“OS FRAGILIZADOS”

(Joaquim Vassalo Abreu, 13/02/2017)

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Estávamos nós tão sossegados
Sem remoer velhos passados
Quando nos vemos governados
Por dois seres fragilizados!

Foi a lengalenga que me surgiu quando fui confrontado, em primeiro lugar com aquela surreal conferência de imprensa do CDS (a cujo porta voz já me referi em texto anterior) exigindo a demissão do Ministro das Finanças, por ter conduzido de modo catastrófico o dossier CGD e por alegadamente ter mentido ao Parlamento, mas mais preocupado logo a seguir fiquei quando o (ainda) chefe da oposição veio em público declarar estar o Ministro “muito fragilizado”. E aqui fiquei deveras preocupado!

E aqui, aqui sim, perante a voz grave do (ainda) chefe da oposição, temi pela saúde do Ministro. Da última vez que o tinha visto também o achei com umas olheiras de algo modo pronunciadas e pensei para comigo próprio: Saberia ele de algum relatório médico que ninguém mais sabia? Terá tido acesso a algumas análises clínicas, assim daquelas que a gente olha e vê um item mais desfasado e pensa logo “ó que diabo”, ou a qualquer diz que diz? Mas não…não podia ser. Se assim fosse, o agora chefe da oposição em funções (o Mini Mendes) já o teria dito e detalhado na SIC e o adjunto Gomes Ferreira já teria estudado o assunto e dado a sua aula. Mas não consta ser Médico, dirão. É o mesmo, ele sabe sempre de tudo. É ele e o Rogeiro…Todos na SIC! fragilizar

Este “muito fragilizado” poderia denunciar também algum cansaço, cansaço esse que poderia estar por detrás de algum deficiente desempenho, sabe-se lá, assim num momento menos bom mas, vendo bem o seu desempenho último, nada disso faria sentido. E mesmo não tendo acesso às suas análises clínicas, não custa nada aferir globalmente das mesmas. Reparem: O colesterol total (o défice) melhor, quer dizer mais baixo, até que o esperado; o colesterol bom, o HDL ( o crescimento do PIB) acima da referência também; as plaquetas totais (a estabilidade governativa) dentro dos parâmetros esperados, etc, etc…

De modo que o supremo Presidente do júri médico, o Prof. Dr. Marcelo, veio a público acabar com a questão e proferiu a definitiva pergunta: Têm algum relatório médico? Um assinado? Então mostrem-no…Não têm? Então calem-se…E, ainda hoje mesmo, aquele tipo de nome bolchevique, o Moscovici, em representação da entidade médica superior da Europa, o veio peremptoriamente afirmar: goza de boa saúde e com desempenho melhor que o esperado. Mas tomou algum suplemento (receitas extraordinárias) para o conseguir? Até pode ter tomado mas, mesmo assim, ficaria amplamente aprovado. Então calem-se, repetiu o Marcelo…

Mas, pelas leituras das primeiras páginas dos jornais do fim de semana (é, como já várias vezes disse, o que apenas leio), ficamos a saber que o PSD não se calou e começa também a insinuar estar o Presidente Marcelo, também ele, “muito fragilizado”!

O Marcelo, vendo as últimas sondagens, deve ter-se fartado de rir e, ao mesmo tempo, em Espanha e ao El Pais, diz coisas de uma inanidade tal (para os seus, que não o queriam, mas depois lá tiveram que nele votar e agora já não querem outra vez…), tais como “A Geringonça tem tido um desempenho superior ao esperado”, “uma agradável surpresa até para ele” e coisas assim e de um absurdo tal que até o José Eduardo Martins confessou “sentir-se embaraçado” , acrescentando mesmo que “ sendo ele a última pessoa no PSD que ele (julgo que o Marcelo) poderia embaraçar…”, está tudo dito! Tudo dito? Não, nada disso. Depois de o Marcantónio se declarar “perplexo” com o que ele está a fazer ao PSD, o José Eduardo Martins vem colocar mais lenha na fogueira e só por uma unha negra não o acusa de pirómano. Disse ele : “Ninguém pode ser feliz pegando fogo ao sitio onde nasceu…”.

Ora eu, que até sou amigo do JEM no Facebook, que o considero e acho uma pessoa inteligente e preparada, oriundo dessa bela terra que também é a da minha esposa- Paredes de Coura- onde temos muitos amigos comuns e onde toda a gente se dá bem, só lhe poderei perguntar: Ó Dr. José Eduardo Martins, você passou-se? Passou-lhe assim alguma coisa pelo frontispício? Então você que, quando o Passos era governo, era contra o tipo, agora que ele não é governo resolve ser a favor e vira-se contra o Presidente? Você ainda não se convenceu que ele não pode ser candidato a Lisboa, homem? Ele agora é o Presidente, ainda não perceberam?

Eu sei que o que não percebem é essa coisa das sondagens. Ser da oposição e descer constantemente nas sondagens? Serem contra um Presidente e ele manter níveis de aprovação na ordem dos 80%? Eu sei e é como já disse: O PSD não desce nas sondagens, desce qual quê? Tem tido é um “crescimento negativo”… Não é Drª Maria Luis?

“Fragilizados”? Não, quem está é o Centeno, o Marcelo e, já agora, o Costa!

Ah! Também não posso deixar de referir aqui, mas isto li no Facebook, a pungente pergunta do Camilo: Jerónimo e Catarina, que é feito de vós? Onde andam vocês?
Devem estar também “muito fragilizados” e por isso não aparecem…É o diabo! O diabo? É isso, está encontrado, finalmente…


Fonte aqui

O ódio a Centeno

(In Blog O Jumento, 13/02/2017)
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A direita segue a táctica dos alunos cábulas. Que fazem perante um professor rigoroso e competente? Tentam afastá-lo e demiti-lo para que a sua incapacidade não venha ao de cima em confronto com o sucesso dos restantes alunos. Centeno deu uma lição de economia e de boa gestão da coisa pública, provando a incompetência da governação pafiosa. Afinal não era necessária a austeridade de rapina para alcançar o déficit público abaixo dos 3%. Centeno alcançou tal objetivo, subiu salários e pensões em vez de os cortar, pondo a nu a má-fé e sanha persecutória dos pafiosos contra os trabalhadores e pensionistas. É por isso que o querem abater. É a corja no seu pior.
Estátua de Sal, 13/02/2017 

Pela primeira vez em muitas décadas o país tem um défice orçamental na ordem dos 2,3% do PIB. Pela primeira vez em muitos anos não foi necessário fazer aprovar qualquer orçamento rectificativo. A situação do sector financeiro começa a ser resolvida. E quem é que a direita deseja que seja demitido? O ministro das Finanças.
Começaram por dizer que Centeno fez aprovar um decreto para que um tal Domingos fosse dispensado de apresentar uma declaração de rendimentos, mas durante semanas Centeno foi acusado de mentir. Esperem lá, se Centeno queria que a CGD fosse tratada como um banco privado, precisava de mentir dizendo que nada tinha prometido a Domingos?
É óbvio que sem o argumento da mentira, era preciso encontrar melhor argumento. Como era de esperar, coube a Marques Mendes a mudança de argumentos; a demissão de Centeno já não é exigida por ter mentido, mas sim porque o decreto da CGD só foi publicado no último da de Julho. Até faz lembrar uma célebre comunicação ao país de Cavaco, ou a famosa destruição do BES que apanhou Passos Coelho a dar banho aos ditos, lá para os lados da Manta Rota.
Mas no caso do decreto da CGD o objectivo da manobra era impedir os deputados de exigir a ida do diploma ao parlamento, isto é, Marques Mendes sugere que o parlamento fecha para férias, que a democracia é suspensa e só reabre mais ou menos quando reabrem as escolas d ensino secundário. Mas o liderzinho da oposição teve um pequeno engano, acusou António Costa de ter metido o decreto na gaveta, concluindo que se isto fosse a Alemanha o Centeno já estaria demitido. Isto é, quem faz o veto de gaveta é o primeiro-ministro, mas na Alemanha quando isso sucede são os ministros a serem demitidos!noia
Passos Coelho ouviu o tempo de antena de Marques Mendes e mudou de discurso, o problema deixou de ser a mentira e passou a ser o decreto. Esta mudança de argumentação leva-nos a esperar que no próximo sábado o líderzinho do PSD anuncie quem irá ser candidato por este partido a Lisboa, talvez o Passos Coelho o anuncie a  meio do lombo assado no próximo domingo.
Esta direita é divertida, em vez de propostas sugere vindas do diabo, em vez de soluções diz que a prenda será entregue pelos reis magos e em vez de elogiar quem é competente não escondem que querem demitir aquele que lhes destruiu os argumentos. Não é por causa da CGD que querem demitir Centeno, é porque não falhou e a única ideia que Passos tem para justificar o seu regresso ao poder é o falhanço do país.
Longe vão os tempos em que uma Maria Luís Albuquerque era apresentada ao país como uma grande sumidade intelectual, até era competente demais para ir para um qualquer cargozito de comissária europeia. A Maria Luís espetou-se na aritmética e é por isso que querem demitir o Centeno a qualquer custo, é bom demais para que esteja no governo.

A grande derrota da Igreja Católica

(Fernanda Câncio, in Diário de Notícias, 13/02/2017)

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Passei grande parte da minha vida adulta num país que me condenava a prisão se decidisse interromper uma gravidez indesejada. Cheguei aos 40 anos e ao século XXI sob ameaça, num país que não me reconhecia autonomia para tomar uma das mais pessoais e íntimas decisões.

Mas essa ameaça que pendia sobre mim não era só a de ser presa. Ouso até dizer que não era sobretudo essa – era a de ser forçada, se quisesse interromper uma gravidez e não tivesse meios para ir ao estrangeiro, a recorrer ao mercado negro, a colocar-me nas mãos de curiosos ou de médicos que, se apanhados, além de arriscarem uma pena superior à minha seriam expulsos da Ordem. A ameaça era de morte – e muitas mulheres morreram assim, graças a uma lei dita “pró-vida.”

Mas, reparem: nem a ameaça de morte nem a de danos irreparáveis para a saúde nem a de prisão impediram as portuguesas de abortar. Abortaram sempre. Porque não podiam ou não queriam ter um filho – ou, na maioria dos casos, mais filhos. Pensem na coragem dessas mulheres – as nossas avós, as nossas mães, as nossas filhas. E pensem que perante essa coragem, esse desespero, essa determinação, houve décadas de decisores políticos, médicos e clérigos a dizer que não era assunto, que não tinha importância, que estava bem assim.

Só houve dois motivos para que esta iniquidade, este desrespeito pela vida e pela dignidade das mulheres, tivesse durado tanto numa democracia laica: machismo atávico (oh, tanto) e o receio que os decisores tinham dessa entidade chamada Igreja Católica. Medo de a afrontar, do poder que lhe atribuíam. Medo de que o país fosse aquilo que se diz maioritariamente nos Censos: católico. E assim, cobardes, foram arrastando o assunto até descobrirem uma forma de lavar as mãos: um referendo.

Todas as sondagens, é sabido, davam a vitória esmagadora ao Sim. E ganhou o Não – porque quase toda a gente que iria votar sim achou que o seu voto não fazia falta e estava um fantástico dia de praia nesse 28 de junho de 1998. Aos 34 anos, o meu país dizia-me: não, não tens importância. As mulheres não têm importância. Tive raiva do meu país, nesse dia. Senti por ele, a dobrar, o desprezo que ele sentia por mim. Mas quando sequei as lágrimas e aplaquei a raiva olhei para os números. O Não teve 1 356 754 votos, mais 48 624 que o Sim. Ficámos nesse dia a saber quanto valia, nas urnas, a Igreja Católica: menos de 16% dos eleitores registados. E eu soube que tendo perdido tinha ganhado. Porque quem dependia das urnas iria concluir o mesmo que eu: que o poder da Igreja Católica era um mito. Os portugueses diziam-se católicos mas não ligavam peva ao que os padres diziam.

Quando nove anos depois se repetiu o referendo a percentagem do Não subiu menos de 2%. E perdeu por 696 860 votos. Nessa noite, quando saí da celebração do Altis escrevi no DN: este Sim não é o fim, é o princípio. Foi. Foi o fim do poder da sacristia e dos seus ditados preconceituosos, cruéis e – diga-se – tão anticristãos. Foi início de uma nova era de respeito pelas pessoas.

Dois anos depois, o PS propôs no seu programa eleitoral acabar com a proibição do casamento de pessoas do mesmo sexo. Mais uma vez, houve quem exigisse um referendo. E depois, quando se discutiu a coadoção e a adoção por casais do mesmo sexo. E agora, que se discute a eutanásia. Quem os propõe quer só empatar, não espera ganhá-los. E não é só por causa dos resultados de 1998 e 2007 (ou porque até na Irlanda – a Irlanda, caramba -, em 2015, o casamento das pessoas do mesmo sexo ganhou com 62% dos votos).

O número de pessoas que frequentam as igrejas não cessa de diminuir, e os comportamentos que a Igreja Católica reputa de “errados” e “pecaminosos” – divórcios, contraceção, sexo e coabitação fora do casamento – são esmagadoramente maioritários. Ironia: só um desses comportamentos tem diminuído, a olhos vistos – o número de abortos. Acreditasse eu em deus e gabava-lhe o sentido de humor.