Sexo e carácter

(António Guerreiro, in Público, 26/12/2025)

António Guerreiro

São as massas desfavorecidas que alimentam movimentos políticos contrários aos seus interesses objectivos.


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Num destes últimos textos que escrevi para o Ípsilon, propus que a única maneira de sabotar o discurso de André Ventura, nos debates que ele teve com os outros candidatos à Presidência da República, onde acaba sempre por triunfar, por mais que os adversários o denunciem em flagrante a martelar as suas mentiras e a seguir os caminhos do irracionalismo mais exacerbado, consistia em deitá-lo no divã e analisar o seu fluxo verbal enquanto sintoma de uma neurose caracterial. Tentar responder-lhe com uma argumentação propriamente política e economicista é inútil. Quando ele é arrastado para esse campo, utiliza um processo retórico próprio da extrema-direita, que dispensa ideias e teorias. Adorno chamou-lhe “técnica do salame” e explicou que consiste em tomar um conjunto complexo e cortá-lo em fatias — uma, depois outra, depois outra…

O método é fraudulento e pedante, mas serve como caixa de ferramentas que os correligionários utilizam para resolver todas as necessidades. Lembremos que Adorno, que nos anos 40 dedicou um monumental estudo à “personalidade autoritária” (a figura habitada por um potencial de teor fascista ou antidemocrático), na última década da sua vida regressou a esta investigação. Dela derivou uma conferência, para um auditório de estudantes, em 1967, já traduzida e publicada em Portugal (Aspectos do Novo Radicalismo de Direita, Edições 70, 2020), que tinha sido antecedida por uma outra conferência, também publicada nas suas obras completas, intitulada Desejo Autoritário.

Adorno, que tinha sempre rejeitado o “psicologismo”, envereda aqui por vias que conduzem à confluência da sociologia e da psicologia clínica, com algumas incursões em conceitos fundamentais da psicanálise, que ele julga serem ferramentas analíticas indispensáveis para compreender o fascismo e o nazismo.

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Esses estudos estavam no meu horizonte quando propus que se devia deitar Ventura no divã. Mas, entretanto, fiz uma outra leitura muito produtiva quanto à mesma questão: trata-se de um livro de Wilhelm Reich, Psicologia de Massas do Fascismo, escrito entre 1930 e 1933, no momento de ascensão do nazismo. Wilhelm Reich é um daqueles autores que ficou associado a teorias políticas e psicológicas (fazendo, aliás, convergir estes dois campos) que têm hoje um sabor e um tom muito anacrónicos. Na verdade, algumas ideias desenvolvidas neste livro não são hoje defensáveis. Mas isso não impede que haja nele aspectos a que é muito proveitoso regressar, já que está hoje no ar a ideia de que os anos 30 do século XX estão novamente diante de nós. Na categoria das “velharias”, há outro autor que, ainda muito mais do que Wilhelm Reich, está hoje a ser reabilitado (a sua obra completa está a ser publicada em Itália sob o patrocínio de Giorgio Agamben): trata-se de Ivan Illich.

Partamos então desta circunstância misteriosa: o partido de André Ventura, que anda desde há anos a defender a solução radical da castração química dos pedófilos, tem sido confrontado com frequentes casos de pedofilia, a um ritmo que não tem rival em nenhum outro partido (esta semana, mais um membro do Chega, que foi candidato autárquico na Azambuja, foi detido por fortes suspeitas de ter abusado sexualmente de dois rapazes). Apetece mesmo regressar ao psicanalista-marxista Wilhelm Reich que, baseado na tese freudiana segundo a qual o desejo sexual é o motor mais profundo dos processos psíquicos, procurou a origem dos comportamentos irracionais do fascismo na repressão dos desejos sexuais.

Reich desenvolveu assim a teoria de que a inibição sexual produz um carácter em geral avesso à revolta e, ao mesmo tempo, submisso a um chefe político que simbolicamente exerce um controlo sobre a sexualidade e impõe o superego do virilismo. Não é difícil notar que há uma circulação da libido em torno de Ventura. Uma aliança se estabelece assim entre um carácter psicológico e uma ideologia que tem um enorme poder de agir sobre o curso da História. Quando estas condições são largamente partilhadas, um grande número de pessoas com características comuns produz o fenómeno da psicologia de massa. E esse factor subjectivo vai determinar um processo histórico.

E é assim que Reich explica este paradoxo: são as massas desfavorecidas, por mais que lhes seja mostrado com toda a lógica e racionalidade que estão a defender uma ideologia (e os respectivos chefes e doutrinadores) contrária aos seus interesses objectivos, que alimentam os movimentos políticos que a difundem e promovem.

O irracionalismo, um carácter explicitamente reivindicado pelo fascismo histórico, mantém-se actual e continua a produzir os seus efeitos. Contra ele, não há argumentos racionais que vençam.


A luta antiaborto é uma luta pelo poder político?

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 29/06/2022)

A discussão pública suscitada pela reversão de uma decisão jurídica de 1973, que permite aos estados dos Estados Unidos da América proibirem a interrupção voluntária da gravidez, está a falhar um dos múltiplos ângulos, complicados, de que se reveste: a utilização da sexualidade como instrumento de poder e de conquista do poder.

Michel Foucault estudou a relação entre poder e sexo na sua História da Sexualidade e na tese A Vontade de Saber, onde tenta demonstrar (e aqui faço, necessariamente, uma explicação grosseira da ideia, que é complexa) que a sociedade ocidental, a partir de determinada altura, mais do que reprimir ou condicionar a atividade sexual, criou mecanismos religiosos, políticos e científicos (e estes incluem a pedagogia, a psiquiatria, a psicanálise, a ginecologia, etc.) que não têm por objetivo fazer calar o sexo. Pelo contrário, todas essas estruturas fazem com que as pessoas falem de sexo e o tragam à tona na conversa com o padre, com o médico, com o mestre, com o amigo, com o familiar, e fazem-no contando os mais ínfimos detalhes, admitindo os mais diversos tipos de desejos, procurando um enquadramento moral, uma legitimidade política, uma certificação científica ou um abraço cúmplice que acarinhe a sua suposta intimidade.

Este impulso pode, para Foucault, ter origem numa prática de raízes cristãs: a confissão.

Para Foucault todo este dispositivo orienta e dirige as pessoas sobre quais as condutas sexuais que podem ser praticadas. Embora este sistema pareça que não atua sobre os desejos e os impulsos preexistentes dos indivíduos, afeta toda a vida humana pois normaliza os comportamentos e condiciona-os a determinados padrões considerados aceitáveis – mesmo que, aparentemente, “mais avançados” do que os hábitos sexuais que ficcionamos terem existido noutras épocas.

Do meu ponto de vista, a luta em torno da ilegalização do aborto, apesar de argumentado em nome da defesa da vida humana, é primordialmente uma discussão em torno de luta pelo poder de determinar as regras desse normativo da sexualidade, uma tentativa de ditar o que é “aceitável” nos comportamentos sexuais – e não é por acaso que a confrontação entre adeptos a favor ou contra o aborto quase (não completamente, mas quase) coincide com a confrontação entre adeptos a favor ou contra os direitos LGBTQIA+. Ambas as fações lutam por esse domínio, por esse poder de determinar a sexualidade aceitável.

Para os adeptos da “Defesa da Vida”, a normalização sexual que procuram impor implica a sua limitação e a criminalização do aborto é um instrumento para o conseguir – por exemplo, ao punir com penas que podem ir até 15 anos de cadeia (como um dos estados norte-americanos está a pensar aplicar) mulheres e pessoal de Saúde que façam abortos, está-se, implicitamente, a tentar assustar as pessoas que levem uma vida sexual dita “irresponsável”, impondo uma normalização de comportamentos sexuais mais restrita.

Claro que este não é o aspeto, no imediato, mais relevante da questão, mas convém não perdê-lo de vista – a reação do movimento antiaborto nos Estados Unidos que permitiu esta reviravolta é realmente reacionária, na definição política habitual, pois é a resposta direta, é a reação ao ascenso das causas identitárias de género (e, portanto, de prática sexual), cujos avanços na conquista pelo poder do normativo sexual e a tentativa de o tornar “progressista” acabaram por criar esta resposta de quem não quer perder o domínio do normativo “conservador” anterior.

Esta luta é, portanto, uma vertente da luta pelo poder político entre o “trumpismo” e seus satélites contra os liberais norte-americanos, mais ou menos progressistas.

Na Europa – e em Portugal – o espelho dessa reação norte-americana está a trabalhar para fazer o mesmo.

Escrevi que esta análise, que me parece relevante, não é, porém, sobre o ponto mais importante do debate acerca do aborto. Então qual é esse ponto?… Obviamente é este: as mulheres pobres, oprimidas, violentadas, desesperadas ou, simplesmente, infelizes que vão engravidar e, se nada se alterar, irão morrer a tentar abortar sem assistência médica adequada. Morrerão em nome da “Defesa da Vida”.

Jornalista


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A revolução puritana

(António Guerreiro, in Público, 11/11/2021)

António Guerreiro

Percorrendo a edição online de vários jornais estrangeiros, encontrei num único dia, na passada segunda-feira, estes títulos (cito, traduzindo-os):

1. “Na Bélgica, o movimento #balancetonbar ganha amplitude” (#balancetonbar é um hashtag que apela ao boicote dos bares onde mulheres foram violadas depois de terem ingerido drogas clandestinamente misturadas nas bebidas; este hashtag é o eco de um outro surgido há algum tempo em França que denunciava a “porcaria” dos homens: #balancetonporc).

2. “Os predadores da Academia. Quando o abuso do homem é de cátedra” (trata-se aqui das investidas sexuais dos professores, nas universidades italianas, aproveitando-se das prerrogativas hierárquicas do lugar que ocupam).

3. “Padres pedófilos. A Igreja francesa obrigada a vender os seus imóveis para ressarcir as vítimas”.

4. “Violências sexuais: oito mulheres acusam PPDA” (PPDA é Patrick Poivre d’Arvor, famoso ex-jornalista da TF1, que foi durante muito tempo o rosto do principal jornal televisivo desta estação estatal; as acusações já vêm de trás, mas agora algumas mulheres deram a cara, não ficaram escondidas no anonimato).

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Se Freud ressuscitasse, haveria de repetir, mas agora com dados empíricos, fornecidos diariamente pelos jornais e sem precisar de grandes incursões antropológicas na ordem simbólica que determina as leis do totem e do tabu, que “a sociedade repousa sobre um crime”. Ou melhor, sobre a violência e o abuso sexuais cometidos por quem, de algum modo, ocupa posições de poder. Evocando Freud, recordemos ainda que ele, entre 1895 e 1897, formulou uma “teoria da sedução”, com a qual tentava explicar a histeria — essa neurose então considerada tipicamente feminina — que tinha diagnosticado em algumas das suas doentes. Segundo essa teoria, a histeria seria o regresso traumático do episódio de sedução exercida efectivamente por um adulto sobre a criança. Dada a quantidade de histéricas que conheceu no seu consultório, Freud, com a sua teoria da sedução, lançava sobre a alta sociedade vienense do seu tempo, muito burguesa e muito puritana, uma suspeita terrível: a de que muitos adultos seduziam sexualmente, em família, as suas crianças. As famílias vienenses puderam suspirar de alívio quando Freud reviu a sua tese, submetendo-se à acusação de ceder ao pundonor social, e passou à teoria do fantasma: a neurose histérica não era originada por um abuso sexual real, efectivo, mas por um fantasma da sedução engendrado pela criança. O que antes era imputado aos adultos, passa a ser entendido por conta da fantasia infantil de um perverso polimorfo.

Olhemos de frente a grande revolução que está a acontecer diante de nós: práticas sexuais criminosas, exercidas não com um “parceiro”, mas sobre uma vítima, estão a ser denunciadas, umas atrás das outras, e os seus “actores” submetidos ao opróbrio público, o mais terrível do nosso tempo. Mas devemos também ter a lucidez de ver que há efeitos colaterais, uma consequência que não devia ser inevitável, um preço colectivo que não devia ser cobrado na mesma factura que os criminosos do sexo têm de pagar quando são denunciados e sentenciados.

E esse preço é o do neo-puritanismo higienista que, de resto, já não é possível discernir se é uma causa ou uma consequência. E quanto mais se quer extirpar e justamente penalizar a violência sexual, mais o sexo se torna uma obsessão maléfica, uma coisa porca que merece ser denunciada por um hashtag como este: #balancetonporc. Estamos a assistir a uma verdadeira pornificação da vida. Entre o #balancetonporc e a infame “liberdade de importunar”, reivindicada por 100 mulheres, com Catherine Deneuve à cabeça, num artigo publicado no jornal francês Le Monde, não parece haver espaço habitável.

A extensão do território do moralismo e do neo-puritanismo não pára de crescer e toda a “parte maldita” (em suma, a heterogeneidade do sexo, a sua irredutível negatividade) é denegada ou sublimada no legalismo moral. Podemos ainda hoje ler um livro como Madame Edwarda, de Georges Bataille, sem sentirmos não o abalo provocado por uma experiência dos limites, mas o pobre estremecimento da auto-censura que nos está a ser inoculada? Podemos hoje evocar as regras de Deleuze e Guattari — os autores do Anti-Édipo — para “uma vida não-fascista”, quando essas regras, outrora empunhadas como armas contra os micro-fascismos, são proscritas pela revolução conservadora em curso?



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