Caros situacionistas: vá lá, não conseguem fazer melhor?

(Francisco Louçã, in Público, 16/09/2017)

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O deslumbramento foi um bocado forçado, não foi? Bem sei que Juncker se esforçou. Mas ele tem dois problemas: primeiro, credibilidade reduzida, afinal foi uma escolha de recurso, Merkel quer pô-lo na rua, aquela coisa da fraude com impostos de multinacionais não lhe ficou bem, e, segundo, faz espécie que tenha apresentado cinco cenários, todos alinhavados, afinal não era a sério e agora festeja uma sexta alternativa, que é um saco de gatos de todas as promessas. Apesar de tudo, há quem saúde o “último guerreiro” (o último?), embora me permita desconfiar que, três dias passados, já ninguém se amofinará com o discurso do presidente da Comissão.

Vamos aos detalhes. Em ano e meio devemos estar todos no euro, disse ele. Não é para levar a sério, pois não? A Hungria, a Polónia, a Croácia, a Bulgária, a Roménia ou a Suécia, o que não quer e os que não podem, já para não fazer a pergunta indiscreta, quem paga? Disparates. Entretanto, “precisamos de um ministro europeu da Economia e Finanças, alguém que acompanhe as reformas estruturais nos nossos Estados-membros. Ele pode apoiar-se no trabalho levado a cabo pela Comissão desde 2015, no quadro do seu serviço de apoio à reforma estrutural”. Aqui, sim, Juncker foi concreto. Baptizar o vice-presidente da Comissão e responsável da economia como “ministro” e dar-lhe o Eurogrupo, pareceria só cosmética não fora ele explicar-nos que o mandato é “acompanhar as reformas estruturais”, aquelas em nome das quais a Comissão manifestou tristeza por não ter privatizado a CGD e aborrecimento pelo atraso na liberalização das relações laborais.

Se estas são as ideias do “último guerreiro”, estamos conversados. Mas aparece ainda outro campeão que, a bem dizer, cria até algum constrangimento entre os situacionistas europeus que sabem que a pose não faz o homem: é Macron, que continua a anunciar-nos que haverá “Convenções democráticas” em todos os países, tomem nota, é no primeiro semestre do ano que vem, até ao verão quero isso tudo despachado. Sai ministro, vai convenção, é a “Europa” no seu melhor.

Tudo o resto é romance. Vai ser uma década de progresso, vamos corrigir as instituições, abrir o parlamento, envolver as pessoas, repete Juncker. Vá lá, não conseguem melhor do que repetir o que têm anunciado desde há pelo menos trinta anos? Percebo por isso, e até sinto um tremor de solidariedade para com as suas agruras, que os situacionistas já tenham anunciado que a crise estava resolvida, logo depois que a “Europa” estava em “esboroamento” e com “crises sufocantes”, que em poucos dias ou meses iria colapsar, que aliás já tinha colapsado moralmente, e que agora se entusiasmem de novo – é um encanto assistir a estes esfusiantes estados de alma de quem se quer convencer a si próprio de que, na falta de resolver os problemas, mais vale repetir com o espelho mágico, “não há Europa mais bela do que eu”.

Alguns, os que pressentem o vazio da liderança europeia, percebem que é difícil vender o produto Juncker e prometem corrigir tudo. Anunciam agora que têm um plano. Vai ser “para melhor”, vai ser uma “luta” danada. Pois é. Tem sido “para melhor” desde o Tratado de Maastricht e uma “luta” altiva desde sempre. Mas esse plano tem uma aselhice: não existe, nem nos diz o que quer fazer nem muito menos o que fará se falhar aquilo que não sabe se quer fazer. Ou seja, só nos diz para esperar por aqueles que nos dão a certeza de falhar.

É assim a União: falhar uma vez e depois falhar outra vez, mas pior, e seguir sempre com as “reformas estruturais”. Por isso, os situacionistas resignaram-se a um junkckerianismo cabisbaixo. Não, não podem fazer melhor, a realidade é tramada.

Praxar a praxe

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 15/09/2017)

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João Quadros

A praxe não tem lugar na universidade. Por alguma razão não existe uma cadeira de luta de cães, uma oral em arrotos, ou uma Universidade Zezé Camarinha. A praxe nunca devia ter saído dos quartéis.


“O caloiro é incondicionalmente servil, obediente e resignado”; “não é um ser racional”; “não goza de qualquer direito”. As citações são retiradas de um “Manual de Sobrevivência do Caloiro” que está a ser distribuído, nos últimos dias, por alunos mais velhos aos novos estudantes da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP).

Todos os anos estamos nisto, na maldita praxe. Ainda não tenho filhos na universidade mas espero que, até lá, acabem com a desgraça deste “bullying” encartado. Mas, como já fazem praxe nas escolas secundárias, não sei se ainda vão a tempo – “Ai, Quadros, mas não queres que os teus filhos conheçam as praxes?” Vamos lá ver. Não quero que exista praxe, como não quero que exista a doença dos pezinhos ou o roubo por esticão. Nenhum pai quer que o filho experimente a doença dos pezinhos durante um mês. E deixo aqui o meu apoio a quem a tem.

Aqui há tempos, vi as imagens do filme “Praxis”, e fiquei cheio de vontade de ver a minha filha ali agachada com um outro caloiro a fingir que a sodomiza, com um balão pelo meio, e um idiota de óculos escuros e cabelo rapado, de traje, a gritar: “Não é assim que se papa a caloira!” Foi por isso que eu andei a juntar dinheiro para ela ir para a universidade. Se ela não tem ido para a universidade, ainda acabava nalgum bar, a ter de ouvir cenas ordinárias, de uns machos. – “Ai, mas a praxe é uma lição de vida” – se achas isso é porque não sabes o que é a vida. – “Ai, mas a praxe integra” – Também a violação colectiva e uma betoneira com todos lá dentro.

A praxe não tem lugar na universidade. Por alguma razão não existe uma cadeira de luta de cães, uma oral em arrotos, ou uma Universidade Zezé Camarinha. A praxe tem valor de aprendizagem zero. A praxe nunca devia ter saído dos quartéis. Na tropa, onde a submissão tem de ser automática, faz sentido receber os novos com praxe para os integrar naquilo. Na universidade, devia ser o oposto. Deviam ensinar os caloiros a contestar, a evitar conclusões em rebanho, e a não andarem vestidos de escaravelhos. – “Mas um aluno pode dizer que não.” E depois? Ninguém devia ter de dizer se quer, ou não, passar por aquilo dentro de uma universidade. É como haver uma disciplina de religião inca com bacanal com animais no pátio da escola, mas só para quem quer. – “Ai, Quadros, mas é tradição.” Errado. Com excepção de Coimbra, e é discutível, não é tradição nenhuma. É tanto tradição como o cubo mágico, o ir à picanha, ou o “blockbuster”.

“Como é possível que existam universidades onde um aluno tem de assinar um termo de responsabilidade para ser praxado, como se fosse para ser operado ao coração?! “Tens de assinar este termo de responsabilidade, caso me apeteça enfiar-te um hipopótamo e dois coalas pela uretra, e apareçam os donos a reclamar.”

Acabem lá com isso.


TOP 5 CALOIROS

1. Comissão Nacional de Eleições não sabia do Sporting-FC Porto em dia de eleições
– Confirma-se: são pessoas chatas.

2. Juncker diz que “A Europa vai desde Espanha até à Bulgária” – É inadmissível que
o Juncker não saiba onde vive a Madonna.

3. “Portugal tem um clima ideal para cultivar canábis”
– E louro prensado.

3. Banca perdeu quase dois mil balcões desde o pico de 2011 – Mas agora são Padarias Portuguesas.

5. Governo vai proibir a realização de jogos de futebol em dias de eleições – Estou para ver o que a Galp acha disto.

Como se reconhece um fascista

(António Guerreiro, in Público, 15/09/2017)

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António Guerreiro

Confirmei na semana passada a existência de um exemplar da espécie: chama-se Henrique Raposo e é cronista do Expresso.


No nosso tempo, não é fácil reconhecer um fascista: porque eles não ousam dizer o seu nome ou nem sequer sabem que o são; porque um antifascismo demasiado espontâneo provocou uma inflação demagógica dessa classificação e retirou-lhe todo o rigor.

O critério de reconhecimento do fascismo, disse uma vez Deleuze, é este: “Alguém que diz ‘viva a morte!’ é um fascista.” Raposo não satisfaz todos os critérios de definição de um fascista, mas está dotado do afecto fascista que encontra beleza na morte. É verdade que se trata da morte de animais e não de homens, mas a máquina antropológica do humanismo (que Raposo defende de maneira acérrima), aquela que exacerba a diferença zoo-antropológica, é exactamente o mesmo dispositivo que serviu para exterminar os judeus.

O melhor vem a seguir. Henrique Raposo desenvolve a sua ideia de uma mística da caça e da morte do animal como um sacrifício onde se manifesta a categoria estética da beleza. E fazendo o elogio de umas declarações do cozinheiro Ljubmir Stanisic, sentencia: “Ljubmir Stanisic e Anthony Bourdain [são] cozinheiros que não pedem desculpa por serem homens, heterossexuais e carnívoros.”

Na sequência lógica do grito necrófilo vem a virilidade ostensiva, a afecção fascista do pensamento viril. O fascista “tem colhões” e gosta de os mostrar. Isto é suficiente para definir um pequeno fascista. Ele só se torna um pouco maior quando usa continuadamente a estratégia do espantalho universal, isto é, a estratégia que consiste em fundir as grandes questões políticas, sociais e morais (o fascista é sempre hipermoral) nos problemas privados e da vizinhança. Trata-se de categorizar os grandes sujeitos colectivos a partir de pessoas singulares. Chama-se a isto o pathos da totalidade. Uma pequena vila do Alentejo, uma periferia urbana ou o senhor José da oficina fornecem então a Henrique Raposo a universalidade de uma visão do mundo. E só não digo Weltanschauung porque é uma palavra demasiado fascista para o nosso pequeno fascista, que começou a semana a fazer um mea culpa por causa de na semana anterior ter levado demasiado longe a sua estratégia do espantalho universal da pedofilia (o espantalho eram, então, os educadores de infância masculinos). Ora, um fascista, ao contrário do pequeno fascista que apresenta algumas afecções da estrutura psicológica do fascismo, nunca se arrepende.