A uberização do sexo

(António Guerreiro, in Público, 12/10/2018)

 

Guerreiro

António Guerreiro

O que é feito da ideia de liberdade e libertação sexual, nesta nossa época de renascimento do puritanismo? A esta pergunta, que hoje se impõe, devemos responder com um aceno ao pensamento lúcido de Michel Foucault, que fez uma crítica forte dessa ideia ainda no momento em que ela estava no auge. Segundo ele, a ideia de “libertação sexual” caía no equívoco de dar a entender que existiria no estado natural uma boa sexualidade, submetida no entanto a normas e restrições más. O que ele — longe da euforia — viu nesses longínquos anos 70 do século passado foi simplesmente a passagem de um sistema de práticas normativas a um outro, de sinal contrário.

A prossecução desta lógica (é difícil escapar a ela) trouxe-nos até aqui, ao puritanismo sexual, ao conservadorismo, às fixações normativas. E elas residem até onde menos se vêem. Por exemplo, no casamento homossexual, que significou sem dúvida uma conquista em matéria de direitos civis, mas representa uma viragem normativa da cultura homossexual, uma realização simétrica do heterocentrismo que reinstitui o modelo da conjugalidade, pondo fim à abertura, pela qual se tinha lutado, ao “uso dos prazeres”.

Podemos e devemos regozijarmo-nos por essa vitória. As circunstâncias do nosso tempo impõem-nos, até por razões tácticas, que não a desprezemos. Mas não devemos é cair na armadilha de pensar que a hetero-normalização do mundo gay contraria o puritanismo vigente.

O puritanismo não consiste em esconder. Pelo contrário, ele põe fim a todo o segredo e faz irromper a transparência, isto é, a obscenidade. O sexo passou a estar em todo o lado, mais visível do que nunca, excepto no lugar onde devia estar.

Repare-se como passámos da ambiguidade sexual de Cristiano Ronaldo, da sua região secreta (alimentada pelas suas decisões de reprodução assexuada), para uma hipervisão em grande plano, para uma proximidade absoluta. É esta a obscenidade em que o puritanismo se compraz.

Sabemos, desde sempre, que ele retira satisfação da promiscuidade do olhar e incita a uma escalada da transparência. Toda a magia negra do sexo foi recalcada e todo o potencial energético concentrado em palavras que foram outrora um maná de significação, tais como “libidinal” e “pulsional”, desapareceram do horizonte e do discurso.

A uberização do sexo está aí, diante de nós, sob a forma de um contrato que não admite a hipótese de encontros falhados. Lembremos esta curta história narrada em tempos por Baudrillard, para ilustrar uma economia da troca assimétrica, em que marido e mulher entram numa querela: “A mulher diz ao marido: ‘You give me love because you want sex’. E o homem responde: ‘You give me sex because you want love’”.

Esta forma de economia doméstica, traduzida nos termos actuais, tem um nome: violação na esfera conjugal. Outrora, talvez se pudesse dizer assim: cada um goza à sua maneira, do seu lado, e cada um ignora o gozo do outro. Até porque era sabido (mas quem se lembra hoje disso?) que “não há relação sexual”, como tinha declarado um célebre psicanalista que releu Freud com uma força radical.

Baudrillard foi outro espírito lúcido que, em 1995, num texto intitulado “A sexualidade como doença sexualmente transmissível”, percebeu os sinais que anunciavam o que começava a passar-se: a obsessão do assédio sexual, como resultado de uma insatisfação profunda, vinda da ideia falhada de libertação sexual e da ilusão de progresso.

Começa então a ressuscitar uma angústia da sexualidade que Baudrillard designa com uma analogia, o medo de contrair a sida, e a que Sloterdijk chamou “entropia erótica”. E cresce o fantasma do assédio sexual: sim, porque sobre a realidade condenável do assédio (nalguns casos, certamente monstruosa) construiu-se uma cena fantasmática.

O puritanismo reclama a transparência da obscenidade. Está instalada a obsessão negativa do sexo, chegou a hora de ajustar contas, de libertar os ressentimentos. Não é que não haja constas a ajustar, mas não é bom que elas rasurem a “parte maldita” e anulem um sentido escondido. O resultado é o desencanto, o fim do que restava de ilusão da profundidade.

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O QUE SE PASSARÁ COM A CABEÇA DO CARDEAL?

(In Blog O Jumento, 12/02/2018)
cabeca
O argumento posto a circular, a propósito da proposta de continência sexual sugerida aos “casais irregulares”, pelo cardeal patriarca de Lisboa é o de que se trata de um assunto interno da Igreja Católica Apostólica Romana, que só diz respeito aos seus membros. Este argumento defendido por algumas vozes que vieram em defesa do cardeal, faria algum sentido se a Igreja não se sentisse no direito de considerar os seus valores como devendo ser de todos, tentando impor as suas regras em matéria como divórcio, homossexualidade, adoções, eutanásia, interrupção voluntária da gravidez a católicos e não católicos, sob a forma de código penal, impondo a todos o seu próprio código moral. Mal estaria o mundo se os valores só pudessem ser questionados pelos membros de cada clube.
Não há na nossa sociedade duas escalas de valores e, a Igreja, que se sente no direito de condicionar toda a sociedade não pode levantar muitos em sua defesa, quando tenta evitar que a sociedade a influencie.
Seria interessante conhecer em que circunstâncias a Igreja admite o divórcio ou, para ser mais preciso, a nulidade do casamento, excluindo, é claro, a cunha, coisa que também existe nos divórcios da Igreja. No passado houve mesmo um ex-embaixador junto do Vaticano que já depois de reformado ainda ocupou um alto cargo no Estado, nomeação feita por um ministro agradecido pela ajuda que recebeu do embaixador na anulação do seu casamento.
A verdade é que os motivos que levam quase 100% dos casais a divorciarem-se não são contemplados no direito canónico. A partir do momento em que um casamento se realiza em condições normais e seja consumado quase nada é aceite como motivo de divórcio. Seria interessante se o cardeal apresentasse estatísticas de divórcios canónicos, por exemplo, em casos de violência doméstica. Aliás, todos sabemos qual a posição dos padres em relação a uma mulher que se queixe de violência doméstica, não é certamente a proteção da vítima.
Uma mulher que se divorcie por ser violentada ou mesmo violada pelo marido e volte a casar dificilmente conseguirá anular o seu casamento celebrado pela Igreja Católica, por aquilo agora ficámos a saber ou a mulher continua a aceitar a violação e a violência santificada pelo sacramento do casamento ou é forçada à abstinência sexual, sob pena de ficar excluída da Igreja, isto é, fica condenada a uma exclusão que não sendo equivalente à excomunhão corresponde a uma marginalização caluniosa no seio da Igreja.
Na telenovela “Tieta do Agreste”, baseada num romance de Jorge Amado, há uma personagem que se chama Modesto Pires que sendo casado mantinha uma “teúda e manteúda”. A determinada altura a amante e a esposa decidiram fazer uma greve de sexo que levou o Modesto Pires ao desespero. O desespero era tanto que o Modesto perguntava aos amigos se não havia o risco de “aquela coisa” lhe subir à cabeça.
Começo a achar que os receios do Modesto Pires tinham alguma razão de ser, a obsessão dos padres da Igreja Católica em relação ao sexo marca tanto a Igreja, estando no centro de tantas das suas decisões, que a explicação só pode corresponder aos receio do Modesto Pires, aquela coisa não sai por via das relações sexuais e sobe à cabeça dos nossos padres ciosos da sua castidade.

“Não sou um pedaço de carne”, diz Ariana. Nem mais

(Paula Cosme Pinto, in Expresso Diário, 30/12/2016)

 

I’ve been here all night, I’ve been here all day, and boy, you got me walkin’ side to side”. Sim, esta música cantada por Ariana Grande significa isso mesmo: um corpo que fica dorido depois de atividade sexual prolongada. Tão simples quanto isto. Muitos dos que estão a ler estas palavras – suponho e espero – já terão tido a sorte de saber o que isso é.

E embora realmente ficar dorido seja, como a palavra indica, doloroso, há dores que valem a pena quando o que as gerou foi altamente recompensador em termos de prazer. Ariana Grande, a cantora pop, de 23 anos, que tem gerado alguma controvérsia pela forma como explora, sem pudor, a sensualidade nas suas diversas performances, aparentemente sabe o que isto significa e canta-o sem qualquer problema. Fá-lo publicamente porque – com mais ou menos estratégia de showbiz pelo meio – sabe que a sua sexualidade, e a forma como a vive e encara, não são motivo de vergonha. Nem a tornam melhor ou pior pessoa. Cada um é livre de o fazer e de desfrutar como bem entender, desde que não incorra em nenhum abuso de liberdade e escolha individual do próximo, parece-me óbvio. Mas nem toda a gente consegue ver isto assim.

Se olharmos para trás – e, como é óbvio, penso logo na fantástica Madonna que já nos anos 80 era considerada uma grandessíssima pega (desculpem-me o termo, mas é mesmo isto) por cantar o “Like a Virgin” – são inúmeros os casos em que artistas do sexo feminino com a mesma postura, livre e despudorada, foram alvo de juízos de valor. Aparentemente, isto de se manifestar liberdade sexual em público não fica bem a uma senhora que se preze, dizem as regras da etiqueta e da hipocrisia. Já se for um cantor masculino – ao género daqueles que apalpam um harém de mulheres nos seus videoclips, por exemplo– isso já não interessa para nada, ninguém questiona a sua índole. É só normal.

Tal como parece ser normal alguém poder fazer comentários totalmente grotescos e inapropriados a Ariana porque ela até é uma moça que fala de sexo com tanta abertura de mente. Foi o que aconteceu há uns dias, quando a cantora estava num restaurante com o namorado, também cantor. Um fã do artista ficou tão empolgado de o ver que não conseguia parar de tentar interagir com ele. Começou com a conversa do costume, sobre quão fã era, até que resvalou para comentários sobre Ariana, como se ela nem sequer estivesse presente. E sem mais nem menos, sai-lhe a seguinte frase: “A Ariana é realmente boa. Agora que a vejo consigo perceber porque é que andas em cima dela”.

Talvez isto possa parecer um comentário totalmente inofensivo para muita gente, mas Ariana Grande decidiu quebrar esta supostamente normalidade – que é tão, mas tão errada – e escrever publicamente sobre o que sente quando ouve comentários do género: “A dar em cima dela? Que merda é esta? (…) Senti-me enojada e objetificada. Situações como esta acontecem a toda a hora e contribuem para que as mulheres se sintam com medo ou desajustadas. Eu não sou um pedaço de carne que um homem utiliza para o seu prazer. Sou um ser humano, numa relação com um homem que me trata com amor e respeito”. Num post publicado no Twitter para os seus mais de 43 milhões de fãs, a cantora não se poupou a palavras: “A maior parte das mulheres já passou por esta sensação de ser alvo de comentários desconfortáveis feitos publicamente. Temos de começar a falar sobre estas situações, a partilhá-las, a

sermos uma voz ativa quando algo nos deixa desconfortáveis. Se não o fizermos isto vai continuar a acontecer. Não somos objetos, nem prémios. Somos rainhas”.

“COM TODO O RESPEITO, DEIXEM DE SER IDIOTAS”

Já há uns tempos a cantora tinha manifestado o seu desagrado quando denunciou um seguidor do seu Instagram que a tinha insultado de “puta” por causa do tipo de lingerie que usa no vídeo do tema “Dangerous Woman”. Na altura, as suas palavras também foram certeiras: “Quando é que vão deixar de se sentirem ofendidos com o facto de as mulheres mostrarem a sua pele e expressarem a sua sexualidade? Os homens aparecem em tronco nu, expressam a sua sexualidade em palco, em vídeos, nas redes sociais, em todo o lado. O tratamento desigual de género é tão aborrecido e exaustivo. Com todo o respeito, deixem de ser idiotas”.

Idiota é a palavra certa para descrever tal linha de pensamento que continua a levar a que tanta gente ache que uma mulher está a dar abertura a comentários e convites sexuais porque na sua vida artística fala e expressa a sua visão sobre o tema. Não há nada legitime a grosseria e o desrespeito. Ariana Grande usa lingerie nos seus videoclipes e canta sobre como é bom ficar dorida depois de uma bela dose de sexo. E então? Isto significa que está “a pedi-las”? Que é legítimo que alguém, totalmente fora do contexto da intimidade, possa tecer comentários e convites sexuais àquela pessoa? É como daquela vez em que um restaurante decidiu comparar a atriz de filmes pornográficos Erica Fontes a um pedaço de vaca. O facto de a sua profissão envolver sexo legitima comentários do género? Por exemplo, uma stripper, uma vez que ganha a vida com os movimentos sensuais e sexuais do seu corpo, merece menos respeito enquanto mulher? Tal como uma prostituta, lá porque a sua profissão é ter relações sexuais pagas, não tem direito a dizer não e a sentir-se incomodada com uma abordagem grosseira? Em que raio de sociedade perturbada vivemos quando não se consegue perceber um fronteira tão clara quanto esta?

No recente caso de Ariana Grande, ficou por esclarecer qual foi a reação do seu namorado. Será que na altura percebeu sequer quão grosseiro era tal comentário? Que a defendeu? Ou será que lhe disse a habitual frase: “Não te chateies tanto com isso”? Nas redes sociais, o que não faltaram foi comentários – acima de tudo feitos por mulheres – que consideram que graças àquilo que canta, ela “põe-se a jeito”. Seja com palavras ou com silêncios, perpetua-se muitas vezes esta cultura misógina. Uma cultura totalmente enraizada em ambos os géneros, onde a roupa que uma mulher usa, a forma como fala, as ideias que expressa publicamente, a forma como vive a sua sexualidade, a sua profissão, o álcool que bebeu e demais factores – que davam uma lista infindável -, ainda são uma forma de validação para um comportamento incorreto. E o alvo desse comportamento é que continua a ser posto em causa, em vez de quem o perpetua. Que triste.

Fonte: Expresso | “Não sou um pedaço de carne”, diz Ariana. Nem mais