Fake analysis

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 24/02/2017)

Autor

                  Pacheco Pereira

Fake analysis Um dia é preto, no dia seguinte é branco 

Muita da “análise” política que se faz é tão presa ao quotidiano mediático que não serve rigorosamente para nada. Nem sequer se pode dizer que é conjuntural, visto que, num ano, um dia não pode ser considerado “conjuntura” de coisa nenhuma. Ela é inútil, e enganadora, mas serve a permanente procura de novidade que caracteriza os mecanismos mediáticos – tudo tem que ser “novo” para que não se repita a notícia ou a análise de ontem. E por isso dão-se verdadeiras piruetas “analíticas” para enunciar mudanças, inflexões, viragens que não existem, ou porque os “estados” de que se partiu ontem nunca existiram, ou então os de hoje são os mesmos de ontem. Mas o entretenimento e a logomaquia precisam desta permanente sucessão de mudanças, e como os nossos políticos “emprenham” pelos jornais e pelas televisões, dá-se um efeito de círculo vicioso. Como diria Trump, FAKE ANALYSIS!


Passos Coelho estava fragilizado ao limite, agora deu energia ao seu partido

FAKE ANALYSIS! Nem uma coisa nem outra, nem estava “fragilizado” como se dizia, nem está num pico de mobilização. Aliás, se nos perguntarmos qual era a fonte da “fragilização”, a resposta era o modo como conduzia a oposição, com o Diabo sempre a espreitar pela porta. E o que é que o fez ressuscitar da “fragilização”? O modo como conduziu a oposição na questão da TSU, e da Caixa, ou seja com o Diabo à solta. Ou seja, pelo mesmo tipo de tácticas catastrofistas e de oposição à outrance contra o Governo. E como é que se verificava a “fragilização”? Meia dúzia de vozes discordantes resolveram falar um pouco mais alto, mas mesmo assim pouco. A comunicação amplia-as até ao limite, porque é da sua natureza. O que é que comprova que dentro do PSD, haja uma fronda contra Passos Coelho? Nada. E o mesmo para o reverso. O que é que os leva a afirmar que Passos “mobilizou” o partido com a TSU e a Caixa? Meia dúzia de conversas no grupo parlamentar, meia dúzia de opiniões sem rosto, afirmações dos fiéis de sempre. Chega? Não chega, nem num caso nem no outro.


Ontem as “reversões” eram uma irresponsabi lidade, hoje o abaixamento do défice é “ir além da troika”

FAKE ANALYSIS! Não me refiro sequer a afirmações de políticos no activo, refiro-me a artigos na imprensa económica e comentários de economistas. Em que ficamos: é uma coisa ou outra, ou são as duas? Ver gente que certamente se horripilava caso houvesse um défice maior, hoje dizer – aliás erradamente – que o Governo está a ir além da troika só pode ser humor. Na verdade, aquilo que se chama “a troika” é na verdade uma mistura de medidas impostas pela troika e coisas que o governo PSD -CDS sempre quis fazer. O objectivo não foi essencialmente que o défice baixasse, mas que baixasse de determinada maneira e com determinados alvos, com certos grupos sociais que teriam que pagar os custos e outros não. Foi uma experiência de engenharia social, que ainda não morreu nos seus objectivos e resultados. Esse é um aspecto de que não convém falar, mas está lá, na oposição de Passos Coelho ao aumento do salário mínimo e na crítica às chamadas “reversões”, por tímidas que fossem. Mas graçolas do tipo “vejam lá o PS, que criticava todos os dias o governo PSD-CDS, agora só lhe interessa o défice e não as pessoas”, ou “vive obcecado pelo défice” não são análise, são tacticismos políticos.

O despautério

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 24/02/2017)

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A luta que Pedro Passos Coelho trava para que Mário Centeno seja corrido do Governo tornou-se num cansativo exercício de despautério. As razões pretendidamente fundas para desmantelar o Governo não só são fatigantes como resultam no destapar do feio rosto de uma manobra tenebrosa. Nem tudo é permitido em democracia, a não ser que os agentes deste desconforto desejem, eles mesmo, destroçar o que, há pouco mais de quarenta anos, foi edificado com esforço inaudito. O antigo primeiro-ministro está desarvorado e as sondagens, tomando-as como válidas, são suficientemente esclarecedoras. Esta experiência governamental, por única no panorama democrático português, é suficientemente reveladora do que tem acontecido noutras “freguesias.” E explica as razões fundas que conduzem ao ludíbrio. Mas a verdade é que jogadas desta natureza estão a ser rudemente castigadas, um pouco pela Europa. Bem sabemos o custo material que implicam, o desgosto que provocam e a fadiga que despertam. Sabemos, porém, que os povos aturam os golpes mais tenebrosos quando as contas atingem os limites máximos.

Os quase cinquenta anos que antecederam o 25 de Abril constituíram um preço elevadíssimo, cujas consequências ainda hoje se sentem. E não esquecemos os trezentos anos de Inquisição, que dizimaram os valores mais altos da ciência, do conhecimento e da liberdade. A luta do povo português é um episódio dos mais relevantes, conquistados na nossa História, e cuja dimensão tem sido ocultada por aqueles cuja consciência possui o valor de um caco.

Essa batalha insana tem-nos conduzido ao sítio onde estamos. Difícil, demorado, infatigável, porém não desmerecedor daqueles cujo único fito era o de conhecer os benefícios da liberdade, e que, para isso, oferecem tudo, até a vida. Dizem, para nos aquietar as ânsias de sonho, que ser livre sai muito caro. Claro que sim, quando os inimigos que se lhe opõem possuem tudo, até os artifícios do embuste. Seria curioso e instrutivo saber-se o que está por trás de muitos jornais e publicações circulantes, o que pretendem na realidade, manipulando consciências e, no fundo, ocultando, com hábeis mentiras, a verdade dos factos.

A economia, nobre ciência, tem possibilitado a ascensão de uma casta que proclama a ascensão de novos valores. Mas o que surdamente prognosticam é a ascensão desse mundo flutuante, flexível e vão, no qual os valores que nos impõem fertilizam certa ignorância e o descuido pelas dificuldades circundantes, e pouco reveladas. Portugal, pelos antecedentes conhecidos, tem sido um terreno fácil ao avanço dessas manigâncias. E não esqueçamos as políticas de-senvolvidas por Passos Coelho, acolitado por um ministro desarvorado, cujo nome conscientemente apago e vitupero, quando atiraram para o desespero e para o estrangeiro milhares de jovens altamente qualificados.

A luta sem regras contra o ministro Centeno é um dos episódios mais tenebrosamente sinistros ocorridos na história democrática do nosso país. E a tentativa do arrastar de Marcelo, para o pântano criado por Pedro Passos Coelho, constitui outro incidente que marca o propósito social-democrata vilipendiado até ao ultraje. A base política e ideológica do PSD estará disposta a consenti-lo? É o que veremos.

Contar zeros para adormecer

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 24/02/2017)

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Foi uma espécie de virar de mesa. Quando o PSD e o CDS tentavam prolongar a novela das SMS de Domingues e Centeno, surge a notícia de que houve vinte declarações de IRS que não foram fiscalizadas, e transferidas para “offshores”, no valor de dez mil milhões de euros entre 2011 e 2015. Este: “Vinte declarações no valor de dez mil milhões de euros” faz-me largar de imediato o cadáver das SMS da CGD e começar salivar de curiosidade: vinte declarações, de quem são?! Tenho mais curiosidade em saber o que raio se passou aqui do que conhecer as SMS do Domingues e do Centeno mesmo que incluíssem “nudes” da Monica Bellucci.

O antigo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, veio dizer que não teve conhecimento de falhas no tratamento dado pelo Fisco a transferências relativas a “offshores”. Já foi assim com a lista VIP das Finanças. Núncio não fazia ideia de nada. Na altura, quem se demitiu foi o director-geral da Autoridade Tributária. A lista era VIP, mas demitiu-se o mexilhão. Tenho a teoria de que o problema do Núncio foi ter andado a sortear carros. O pessoal das finanças não lhe passa cartão porque pensam que ele tem a sagacidade de uma apresentadora do Euromilhões.

Neste momento, já surge a hipótese de ter sido “um erro informático das Finanças”. Tinham demasiados zeros e a máquina das finanças só está afinada para menos. Foi feita para estar de olho, e apitar desalmadamente, em contas com dois zeros. Curioso que os alarmes soavam quando alguém espreitava as finanças dos VIP, mas adormecia com declarações de mil milhões. Provavelmente, o sistema informático adormece a contar zeros.

O CDS, partido dos contribuintes, reagiu de imediato a este escândalo, Cristas veio dizer: “O Governo plantou notícias para vir aqui fazer o número.” E que número, Dona Cristas, 10 mil milhões. Na SIC Notícias, João Vieira Pereira não pôs de parte a hipótese de notícias plantadas pelo jornal Público, dizendo que esta notícia deu jeito ao Centeno e que não sabe se foi propositado e que “não sou de teorias de conspiração, mas…”.

Resumindo, o jornalista do canal e jornal, que não revela quem são os jornalistas avençados do BES, porque são inocentes até prova em contrário, diz que coiso e tal, os seus colegas do Público, se calhar, plantaram notícias para ajudar o Governo. É também o mesmo canal onde Marques Mendes debita recados e notícias falsas ao domingo e onde andam a explorar as SMS do Centeno até ao tutano “porque é o que nós queremos ver”.

Não sei quem é o “nós”. Por mim, só queria ver tanta dedicação aos avençados dos Panama/BES como às SMS. E troco ver a declaração de rendimentos do Domingues por ver a parte da massa que fugiu voltar a casa. Eu sei, sou um anjinho, mas tenho esperanças de que o Lobo Xavier também tenha cópias de SMS com esta temática.


TOP 5

Plantado

1. Aníbal Cavaco Silva justifica o lançamento do seu livro de memórias com uma forma de prestar contas aos portugueses – Vai devolver aos portugueses o que ele e a filha ganharam com as acções do BPN.

2. Cristas vai queixar-se a Marcelo do “que se passa neste Parlamento” – Se o PR estiver ausente do país, tem de se queixar ao Ferro Rodrigues.

3. “Costa diz que assunto da CGD ‘acabou’ na segunda-feira com intervenção do PR” – Parece a minha mãe quando dizia que já não havia bolachas, mas havia.

4. Trás-os-Montes: australianos confirmam uma das maiores reservas de lítio da Europa – Com tanto lítio e temos um país de deprimidos.

5. Marquise da casa de Cavaco Silva passou a ter vidros espelhados – Também, quem é que quer ver lá para dentro?! Só se for um decorador de interiores com tendências suicidas.