O diabo afinal chegou (e foi-se embora)

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 07/05/2019)

Chegou e viu, tirou o chapéu e foi-se…


Sempre tive alguma curiosidade em saber como era este diabo tão anunciado. A direita temia-o e desejava-o, esperando que tivesse as faces canhas de um comissário europeu que arrasasse o aumento do salário mínimo ou outras tropelias que, já se sabe, arruínam a nossa pátria, e que, num gesto pesado, reconduzisse a economia aos bons princípios da austeridade.

Mas foi afinal pela mão do primeiro-ministro que o demo se instalou entre nós, na vertigem de um apocalipse orçamental e com o cheiro a pólvora de uma tremenda ameaça de eleições antecipadas.A operação foi tão bem feita que houve mesmo uma fanfarra de cívicos que se levantou a bater palmas. Um “politicão”, disse um. “Cheiinho de razão”, assevera outro. Um “génio”, desbarreta-se outro.

Na direita ilustrada, a corrida foi para saber quem mais elogiava António Costa. Veio logo depois a fila dos “desiludidos” e dos “angustiados” com o PSD e CDS. Chegaram entretanto os técnicos, a confirmar, como na missa do sétimo dia, que o país estava em risco de desabar se aos professores fosse contado o tempo do seu trabalho nos termos da lei (que ninguém propôs mudar): um jornalista escreveu que a medida “dá cabo das contas do país”, um académico asseverou, desenvolto, que o custo seria “uma fração de 1%” do PIB (vá-se lá saber o que isto quer dizer) e o Governo foi atirando números tão díspares como 37 milhões, ou 240 milhões, ou 850 milhões, ou 1200 milhões, que importa, são muitos milhões, é pró menino e prá menina. A este espetáculo do impressionómetro foi chamado “contas certas”.

A direita ficou em transe porque descortinou que ajudou o primeiro-ministro a tornar-se o melhor defensor da sua posição histórica, a noção de que se deve limitar os salários como modo de ajustamento orçamental. Afinal, o diabo veste rosa

Feitas as contas que importam, esse impressionómetro regista três vitórias esmagadoras para Costa.

Primeira, ficou reforçada a ideia de que quem trabalha não pode reivindicar salário (“dá cabo das contas do país”).

Segunda, gerou-se a ideia de que os salários não devem ser determinados por lei ou por contrato, mas pela conveniência do Terreiro do Paço e, como sugere a direita em arremedo de solução, devia haver uma parte variável do salário que fosse negociada em Bruxelas. Somos todos peças na máquina cósmica do Ministério das Finanças. Antes a doutrina era contratualista, antes todos se regiam pelo “Estado de Direito”, agora esqueça tudo, o que passou a contar é o capricho do ministro. O salário será o que ele mandar.

Terceira vitória de Costa, esta a mais importante, criou-se um movimento de ódio social contra os professores, alimentado pelo discurso da igualdade na desgraça. Isto vai ter consequências duradouras e é um mundo novo que as direitas nunca conseguiram impor. O Governo convenceu a maioria da população de que a sua vida pode ficar melhor se os professores perderem o direito a salário legal.

Estes três triunfos ideológicos são notáveis, sendo que todos eles colocam o Governo no trono da cultura da direita. Mas que ninguém se engane, era mesmo o que pretendia e foi o que conseguiu.

Por isso mesmo, a direita ficou em transe porque descortinou que ajudou o primeiro-ministro a tornar-se o melhor defensor da sua posição histórica, a noção de que se deve limitar os salários como modo de ajustamento orçamental.

Afinal, o diabo veste rosa. Chegou, viu e venceu: assistir às inflexões do PSD e CDS, oferecendo com uma mão e prometendo nada pagar com a outra, ou à exasperação de quem pede que este fingimento seja aprovado, mesmo sabendo que não paga nada aos professores, é a prova de que o Governo ganhou a parada (para não falar do Presidente, que sem que fosse visto a mover um dedo, evitou eleições, encerrou a crise e seguiu viagem).

O problema é que, vencedor na sexta-feira, o diabo se foi embora logo no domingo. E talvez seja esse o maior risco para o Governo: foi tudo muito fingido, tudo mal explicado, os números eram fantasiosos, a representação foi gongórica. Uma crise colossal para eleições em fim de julho em vez de início de outubro? Ler os jornais internacionais sobre esta fabricação é um exercício penoso: não percebem nada e, no melhor dos casos, oferecem como explicação uma noveleta latina de faca e alguidar.

Dentro de portas também não serão poucas as pessoas, ou por pouca paixão partidária, ou por sentido das proporções, a perguntar se este diabo que vale 0,001 do PIB não era afinal um pouco exagerado e se a política vale todos estes enfatuamentos. Afinal, o diabo é um farsolas. E nunca nos evita o problema de sempre: se com a sua visita enxofrada começou a campanha para as eleições legislativas, voltamos à velha questão que se vai colocar a cada pessoa que pegue num boletim de voto: quer mesmo um governo PS com maioria absoluta? Ora, nesse campeonato é melhor não dar por certos os resultados. Confiança a mais é prosápia. Talvez o Governo se arrisque mesmo a ser vítima do seu próprio entusiasmo com o sucesso, que o leve a pensar que basta amedrontar o país para ter os votos e que tudo se resume a uma parada triunfal. Este diabo bem pode vir a ser o fantasma que persegue os vencedores de hoje.


8 pensamentos sobre “O diabo afinal chegou (e foi-se embora)

  1. Ou não. Como todos sabemos e também não vale a pena fazermos de conta que não percebemos tanta azafama por parte de um partido que nem mudou de posição, em 2011 uma situação muito similar valeu uma queda de 50%. E o abandono de Francisco Louçã da liderança do Bloco. Não que um partido não deva ser sempre coerente mas caucionar uma das piores direitas que há memória no país… Mas dizia eu que por acaso achei curiosa a analogia do Francisco Louçã. Também eu logo no domingo fiz questão de ir ao Observador meter-me com os direitolas que conseguem ver sempre o filme todo ao contrário com o seguinte comentário: Afinal o diabo sempre chegou. Quase no fim da legislatura mas chegou.

    • Ah, Vitinho, andas aqui com a mesma tanga e a mesma inteligência que, em ti, são aparentemente eternas.
      Respondi ao post do Vassalo e tu apareces lá num copy, o que não é coisa boa decerto.

      No Lado B, bye.

  2. Não concordo com este artigo. Distorce a realidade para colocar o ónus de um erro na única entidade que não abarcou nele.

  3. Afinal as teorias tendenciosas (e facciosas) não são exclusivas da “direita” Portuguesa…
    Cuidem-se aqueles que ainda acreditam nos políticos. Estes conseguem subverter da pior maneira, tomando suas as dores infligidas (ou tentadas) aos outros. HAJA MEMÓRIA!

  4. Este bacano, assim como toda a área bloquesa do qual é o ideólogo, é também o que é “pensionista” do mano Costa à semelhança D’Oliveira a quem os seus discursos parecem ser dedicados pois assentam à “sic” que nem uma luva.
    Todos emparelham a mesma retórica e palavreado de sofistas para deduzirem uma teoria da conspiração atribuída ao PM (este até fez dele, calculem, o ”Diabo” do Passos equivalendo-os).
    E este grande pensador que já foi o triste inventor da ideia de que “derrubar Sócrates é o primeiro passo para resolver todos os problemas do país” e teve como consequências a vinda do tal “Diabo”, a redução do Bloco a metade dos deputados e à saída compulsiva do bacano de chefe da Mesa; agora anda a tratar da vida na segura carreira de professor e da vidinha como “pensionista” do mano Costa.
    E, entretanto, julgando-se um sábio académico pensador político não larga a condição de fundador bloquista para se manter como ideólogo dos meninos e meninas sem vida para além de escola&estudos.
    Naquele tempo derrubaram Sócrates e deu na desgraça que deu e agora tratam afanosamente de derrubar Costa e motivados pela mesma obcessão de desfazer o PS e lhe sacarem os despojos.
    Não passa de mais um, ao fim e ao cabo D.Cristas, vendedor de uma já rançosa banha da cobra que fundamenta tudo com palavras sem apresentar as suas ideias e contas “certas” que nos levariam aos amanhãs líricos no paraíso.
    Foda-se que o país nunca mais se vê livre destes cromos que andam a vida toda deles a azucrinar a vida dos portugueses mesmo depois de tanta merda terem produzido como políticos no activo.

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