João César das Neves(JCN) – Talibã romano, no DN

(Carlos Esperança, in Facebook, 06/11/2017)

Abominavel

( Ver artigo que o texto analisa aqui)

«Seis dias se trabalhará, mas o sétimo dia vos será santo, o sábado do repouso ao Senhor; todo aquele que nele fizer qualquer trabalho morrerá» (Êxodo 35:2).

João César das Neves, pávido com as labaredas do Inferno, esquece a Bíblia e o sábado para divulgar a vontade do seu Deus, decifrada nas mais arcaicas sacristias.

Neste último sábado, 4 de novembro do ano da graça do calendário gregoriano, regressa à homilia contra a IVG, exaltando as ‘Caminhadas pela Vida’, desse dia, equiparando a IVG a “barbaridades extremas: guilhotina jacobina, holocausto nazi, ataque atómico ao Japão, massacres arménio e tutsi, entre tantos outros [sic]”.

O devoto misógino nunca se conformou com o fim da pena de prisão para mulheres que abortam por malformações fetais, violação ou risco de vida. Como poderá resignar-se à liberalização do aborto quem é capaz de ver na ejaculação um genocídio?

Talvez escreva estes textos pios depois da missa das sextas-feiras em que a ‘Comunhão e Libertação’ o expõe a longas inalações do turíbulo onde, por lapso, ardam outros pós, em vez de incenso.

Na pungência de tais odores, JCN vocifera contra “as crueldades cometidas no aborto, na eutanásia, na procriação assistida e em tantos outros atentados à vida e à família”, sem jamais perceber que o planeamento familiar, os contracetivos e a despenalização contribuíram para a drástica redução do aborto, em Portugal.

Para JCN, “um aborto é sempre um acto objectivamente abominável, arrancando à força um feto do seio da mãe grávida”, ainda que salve a vida materna ou condene à gestação de um anencéfalo. Com a sanha de Maomé ao toucinho, JCN afirma que esta “sociedade está apática, senão abertamente cúmplice, perante as crueldades cometidas no aborto, na eutanásia, na procriação assistida e em tantos outros atentados à vida e à família”.

“Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus.” (Mt 5:3.)

A grande derrota da Igreja Católica

(Fernanda Câncio, in Diário de Notícias, 13/02/2017)

cancio

Passei grande parte da minha vida adulta num país que me condenava a prisão se decidisse interromper uma gravidez indesejada. Cheguei aos 40 anos e ao século XXI sob ameaça, num país que não me reconhecia autonomia para tomar uma das mais pessoais e íntimas decisões.

Mas essa ameaça que pendia sobre mim não era só a de ser presa. Ouso até dizer que não era sobretudo essa – era a de ser forçada, se quisesse interromper uma gravidez e não tivesse meios para ir ao estrangeiro, a recorrer ao mercado negro, a colocar-me nas mãos de curiosos ou de médicos que, se apanhados, além de arriscarem uma pena superior à minha seriam expulsos da Ordem. A ameaça era de morte – e muitas mulheres morreram assim, graças a uma lei dita “pró-vida.”

Mas, reparem: nem a ameaça de morte nem a de danos irreparáveis para a saúde nem a de prisão impediram as portuguesas de abortar. Abortaram sempre. Porque não podiam ou não queriam ter um filho – ou, na maioria dos casos, mais filhos. Pensem na coragem dessas mulheres – as nossas avós, as nossas mães, as nossas filhas. E pensem que perante essa coragem, esse desespero, essa determinação, houve décadas de decisores políticos, médicos e clérigos a dizer que não era assunto, que não tinha importância, que estava bem assim.

Só houve dois motivos para que esta iniquidade, este desrespeito pela vida e pela dignidade das mulheres, tivesse durado tanto numa democracia laica: machismo atávico (oh, tanto) e o receio que os decisores tinham dessa entidade chamada Igreja Católica. Medo de a afrontar, do poder que lhe atribuíam. Medo de que o país fosse aquilo que se diz maioritariamente nos Censos: católico. E assim, cobardes, foram arrastando o assunto até descobrirem uma forma de lavar as mãos: um referendo.

Todas as sondagens, é sabido, davam a vitória esmagadora ao Sim. E ganhou o Não – porque quase toda a gente que iria votar sim achou que o seu voto não fazia falta e estava um fantástico dia de praia nesse 28 de junho de 1998. Aos 34 anos, o meu país dizia-me: não, não tens importância. As mulheres não têm importância. Tive raiva do meu país, nesse dia. Senti por ele, a dobrar, o desprezo que ele sentia por mim. Mas quando sequei as lágrimas e aplaquei a raiva olhei para os números. O Não teve 1 356 754 votos, mais 48 624 que o Sim. Ficámos nesse dia a saber quanto valia, nas urnas, a Igreja Católica: menos de 16% dos eleitores registados. E eu soube que tendo perdido tinha ganhado. Porque quem dependia das urnas iria concluir o mesmo que eu: que o poder da Igreja Católica era um mito. Os portugueses diziam-se católicos mas não ligavam peva ao que os padres diziam.

Quando nove anos depois se repetiu o referendo a percentagem do Não subiu menos de 2%. E perdeu por 696 860 votos. Nessa noite, quando saí da celebração do Altis escrevi no DN: este Sim não é o fim, é o princípio. Foi. Foi o fim do poder da sacristia e dos seus ditados preconceituosos, cruéis e – diga-se – tão anticristãos. Foi início de uma nova era de respeito pelas pessoas.

Dois anos depois, o PS propôs no seu programa eleitoral acabar com a proibição do casamento de pessoas do mesmo sexo. Mais uma vez, houve quem exigisse um referendo. E depois, quando se discutiu a coadoção e a adoção por casais do mesmo sexo. E agora, que se discute a eutanásia. Quem os propõe quer só empatar, não espera ganhá-los. E não é só por causa dos resultados de 1998 e 2007 (ou porque até na Irlanda – a Irlanda, caramba -, em 2015, o casamento das pessoas do mesmo sexo ganhou com 62% dos votos).

O número de pessoas que frequentam as igrejas não cessa de diminuir, e os comportamentos que a Igreja Católica reputa de “errados” e “pecaminosos” – divórcios, contraceção, sexo e coabitação fora do casamento – são esmagadoramente maioritários. Ironia: só um desses comportamentos tem diminuído, a olhos vistos – o número de abortos. Acreditasse eu em deus e gabava-lhe o sentido de humor.

Os abortos são eles

(Joseph Praetorius, in Facebook, 27/06/2015)

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Vi agora que há uma iniciativa “pró-vida”, de papistas (sem-papa), visando uns controlos administrativos – com uns funcionários e uns médicos-funcionários – e umas cobranças de taxas moderadoras, visando nos casos de IVG fazer a mulher “reflectir”.

Não sei se as mulheres e raparigas que assim seriam privadas do sigilo clínico, confrontadas com pagamentos para os quais podem não ter meios e com intrusões sem defesa na sua vida pessoal, não sei se essas mulheres poderiam reflectir em tais condições. Eu já reflecti.

Os papistas (sem-papa) a quem se tem chamado (sem exactidão) “direita católica”, querem cheios os asilos de infância. Esses asilos que alimentam os bordeis e as cadeias, esses asilos que são eles próprios bordeis.

Estes papistas (sem papa) trazem um detalhe na posição tomada que me parece da maior importância sublinhar: concedem a condicionalização circunstancial da vida humana. achando portanto que há vidas humanas inconvenientes. Querem é que a inconveniência, a condição extintiva, a pobreza, por exemplo, seja administrativamente demonstrada.

Querem evidente e documentado o estigma da miséria. Só uma tão devastadora humilhação permite a utilização incondicionada de um ser humano assim despido em vida de qualquer dignidade e, portanto, completamente instrumental. É este o resultado objectivo e perfeitamente antevisível. É portanto o que se pretende.

E, para tanto, querem a polícia: o médico-polícia, o fisco-polícia. E querem o martírio – o confronto da mãe que pede a IVG com a imagem ecográfica do nascituro e a rubrica comprovativa de que essa forma de tortura psicotizante foi aplicada – querem essas mães a oscilar entre o hospício psiquiátrico, o bordel e a cadeia e as crianças nos asilos-bordeis (q.e.d.) de onde passarão às cadeias (é exactamente assim, porque tem sido exactamente assim).

Esta gente está fora de qualquer horizonte confessional reconhecível como cristão. Não devia portanto nenhuma jurisdição autorizar-lhes que tomassem a palavra na qualidade de elementos das suas fileiras, sejam elas quais forem.

Isto é – confessionalmente falando – um pecado contra a vida e um insulto ao Doador da vida. E a selvajaria que ostentam sem pudor deveria ser causa de banimento da vida pública.

Talvez seja o momento de pedir formalmente à CIA (ou à presidência dos USA) a lista dos 500 nomes com relevância política e económica no território que a CIA registou (segundo um agente seu declarou diante de metade do mundo) como clientes da rede da Casa Pia. Outra coisa que se poderia fazer seria pedir ao Soberano Pontífice que se pronuncie sobre esta barbaridade do ponto de vista confessional: é lícito à luz da Tradição Católica-Romana agravar nestes termos a miséria? E agravá-la a este ponto?