Espanha: tarde demais para a geringonça

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 27/06/2016)

Autor

                                Daniel Oliveira

O Partido Popular subiu em deputados em relação às eleições que decorreram há seis meses e, mesmo com enorme aumento da abstenção, de votos. Continua a ser trambolhão em relação às eleições que o levaram ao governo mas, perante os escândalos em que o partido tem estado envolvido, que numa situação normal levariam à sua implosão, não deixa de ser assinalável.

O PSOE afunda-se mais um pouco, afastando-se do PP e deixando que o Podemos se aproxime dele em representação parlamentar. O Podemos não rentabiliza a aliança com a Esquerda Unida e perde muitos votos. Mas no parlamento fica melhor do que estava, aproxima-se do PSOE e deixa o Ciudadanos para trás. Mesmo que hoje este resultado seja apresentado como uma derrota, muito por causa das expectativas criadas pelas sondagens, não deixa de ser extraordinário que uma força acabada de chegar se tenha imposto de tal forma que resiste à pressão causada por seis meses de ingovernabilidade em que o próprio Podemos surgiu como o principal problema. O Ciudadanos saiu do grupo da frente e não pode ambicionar a ser mais do uma espécie de CDS do PP.

Do ponto de vista aritmético, pouco ou nada mudou. O PP e os Ciudadanos continuam a não conseguir formar governo sem ajuda do PSOE, PSOE e Podemos continuam a não conseguir formar governo sem ajuda do Ciudadanos. A diferença principal é política: Pedro Sanchez não teria hoje condições para liderar um governo. E o Podemos não teria a mesma força para fazer exigências. À esquerda o bloqueio ficou maior do que à direita.

A situação estava fadada para ser difícil. O PSOE, já se sabia, não iria disparar. Só à custa de uma subida do Unidos Podemos é que a esquerda conquistaria a maioria. O que, tal como indicavam as sondagens à boca de urna, só seria possível se o Podemos ultrapassasse o PSOE. E aí a aliança seria também difícil.

O PSOE disse duas coisas e, se não quisesse criar um bloqueio, iria ter de rever uma delas: que não apoiaria um governo Rajoy e que Pablo Iglesias não lideraria um governo com um PSOE. Para não haver novas eleições alguma das duas teria de acontecer. E as duas representariam um suicídio para os socialistas. A questão seria saber qual era pior. Neste momento, a pressão para escolher a segunda é enorme. Bons amigos de ocasião, sobretudo de direita, apelam à abstenção sistemática, tornando o PSOE numa inexistência política. Depois de anos a pedir aos socialistas que não o fossem, agora pede-se que não existam. Para acabarem por desaparecer, como aconteceu ao PASOK e poderá vir a acontecer ao SPD.

A situação espanhola retira razão àqueles que consideraram que Costa estava a cometer uma loucura em Portugal. Percebeu que começávamos a assistir aqui a uma transformação eleitoral semelhante à que está a acontecer em vários países do sul, onde felizmente a extrema-direita não consegue captar voto de protesto e são os partidos mais à esquerda que captam eleitores descontentes.

Antecipou-se, apanhando o Bloco e o PCP com força suficiente para ter alguma coisa a perder mas sem força para fazer o que Iglesias fez em Espanha. Entendeu-se com a esquerda a tempo de a liderar. Porque a alternativa seria vir a ser obrigado a fazer o papel que o SPD faz hoje na Alemanha ou que o PSOE pode vir a ser obrigado a fazer em Espanha.

A inteligência de António Costa foi a de mudar a estratégia do PS antes que mudasse o sistema partidário e o PS ficasse numa situação muitíssimo mais frágil. Tomou a iniciativa antes que o contexto o passasse a ser um beco sem saída em que ficou Sanchez. Quem acusa Costa de estar refém do resto da esquerda devia olhar para Espanha e para a situação do PSOE.

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2 pensamentos sobre “Espanha: tarde demais para a geringonça

  1. Ao sr. Daniel Oliveira não ficava nada mal esclarecer que «quem se chegou à frente» para «empurrar» o PS para a «geringonça» foi o PCP que logo na noite das eleições declarou que «o PS só não era governo se não quisesse». O problema em Espanha tem também essa componente: a menor força de um Partido Comunista bem estruturado e com implantação no terreno que funcionasse como catalisador de alguma espécie de «troika» de esquerda…

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