Não, não é normal, Sr. Ministro

(Por Mauro Burlamaqui Sampaio, in Facebook)

heitor

Chega de Iluminados cristalizados nas Reitorias e na gestão das Universidades, agora que os Ministros Manuel Heitor e Tiago Brandão Rodrigues têm de provar o que valem.
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A propósito da Denúncia do Sindicato dos professores pela “Prática Imoral ” por contratar professores de forma precária por vezes sem vencimento, recebe como resposta do Presidente do Conselho de Reitores a habitual forma evasiva de se escudar na lei dando uma imagem de que tudo é normal, quando sabemos que o espírito das leis são facilmente contornados pelo espírito dos Homens e é aqui que Tiago Brandão Rodrigues tem de marcar diferença e por no lugar o “Peixe Graúdo”, acontece, que esta situação é apenas uma das muitas que há muitos anos estão a acontecer no meio académico, sobejamente, visa manter os salários, empregos e benéficos de uma classe com prejuízo e exclusão de outros.
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Tiago Brandão Rodrigues começou bem ao combater o ensino privado pelos abusos existentes , todavia, o sinal de alarme nas Universidades já soa há muito tempo com o poder de gestão dos Reitores e administrações académicas serem contestados, entre os estudantes e na sociedade. Todos chamam atenção para este grupo que já criou, a semelhança de outros, privilégios que nestes tempos não se enquadram nem são aceites Manuel Heitor ministro para o Ensino Superior tem responsabilidades directas e surpreende-me não ter apresentado até agora nenhuma medida.
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Se as Universidades não tem dinheiro para pagar aos professores certamente é porque as verbas são gastas com aqueles que lá estão, bem, incluir novos professores com os salários destes, ah pois, certamente não chega mesmo.
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Desde logo, acabar com a rede ilegal de malha fina que as Universidades lançam através dos seus Institutos anexos criados para dominar a Investigação científica e traficar as mesmas de acordo com os seus interesses, onde se inclui aspirar fundos financeiros privados e públicos para os mesmos o que vai contra o espírito de formação aberta para todos os cidadãos e prejudica a investigação que fica dependente destes corredores dominados por A ou B isso, não é ciência nem é cultura é tráfico e gera centenas de excluídos entre investigadores e estudantes.
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As edições académicas, outro esquema, são financiadas pelo Estado e direccionadas para o mesmo grupo, edições raramente lidas na sua maioria e que podem ser publicadas em meios digitais mais baratos e portanto mais democráticos.
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O tratamento dos estudantes como números também já deram seus sinais de alarme, com a vergonha dos falsos contratos de mestrados na UTAD que nada mais foi do que um esquema feito com vista grossa das Reitorias e Administrações.
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Congressos, eventos e outras iniciativas privadas no interno das Universidades tem servido para tratar os estudantes como números para possíveis consumidores do produto A ou B, este conjunto de situações evidentemente acabam por ser sentidas pelos estudantes e pela Sociedade cabe então ao Governo e seu Ministro dizer ” O Barco para aqui” o financiamento público deve ser canalizado para o trabalho e para o mérito, filosofia básica de um ensino democrático e proveitoso para o aluno e para Sociedade.
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Manuel Heitor e Tiago Brandão Rodrigues é a vossa vez.

Que horror, trabalhar menos horas?

(Francisco Louçã, in Público, 28/12/2016)

louca

Francisco Louçã

O susto parece ter-se instalado em algumas boas famílias, pois constou que em 2017 podemos ser obrigados a trabalhar menos horas. É algo exagerado, parece que o governo vai atalhar esses atrevimentos e manter a ordem sagrada, pese embora a umas intrigas parlamentares que se esvairão sem consequências de lamentar. Já basta a reposição dos quatro feriados e a redução das cinco horas a mais que tinham sido impostas à função pública, por aí se fica a correcção aos ímpetos troikistas.

Quanto a dias de férias, nem pensar em voltar ao que era naqueles tempos sombrios em que as instituições internacionais não tinham ainda corrigido este mar de vícios e depravação que era a lei laboral em Portugal. Em França são 28 dias e em Inglaterra 30, mas esses antros de perdição estão perdidos.

Ora, pergunto eu, será mesmo crime infecto acrescentar três dias de férias? Deve ser, tal a preocupação que se notou ao longo destes dias, com a invocação do Carmo e da Trindade se acontecer tal recuperação do que tínhamos (e sobrevivemos nesse passado obtuso). Mas nem sempre toda a gente pensou que menos horas de trabalho seria um perigo civilizacional.

John Maynard Keynes, economista britânico, publicou em 1930 um texto com esta tese: se em cem anos o nível de vida crescer oito vezes, então os nossos netos poderão trabalhar três horas por dia. Sim, leu bem, Keynes, um Lorde inglês, prometia aos netos que viriam a trabalhar 15 horas por semana. Escrevia ele que, com tal crescimento, as necessidades do “velho Adão” não exigiriam mais do que um trabalho residual e os netos poderiam dedicar-se ao lazer, à cultura e à vida, ou seja, viver melhor.

É verdade que o que definimos como consumos elementares se transformou. Metade da população mundial tem um smartphone e em 2020 poderá chegar a 80%. Todos os que não são pobres, se não mesmo alguns pobres, têm hoje acesso ou desejo de acesso a alguns bens que não são os do “velho Adão”. Mas, para usar esses consumos sofisticados, também precisamos do mais sofisticado dos bens, o tempo. Ou, como dizia o senhor Ford, “ao operário de pouco serve o automóvel se fica na fábrica de madrugada até ao pôr-do-sol”.

É claro que o tempo sempre foi uma disputa. De facto, trabalhava-se menos horas antes do desenvolvimento do capitalismo industrial. No século XIV, o horário médio seria de nove horas por dia, com feriados que chegariam a um terço do ano: em França, além dos 52 domingos, havia 38 feriados e 90 dias de descanso, 180 no total. O mesmo em Inglaterra.

Com o capitalismo, passou-se a 12 a 14 horas por dia e menos feriados, no século XIX isso dava cerca de 2900 horas anuais. Mas, nos finais do século XX, o tempo estava reduzido a 1300 ou 1400 horas nos países mais desenvolvidos. Foi um século de luta pelo tempo de trabalho. Portanto, Keynes tem razão factual, o horário tem vindo a diminuir, mesmo que ainda esteja longe das 15 horas semanais.

Diminui ainda muito mais se considerarmos como mudou a organização do trabalho doméstico, que envolveria algumas 60 horas semanais em 1900 e passou para 14 horas em 2011, no caso dos Estados Unidos, graças aos electrodomésticos. O mesmo se passou na Europa (mas não em todo o mundo).

Poderá ainda dizer-se que a cultura social cria uma espécie de “busyness”, a obsessão de estar ocupado, e que isso favorece tempos longos de trabalho formal e informal, ou de ocupação sob submissão hierárquica, novas formas de trabalho que estendem o dia do escritório para o lar. Sim, mas é também por isso mesmo que a disputa do tempo resume uma das escolhas sobre como vamos viver e de como se distribuirá o produto do trabalho. Não é caso para alarme, é só a vida.

Cavalo de corrida

.(In Blog O Jumento, 27/12/2016)

D. Marcelo I, Rei de Portugal e dos Algarves

      D. Marcelo I, Rei de Portugal

Em bom português Marcelo vai a todas, representa uma espécie de presidente hiperactivo, nada, nenhum acontecimento, nenhuma homenagem, nenhuma morte em Portugal ou no estrangeiro, nada escapa ao nosso Marcelo. O George morre e o Marcelo manda condolências, o Passos fala e o Marcelo responde, a Maria Luís abre a boca e o Marcelo dá-lhe na cabeça.
Ligamos a RTP e Marcelo está de visita ao Hospital da Cruz Vermelha, passamos pela TVI e Marcelo está nas urgência do São José, fazemos zapping para a SIC e Marcelo está emborcando uma ginjinha e mais meia porque pode ter o azar de ir ao balão, ainda em que ninguém ouviu senão alguém se ofereceria para o levar de balão do Barreiro para Belém.
Vamos ao site da Presidência da República e quase ficamos cansados só de ver o que o Presidente fez, só no dia 27 promulgou um decreto, ofereceu um concerto aos responsáveis pelas misericórdias, visitou os cuidados paliativos do Hospital da Luz, mandou condolência às famílias de José Pracana e de José Silva Marques. Um dia antes tinha ido à festa de Natal do Re-Food.
Em três ou quatro dias Marcelo criou uma página de obituário nacional e internacional, entre visitas privadas e públicas foi a tantos hospitais que até parece que além de um problema hipocondria tem várias doenças graves, esteve em duas cerimónias com o pessoal das Santas Casas, bebeu umas ginjinhas e ainda teve tempo para acender uma vela. Passos Coelho até teve sorte pois numa semana menos natalícia e sem o Rui Rio a rondar, ainda teria tempo para lhe dar meia dúzia de bordoadas.
O problema é que entre unidades de cuidados paliativos, santas casas, hospitais, urgências e almas caridosas o Presidente não vai ter mãos a medir. Ir ver todos os velhinhos, beber todas as aguardentes e ginginhas tugas, visitar todas as misericórdias, manter um obituário nacional e internacional, tomar conta do Passos Coelho e da Maria Luís não é para qualquer um.
Como diria o Augusto Santos Silva vai ser um verdadeiro cavalo de corrida!

Aqui deixo a propósito, e dedicado ao nosso presidente, uma prenda de ano novo: Cavalos de corrida dos UHF, para que continue em forma a correr para a meta… 🙂