Por que é que o #MeToo e suas variantes são reaccionários e puritanos

(Pacheco Pereira, in Público, 06/04/2019)

Pacheco Pereira

Para se ver o estado em que as coisas estão, começa por se considerar que um artigo desta natureza não deveria, ou não poderia, ser escrito por um homem. Logo à cabeça, diga-se o que se disser, a leitura preconceituosa do artigo é moldada, antes de tudo, pelo género de quem o escreve. Há, de imediato, um espontâneo processo de intenção, que dita que, seja o que for que eu escrever, o facto de não concordar com a solução do #MeToo tira valor ao facto de entender que há um problema perverso nas relações homem-mulher nesta sociedade. O facto de ser crítico do #MeToo não me coloca entre os que desvalorizam a questão do machismo, mas todos olharão para a recusa do #MeToo como desclassificando a preocupação com o machismo, diga o que disser. É como um branco a escrever sobre o racismo – como não é negro nem cigano, não sabe do que fala, nem sente “na pele” o racismo.

Um dos aspectos da falência da racionalidade, nos dias de hoje, é a ideia de que o direito à palavra pertence naturalmente à parte mais fraca e de que, num debate público, os homens e mulheres não são julgados pelos argumentos racionais, pelo logos, mas pelo pathos, da experiência vivida e intransmissível por cima do género. Que eu saiba, “no sentir na pele”, a “pele” não pensa, mas sim a cabeça. Este tipo de anátemas e reducionismos no debate público é cada vez mais comum e empobrecem-no muito.

Não tenho dúvidas de que há uma prática estabelecida de abuso das mulheres por parte dos homens, numa cultura machista, e que tal não deve ser menosprezado e deve ser combatido. E não é das mulheres sobre os homens, é dos homens sobre as mulheres. As mulheres são as vítimas de incontáveis actos de abuso, uns mais graves do que outros, mas praticados sempre no âmbito de uma cultura dominantemente machista. Não é um comportamento pontual e conjuntural, está no âmago da cultura da sociedade em que vivemos, dos EUA à Suécia, de França a Portugal.

Se há seta do progresso, ela compreende a desmachização das sociedades contemporâneas, um processo lento, difícil, que deve sempre mais às mulheres do que aos homens. Daí que o arranque do movimento do #MeToo tenha sido fundamental para revelar a extensão do problema, as suas formas mais disfarçadas, e instituir um mecanismo de prevenção pelo medo. Os homens que abusavam têm agora a consciência de que podem pagar um preço bem caro por esse abuso. Isto foi o melhor do movimento inicial do #MeToo. Só que, depois, a coisa descambou.

Hoje, movimentos como o #MeToo e outras variantes mais ou menos radicalizadas, mais ou menos feministas, não são uma resposta, são uma parte do problema, a parte do problema que emigrou de um lado para o outro, da cultura machista para uma nova variante de cultura puritana, socialmente reaccionária.

Essa cultura agressiva está muito longe do movimento inicial e gera um terreno muito ambíguo que, no limite, pode sempre criminalizar a sedução, gerar uma gramática das relações afectivas muito rígida e burocrática, criando um extenso rol de regras, que só falta colocar no papel numa espécie de contrato de consentimento, cuja validade pode durar uns segundos, porque o “sim” de há segundos pode dar origem a um “não” a seguir. Ninguém se relaciona afectivamente assim na prática, mas pode ser perseguido assim com a maior facilidade.

Depois, o #MeToo, hoje, é um movimento claramente hostil à heterossexualidade, outra coisa que também não se pode dizer no pensamento policiado dos dias de hoje. Quem são os maus e em que contexto são eles os maus? Quase sempre, homens numa relação heterossexual. Embora todos saibamos que há abusos em relações homossexuais com a mesma mecânica e quase a mesma forma entre homens e homens e mulheres e mulheres, a grande ofensiva é no contexto heterossexual. Pode dizer-se que tal é natural, devido à prevalência maioritária desse tipo de relações, mas há um julgamento de perigosidade maior sobre as relações heterossexuais do que sobre as relações homossexuais, como se o abuso residisse preferencialmente nas primeiras.

Depois, e isto é um problema crescente, casos graves, mesmo crimes de violação, são tratados do mesmo modo do que comportamentos impróprios ou ambíguos na sua forma. Comportamentos que eram socialmente aceitáveis, nos dois lados, homens e mulheres, ou seja, que não eram “sentidos” como sendo de abuso, hoje são retrospectivamente apontados como sendo abusivos. Este processo gera um efeito de trivialização do abuso, que o torna na acusação mais comum para destruir vidas e carreiras. O facto de, em muitos casos, haver razão nas acusações não pode fazer esquecer a facilidade em acusar sem provas que sejam mais do que impressões, quase sempre a posteriori.

Movimentos radicais, como algumas sequelas feministas do #Me Too, na prática, o que fazem é criminalizar a sexualidade, reduzi-la a um contrato codificado de normas e regras, num movimento que resulta num puritanismo moderno, ou numa subvalorização do sexo cuja relação com o abuso habitual torna impuro.

O sexo é o lugar do abuso, a sede do abuso, e só burocratas o podem fazer deitados em cima de um código de costumes. Em teoria, porque nada disto acontece na prática, e nem as mais radicais feministas fazem sexo assim. Dá bons slogans feministas nos cartazes das manifestações, mas são completamente irrealistas. Pelo contrário, acentuam o policiamento de corpos e cabeças, e isso é bem real.


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Os padres têm sexo

(José Pacheco Pereira, in Público, 02/03/2019)

Pacheco Pereira

É difícil mudar em muitos aspectos a moral sexual da Igreja e as suas consequências institucionais, mas sem uma mudança profunda na atitude da Igreja em relação à sexualidade tudo vai continuar na mesma.

Eu não sou católico, nem apostólico, nem romano e sou um ateu que se classifica de agnóstico para não ofender o Popper que há dentro de mim. Mas não sou, em 2019, anticlerical, e reconheço no meu país, também em 2019, o papel muito importante da Igreja, principalmente social e cultural. Não tenho qualquer vezo contra a instituição e reconheço mesmo que numa sociedade sem valores muitos dos valores do cristianismo que transporta a Igreja são positivos para a nossa vida colectiva, mesmo quando a Igreja não dá o exemplo. Num país onde há muita pobreza, muita exclusão, sem a Igreja tudo estaria muito pior, mesmo muito pior e a Igreja é uma poderosa força cultural e intelectual. Até aqui muito bem.

A partir daqui muito mal. Não é por acaso que várias vezes datei o que penso sobre a Igreja no ano de 2019, hoje e em Portugal, porque não queria generalizar para o passado, nem tenho a certeza do que vai ser no futuro. Apenas, hoje. E hoje a crise da Igreja católica, com sucessivos casos de pedofilia e abuso sexual de menores e maiores, é gravíssima, até porque foi ocultada ao mais alto nível. Padres e bispos cometeram crimes de delito comum e encontraram na Igreja e nas suas instituições a mesma protecção que os “soldados” da Máfia tinham na organização criminosa. O Papa actual, que em muitas matérias mostrou bastante coragem, compreendeu a dimensão do problema e parece resolvido a defrontá-lo. Não é fácil.

A razão do que aconteceu é simples e não tem qualquer complexidade: o celibato dos padres, o impedimento de as mulheres acederem ao sacerdócio e a condenação pela Igreja da homossexualidade, ou seja, a moral sexual do cristianismo. Esta moral sexual não data da origem do cristianismo, mas forjou-se em confronto com a moral e costumes pagãos, quando os cristãos começaram a “conquistar” Roma. Na verdade, não é dogma de fé, embora tenha sido, com o fim das primitivas Igrejas cristãs, uma tradição identitária da Igreja quer do Ocidente quer do Oriente.  

Mas nunca foi cumprida à letra e tal está abundantemente documentado, até para Portugal. Na célebre viagem de Frei Bartolomeu dos Mártires, e no que escreveu Frei Luís de Sousa, a regra era os padres estarem “amancebados” e viverem com as suas famílias, sem particular escândalos das populações. Os conventos eram muitas vezes descritos desde o século XVIII quase como sendo lupanares e houve muitos amores de “freiras portuguesas”. Já para não falar das práticas libertinas a que os fiéis se entregavam na ida à missa, como a prática do beliscão nas senhoras, que tinham de ir almofadadas para não serem magoadas e apalpadas. Do mesmo modo, a passagem rápida pelos boletins da censura durante a ditadura do Estado Novo revela como as histórias de padres e freiras violando a regra do celibato ou os votos eram uma permanente fonte de dichotes, denúncias, poemas satíricos, notícias mais ou menos crípticas nos jornais locais, tudo fervorosamente cortado pela censura. E algumas retratavam crimes, então e hoje.

Os conflitos gerados pela moral sexual cristã têm sido uma constante da história da Igreja que se tem agudizado com a crescente laicização das sociedades ocidentais. A Igreja nunca lhes deu uma resposta consistente e agora paga um preço muito elevado em todas as frentes, controlo dos nascimentos, planeamento familiar, papel da mulher, cada vez mais casais com vida em comum sem o casamento, desvalorização da virgindade, marginalização dos homossexuais, e, no limite, abusos sexuais e pedofilia. O tronco é comum: padres e freiras têm sexo e a pressão para não o sentirem é, num certo sentido simplista, antinatura.

Um dos resultados é o risco para a Igreja de ter, em particular nos países anglo-saxónicos, mas não só, cada vez mais homossexuais, num contexto de “armário” de sete chaves, convivendo nas múltiplas instituições de carácter educativo, no serviço da missa, nos coros das igrejas, nos escuteiros, com milhares de rapazes e raparigas que acabam por abusar. Até agora a Igreja protegia-os da denúncia pública, agora presume-se que vai deixar de o fazer. Mas isso não resolve o problema, porque a repressão da sexualidade não gera felicidade. O Diabo já sabia disso há muito tempo, porque era por aí que vinham a maioria das suas mais gráficas tentações.

Não viola a fé cristã, nem os fundamentos do cristianismo, nem sequer é particularmente recusado pelo povo cristão, que não vê grandes problemas em os padres se casarem. É difícil mudar em muitos aspectos a moral sexual da Igreja e as suas consequências institucionais, como os anglicanos perceberam quando decidiram fazer entrar no sacerdócio mulheres. Mas, sem uma mudança profunda na atitude da Igreja em relação à sexualidade, tudo vai continuar na mesma.

As metamorfoses do fascismo

(António Guerreiro, in Público, 26/10/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

A emergência de partidos e movimentos de extrema-direita em toda a Europa e a iminência da eleição de Bolsonaro para a presidência do Brasil – assim como outros signos indiscretos do ambiente político que suscitam o uso das metáforas médicas dos sintomas e das memórias traumáticas – fizeram com que se difundisse a tese do regresso aos anos de 1930.

A referência ao fascismo histórico, aos fascismos clássicos europeus que irromperam entre as duas guerras mundiais, é certamente tentadora porque há, aqui e ali, sobrevivências da matriz do velho fascismo, em relação ao qual a nossa consciência histórica nos coloca em estado de alerta. Mas há uma simplificação e um esquema interpretativo demasiado rígido nesta análise que situa as novas direitas extremas – de resto muito heterogéneas – numa linha de continuidade ideológica em relação aos anos 30 do século passado.

Esta grelha analítica, levando a um “diagnóstico” errado, pode revelar-se um obstáculo para a compreensão do fenómeno e provocar formas equivocadas de lidar com ele. É o que pensam, entre outros, dois reconhecidos historiadores do nazismo e da história europeia do século XX: o inglês Ian Kershaw e o italiano Enzo Traverso. É deste último um livro sobre “os novos rostos do fascismo”, onde introduz o conceito de “pós-fascismo” como analisador deste tipo de movimentos (muitos deles ainda em formação) que, embora apelando em alguns aspectos a uma matriz fascista, são no essencial muito diferentes.

Desde logo, observa Traverso, o fascismo clássico designa um conjunto de organizações de massa dirigidas por um partido e impulsionadas por um chefe carismático. O fascismo fomentava a guerra e a reconstituição de impérios e reclamava a condição de “revolucionário”. Queria construir uma nova civilização. Era, portanto, detentor de valores fortes, enquanto esta nova extrema-direita se caracteriza por ser politicamente reaccionária e socialmente regressiva, obcecada, diz Traverso, com uma dupla tarefa: restabelecer as “identidades nacionais” ameaçadas (a xenofobia é a sua marca mais imponente e com mais poder de mobilização) e preencher o vazio deixado pela política, quando esta é reduzida ao “impolítico”.

Traverso utiliza esta palavra para designar uma relação desencantada com a política e a pura “governança”. Mas a palavra tem outras ressonâncias profundas, reenvia-nos para as Considerações de um Impolítico (1918) que Thomas Mann escreveu durante a Primeira Guerra Mundial. Thomas Mann movia-se então no território ideológico da “revolução conservadora”, que apelava à “mobilização total”, à disciplina e ao sacrifício da guerra dominante. Ora, o fascismo dos anos 30 estava ligado por essência à ideia de mobilização total e à figura do Trabalhador, uma Gestalt histórico-espiritual que Ernst Jünger representou num livro de 1932 que se intitula precisamente O Trabalhador.  Não nos iludamos com este título: o Trabalhador do ensaio de Jünger é completamente subtraído à linguagem do marxismo para falar pura e simplesmente a língua da mobilização total que inspirou os fascismos. Fácil é então perceber que estamos hoje muito afastados das condições do fascismo dos anos 30. A categoria de “pós-fascismo” formulada por Enzo Traverso implica também que a situação actual é a de pós-mobilização total.

A matriz ideológica desta extrema-direita moderna é antes o princípio identitário. O racismo vem a par do sexismo, como se viu em França, com as manifestações contra o casamento homossexual, como se pode ver nos casos de violência homófoba que os jornais italianos noticiam diariamente, como se vê no que está a acontecer no Brasil.

As direitas extremas actuais revelam uma fixação identitária sobre a sexualidade como “dado natural”. Lutar contra a democracia sexual segue o mesmo modelo da luta contra a democracia racial. E a ideia de um complot e de um inimigo maléfico surge com uma grande força mobilizadora. Já não se trata, agora da conspiração judaica mundial, dos “Protocolos dos sábios de Sião”, mas das categorias sexuais que são vistas como ameaças à “natural” ordem familiar e social.