O problema de opinar sobre tudo

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 15/04/2016)

Autor

                       Pacheco Pereira

 

 

O Presidente Marcelo pronuncia-se todos os dias sobre alguma coisa de natureza política, em particular sobre questões de natureza governativa. Como o Presidente se encontra numa espécie de permanente estado de graça ninguém acha mal e aqueles com quem o Presidente manifesta concordância acham ainda melhor. Mas o Presidente faz mal em banalizar a sua opinião, até porque nem sempre tudo vai ser tão fácil como é nestes dias.

A uma dada altura vai ficar silencioso sobre umas matérias e loquaz sobre outras, o que motivará legitimamente a presunção de que, nos casos em que fique silencioso, discorda. Ora este permanente metadiscurso sobre a governação, como aliás sobre a actuação dos partidos, acaba também por dar um sinal de interferência contínua na governação, o que não cabe ao Presidente. Acresce a tentação de tornar o Conselho de Estado numa espécie de governo próprio a que ele Presidente preside, ao também aumentar o número de vezes que anunciou ir ouvir esse órgão de aconselhamento sem decisão. Os tempos que aí vêm, insisto, não são fáceis e por isso o Presidente precisa de autoridade e gravidade e não de banalização.

Ar fresco no que dizemos sobre a Grécia
António Costa praticou um acto político importante ao nível europeu ao assinar com Tsipras um documento contra a austeridade, que diz com clareza que a austeridade não é uma solução económica mas uma ideologia, e que a prática da austeridade não resolveu nenhum dos problemas que dizia resolver. Foi, no pior sentido, uma política em que muitos pagaram um enorme preço social a favor de poucos, com o escândalo de que esses poucos foram os principais responsáveis pela própria crise de 2008. Os gregos sabem-no melhor do que ninguém e Tsipras tornou-se uma personagem paradoxal, que suscita uma relação incomodada, entre o traidor e o “responsável”.

Mas, o que mostra o outro ar que se começa a viver, é perceber a gigantesca diferença entre o discurso que Cavaco, Passos e Portas tinham sobre a Grécia, uma mistura de revanchismo, de querer ficar com os poderosos a esmagar os fracos, de má consciência, de um convocar de ameaças e fantasmas e a afirmação límpida de que hoje na Europa é preciso mudar, e que essa mudança pode hesitar quanto ao caminho, mas não pode hesitar quanto a que andar para trás é um novo desastre.

O prato da novidade é um dos que os jornalistas mais gostam de comer
Eu acho espantoso que haja jornalistas a dizerem que o PSD “mudou” de estratégia, abandonou a esperança de eleições a curto prazo e deixou de considerar o Governo Costa ilegítimo e apoiado pelos “comunistas”. Porquê? Porque houve um discurso de Passos em que ele veio dizer tudo isso, preocupando-se em dizer quase ipsis verbis tudo o contrário do que tinha dito, num acto de mudança verbal quase tão tonitruante como o “social-democracia sempre”. E depois mudou alguns aspectos mais ou menos coreográficos da actuação parlamentar, nenhum dos quais muito relevante, nem substantivo. O homem disse que mudara 180º e os senhores jornalistas tomam-no à letra e dizem que sim, que o homem entrou no Congresso verde e saiu vermelho, ou vice-versa. Ninguém se interroga que partido político, que direcção partidária, que liderança, muda assim de um dia para o outro sem uma explicação, uma análise, uma constatação de erros, e está tudo bem. Como o prato que se punha aos senhores jornalistas era o da “novidade”, eles comeram-no sofregamente. Não adianta perceber que os homens que estão com Passos são os mesmos e pensam o mesmo, e que a bandeirinha continua lá na lapela. Basta dizer umas coisas e está tudo mudado. Passos já fez isto várias vezes, mas também ninguém se lembra. O que parece é, já dizia o Velho.

O congresso virou radical e esquerdista?
Vejo com alguma ironia que a maioria dos temas que tem servido de base às críticas que tenho feito ao PSD no “ajustamento”, passaram de malditas a aceitáveis. Não é que há quem venha falar da necessidade de “recentramento” do PSD, ou seja que considera implicitamente que este virou e muito à direita? Sorrio, com ironia. Não é que há quem venha falar da necessidade de o PSD se voltar outra vez para a “classe média” que abandonou nestes últimos anos? Sorrio, com ironia. Não é que há quem venha falar da necessidade de dar atenção ao “elevador social”, ou seja à mobilidade social, que nos anos do “ajustamento” só desceu e não subiu? Sorrio, com ironia. Não é que há quem venha dizer que o PSD precisa de fazer uma “viragem social”, o que significa que o não fez nestes anos? Sorrio, com ironia. Claro que é tudo dito de forma vaga e inconsequente, porque o passo de dizer quem é que virou o PSD à direita, quem conduziu com vasta concordância a política anti-social da troika, quem culpou a “classe média” do pecado de “viver acima das suas posses”, teve 95% dos votos dos delegados e quem quer fazer carreira dentro, não pode passar destes vagos enunciados. É este modo de actuar que transforma os partidos políticos em desertos de pensamento. Mas eu, radical e esquerdista, sorrio com ironia, ao ver a enorme influência do radicalismo e do esquerdismo no PSD de Passos.

 

Um pensamento sobre “O problema de opinar sobre tudo

  1. Tal como Mrs. Thatcher, que sorriu também com ironia , ela que era radical e direitista, ao ver a enorme influencia do direitismo no Partido Trabalhista de Blair. A corrida ao centro tem destas coisas.

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