Quem quer casar com a carochinha?

(In Blog O Jumento, 07/10/2017)
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Parece que ninguém se oferece para casar com a carochinha, muito rica e bonitinha, tudo aponta para que o Rui Rio faça as vezes de João Ratão. Durante anos andou na sombra para chegar à liderança do PSD sem ter de correr o risco de dar a cara por esse desejo e de preferência sem lutas que o exponham, obrigando-o a dizer o que pensa ou que pensa que pensa.
Se não fosse Pedro Santana Lopes que há muitos anda por aí, não perdendo nenhuma oportunidade para gritar “estou aqui”, o PSD poderia poupar congressos e eleições, até podiam ter dado posse ao novo líder no almoço de Azeitão, que muitos militantes e velhos dirigentes agradeceriam não ter de ir a mais um congresso inútil. Até se poupava o trabalho de apresentar moções, até porque Rui Rio não tem pensamento político, o mais longe que vai nesse domínio é um bom dia ou boa tarde.
Começa a ser evidente que os apoiantes de Passos optaram por estender a passadeira laranja a Rui Rio obrigando-o a ir a jogo no pior momento do PSD. Sem programa, sem projeto e sem grandes apoios das bases Rui Rio vai dirigir o PSD sem ter lugar no parlamento e com um grupo parlamentar com uma maioria esmagadora de apoiantes do ex-líder.
Rui Rio não tem programa, andou anos a fazer oposição a Passos Coelho sem a coragem de o fazer de forma frontal e sempre que lhe foi exigido que se assumisse ia almoçar com Passos Coelho para lhe garantir apoio, acusando a imprensa de inventar posições que não tinha. Rui Rio nunca teve uma visão para o país, esteve sempre limitado ás suas capacidades intelectuais e aos limites do concelho do Porto.
O PSD vai enfrentar um período muito complicado, derrotado num parlamento onde a direita ficou em minoria, derrotado nas autárquicas, derrotado em todas as sondagens e sem uma resposta à política económica do governo, tem agora um líder sem programa, que chega à liderança sem debate, sem um lugar no parlamento, sem imprensa e sem dinheiro.
Rui Rio vai casar com a carochinha e não lhe faltarão padrinhos e damas de honor, reúne uma unanimidade quase cínica, levará como padrinhos Manuela ferreira Leite e Morais Sarmento, terá Rangel e Montenegro como damas de honor, reservando-se para Marques Mendes a tarefa de levar as alianças e com Marcelo a celebrar a eucaristia. Agora já falta saber se o João Ratão cai no caldeirão antes ou depois das próximas eleições.

O pavor da nossa alt-right com a possibilidade de lhes fugir o PSD

(José Pacheco Pereira, in Público, 07/10/2017)

 

JPP

Pacheco Pereira

O que eles não querem é que o PSD olhe de novo, com uma visão reformista, para os problemas sociais da sociedade portuguesa.

Por que é que a direita mais radical, a versão nacional da alt-right americana, que tem como órgão de expressão o Observador, não se preocupa com o CDS, mas sim com o PSD? Por que razão nunca verdadeiramente discutiu o projecto do CDS, mesmo com o anexo do PP, não se preocupou uma linha com a campanha despesista de Assunção Cristas, que em nada diferiu nas suas propostas do surto de reivindicações despesistas e desenvolvimentistas de praticamente todos os autarcas, sejam da CDU, do PS, do PSD e… do CDS, e pelo contrário avança com armas e bagagens para combater a possibilidade de um recentramento político do PSD?

A nostalgia dos bons velhos tempos de Passos e da troika manifesta-se em dezenas de artigos nostálgicos glorificando as virtudes daquele que é apresentado como o melhor primeiro-ministro de sempre em Portugal. Se outra coisa não mostrasse a deriva do PSD para a direita com os anos de Passos, a partir de 2012, este clamor de emergência com o destino do PSD seria a sua melhor prova. O que os preocupa é o PSD, porque instrumentalmente é o PSD que tem os votos e não o CDS, e é o PSD que pode, como se viu, prosseguir uma política agressiva que corresponda aos seus interesses e visão do mundo.

Como já referi, a nossa alt-right está para o PSD e Passos Coelho como a sua congénere americana está para Trump: não o reconhecem como sendo dos “deles”, mas têm perfeitamente consciência que foi ele que lhes deu o poder que nunca teriam nas urnas. Por isso defendem-no com unhas e dentes, mesmo quando ele hesita e oscila de um dia para o outro.

Eles sabem o que é importante, como a nossa alt-right sabe que sem Passos e com um PSD menos controlado ficam reduzidos a um pequeno grupo extremista, ou então tem que se dedicar ao CDS, que é um fraco instrumento, ou tentar fazer um partido “liberal” que, com um sistema político bastante bloqueado como o português, é uma tentativa de muito pouco sucesso previsível. Acresce que a direita tipo do PNR não lhes serve para nada, visto que é o exercício do poder político que lhes interessa e não a ortodoxia política, nem mimetismos das “frentes nacionais” europeias. Como tiveram a sorte grande, agora não lhes basta a terminação.

O governo PSD-PP, com Passos e Portas, deu-lhes um braço armado como nunca tiveram, perante a complacência de muita gente da direita orgânica e da esquerda, do PS ao Bloco de Esquerda. Não querem ficar apenas com o que já têm, embora tenham tido já bastante nestes últimos anos. Começaram a construir uma rede de influência na comunicação social (o projecto do Observador é isso mesmo), nas redes sociais, nos think tanks das universidades e fundações, num establishment intelectual e de influência que conta com poderosos apoios financeiros. Tiveram uma história com algumas ambiguidades, desde a fase de “filhos do Independente”, depois ligados ao surto dos blogues, e em que cultivavam uma aliança natural, geracional, cultural com uma parte da esquerda, com troca mútua de cumprimentos e elogios, uniram-se nos programas do “engraçadismo” e partilharam algumas causas do “politicamente correcto” que agora abominam. Depois passaram para o serious business.

Passaram de ser uma moda para o poder político e comunicacional e de uma trincheira amável, com abundante fishing for compliments, para uma grande agressividade, com ataques ad hominem e anátemas contra todos que se lhes opõem. O ataque pessoal vil que conduzem contra os “mais velhos”, os que “cheiram a bafio”, os que “já passaram de validade”, retoma um dos temas dos anos do ajustamento: o vilipêndio nunca visto contra as vozes mais velhas que podiam falar porque, entre outras coisas, não estavam à espera de ter carreiras, ou porque tinham estatuto e autoridade para falar. A guerra geracional, que encontrou numa fórmula sinistra da JSD, a da “justiça geracional”, destinada a tirar aos pais e avós para dar “aos filhos e aos netos” — na verdade, a outros pais e outros avós —, e que se manifestou em epítetos como o da “peste grisalha”, é instrumental para tentar calar ou desautorizar muitos que falam com a liberdade que eles não têm.

Na verdade, conheço muitos velhos, mesmo muito velhos, que eles veneram, alguns com um passado bem pouco recomendável. Não é a idade, são as opiniões que eles atacam em nome de uma juventude que muitos deles nunca tiveram, porque lhes afronta aqueles que sabem mais do que mandar bocas no Twitter e ter uma vaga existência política nas redes sociais.

Há várias peculiaridades portuguesas da nossa alt-right. Não é uma direita nacionalista e isolacionista, perceberam a importância que a Europa e os seus diktats económicos tinham em permitir-lhes uma tentativa de engenharia social que nunca passaria nas urnas se fosse apresentada aos eleitores. Esta foi, aliás, uma função essencial do PSD de Passos Coelho e que os levou a abandonarem as suas reservas ao federalismo e intervencionismo cosmopolita da Europa, para se tornarem europeístas. Não é por acaso que estão contra o nacionalismo catalão, não só pela sua afinidade com o espanholismo de génese falangista, mas também porque os equilíbrios do poder na Europa precisam do PP espanhol, como cá precisam do PSD.

Na verdade, não cultivam a variante do “trumpismo” do “Make America Great Again”, até porque não gostam muito de Portugal, como uma vez Portas admitiu. O país vota demasiadas vezes à esquerda, “vive do Estado”, está contente com a “geringonça”, é preguiçoso, “gosta de viver de dinheiro emprestado”, e não lhes liga muito. Mas essa atitude termina onde terminam as fronteiras da Europa e em cada cidade que tem um contingente de refugiados e/ou de muçulmanos, aí já a identidade cultural “cristã” os mobiliza.

Têm também dificuldade em lidar com as forças tradicionais a que a direita costumava dar valor, as Forças Armadas ou a polícia, porque o 25 de Abril fá-los desconfiar das Forças Armadas, e o sindicalismo policial das polícias. Mas sempre que há um incidente que lhes permita recolocar as coisas numa dualidade que lhes serve — ciganos ou emigrantes versus polícias —, enfileiram de imediato no “justo” combate.

A chantagem que é feita ao PSD de que um recentramento político — uma expressão que uso por facilidade mas que sei ser ambígua — levaria à criação de uma espécie de segundo PS não tem pés nem cabeça.

O que eles não querem é que o PSD olhe de novo, com uma visão reformista, para os problemas sociais da sociedade portuguesa, para a enorme pobreza que subsiste, para a dignidade do trabalho, para o controlo dos grupos económicos, para uma política de emigração equilibrada e justa, para uma constante preocupação com a existência de um elevador social que precisa do Estado e de impostos progressivos, que garanta direitos mínimos aos portugueses no plano da educação, habitação e da saúde.

Nalguns casos, a melhor maneira de assegurar este caminho é com menos Estado, noutros com mais. Isso, vos garanto, pode ser feito com muito mais eficácia e independência por um PSD reformista do que por um PS preso aos grandes interesses.

Por que é que isto afronta a nossa alt-right? Porque, ao diminuir o enorme fosso que separa a riqueza da pobreza e ao dar poder “aos de baixo”, seja sob a forma de direitos sociais, de educação, de trabalho, de viver uma vida digna, põe em causa o direito que os poderosos acham que têm pelo nascimento ou pela natureza à sua liberdade. Como no título do filme de Fassbinder, trata-se de contestar o “direito do mais forte à liberdade”.

É em parte tudo isto que está em jogo no actual debate no PSD, seja ele feito ou não pelos putativos candidatos. A campanha vai ser muito dura, mas sê-lo-á ainda mais se não houver qualquer debate ideológico e político e apenas um choque de personalidades e grupos dentro do partido.

PASSOS PASSOU

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 07/10/2017)

cfa

Clara Ferreira Alves

(Dona Clara. Apesar de a zurzir de vez em quando, não posso deixar de sublinhar o quão bem conhece a “alma” do PSD que magistralmente aqui descreve. É por isso que ainda a vou lendo, qual garimpeiro que de vez em quando pode encontrar uma pepita de ouro… 🙂 

Estátua de Sal, 07/10/2017)


O PSD sacode o torpor dos últimos anos e prepara-se para a sessão de psicanálise. Ora a psicanálise do PSD é a da pátria, a do bom povo português.


Confesso. Já tinha saudades. Dos barões, das facas longas, e das curtas já agora, das noitadas, das jantaradas, da conspiração, das mensagens segredadas, dos recados disfarçados, das facadas e navalhadas, das piadas, das frases bombásticas como ‘Estou disponível para avançar, mas a minha hora ainda não chegou’, ou ‘A minha hora chegou, mas não estou disponível para avançar’. Ou da clássica frase ‘Miguel Relvas já está a trabalhar’, como se alguma vez tivesse deixado de o fazer, esperto como é em apanhar o zeitgeist no bolso. Tinha saudades das autoflagelações, das traições, das opiniões, das questões programáticas onde a gramática não é o elemento forte. Tinha saudades das paixões e devaneios, dos silêncios fundos como abismos, das lamentações, das aglomerações das classes subalternas, do fogo de vista e dos pensamentos rotundos sobre a pátria. Tinha saudades da ingratidão e do oportunismo. Até da caturrice de Cavaco se tem saudades nestas ocasiões de derrota. Espera-se dele um pronunciamento devidamente caturra e enfastiado.

Na verdade, Pedro Passos Coelho tinha reduzido o partido a um grupo de neocons cheios de decoro e desaforo, destituídos de um pingo de dramatismo. Sentia-se a falta daquela intensidade passional que vinha do passado e que transformava os congressos do PSD em óperas bufas ou em imitações de Scorsese em Little Italy. O Coliseu apinhado, Santana com a sua dama, homens de bigode em correria pela galeria, grupos de calças — que calças, que talento! dizia o Eça — arrumados a um canto em amena perversidade, senhoras agitadas, e grandes declamações de júbilo.

Enquanto o PS de Costa se transformará numa soneca albanesa, uns cem por cento de apoiantes, o PSD sacode o torpor dos últimos anos e prepara-se para a sessão de psicanálise. Ora a psicanálise do PSD é a da pátria, a do bom povo português. Tinha saudades do PSD. Achei que depois da frígida sensibilidade de Maria Luís e Vítor Gaspar, incapazes de um ricto facial, e da passividade urbana de Passos Coelho, o PSD nunca mais iria ao teatro. Era como se o partido estivesse em casa entretido a ver séries de televisão e telenovelas, com as pantufas calçadas e um chá com bolinhos feitos pela mãe.

Bastou uma noite e uma derrota histórica para os heróis do mar nobre povo se levantarem da poltrona. Até Rio, o homem das reticências e parêntesis e com horror a pontos finais, se mexeu da cadeira para ir jantar fora. Os trumpistas envergonhados estão prestes a abandonar a melhor sociedade e regressar às parcas carreiras, mantendo a pistola carregada e remirando a hipótese de um lugarzinho de comentador. Nunca se sabe. Ora este nunca se sabe é a melhor característica do PSD. É o equivalente partidário da velha frase portuguesa ‘Depois logo se vê’. Ou, ‘Alguma coisa se há de arranjar’.

O sangue voltou a fluir nas artérias sociais-democratas que de sociais-democratas nada tinham. Claro que ainda não se vislumbra o sopro de uma ideia no deserto, mas do drama e da discussão, da noitada e da conversa amesendada nascerá a luz. Pode ser um partido doente mas ainda é um partido preciso. Há que dar-lhe a transfusão de sangue (mas não do Lalanda), o suplemento vitamínico, o tónico cerebral, as ervas curativas, a sessão de Pilates, o treino com pesos, e umas aulas de krav maga. O Costa é mais capoeira, uma dança acrobática. O PSD precisa de ganhar músculo e reabilitar o neurónio, adormecido por anos de sonolência cavaquista e oportunismo negocista. Não assistiremos à morte do César no Senado, não teremos um bruto para isso. O passismo, corrente anémica, não terá discípulos que transcendam a presença de Passos. Lá pelas províncias, as costureiras estão a receber as casacas para revirar antes do inverno.

Tudo isto existe, tudo isto não é triste. Em breve, o país ficará farto da placidez da geringonça, e já há quem deseje ardentemente, sobretudo os jornalistas e analistas políticos que preferem viver na Sicília do que na Suíça, que o velho PCP dê um pontapé na coisa e declare o direito à autodeterminação. A oligarquia sacode as teias de aranha e prepara-se para dizer a célebre frase ‘Eu bem vos dizia’. Os dinossauros estão extintos em toda a parte menos em Portugal, tal como os Templários.

A juntar-se à festa vem aí a famosa acusação de Sócrates, que contribuirá para a animação geral. Sócrates, como os do PSD, partido a que pertenceu antes de se declarar inefavelmente de esquerda, só veste fatos italianos e prefere a tragédia à paz dos cemitérios. Toda esta gente desatará aos berros e poderemos finalmente deixar de falar no défice e na dívida, tema de bocejo. Costa manda discretamente reforçar as tropas e a artilharia e espera que os azougados vizinhos do lado limpem os estábulos e lhe permitam dizer ao Jerónimo, ‘Estás na idade de te reformares antecipadamente e sem penalizações’. Ora no PSD não há reformados. Os barões continuam na vida ativa e têm mocidade eterna.

Passos passou.