O bando dos seis

(Nuno Saraiva, in Diário de Notícias, 26/06/2016)

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           Nuno Saraiva

A resposta da União Europeia à decisão soberana do Reino Unido de desencadear o processo de saída não podia ter sido pior e só demonstra quão mal servidos estamos de liderança política. Além de uma pulsão retaliatória que se traduz na exigência histérica para que o divórcio seja assinado com urgência – fala-se de saída limpa como se isso fosse possível num processo de separação litigiosa -, o bando dos seis fundadores do clube europeu, alcandorados em donos disto tudo, decidiu reunir-se em Berlim – onde mais? – para pressionar Londres a pôr-se ao fresco e afirmar que, naquele grupo, ninguém aceita que “lhes tirem a sua Europa”.

Reagem assim à emergência de movimentos nacionalistas e soberanistas que se mexem para exigir a replicação nos seus países de referendos idênticos ao do Reino Unido, como se a Europa fosse deles e não dos povos. Esta gente não percebeu nada, ou não quer perceber o que se está a passar. O brexit e as personagens que o defenderam e apoiaram não são a causa da doença europeia mas sim a consequência da mediocridade de certa gente. O que está errado não é a decisão tomada pelos britânicos, mas sim o rumo que a União Europeia seguiu e que conduziu a este desfecho. Quem falhou, e pelos vistos continuarão a falhar, foram os líderes do diretório que, em nome de um pacto orçamental estúpido como um dia lhe chamou Romano Prodi, valorizam os números em prejuízo do bem-estar das pessoas. Sim, as regras têm de existir e devem ser cumpridas na medida do possível. Mas, como disse um dia o presidente Jorge Sampaio, num país há mais vida para lá do défice, ou seja, os cidadãos não são números em folhas de Excel. Dito isto, importa ainda uma outra reflexão. A esquerda ficou fora deste debate no Reino Unido. Corbyn não conta, até porque a sua prestação neste referendo foi uma autêntica vergonha. E, pela falta de comparência, permitiu que o seu euroceticismo fosse colonizado pelos argumentos xenófobos e racistas, pelo discurso do medo e pela demagogia e pelo populismo da direita mais radical. Por este andar, o projeto europeu continuará a definhar e a Europa insistirá em fechar as fronteiras e a escorraçar os refugiados. Anteontem foi no Reino Unido. Hoje será em Espanha, com eleições de desfecho previsível. E amanhã ou depois será na França de Le Pen, na Itália de Beppe Grillo ou na Holanda de Wielders.

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Um pensamento sobre “O bando dos seis

  1. O que é uma vergonha é a sua ignorancia e o dislate das suas afirmações:
    Então Corbyn foi o responsável pela “colonização” do debate pela xenophobia e racismo? Onde mete então Nigel Farage. Boris Johnson, Michael Gove e quejandos ?
    O que fez a imprensa de direita, (que é quase toda), o Sun, o Daily Mail, o Telegraph, o Daily Express e outros, senão diáriamente acicatar os sentimentos anti-imigrantes e anti-europeus, numa sementeira de ódio ?
    O seu descaramento chega ao ponto de chamar à colação o pacto orçamental como se o RU tivesse a ver com o assunto.
    Corbyn fez, tal como o Labour, o possivel pelo Remain, lutando num ambiente hostil, mas mesmo assim ganhando 2/3 dos eleitores tradicionalmente Trabalhistas para a permanencia na UE.
    Onde mete também Sadiq Khan, o recém eleito Mayor de Londres, ele que lutou incansavelmente por outro resultado ? Na lista dos comportamentos vergonhosos ? E as dezenas de milhares de militantes do Labour que deram o seu máximo na campanha eleitoral, dia a após dia?
    O que escreve é um abuso e uma falsidade.

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