(re)Volta ao mundo em três economias

 (Sandro Mendonça, in Expresso Diário, 03/08/2017)

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Sandro Mendonça

Sobre desportos de alta velocidade diz-se por vezes que quem pestaneja perde tudo. Mas a economia global é mais como um lento jogo de Xadrez…. Neste caso quem não esfregar os olhos de vez em quando é quem perde a noção do que está a ver. Muitas vezes é mesmo preciso meter de molho as velhas ideias e mandar os pressupostos ir de férias.

Não faltam exemplos sobre grandes surpresas em câmara lenta que deveriam levar o mais atento observador a pensar que está na hora de actualizar as suas premissas. Senão vejamos.

ALEMANHA: O PAÍS DOS CARTÉIS ANTI-TECNOLÓGICOS

Um país tão poderoso baseado numa indústria de bandeira pertencente ao século XIX é um declínio à espera de acontecer. O sector automóvel representa 1/5 das exportações e quase um milhão de empregos na Alemanha. Porém, guiar pelo retrovisor não é prudente. Por exemplo, mudanças na mobilidade (desde os veículos autónomos da Google até à aposta da electricidade chique da Tesla) já não são sinais fracos de mudança: são alertas fortes de que a verdadeira concorrência vem agora de fora da indústria.

Depois de se ter percebido que o construtor n.º 1 (a VW) desenvolvia novas maneiras ardilosas para mentir a testes de poluição, descobre-se agora que várias grandes marcas fizeram um conluio negativo para evitarem concorrência tecnológica entre si. E continuam: tentam à força salvar soluções do passado. Portanto, Sr. Schäuble: o orgulho é mau combustível… Tanta fé nas habilidades germânicas de conduzir a economia para quê?!

CHINA: MAIS QUE UM PAÍS FABRIL E DE TURISTAS OBCECADOS COM COMPRAS

Antes era barato e rápido, mas agora a China quer vender qualidade e inovação. Essa é a campanha “Made in China 2025”. Também muitos países se queixavam que os turistas chineses tinham dinheiro mas não maneiras, mas agora ir às compras está a deixar de ser a sua prioridade: e, sim, terem experiências e conhecer. Por exemplo, os jornais que se referiram aos chineses que vieram no primeiro voo assumiram demasiado facilmente que seria o simples turismo a sua motivação dominante. Porém, não se aperceberam que muitos vinham fazer negócios a Portugal e que outros tantos vinham de propósito para programas de estudo e trabalho de investigação em Portugal.

EUA: O GRANDE PERDEDOR DA GUERRA FRIA?

Pensava-se que a Rússia tinha sido a clara derrotada do confronto Este-Oeste. Pura ficção! Quando se olha para a América e se vê um (im)provável caso de um “traidor” (como atira o economista Paul Krugman) ter usurpado a Presidência com uma “pequena ajuda” da potência rival, então, de repente parece que a vingança se serve fria! Nixon foi apenas um acepipe… e agora sim temos o prato principal. E é de se lhe tirar o chapéu: uma klepto-russo-cracia à distância e com toda a gente a ver é obra. Ao terem inventado o sub-prime bem se viu os bons exemplos económicos que a América inventou. Mas agora com a casa branca ter-se transformado num “surreality show” estamos a elevar a credibilidade do “Mundo Livre” a novas profundezas. A implicação para Portugal é simples: isto não é altura de levantar a questão da Base das Lajes, e muito menos de dar ideias esquisitas a gente que parece vir de uma série como Os Sopranos. Por vezes não-acção é melhor que acção. Por vezes, o melhor que a política externa tem a fazer é mesmo ir de férias durante uns tempos.

Imprensa e Venezuela: uma história exemplar de manipulação

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 02/08/2017)

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Sobre o estado comatoso do governo de Nicolás Maduro e a farsa eleitoral que organizou, já aqui escrevi na segunda-feira. Infelizmente, neste tipo de confrontos as pessoas esperam a escolha clara por um dos lados. Mesmo quando não há lado nenhum para escolher. Parece-me que também ficou evidente o que penso da oposição que, protestando em nome da democracia, organizou e apoiou um golpe militar contra um presidente eleito e largamente querido pelos venezuelanos, em 2002. E desde então nunca conseguiram respeitar qualquer ato eleitoral, confundido oposição com sabotagem.

Em resumo: a oposição a Maduro não é nem democrática nem melhor do que ele. A minha posição é simples: Maduro é o Presidente legítimo, a Assembleia Nacional dominada pela oposição é o parlamento legítimo. Foi esta a vontade do povo venezuelano que nenhuma das partes parece conseguir respeitar.

Dirão que dou uma no cravo e outra na ferradura. Penso que algumas experiências do passado deveriam fazer com que tivéssemos algum cuidado com clubismo, percebendo que por vezes nem o cravo nem a ferradura nos servem. Os que acreditaram na propaganda e viram, nos anos 80, os talibã afegãos como “freedom fighters” contra o comunismo e pela democracia só nunca se arrependeram porque a capacidade humana para esquecer os seus próprios erros é infinita. Assim como as críticas ao MPLA nunca me levaram a simpatizar com a UNITA e ainda menos com o passado colonial ou a constatação de que o nacionalismo ucraniano, disfarçado de europeísmo mas marcado pela mais violenta xenofobia, não me faz ter qualquer ilusão quanto às pretensões russas no território. Há casos de enorme clareza. Mas, na maioria, não há apenas dois lados. E por vezes nenhum se recomenda. É o caso da Venezuela neste momento.

Na noite de domingo tentei acompanhar os resultados eleitorais através de várias fontes. As oficiais venezuelanas, mesmo as que supostamente teriam um papel de arbitragem, exibiam um registo que deixava evidente a total falta de neutralidade. As da oposição, o mesmo. O pior é que, tirando alguns jornais especialmente exigentes (o “The Guardian” é para mim a melhor referência), a imprensa internacional alinhou pela mais descarada propaganda. Através do JORNAL “PÚBLICO” (não o português, mas o espanhol, claramente alinhado à esquerda), cheguei a várias capas da imprensa do país vizinho, especialmente interessado pelo que se passa na Venezuela.

As manifestações da oposição não têm sido menos violentas do que a repressão. Entre os mortos deste confronto estão não só polícias como candidatos chavistas assassinados. Mais uma vez, é bom ter cuidado com o maniqueísmo. Entre os vários incidentes e ataques, há uma explosão que deixou sete polícias da Guarda Nacional Bolivariana feridos. A cena, em vídeo e com a foto, PODE SER VISTA AQUI. É o segundo atentado desta natureza. O último foi a 11 de julho, causando também 7 feridos entre a polícia. Sabemos que em momentos destes há confrontos entre polícias e manifestantes e feridos de ambos os lados. Não é esse o tema do meu artigo. É como a imprensa retrata a realidade, transformando o dever de informar em propaganda.

A foto desta explosão correu mundo. Foi usada em quase toda a imprensa espanhola. Mas, e esta é a parte interessante da coisa, para ilustrar a repressão do regime de Maduro, usando a foto do atentado contra a polícia, o “ABC” titula: “Maduro encobre com violência e repressão o fracasso da sua Constituinte”.

 

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Todos com variações da mesma foto, o “El Mundo” titula que “Maduro executa o seu golpe”

 

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o “La Razón” diz que houve um “Banho de sangue em ‘Madurazo’”

 

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o “La Voz da la Galicia” afirma que “A votação golpista de Maduro abre a violência na Venezuela”

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e o “Herlaldo de Aragon” conta que “Maduro reprime o boicote eleitoral da oposição”.

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Os exemplos são do “Publico”, ele próprio um jornal alinhado.

O caso é pequeno mas, pela sua clareza, interessante. A utilização de uma foto que retrata um atentado de manifestantes da oposição para ilustrar a repressão do regime não mente numa ou noutra coisa. O atentado existiu e as fotos são reais e daquele dia. A utilização de uma foto para ilustrar o oposto do que ela conta é a mentira. Uma mentira consciente que nos explica que a ideia de que a imprensa é um corpo que paira sobre a realidade, virgem e acima dos outros poderes, é uma ilusão infantil. Hoje e sempre ela envolveu-se nos conflitos e não raras vezes manipulou em nome da propaganda. Neste caso, para simplificar um conflito, transformando o agressor da foto em vítima do texto e vice-versa.

Com as redes sociais, o papel da comunicação social no confronto político é mais evidente. Há mais escrutínio e crítica, umas vezes justa outras injusta, umas vezes motivado pela verdade outros pela intoxicação. Sim, há uma campanha para desacreditar a imprensa. Mas quem tantas vezes troca o jornalismo pela propaganda e a informação pela manipulação consciente não se pode queixar da desconfiança. Só a imprensa pode desarmar o descrédito. Credibilizando o seu próprio trabalho. Não deixará de ser atacada. Mas sem razão.


 

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Vem aí o menino Jesus

(In Blog O Jumento, 01/08/2017)
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Parece que Passos Coelho se zangou com o diabo, agora está otimista e não me admiraria de em vez e anunciar a vinda do diabo anunciasse o regresso de Jesus. A sua conversão é tal que já perdeu a esperança em eleições antecipadas, em vez de apostar numa crise no governo sugere que este pode durar até ao fim da legislatura.
Começou por garantir o aumento do desemprego, depois desvalorizou a diminuição da taxa de desemprego, chegou a sugerir que o emprego criado era só de trabalhadores que ganhavam o salário mínimo, agora diz que com ele haveria mais emprego. Isto é, o senhor que se opôs ao aumento do salário mínimo queixa-se agora que alguns novos empregos sejam remunerados com esse salário, o mesmo que garantiu que um aumento do salário mínio resultaria em desemprego diz agora que com ele haveria mais emprego.
É mais uma mudança de estratégia política de Passos, já não questiona a legitimidade de um governo apoiado numa maioria parlamentar que até ao momento teve menos crises do que as que enfrentou o seu governo. Depois de um atuação execrável durante a crise dos incêndios e após um desaparecimento higiénico, Passos regressa com um novo discurso, o primeiro-ministro no exílio morreu queimado nos incêndios de Pedrógão, agora há um novo líder da oposição.
O problema de Passos é que volta a não ter ideias e propostas, vive o drama do passado e em todos os seus discursos limita-se a comparar o presente com o seu governo, o tal governo que se limitou a cumprir um programa discutido entre Sócrates e a Troika. O problema de Passos é precisamente esse governo, fez demasiadas coisas que possam ser esquecidas. Quando desvaloriza o emprego os desempregados não esquecem o corte nos apoios aos desempregados, quando está preocupado com o pagamento de pensões os pensionistas não se esquecem dos cortes que fez à margem das instituições.
O problema de Passos não está apenas no mau cheiro do seu passado, está na sua falta de inteligência, que se evidencia quando inventa suicídios, quando desvaloriza o desemprego ou quando se mostra preocupado com os pensionistas. De pouco lhe serve anunciar a vinda de Jesus, depois de dois anos em que não esconde o desejo de ver o país no inferno.