Agora, Donald Trump já é bom?!

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 11/04/2017)

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Quando vejo os dirigentes desta querida Europa Ocidental, suposta paladina dos direito humanos, da liberdade e da paz, aplaudirem unanimemente o bombardeamento norte-americano contra instalações militares, governamentais, na Síria, para penalizar uma utilização de armas químicas, concluo: “Não aprendemos nada.”

Quando, pela enésima vez, vejo repetida a cena da crónica subserviência europeia, acrítica e impotente, às ações intempestivas da política norte-americana (embora coerentes com uma estratégia política de domínio do Médio Oriente), exclamo: “Pois… não aprendemos nada…”

Quando vejo tantos aplausos a Donald Trump, dados pelas mesmas pessoas que na véspera acusavam o presidente norte-americano de ser um perigo para a democracia, chego à desesperada conclusão: “Realmente, bolas, não aprendemos nada!”

Não aprendemos quando os norte-americanos juraram que Saddam Hussein tinha armas de destruição maciça, uma comprovada mentira que justificou a segunda invasão do Iraque em 20 de março de 2003.

Agora aceitamos com entusiasmo, com base em informações imprecisas, a culpa do governo sírio (plausível, mas não comprovada) sobre a atrocidade em Khan Sheikoum, que matou 86 pessoas, 30 delas crianças.

Não aprendemos com as inúmeras notícias manipuladas que levaram a opinião pública europeia a aceitar a invasão do Iraque.

Agora aceitamos a parcialidade das informações sobre a guerra entre as forças de Al-Assad e os grupos da oposição, onde se misturam terroristas fundamentalistas islâmicos, realçando-se as atrocidades de um dos lados em guerra mas, com duplicidade, escondendo ou relativizando as múltiplas crueldades do lado oposto, como aconteceu, ao nível do escândalo, no final do ano, sobre os combates em Aleppo.

Não aprendemos sobre as consequências graves que se espalham pelo mundo quando os norte-americanos avançam para ações militares sem apoio da ONU.

Em 2003 o Canadá, a França e a Alemanha (vá lá!), para além da Rússia, opuseram-se ao ataque pedido por Colin Powell e George W. Bush às Nações Unidas, à espera da comprovação das acusações contra Saddam. Veja-se o que, desde aí, aconteceu ao Iraque (180 mil mortos e um país sem governo e sem economia) e a toda a região.

E veja-se, igualmente, como as repercussões laterais dessa ação conduziram à guerra e aos atentados terroristas do Estado Islâmico, ao desastre da intervenção europeia na Líbia, à própria guerra na Síria, entre muitos outros focos de conflitos, de mortes e de hordas de milhões refugiados.

Desta vez, Trump nem quis saber da organização liderada por António Guterres… E acabou aplaudido por todos menos a Rússia e a China… Como se consegue ver aqui um passo na direção da paz?

Achamos mesmo que o errático Donald Trump vai conseguir sozinho a paz que, ao longo de seis anos de guerra, 360 mil mortos e dez milhões de refugiados, chamou ao envolvimento direto uma dúzia de países, em apoio às várias fações em contenda, na retaguarda, em fornecimento de armas, em apoio logístico, em treino de combate e, até, no próprio campo de batalha?

Achamos mesmo que o tweeteiro/trauliteiro Donald Trump merece mais crédito no índice de sensatez política do que o autocrata Vladimir Putin?

Achamos mesmo que Donald Trump, o político antirrefugiados, deve liderar a política internacional do chamado mundo livre?

Pois se achamos isso é porque, de facto, não aprendemos nada.

Há um vento de lamentos nos lamentos do vento

(Valdemar Cruz, in Expresso Curto, 11/04/2017)

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Os primeiros-ministros dos sete países do sul da Europa (França, Itália, Espanha, Portugal, Chipre, Grécia e Malta), ontem reunidos, como seria de esperar não esboçaram qualquer ato de condenação do ataque lançado pelos Estados Unidos contra a Síria na madrugada da passada sexta-feira. Revelaram até compreensão. E aqui entra a contradição suprema, porque ao mesmo tempo que entendem ser necessário sublinhar que “não pode haver uma solução militar do conflito”, acrescentam que apenas no âmbito das resoluções da ONU e das conversações de Genebra será possível encontrar uma solução política crível, capaz de assegurar a paz, a estabilidade da Síria e a derrota do autodenominado Estado Islâmico. Ou seja, tudo o contrário do que fizeram os EUA e pelo qual estes países mostraram compreensão. Ou então sou eu que estou desfocado, deslocado, e “às vezes sinto-me como um órfão, muito longe de casa”. Este é um lamento com dezenas de anos, que Jimmy Scott canta de uma forma comovente, como o fizeram, entre muitos outros, Louis Armstrong, Odetta, Pete Segger, Charlie Haden ou Prince. São palavras de um espiritual negro, cujo registo mais antigo data de 1870, concebido para denunciar a prática comum de vender os filhos dos escravos. Aqui subverto-lhe o sentido original e converto-o no lamento por um outro tipo de tráfico, o das ideias, a que assistimos no tempo que passa.
Bashar al-Assad é apresentado como o maior dos facínoras, autor de crimes odiosos, inomináveis. Seja ou não, e já se viu como há opiniões para todos os gostos e conveniências, não podem existir dúvidas sobre uma posição de princípio: existindo, esses crimes devem ser firmemente condenados e combatidos, ocorram eles na Síria, na Líbia, Arábia Saudita, em Israel, no Paquistão, no Egito, na Palestina, no Afeganistão, no Irão, no Sudão, ou onde quer que aconteçam e independentemente de quem sejam os seus responsáveis. A questão é, porém, outra. Com o mesmo empenho com que se repudiam as alegadas ações de Assad, tem de ser repudiado qualquer ato unilateral de guerra, executado à margem das decisões das Nações Unidas, e sem uma investigação rigorosa sobre o que realmente possa ter acontecido no terreno. Não permite ações imediatas? É fazer o jogo do agressor? Há hipótese de vetos (não há sempre?). Não é bom para um presidente acossado internamente poder ganhar novo fôlego com uma vistosa ação externa? Talvez não seja, mas o que a comunidade internacional tem de decidir – e Portugal em particular – é se, depois de tanto ter sido festejada por cá a eleição de António Guterres como Secretário Geral da ONU, afinal o que se celebrava era a eleição de um figura decorativa para um organismo que faz de conta que coordena, vigia e assegura o concerto das nações porque, no limite, a última palavra será sempre a que corresponda aos interesses de alguém tão fiável, tão seguro, tão tranquilo, tão previsível como Donald Trump, agora transformado no herói do combate aos russos e seus aliados.

O problema é ser este o mesmo Presidente dos EUA que não há muitos dias era detestado pelo “centrão” que domina a política interna e externa do país, classificado como mentalmente instável, refém dos interesses de Vladimir Putin e desprezado pelos media. Bastaram uns mísseis e tudo mudou. O normal, portanto.


OUTRAS NOTÍCIAS

O título dado a este Expresso curto não é meu. Aponta para um caminho ao qual teria preferido dar continuidade logo na abertura, para, por uma vez, chamar a destaque algo verdadeiramente importante. Falta poesia ao mundo em que vivemos. Foi o que me ocorreu ao socorrer-me daquele verso de Manuel Alegre. Faz parte do poema “Metralhadoras Cantam”, e integra um dos livros maiores de um tempo que, sendo de guerra, ousava o que parecia ser a utopia de reivindicar a paz e a “liberdade”, “palavra clandestina em Portugal/que se escreve com todas as harpas do vento”. Tem já meio século este “dilacerado canto a um país impossível, a um destino coletivamente frustrado e idealmente exemplar”, como dele dizia Eduardo Lourenço. A edição comemorativa dos 50 anos de “O Canto e as Armas” decorrerá a partir das 18h30 de hoje na Biblioteca Nacional de Portugal, ao Campo Grande, em Lisboa.

O esquema do cuco

(In Blog O Jumento, 10/04/2017)

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Há a ideia de que os governantes escolhem os seus paus mandados para os altos cargos da Administração Pública, para conseguirem favores no exercício do seu mandato. Talvez isso seja verdade, mas também é verdade que o modelo mais sofisticado e inteligente não envolve governantes no ativo, trata-se de uma estratégia que copia a do cuco, que coloca os seus ovos nos ninhos de outras aves, os seus descendentes não só são alimentados pelo progenitor involuntário, como expulsam as outras crias do ninho.
Basta olhar à nossa volta para reconhecermos vários políticos bem-sucedidos na vida, alguns conseguiram mesmo um estatuto na banca, passando em poucos anos da condição de pobres diabos para a de jet set. Alguns destes políticos desempenharam altos cargos partidários, não tendo chegado a desempenhar funções governamentais ou, quando isso sucedeu, fizeram-no em pastas com reduzida expressão económica. Uns tiveram um percurso parlamentar onde lideraram bancadas, outros foram secretários-gerais de partidos com presidente, alguns fabricaram primeiros-ministros ou chegaram mesmo a inventá-los a partir de personagens sem grande futuro.
Pensar que um governante ou um negociante de influências com alto estatutos político morre quando muda um governo é um  engano. Enquanto estão no poder, seja como governantes ou com responsáveis partidários, criam uma teia de relacionamentos que vai perdurar para além do tempo em que estão no poder. Designam gente da sua confiança para os mais importantes cargos da Administração Pública, desde diretores-gerais a modestos chefes de divisão.
A sofisticação destes “cucos” é tão sofisticada que chegam a contar com suplentes, quando um novo governo chega e muda alguns dirigentes escolhe muitas vezes mais um ovo do “cuco” que estava à espera da sua vez. É desta forma qe algumas personalidades que estiveram em posições de relevo continuam a ter um estatuto de “padrinhos” durante longos anos. Por vezes, já passou mais de uma década e ainda conseguem escolher dirigentes para postos estratégicos.
Quando os governos mudam podem dizer que nada têm que ver com os negócios, mas na verdade é quando os “cucos” estão mais ativos. As suas crias são obedientes não só porque devem tudo aos progenitores, como sabem que mais tarde ou mais cedo o seu “cuco” ou os seus amigos estarão novamente no poder, graças à bendita alternância democrática. Alguns são tão servis que para além dos favores comerciais dedicam-se a favores políticos, fazendo de antenas do futuro poder, fornecendo informação confidencial. Há mesmo que já tenha chegado muito alto na vida à custa destes esquemas.
Miguel Relvas, o mais recente senador e candidato a banqueiro institucionalizou a figura do “cuco”, agora a Geringonça conta com centenas de dirigentes escolhidos por falsos concursos, aprovados por um ingénuo chamado Seguro.
António Costa é o primeiro-ministro em funções, mas quem manda em muitos serviços do Estado é Passos Coelho, o primeiro-ministro no exílio. Aliás, o ridículo chegou ao ponto de a venda do Novo Banco ter sido preparada por um secretário de Estado de Passos Coelho, neste caso nem houve necessidade de concurso, foi inventado um lugar de assessor.