Somos todos keynesianos outra vez?

(In Blog, Ladrões de Bicicletas, 25/09/2017)

Parece que há uma discussão orçamental suscitada por um útil estudo em torno de simulações dos putativos efeitos de décimas do PIB de necessários aumentos da despesa pública, que tem a virtude de expor pela enésima vez o espartilho de regras europeias cada vez mais “estúpidas”, para usar a elegante fórmula do antigo Presidente da Comissão Europeia, Romano Prodi. Dos limites ao défice até à redução anual da dívida, que impõe superávites do saldo primário, a estupidez está ao serviço do mais estreito interesse próprio dos credores.

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Autárquicas, complacências e agressividades

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 24/09/2017)
JPP

Pacheco Pereira

As pessoas podem estar cansadas da política e da parafernália eleitoral, mas, no fundo, esperam que os candidatos façam tudo o que é suposto fazerem, colocar cartazes, andar na rua, ter brindes para dar, esforçarem-se.
Estas eleições parecem, sublinho, parecem tão previsíveis que estão a gerar em muitos candidatos efeitos perversos de que bem se podem vir a arrepender. Uns estão tão convencidos de que vão ganhar que são complacentes. Outros estão tão convencidos de que vão perder, e por muito, que fazem apenas os serviços mínimos. Pelo contrário, os candidatos que se esforçam, que são agressivos no meio desta pasmaceira, estão a obter vantagem.
Não me refiro a nenhum partido, nem aos candidatos independentes, porque estes comportamentos são bastante transversais e estão a mostrar como as atitudes face às campanhas e a sua importância podem mudar alguma coisa.

As pessoas podem estar cansadas da política e da parafernália eleitoral, mas, no fundo, esperam que os candidatos façam tudo o que é suposto fazerem, colocar cartazes, andar na rua, ter brindes para dar, esforçarem-se. Esta é uma atitude que dificulta a inovação e a evolução das campanhas presas ao conservadorismo dos eleitores.

Campanhas ricas e pobres

Já me referi aqui ao facto de haver campanhas muito ricas, mesmo muito ricas. De novo, registo a minha perplexidade sobre de onde vem tanto dinheiro. E algumas destas campanhas muito ricas nem sempre são as dos candidatos dos grandes partidos, são-no também de candidaturas independentes. Por exemplo, em Oeiras, os candidatos fora dos partidos desenvolvem campanhas opulentas, deixando para uma relativa modéstia algumas campanhas de grandes partidos como o PSD. Parece haver uma maior correlação com o valor das economias dos concelhos, em particular do imobiliário, como é o caso de Lisboa, Oeiras, Cascais, e Sintra.

Ilustração Susana Villar
Ilustração Susana Villar

Mas há também campanhas pobres, cuja pobreza é ainda mais evidente quando se comparam, num mesmo concelho, com outras campanhas, e nalguns casos mesmo surpreendentemente pobres. Por exemplo, a campanha de Narciso de Miranda parece ter muito poucos meios, em comparação, por exemplo, com a de Isaltino ou Paulo Vistas.

Na concorrência…

Há muito tempo que a nossa linguagem se impregnou de uma visão do “economês” que dominou muito do discurso público nestes últimos anos e ainda está bastante vivo. Um dos exemplos é a expressão com que na televisão, e mesmo na rádio e nos jornais, se refere um outro órgão de comunicação, como sendo a “concorrência”. Na verdade é a SIC ou a TVI ou a RTP, ou o Público ou o Diário de Notícias, a Visão ou a Sábado. Por que razão um comentador ou um jornalista quando se refere a outro órgão de comunicação diz “no programa da concorrência”, ou “o que deu na concorrência”, como se a competição por audiências, por anunciantes, por lucros, seja a principal fronteira entre dois órgãos de comunicação? Que um gestor de um órgão de comunicação se expresse assim, ainda se compreende, que um jornalista o faça, é redutor para todos.

Se for do nosso lado engole-se tudo

Não escapa a ninguém que Trump não tem a preparação, a educação, a honestidade, a atenção à função, a dignidade mínima, qualquer carácter, nenhuma responsabilidade, nem um átomo de sentido de Estado, para ser Presidente dos EUA, ou seja para estar no lugar mais poderoso no mundo. Eu nem sei porque é preciso dizer isto de tão evidente que é.
É verdade, ganhou as eleições. Mas o facto de as ter ganho não lhe dá carácter, nem educação, nem honestidade, nem dignidade, nem cultura, nem competência, nem responsabilidade, como ele aliás faz gala de o demonstrar todos os dias. Esta semana voltou ao “crooked Hillary” e publicou um filme em que Hillary Clinton leva com uma bola de golfe nas costas que a faz cair no chão. O autor da “magnífica jogada”? Donald Trump. Não é novidade nenhuma, já fez o mesmo com vários dos seus adversários, a quem insulta soezmente.

Num certo sentido, e num sentido que é mais preocupante para o futuro, nem é tanto o facto de ele ter sido eleito, mas aquilo que gente que deveria ter outro juízo, lhe permitir e justificar todas as aleivosias. Isso, sim, é um sinal tenebroso do estado da política do poder na América, juntando oportunismo, cinismo, culto da personalidade, revanchismo. O homem é muito mau e funciona como pólo de atracção para muitos “bad hombres” respeitáveis, com as casinhas, as mulherzinhas, as familiazinhas, as gravatinhas, a pompa, do conservadorismo americano, que o usam e o servem. Também esses são de facto piores que os brutos de mão ao alto gritando em inglês as palavras de ordem pensadas em alemão.


O Expresso e os "relatórios secretos"

(Por Estátua de Sal, 23/09/2017, 18h)
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Mas que grande tiro no pé, dr. Balsemão. Então o seu jornal, dito de referência, cai numa trapalhada deste jaez? Expliquemos o ocorrido.

Na edição de hoje, o Expresso dá conta da existência de um relatório, supostamente elaborado pelo Centro de Informações e Segurança militares (CISMIL), que arrasa o Ministro da Defesa e o Chefe de Estado Maior das Forças Armadas no contexto da investigação ao desaparecimento do armamento dos paióis de Tancos.

Como não podia deixar de ser, os principais actores políticos vieram a pronunciar-se de imediato. Marcelo diz que tudo tem que ser investigado e aguarda detalhes mais aprofundados, nomeadamente saber se houve roubo ou não. Costa não se quis pronunciar muito sobre o tema, alegando estar em campanha eleitoral, mas foi dizendo que desconhece o relatório em absoluto. Assunção Cristas reiterou o pedido de demissão do Ministro da Defesa. Passos Coelho, mais uma vez a emprenhar pelos ouvidos tal como fez no caso dos falsos suicídios,  exigiu de imediato explicações ao governo, acusou este de ocultar informação ao parlamento e ter tiques de autoritarismo e terminou perguntando: – “Temos de comprar o Expresso para saber o que se passa no país”? (Ver aqui).

Pois bem. Há pouco mais de duas horas, o Estado-Maior General das Forças Armadas desmentiu “categoricamente” a existência de qualquer relatório do Centro de Informações e Segurança militares (CISMIL) sobre o roubo de armas de guerra nos paióis de Tancos. (Ver aqui).

Como não tenho razões para achar que existam relatórios oficiais que são desconhecidos do Primeiro-Ministro, do Presidente da República e do Chefe de Estado Maior das Forças Armadas, só posso concluir que o Expresso, conscientemente ou não, publicou uma atoarda e não uma notícia escrutinada e credível, e que cada vez mais as suas práticas editoriais seguem na peugada das do Correio da Manhã.

Ora, há um quarto de hora, o Expresso veio afirmar que o relatório existe e é verdadeiro, apontando a sua autoria, não para o CISMIL, mas para “serviços de informações militares”, seja lá o que isso seja, o que retira o carácter oficial ao dito relatório e a exigência de este ser conhecido pelas altas autoridades políticas do país. Fala depois o Expresso em “fontes de militares no activo e na reserva”, e lembrei-me de imediato de uma outra situação recente a que o Expresso também deu muito relevo, já que também nesse caso havia “militares na reserva”.

Às tantas, os autores não passam de dois ou três marmanjos conotados com a direita radical e fascistóide, uma minoria ainda assim, que existe dentro das Forças Armadas. Como no caso dos generais que queriam entregar as espadas. Eram dois apenas, mas o Expresso também aí viu um pronunciamento militar em marcha.

Acresce que um documento, supostamente secreto, não ser entregue às entidades políticas e às chefias militares, que o desconhecem, mas sim ao Expresso, diz tudo sobre a credibilidade do documento e dos seus autores. Já se percebeu ao que vêm e o que pretendem, eles e o Expresso.

Tal é o desespero da linha direitista e facciosa que se instalou na redacção do Expresso que o mano Costa não resistiu a publicar em largas parangonas uma caixa, que ele supôs ser de largo poder destruidor, para o governo e para o PS, em vésperas de eleições autárquicas, criando um alarmismo social e político mais que injustificado. Penso que lhe irá sair o tiro pela culatra.

É por estas e por outras que o Expresso, SIC e companhia estão pelas horas da amargura no que toca à situação financeira. O Dr. Balsemão bem se pode queixar da ascensão do digital e das redes sociais, acusando estas últimas de produzirem fake-news.

Mas assumindo, ainda assim, que as redes sociais produzem e divulgam fake-news, não é essa a causa do descrédito e do mau desempenho económico da imprensa dita de referência. A razão principal é que resolveram alinhar por baixo, renderam-se ao populismo e ao imediatismo, deixaram de avaliar a qualidade das fontes e a veracidade dos factos, perdendo portanto a confiança dos leitores. Em suma, combater fake-news com fake-news parece ser a orientação do Expresso actual. Até o Observador começa já a ser mais credível. Sim, porque o Observador diz ao que vêm, e nunca quis convencer  os leitores de ter um estatuto editorial independente.