Os mortos contados por Zita Seabra

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 18/04/2017)

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Zita Seabra, que foi uma dirigente do Partido Comunista Português até 1988 e agora milita no PSD, acusou, num programa de rádio e TV onde tentou explicar a sua devoção à Nossa Senhora de Fátima, a ideologia comunista de ter provocado cem milhões de mortos no século XX.

Esta contabilidade é agora uma prática recorrente e tenta circunscrever o relato da Revolução de Outubro, que há cem anos começou a mudar o sentido da história da humanidade, apenas aos crimes que em nome do marxismo-leninismo foram cometidos neste planeta.

Como comunista tenho a dizer que acho muito bem que se denunciem todas as atrocidades praticadas em nome da luta por uma sociedade sem classes – sem uma denúncia veemente mas rigorosa, sem uma análise profunda de como todos esses horrores aconteceram, o avanço progressista da nossa civilização não vai acontecer tão cedo.

Infelizmente, a mistura incoerente, mas não arbitrária, de critérios leva a que, por exemplo, sobre o estalinismo, já tenha lido que ele vitimou 650 mil pessoas e, também, que foram mais de 60 milhões, o que daria um em cada três habitantes da União Soviética!… Impossível.

A verdade histórica, que nesta matéria não existe, ensombrada pela manipulação ideológica de vários sinais, terá, portanto, de esperar muito tempo.

O essencial, no entanto, é inegável: houve demasiados horrores praticados em nome do comunismo. A sua condenação é inevitável.

Acontece, porém, que essa paixão pelas estatísticas que denunciam o lado negro do comunismo não é contrabalançada por uma análise semelhante ao mundo saído da queda da União Soviética.

No mundo do capitalismo globalizado, do período de maior riqueza económica e financeira da vida da humanidade, não podemos certamente acusar o comunismo de ter provocado, de 1990, já sem Muro de Berlim, até 2015 a morte pela fome de 236 milhões (dados da ONU) de crianças com menos de 5 anos.

Só aqui estão, portanto, mais mortes inocentes do que as provocadas por toda a história do comunismo visto pela interpretação dissidente de Zita Seabra. Se juntarmos adultos a esta contagem, o valor sobe imenso…

Dirá o leitor que é uma falácia atribuir as culpas à globalização pelas mortes por fome. Até sou capaz de estar de acordo com essa crítica mas, na verdade, quando vejo as contabilizações de milhões de vítimas da ideologia comunista estão lá sempre os mortos pela fome provocados pela gestão da economia: são, até, grande parte desse inventário, pelo que, se esse critério é válido para um lado, terá de sê-lo, também, para o outro…

E até já vi a quase totalidade dos mortos da II Guerra Mundial ocorrida em territórios do Leste Europeu serem apontados como vítimas diretas do comunismo. É o mesmo que, nos últimos 25 anos, contarmos os mortos civis causados em guerras com envolvimento de países ocidentais, seja de forma direta seja em apoio a fações em disputa em palcos como o Iraque, Afeganistão, Médio Oriente/Primavera Árabe/Síria ou África: facilmente contaremos assim uns cinco ou seis milhões de vítimas mortais inocentes e um valor muito maior de refugiados, muitos deles afogados anonimamente no Mediterrâneo.

Aplicando portanto critérios semelhantes, as vítimas habitualmente atribuídas ao comunismo podem ser ultrapassadas pelos que morreram por alegados crimes cometidos em nome das democracias liberais e capitalistas do pós-Guerra Fria… É isto sério?

Não acham melhor, então, passar a uma análise mais honesta, frontal sim, mas honesta, desta contabilidade macabra do comunismo e do capitalismo?

EU TIVE UM SONHO…

(Joaquim Vassalo Abreu, 18/04/2017)

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…. Que em estrangeiro quer dizer “I Had a Dream…”, mas que não posso utilizar porque teria que pagar direitos de autor ao Rev. Dr. Martin Luther King! Por isso, adiante…

Mas quando digo que “tive um sonho”, eu tenho que me referir a um sonho especial e diferente, verosímil e alcançável, e não me ater àqueles sonhos que todos temos, como o do que fazermos se nos saísse o Euromilhões, e até me fico por este exemplo pois tenho cá para mim que é o mais vulgar de todos! Quem nunca com isso não sonhou que levante o dedo!

Porque, na realidade, só sonha quem nunca teve, só sonha quem nunca atingiu e só sonha quem nunca foi capaz. E, também por isso, se diz que sonhar é de graça! E por isso todos sonhamos, com o alcançável, com o inalcançável, ou com a soma dos dois que é nos sair precisamente o Euro…coiso!

Mas eu, como sonhador, devo ser o Ser mais irrelevante que em Portugal existe. E porquê, perguntarão? Simples: Nunca sonhei aparecer na TV, e nunca apareci! Num jornal que fosse, e nunca apareci também! Nunca fui objecto de qualquer curiosidade ou abordagem politica, mas aqui, valha a verdade, nunca fiz por isso. Mas nunca fui, por exemplo, sondado, e sempre sonhei com isso. E eu pergunto-me: como diabo há tantas sondagens e eu nunca fui sondado? Porque raio só me telefonam os tipos da Meo, da Nos, da Vodafone e da Impresa?

Mas, mesmo assim, tento ser um sonhador e vou lutando, por conta própria, e vou tentando erguer a minha voz, quanto mais não seja aqui neste espaço aberto, o Facebook! E, por incrível que pareça ainda vai havendo um punhado de gente que, mesmo não me conhecendo, me lê e partilha. Já não é mau!

Mas vocês estão a ler e a perguntar-se a onde é que este “cromo” quer chegar, com que raio terá ele sonhado, para além das coisas triviais já ditas, a que se pode acrescentar a Paz, a Liberdade, a Habitação, a Saúde, a Justiça e todas essas coisas de somenos? E aqui já não posso esconder mais e tenho que confessar o meu sonho. Um sonho que é um misto de sonho e de pesadelo (tanto eu escrevi a dizer mal dele…), mas que agora resulta numa simples coisita: Sonhei fazer uma perguntita ao Marcelo? Acreditem, sonhei mesmo…

Não é preciso recuar e trazer à colação o FREUD para afirmar que todos os sonhos têm uma qualquer razão, seja ela superficial e dela nos recordemos, ou seja ela profunda, e é qualquer coisa escondida no nosso subconsciente e que, destrambelhadamente, vem à superfície! Mas, neste caso, não é nada disso! É uma coisa corriqueira: o meu Irmão mais velho, que ainda é Presidente da Câmara da Ponte da Barca e é tu cá tu lá com o Marcelo, disse-me uma vez, e ficou gravado na minha memória, que sonhava convidar o Marcelo a ir à Barca! Onde o anterior, para seu desgosto e nosso gáudio, nunca foi, nem pelo meu Irmão foi convidado!

E como quando há assim um evento desses eles até me costumam convidar (devem pensar, às tantas, que a minha presença eleva a sua qualidade, a do evento) eu até fui ao obrigatório e informal jantar com Sua Excelência! E então, com aquela descomunal “lata” que me caracteriza (posso nada ter, mas “lata” não me falta), pedi licença a Sua Excelência e a todos os presentes para fazer uma pergunta, em voz alta e audível, uma simples e singela pergunta, ao Senhor Presidente! Vejam lá com o que eu sonhei!

E a primeira pergunta que me surgiu foi: “O que pensa V.Exª da “Geringonça”, ou da “Jiga-Joga” como agora eu lhe chamo?”. Claro que foi só um pensamento retórico porque, nem seria preciso muito, logo descobri que me ia sujeitar ao ridículo e que ele, com a sua subtil habilidade, me iria mandar logo para canto!

Desviei-me imediatamente desse pueril pensamento e raciocinei melhor: eu tinha que lhe fazer uma pergunta, mas uma pergunta com incisão tal, da qual ele não tivesse escapatória.

Uma cuja resposta teria que ser, sem quaisquer sofismas, um “Sim ou Não”, e o melhor que me surgiu foi o seguinte: “ Senhor Presidente, com o devido respeito a V.Exª e a todos os presentes, e tendo por adquirida a anuência de todos e de V.Exª também, eu gostaria muito de lhe fazer uma pergunta! Mas uma coisa assim prosaica, esteja tranquilo. Eu, para ser sincero, pensei primeiramente perguntar-lhe “o que pensa da Geringonça” mas, como de imediato pensei num nome que S. Exª não me chamaria mas pensaria, logo desisti. E como sei que V.Exª é tu cá tu lá com o meu Irmão aí ao seu lado, e não o querendo por nada deste mundo defraudar e dar uma de inocente, resolvi reformular a minha proposta e desafia-lo, não para um cantar ao desafio próprio destas bandas e ao qual certamente não escapará mas, para isso, há aqui muitos especialistas, para uma perguntinha banal, mas à qual o Sr. Presidente, pese a sua notável arte da dialética, e tudo o  que termine em “ética”, não poderá fugir e cuja resposta, lamento informá-lo, só poderá ser “Sim ou Não”! É que nem o “talvez” admite.

Mas, perdoe-me uma leve arrogância, não consigo vislumbrar como possa responder com um “Não”! Como o “Nim” também está fora de opção, V.Exª só poderá responder: “SIM”!

Mas qual é essa sua pergunta, afinal, que o faz ter tanta certeza? Perguntou, muito curioso, S. Exª. Então, com toda a sua condescendência e liberal “fair play”, sua compreensão e afectivo sentimento, a minha pergunta é a seguinte:

“ NÃO ACHA V. EXª QUE A “GERINGONÇA” FOI A SALVAÇÃO DESTE PAÍS E MESMO DA NOSSA DEMOCRACIA?”

Eu sei que não passou de um sonho, um daqueles que, como disse, quando nada nunca fomos ou tivemos sonhamos um dia ter, o nosso momento de glória, isso mesmo, e então dá-nos para sonhar assim com “cenas” destas…

Mas, já agora, ponham-se na pele de Sua Excelência: que responderiam?

O óbvio, não é?


Fonte aqui

Esta Turquia é culpa nossa

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 17/04/2017)

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As instituições europeias não se deviam surpreender com os caminhos para um poder cada vez mais centralizado que a Turquia está a trilhar. Afinal, se bem que não se possa fazer o contrafactual, é de supor que se a Europa tivesse aceite o pedido de adesão da Turquia à União, que há exatamente 30 anos está em cima da mesa, talvez o regime de Ancara não estivesse a tornar-se cada vez menos democrático.

A Turquia apresentou o seu pedido de adesão à então Comunidade Económica Europeia em 14 de abril de 1987 mas já desde o ainda mais longínquo ano de 1963 que Ancara foi tentando desenvolver relações mais estreitas com as instituições europeias. Em 1995 assinou um acordo de união aduaneira com Bruxelas e, a 12 de dezembro de 1999, foi reconhecida oficialmente como candidata. Em 3 de outubro de 2005, foram iniciadas as negociações formais para a plena adesão da Turquia à União Europeia, mas desde aí tem sido manifesta a falta de vontade de alguns países europeus, com a Alemanha à cabeça, para aceitar a Turquia no clube.

Na verdade, os direitos de voto de cada país nas instituições comunitárias estão ligados ao número dos seus habitantes – e a Turquia, com 75 milhões, colocar-se-ia quase no mesmo patamar que a Alemanha (80 milhões) e à frente da França (66 milhões) e de Itália (60 milhões), tendo direito a mais deputados no Parlamento Europeu e a mais votos que Paris e Roma em todas as instâncias comunitárias.

É de supor que se a Europa tivesse aceite o pedido de adesão da Turquia à União, que há exatamente 30 anos está em cima da mesa, talvez o regime de Ancara não estivesse a tornar-se cada vez menos democrático

E assim, por manifesto cálculo político, os governos europeus da União foram encanando a perna à rã, arrastando os pés e o processo, fazendo que andavam mas não andavam, esperando não se sabe bem o quê – que a Turquia desistisse ou que, de repente, ficasse com muito menos população ou que acontecesse uma explosão demográfica nos países da União.

E entretanto, as correntes mais laicas e moderadas turcas iam pouco a pouco perdendo posições para setores mais radicalizados, que se foram cristalizando na sociedade e que ganharam um novo e decisivo avanço com a estranhíssima tentativa de golpe de Estado de 15 de Julho de 2016, esmagada pelas tropas leais ao presidente Recep Erdogan. A partir daí, Erdogan não só eliminou toda a oposição, como encerrou dezenas de órgãos de comunicação e acaba de vencer, embora pela margem mínima e com evidentes sinais de fraude, o referendo que lhe vai permitir eternizar-se no poder até 2029 e reintroduzir a pena de morte.

Ao fazê-lo, Erdogan dá um sinal claro de que desistiu da adesão do seu país à União Europeia, que se fartou do arrastamento do processo e que não acredita que ele algum dia venha a ocorrer. Mais: ele sabe que é uma condição “sine qua non” para que um país seja membro da EU que o seu regime seja democrático parlamentar e que não aplique a pena de morte a quaisquer tipo de crimes.

Ao reafirmar a defesa da pena de morte, o presidente turco está a dar um sinal claro de que deixou de contar com a EU como aliada e que vai procurá-los noutro local do globo. A questão é onde.

Na verdade, apesar da Turquia pertencer à NATO, os Estados Unidos não são um amigo predileto. Com a Rússia as relações também não são sólidas. Nem com Israel. Resta saber para onde se irá voltar Erdogan – e se a tentação do poder absoluto não o levará a ficar pouco a pouco isolado interna e externamente.


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