do que tudo com Trump é preciso ver claro. Os poderosos têm seguidores pelas vantagens de estar ao lado do poder, mas o efeito mais insidioso é a impregnação do pensamento e da crítica mesmo daqueles que se lhes opõem.

Leia-se o que se escreveu esta semana em Portugal. Vejo com espanto a facilidade com que o discurso trumpista se interioriza, e como o caos e as contradições resultam em discursos salomónicos, e em benefício da dúvida. Claro que não se pode esquecer que em Portugal há mais “trumpinhos” por aí à solta do que se imagina, quer os que o adoram, mas mais ainda os que precisam dele à direita para equilibrar um mundo que, pensam, se deslocou demasiado para a esquerda.

Não lhe dão palmas em público, mas dentro da cabeça, porque Trump bate nos mesmos inimigos em que eles gostariam de bater. É uma simpatia por afinidade que não ousa dizer o seu nome. Existe em Portugal, no Observador, no i , nalguns blogues muito à direita e que são câmaras de eco em bruto do Observador, mesmo na comunicação social de referência com gente mais preocupada em manter “equilíbrios” e distanciações, quando isso é exactamente o que os trumpistas querem.

O discurso de Trump é simples: há vitórias e vitoriosos e derrotados. Ele Trump teve uma “vitória”, porque os iranianos “cederam” e “recuaram” e assim ele pode obter o efeito útil de ter morto um adversário dos EUA, sem grandes consequências e mostrar força, fazer de Rambo e bater com as mãos no peito como o Tarzan para fins eleitorais. É o discurso habitual de Trump e os mecanismos mediáticos, que ele explora com sucesso, são hoje muito adequados a ver as coisas assim. Talvez, se se parasse para pensar, se perceba que não só esta é uma maneira muito grosseira de ver as coisas — o que se adapta muito bem a Trump e às colunas do sobe e desce, e às redes sociais —, como assenta mais no wishful thinking do que em factos, e não nos fornece uma visão coerente do que se passa. E acrescento não é muito complicado perceber que é uma história muito esfarrapada, ou como agora se diz “uma narrativa” que só se sustenta no peso da força e no ainda maior peso da preguiça mental.

Veja-se só, a título de exemplo, o próprio discurso vencedor de Trump — um discurso que em condições normais deveria arrepiar toda a gente. Mas que “passou” bem, porque pareceu moderado. Trump começa por dizer que os iranianos não atingiram ninguém, porque as contramedidas sofisticadas resultaram, impedindo-os de obter o objectivo de matar soldados americanos. Mais adiante, no mesmo discurso, sugeriu que os iranianos afinal deram uma resposta débil, porque recuaram com medo da resposta americana. Então queriam ou não matar americanos?

Nos dias seguintes, fontes militares disseram que sim, outras fontes acentuaram o recuo a “desescalada”, e a tese predominante é a segunda. Por sua vez, os iranianos mantêm também um discurso contraditório, mas porque lhes é vantajoso. Os iranianos não têm o poder dos EUA, como, aliás, os norte-coreanos. Medidos por essa bitola são sempre o lado mais fraco. Mas face a Trump são mais inteligentes, têm uma estratégia consistente e não dependem da imprensa do dia seguinte para prosseguir os seus objectivos — e não têm eleições para ganhar.

Qual é nos dias de hoje o “seguro de vida” do regime iraniano, como, aliás, do norte-coreano? Ter armas nucleares. Agora que não têm as peias do acordo é o que os iranianos vão fazer a toda a velocidade. Ora Israel e os EUA não o podem permitir, o que significa que terão de atacar o Irão. E como é? Vão só atacar de alto e não colocar “botas no chão”? Só com enormes baixas colaterais, civis. E não há Rússia e China?

O assassinato do general iraniano é uma distracção, neste contexto que radicaliza todas as frentes menores e não ajuda a maior, que Trump ajudou a estragar ao abandonar um acordo nuclear que estava a ser cumprido pelo Irão. Quando digo que o principal risco da política de Trump é ser errática e caótica, é por aqui que se mede. Não houve por isso vitória nenhuma, só encurralamento cada vez maior no caminho de uma guerra generalizada. Trump não quer saber disso para nada, desde que entenda que sai favorecido eleitoralmente. E, como quer ter vantagens sem grandes custos, apela aos países da NATO para lhe darem cobertura e homens e mulheres para não haver muitas baixas americanas. A resposta frouxa da NATO é quase tão perigosa como o caos de Trump.

Infelizmente, isto vai continuar.



O pântano

(Daniel Oliveira, in Expresso, 10/01/2020)

Daniel Oliveira

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Para justificar o pouco que conseguiu nas negociações que António Costa simulou entre a poncha da Madeira e o tofu do PAN, o PCP disse que “o PS está hoje menos condicionado do que na anterior legislatura”. Não é verdade. PCP e BE continuam a poder inviabilizar qualquer orçamento. Deixaram de ser necessários os dois ao mesmo tempo, mas isso resolvia-se com uma coordenação entre eles, que o PCP recusa. Deixaram de ter um acordo escrito que amarrasse o PS a alguma coisa, mas o PCP também não o desejou. É um enfraquecimento autoinfligido que se traduz no argumento para não votar contra: “O que foi alcançado não anda para trás.” Maior caricatura do partido de resistência é impossível. O BE absteve-se por medo. Tal como o PCP, as conquistas são pouco mais do que simbólicas. Tão pouco que Costa se deu por satisfeito ainda antes de conhecer o seu voto. Já fizera saber que esperava que o BE viesse a reboque do PCP. A humilhação pública será a estratégia de Costa, que quer esvaziar de sentido o voto no BE. E o BE não reage porque teme a memória do PEC IV, onde votou ao lado da direita e depois caiu para metade. Não percebe que era outro o contexto, foram outros os erros e serão outras as consequências.

Era agora que BE e PCP definiam as regras desta legislatura. O Parlamento não pode ser dissolvido, a direita não é um risco e Marcelo, a preparar a reeleição, não quer uma crise. Talvez os eleitores não o entendessem agora, mas este é o momento para definir um padrão para a legislatura: assinarem de cruz todos os orçamentos ou terem o poder de determinar alguma coisa. E será isso, e não o estado de espírito atual, ainda marcado pela defunta ‘geringonça’, que decidirá o voto nas próximas eleições. Se os eleitores de esquerda estiverem satisfeitos e sentirem que BE e PCP não contaram para nada, votarão PS. Se estiverem insatisfeitos e sentirem que BE e PCP não fizeram oposição, votarão noutra coisa qualquer. Perdem sempre. É verdade que têm uma janela de oportunidade daqui a um ano: o Parlamento voltará a não poder ser dissolvido, por estarmos nos últimos seis meses de mandato do Presidente. Mas o tom foi dado agora: o PCP voltará a não ter perdido nada do que já foi conquistado e o BE voltará a ter medo de votar com a direita. Ao terceiro orçamento, se Costa lá chegar, estarão atados de pés e mãos, com um preço demasiado alto a pagar por uma crise política.

Vêm aí tempos perigosos. A direita estará em crise profunda, o PCP em hibernação e o PS apostado a ser um eucalipto, que seca tudo à sua volta sem mobilizar ninguém. Os sindicatos morrem lentamente e surgirão cada vez mais focos de contestação inorgânica, sobretudo entre os trabalhadores do Estado. E a extrema-direita estará, mais do que se julga, à espreita. É isto que me preocupa.

A conclusão deste processo negocial traduz um erro estratégico de toda a esquerda. Do PCP, porque desistiu de conquistas; do BE, porque tem medo de aparecer como radical; e de António Costa, porque tenta enfiar no bolso os seus interlocutores à esquerda, não percebendo que eles são a única barreira ao crescimento de um descontentamento antidemocrático. Quatro anos de orçamentos viabilizados de cruz, sem conquistas nem oposição, atirarão o país para um pântano. E BE e PCP para uma monumental derrota.