Sobre a responsabilidade

(Joaquim Vassalo Abreu, 07/05/2019)

Vassalo Abreu

A “chico espertisse” da nossa Direita na encenação de uma crise política que colocasse o Governo e o PS contra a parede teve, mais uma vez e tal como na votação do PEC 4 em 2011, a prestimosa e até ternurenta participação do PCP e do BE.

Aquela fotografia onde se amontoam uns quantos deputados (mulheres e homens) tentando escrevinhar um papel que pretendiam virasse lei ( o da contagem dos tais nove anos e não sei que mais do tempo de serviço perdido pelos Professores-e outras carreiras), que pelos vistos num afã deveras assinalável até votaram antes mesmo que ele estivesse pronto, é o rosto perfeito de tudo aquilo que a política não deve nem pode ser: o da despudorada tentativa de aproveitamento para fins eleitorais dos votos de uma classe!

Mas, pior ainda, o da consonância de interesses de quem tão diferente é, pressupondo assim que, por motivos apenas tacticistas e de imediato efeito, nem os Partidos da Direita ( o que para nós-de Esquerda-seria normal) nem os da Esquerda à esquerda do PS, se importam minimamente com a saúde das nossas contas públicas, com a nossa reputação e com o sentido de responsabilidade com que tudo isto deve ser tratado.

Mas a mim interessam-me particularmente as posições dos Partidos mais à Esquerda, nomeadamente daquele em quem regularmente votei e, confesso-vos, sinto-me transtornado, muito descrente do seu sentido de Estado e mesmo a perguntar-me se, podendo eles algum dia virem a ser governo, também algum dia merecerão o meu voto. No momento não!

E fico estupefacto com o que vem acontecendo. Em primeiro lugar porque votando uma lei assassina para as nossas contas, para o futuro da minha reforma, o Estado Social e tudo o resto, nem se dão conta da irresponsabilidade em que mergulham e nem sequer das consequências eleitorais que tal implica! Por isso a Direita, quando viu a reacção de comentadores e demais agentes, rapidamente recuou!

Estupefacto ainda com as justificações que lá vão arranjando, fazendo tantos exercícios de contorcionismo que me pergunto até onde terão eles agora a cabeça. E os Partidos mais à Esquerda insistem. E porquê? Porque, não querendo ficar perante os Professores e o reverendo Nogueira, com o ónus de terem sido eles a impedir esse absurdo de conceder a uma simples classe aquilo que o Estado não pode dar, nunca se importariam de ficar com o ónus de, a muito curto prazo, verem impostos a aumentar ou despesa ( pensões, prestações sociais etc) a ser cortada…como não se importaram com as horríveis consequências do seu voto no PEC4!

Eu publiquei muitos textos de reflexão na altura das anteriores eleições e depois da formação deste Governo e nunca me esqueço daquilo que escrevi. Escrevi, por exemplo em 10 de Novembro de 2015, num texto a que chamei “ Um Governo de Reposições”, esta coisa simples:” Eu não espero muito deste putativo Governo. Nem muito posso esperar porque sei dos limites do possível. Por isso me sentirei muito feliz se ele conseguir ser um Governo de Reposições. Da normal reposição do anormalmente retirado”.

O meu apoio a este Governo adveio no início da esperança, da confiança na geringonça, no Ministro das Finanças e, acima de tudo, em António Costa, o meu e nosso Primeiro Ministro, e agora pelo trabalho realizado e pelos patamares alcançados, que eu nem sequer imaginava o pudessem ser em tão pouco tempo.

E por tudo isso muito me admira que, com o aplauso de toda a Direita, que apenas quer o insucesso do Governo e concomitantemente de Portugal, neste final de legislatura o PCP e o BE não resistam ao esticar da corda pretendendo por todos os meios prejudicar o OS e daí, pensam eles, obterem ganhos eleitorais. Mas muito enganados estão se assim pensam. E se assim pensam é porque, realmente, não conhecem o eleitorado!

Por fim e na mesma onda destes dois Partidos vou referir um dos escrevinhadores e comentadores mais lidos pelas gentes das esquerdas, eu incluído: o Daniel Oliveira. Mas o Daniel tanto escreve e opina que, ao contrário de mim, facilmente esquece o que antes escreveu. E, na sua mais que alva “transparência” também se esquece do que defendeu e no sábado passado também culpou o António Costa pelo presumível desabar da Geringonça pois, diz ele, “ semeia a desilusão e o desalento nos que apoiaram esta solução política”.

Francamente Daniel Oliveira, então ele semeou em si a desilusão? Pois em mim NÃO! Mas este prolífico escrevinhador e comentador acusa também António Costa de “manipulador” e aponta-lhe sete (7) manipulações! Eu até acho que só a Cristas lhe conseguiria apontar mais…!

Mas acabo com mais uma pérola do Daniel e esta de uma profundidade tal que eu até vou buscar uma bóia enquanto a cito que é para não me afogar em lágrimas…:”Não faz sentido um Primeiro Ministro demitir-se porque as condições de governabilidade do executivo seguinte estão postas em causa e depois candidatar-se a liderar o executivo seguinte nessas mesmas condições”!

Não faz sentido, Daniel? Mas, por acaso, faz algum sentido o que você muitas vezes diz e pensa?


14 pensamentos sobre “Sobre a responsabilidade

  1. Muito bom mesmo! Sobretudo para quem continua a insistir que a chico espertice foi do governo. Fazem o mal e a caramunha e ainda querem controlar a resposta do governo. Fantástico. São sempre os donos da razão. Eu continuo a pensar que António Costa só peca por não ter apresentado logo a demissão. Com legislativas daqui a 2 meses.

  2. A “chico espertisse” [ui?, com cê, ‘stá?, a não ser que queiras dar um toque afrancesado e escreves espertise ou britânico e escreves expertise…] da nossa Direita na encenação de uma crise política que colocasse o Governo e o PS contra a parede teve, mais uma vez e tal como na votação do PEC 4 em 2011, a prestimosa e até ternurenta participação do PCP e do BE.

    […]

    Vassalo, curtinho para não empatar, pois as tuas lérias socráticas vêm de longe (sobre o que foi a narrativa do chumbo do PEC4, 1, e para que serviu com uns desenhos w tudo; sobre o que foi a última birra do António Costa, 2, mas noto que só tu, ó Vassalo, é que, mais uma vez, não viste nada-nadinha aparentemente).

    Enfim, eu por mim nada posso fazer.

    1.
    Nota, 4U. Ó Vitinho, é como se viu em 2011, de facto, mas, ao contrário do que a tua cabecinha supõe, não foi depois do chumbo da narrativa-de-fuga-socratista do PEC4 na AR. Foi, sim, perante os resultados das legislativas de 2011 quando os portugueses atiraram o José “dark side” Sócrates borda fora aproveitando então, o tipo, para descansar e filosofar na SciencesPo, viver à larga num bairro chique, em Paris, e regressar à Pátria em classe VIP nos aviões da TAP para a sua homília na RTP… pro bono. Enquanto isso, escreve aí para leres ao serão, duas coisas aconteceram: o Francisco Loucã, o BE, e o Jerónimo de Sousa, o PCP, acabaram por ter razão nas urnas; e os burros de carga [dos] portugueses passaram as passinhas do Algarve com o governo PSD/CDS enquanto o queridinho deixou Portugal e o PS num descampado algures na noite escura.
    16.1.2019

    2.
    Nota. Hum, como a demissão do António Costa chegou a um ponto em que toda a gente de idade adulta já percebeu que ele estava a fazer birrinha e já ninguém liga ao chavalo, têm de fazer uma nova sondagem.
    7.5.2018

    [De resto, interrogar o teor do artigo do DO está queito, que, como diz um tipo no Aspirina B, discutir argumentos dá trabalho, não é? O sectarismo é cego, diz ele, mas escreve que eu acho qu’a tanguice é de olhão.

    • Adenda, pois que será seguramente necessária para uns tipos qu’eu cá sei (tipos que estão a coçar, ensanguentar?, exterminar a espécie ecológica?, a coçar o cocuruto).

      […]

      A. Externato “O Cantinho do Paulo” (série dirigida ao Paulo Marques).

      O argumento fundamental que o tipo quis fazer passar, no ponto 1, é que o chumbo do PEC4 serviu como “narrativa de fuga” da pandilha do José Sócrates. Paris e SciencesPo, primeiro, os comentários na RTP, depois, serviam para limpar a impregnada imagem de cábula, para que o Portugal e o PS se recompusessem, pois essa é a natureza das coisas, e que os burros de carga que levassem a porrada para aprenderem, se arrependerem!, dos tipos do PSD/CDS mas que esquecessem que ele regressaria, um dia, passada a tormenta. Estava bem pensado, isto, se não fossem os bandidos do MP, né Paulinho?

      B2. “Da Capelinha das Aparições, Milagres” (série dirigida ao Irmão Lúcio).

      A cena da birrinha era uma piada, ponto 2, uma piada-séria mas que não deixa de ser uma piada sobre as magníficas sondagens d’A Estátua de Sal (não vás tu esperar pelo estilo literário, histórico e filosófico do sempiterno José Neves, dir-se-ia bem educado apenas?, para o tipo te explicar o porquê do gugu-dada de hoje, ‘stá?).

      Vá, agora ide ambos em paz.

      • O estranho é que na altura dos comentários da RTP ainda dizia mais coisas acertadas do que a maior parte dos que ainda andam na paineleirice.
        O que o autor do artigo disse percebe qualquer um, o que o RFC diz é que passa sempre ao lado, mas isso também é de propósito. Mas a pergunta mantém-se, tá tudo a bater na esquerda por causa das conta certas, mas alguém as fez? É que se não há dinheiro para nada, era bom que os auto-intitulados democratas sérios e responsáveis o dissessem em campanha para depois não darem em calimeros.

          • É uma chatice que o artigo e o comentário são anteriores à publicação, mas isso que não o impeça de menosprezar os outros se lhe dá tanto prazer.

            • Maio 8, 2019 às 10:10 pm

              Nora. Paulo, Paulinho,, se eu falo nas contas de UTAO e na sessão na AR, o-n-t-e-m!, e tu postaste às 22hé simples de perceber que tens um problema no tic-tac pelo menos.

              • Ó estátua, porque raio tens o formato americano na tasca, carago? Isto era evitável.
                Assim como assim, isso não invalida que andou tudo durante meses a falar de números que não são contas.

    • Tendo em conta o nível de ódio à FP, e aos professores em particular, é um resultado inesperadamente à tangente.

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