As metamorfoses do fascismo

(António Guerreiro, in Público, 26/10/2018)

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António Guerreiro

A emergência de partidos e movimentos de extrema-direita em toda a Europa e a iminência da eleição de Bolsonaro para a presidência do Brasil – assim como outros signos indiscretos do ambiente político que suscitam o uso das metáforas médicas dos sintomas e das memórias traumáticas – fizeram com que se difundisse a tese do regresso aos anos de 1930.

A referência ao fascismo histórico, aos fascismos clássicos europeus que irromperam entre as duas guerras mundiais, é certamente tentadora porque há, aqui e ali, sobrevivências da matriz do velho fascismo, em relação ao qual a nossa consciência histórica nos coloca em estado de alerta. Mas há uma simplificação e um esquema interpretativo demasiado rígido nesta análise que situa as novas direitas extremas – de resto muito heterogéneas – numa linha de continuidade ideológica em relação aos anos 30 do século passado.

Esta grelha analítica, levando a um “diagnóstico” errado, pode revelar-se um obstáculo para a compreensão do fenómeno e provocar formas equivocadas de lidar com ele. É o que pensam, entre outros, dois reconhecidos historiadores do nazismo e da história europeia do século XX: o inglês Ian Kershaw e o italiano Enzo Traverso. É deste último um livro sobre “os novos rostos do fascismo”, onde introduz o conceito de “pós-fascismo” como analisador deste tipo de movimentos (muitos deles ainda em formação) que, embora apelando em alguns aspectos a uma matriz fascista, são no essencial muito diferentes.

Desde logo, observa Traverso, o fascismo clássico designa um conjunto de organizações de massa dirigidas por um partido e impulsionadas por um chefe carismático. O fascismo fomentava a guerra e a reconstituição de impérios e reclamava a condição de “revolucionário”. Queria construir uma nova civilização. Era, portanto, detentor de valores fortes, enquanto esta nova extrema-direita se caracteriza por ser politicamente reaccionária e socialmente regressiva, obcecada, diz Traverso, com uma dupla tarefa: restabelecer as “identidades nacionais” ameaçadas (a xenofobia é a sua marca mais imponente e com mais poder de mobilização) e preencher o vazio deixado pela política, quando esta é reduzida ao “impolítico”.

Traverso utiliza esta palavra para designar uma relação desencantada com a política e a pura “governança”. Mas a palavra tem outras ressonâncias profundas, reenvia-nos para as Considerações de um Impolítico (1918) que Thomas Mann escreveu durante a Primeira Guerra Mundial. Thomas Mann movia-se então no território ideológico da “revolução conservadora”, que apelava à “mobilização total”, à disciplina e ao sacrifício da guerra dominante. Ora, o fascismo dos anos 30 estava ligado por essência à ideia de mobilização total e à figura do Trabalhador, uma Gestalt histórico-espiritual que Ernst Jünger representou num livro de 1932 que se intitula precisamente O Trabalhador.  Não nos iludamos com este título: o Trabalhador do ensaio de Jünger é completamente subtraído à linguagem do marxismo para falar pura e simplesmente a língua da mobilização total que inspirou os fascismos. Fácil é então perceber que estamos hoje muito afastados das condições do fascismo dos anos 30. A categoria de “pós-fascismo” formulada por Enzo Traverso implica também que a situação actual é a de pós-mobilização total.

A matriz ideológica desta extrema-direita moderna é antes o princípio identitário. O racismo vem a par do sexismo, como se viu em França, com as manifestações contra o casamento homossexual, como se pode ver nos casos de violência homófoba que os jornais italianos noticiam diariamente, como se vê no que está a acontecer no Brasil.

As direitas extremas actuais revelam uma fixação identitária sobre a sexualidade como “dado natural”. Lutar contra a democracia sexual segue o mesmo modelo da luta contra a democracia racial. E a ideia de um complot e de um inimigo maléfico surge com uma grande força mobilizadora. Já não se trata, agora da conspiração judaica mundial, dos “Protocolos dos sábios de Sião”, mas das categorias sexuais que são vistas como ameaças à “natural” ordem familiar e social.

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A uberização do sexo

(António Guerreiro, in Público, 12/10/2018)

 

Guerreiro

António Guerreiro

O que é feito da ideia de liberdade e libertação sexual, nesta nossa época de renascimento do puritanismo? A esta pergunta, que hoje se impõe, devemos responder com um aceno ao pensamento lúcido de Michel Foucault, que fez uma crítica forte dessa ideia ainda no momento em que ela estava no auge. Segundo ele, a ideia de “libertação sexual” caía no equívoco de dar a entender que existiria no estado natural uma boa sexualidade, submetida no entanto a normas e restrições más. O que ele — longe da euforia — viu nesses longínquos anos 70 do século passado foi simplesmente a passagem de um sistema de práticas normativas a um outro, de sinal contrário.

A prossecução desta lógica (é difícil escapar a ela) trouxe-nos até aqui, ao puritanismo sexual, ao conservadorismo, às fixações normativas. E elas residem até onde menos se vêem. Por exemplo, no casamento homossexual, que significou sem dúvida uma conquista em matéria de direitos civis, mas representa uma viragem normativa da cultura homossexual, uma realização simétrica do heterocentrismo que reinstitui o modelo da conjugalidade, pondo fim à abertura, pela qual se tinha lutado, ao “uso dos prazeres”.

Podemos e devemos regozijarmo-nos por essa vitória. As circunstâncias do nosso tempo impõem-nos, até por razões tácticas, que não a desprezemos. Mas não devemos é cair na armadilha de pensar que a hetero-normalização do mundo gay contraria o puritanismo vigente.

O puritanismo não consiste em esconder. Pelo contrário, ele põe fim a todo o segredo e faz irromper a transparência, isto é, a obscenidade. O sexo passou a estar em todo o lado, mais visível do que nunca, excepto no lugar onde devia estar.

Repare-se como passámos da ambiguidade sexual de Cristiano Ronaldo, da sua região secreta (alimentada pelas suas decisões de reprodução assexuada), para uma hipervisão em grande plano, para uma proximidade absoluta. É esta a obscenidade em que o puritanismo se compraz.

Sabemos, desde sempre, que ele retira satisfação da promiscuidade do olhar e incita a uma escalada da transparência. Toda a magia negra do sexo foi recalcada e todo o potencial energético concentrado em palavras que foram outrora um maná de significação, tais como “libidinal” e “pulsional”, desapareceram do horizonte e do discurso.

A uberização do sexo está aí, diante de nós, sob a forma de um contrato que não admite a hipótese de encontros falhados. Lembremos esta curta história narrada em tempos por Baudrillard, para ilustrar uma economia da troca assimétrica, em que marido e mulher entram numa querela: “A mulher diz ao marido: ‘You give me love because you want sex’. E o homem responde: ‘You give me sex because you want love’”.

Esta forma de economia doméstica, traduzida nos termos actuais, tem um nome: violação na esfera conjugal. Outrora, talvez se pudesse dizer assim: cada um goza à sua maneira, do seu lado, e cada um ignora o gozo do outro. Até porque era sabido (mas quem se lembra hoje disso?) que “não há relação sexual”, como tinha declarado um célebre psicanalista que releu Freud com uma força radical.

Baudrillard foi outro espírito lúcido que, em 1995, num texto intitulado “A sexualidade como doença sexualmente transmissível”, percebeu os sinais que anunciavam o que começava a passar-se: a obsessão do assédio sexual, como resultado de uma insatisfação profunda, vinda da ideia falhada de libertação sexual e da ilusão de progresso.

Começa então a ressuscitar uma angústia da sexualidade que Baudrillard designa com uma analogia, o medo de contrair a sida, e a que Sloterdijk chamou “entropia erótica”. E cresce o fantasma do assédio sexual: sim, porque sobre a realidade condenável do assédio (nalguns casos, certamente monstruosa) construiu-se uma cena fantasmática.

O puritanismo reclama a transparência da obscenidade. Está instalada a obsessão negativa do sexo, chegou a hora de ajustar contas, de libertar os ressentimentos. Não é que não haja constas a ajustar, mas não é bom que elas rasurem a “parte maldita” e anulem um sentido escondido. O resultado é o desencanto, o fim do que restava de ilusão da profundidade.

O QUE SE PASSARÁ COM A CABEÇA DO CARDEAL?

(In Blog O Jumento, 12/02/2018)
cabeca
O argumento posto a circular, a propósito da proposta de continência sexual sugerida aos “casais irregulares”, pelo cardeal patriarca de Lisboa é o de que se trata de um assunto interno da Igreja Católica Apostólica Romana, que só diz respeito aos seus membros. Este argumento defendido por algumas vozes que vieram em defesa do cardeal, faria algum sentido se a Igreja não se sentisse no direito de considerar os seus valores como devendo ser de todos, tentando impor as suas regras em matéria como divórcio, homossexualidade, adoções, eutanásia, interrupção voluntária da gravidez a católicos e não católicos, sob a forma de código penal, impondo a todos o seu próprio código moral. Mal estaria o mundo se os valores só pudessem ser questionados pelos membros de cada clube.
Não há na nossa sociedade duas escalas de valores e, a Igreja, que se sente no direito de condicionar toda a sociedade não pode levantar muitos em sua defesa, quando tenta evitar que a sociedade a influencie.
Seria interessante conhecer em que circunstâncias a Igreja admite o divórcio ou, para ser mais preciso, a nulidade do casamento, excluindo, é claro, a cunha, coisa que também existe nos divórcios da Igreja. No passado houve mesmo um ex-embaixador junto do Vaticano que já depois de reformado ainda ocupou um alto cargo no Estado, nomeação feita por um ministro agradecido pela ajuda que recebeu do embaixador na anulação do seu casamento.
A verdade é que os motivos que levam quase 100% dos casais a divorciarem-se não são contemplados no direito canónico. A partir do momento em que um casamento se realiza em condições normais e seja consumado quase nada é aceite como motivo de divórcio. Seria interessante se o cardeal apresentasse estatísticas de divórcios canónicos, por exemplo, em casos de violência doméstica. Aliás, todos sabemos qual a posição dos padres em relação a uma mulher que se queixe de violência doméstica, não é certamente a proteção da vítima.
Uma mulher que se divorcie por ser violentada ou mesmo violada pelo marido e volte a casar dificilmente conseguirá anular o seu casamento celebrado pela Igreja Católica, por aquilo agora ficámos a saber ou a mulher continua a aceitar a violação e a violência santificada pelo sacramento do casamento ou é forçada à abstinência sexual, sob pena de ficar excluída da Igreja, isto é, fica condenada a uma exclusão que não sendo equivalente à excomunhão corresponde a uma marginalização caluniosa no seio da Igreja.
Na telenovela “Tieta do Agreste”, baseada num romance de Jorge Amado, há uma personagem que se chama Modesto Pires que sendo casado mantinha uma “teúda e manteúda”. A determinada altura a amante e a esposa decidiram fazer uma greve de sexo que levou o Modesto Pires ao desespero. O desespero era tanto que o Modesto perguntava aos amigos se não havia o risco de “aquela coisa” lhe subir à cabeça.
Começo a achar que os receios do Modesto Pires tinham alguma razão de ser, a obsessão dos padres da Igreja Católica em relação ao sexo marca tanto a Igreja, estando no centro de tantas das suas decisões, que a explicação só pode corresponder aos receio do Modesto Pires, aquela coisa não sai por via das relações sexuais e sobe à cabeça dos nossos padres ciosos da sua castidade.