Liberdade de imprensa e selvajaria tabloide

.(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 17/03/2016)

velório

A imagem apanhava, ao longe, familiares que entravam e saiam da capela mortuária. No oráculo anunciava-se: “Velório em direto.” Pela distância da câmara e pela total ausência de contacto entre a “jornalista” e os familiares de uma das irmãs assassinadas em Caxias, suspeitava-se que estávamos perante um assalto da CMTV ao momento mais íntimo que uma família pode viver. A emissão saltava do estúdio, onde a operação é dirigida pelo apresentador Nuno Graciano e a “taróloga” Maya, para a “jornalista”, numa pornográfica mistura entre entretenimento e informação. A comentar havia um psicóloga e um criminologista que explicavam a importância da intimidade nestes momentos. Como se a escabrosa e inédita violação mediática a que estávamos a assistir fosse uma catástrofe natural sem responsáveis.

A semana passada a CMTV passou para outro patamar e começou a transmitir, em sessões contínuas, as escutas do processo José Sócrates, como se os instrumentos de investigação passassem a ser instrumentos dos jornalistas. A ideia de a lei permitir determinadas coisas à comunicação social quando tal é justificado pelo “interesse público” correspondia à noção de que a liberdade de imprensa está ao serviço da comunidade. Quando os tabloides substituíram, no seu comportamento e na interpretação que fazem da lei, “interesse público” por “interesse do público” mudaram as regras do jogo. Em vez da deontologia, que defende o interesse público, está a concorrência, que sacrifica todos os direitos civis ao “interesse do público”. Ao negócio, portanto.

Não há liberdades absolutas. E por mais difícil que seja um jornalista escrever isto, a liberdade de imprensa também não é absoluta. Ela tem de lidar com outros direitos, liberdades e garantias. A verdade é que vivemos sem qualquer regra.

Tenho consciência da gravidade do que vou escrever, mas permitimos a alguns jornalistas o que só foi “permitido” à PIDE/DGS: vasculharem na correspondência, desrespeitarem todos os momentos de intimidade sem qualquer limite de pudor ou compaixão, tornarem públicas escutas policiais, relevantes ou irrelevantes para um processo.

No caso do “Correio da Manhã”, a comparação com a PIDE é especialmente oportuna, já que os critérios de escolha das vítimas são eles próprios, por vezes, políticos. E basta ter lido uma lamentável entrevista de Otávio Ribeiro, em que este, para justificar porque é que não foi ouvida uma pessoa envolvida numa notícia, que lhe lançava gravíssimas acusações, explica que ela também tem os contactos do “Correio da Manhã”, para perceber como as regras deontológicas mais básicas são orgulhosamente ignoradas sem que se espere qualquer consequência. Desde que haja quem compre, sabe-se que não há quem puna.

Dirão que a melhor forma de travar esta violação permanente dos mais elementares direitos civis é não ler o “Correio da Manhã” e não ver a CMTV. Lamento, mas não é assim que as coisas funcionam. A selvajaria tabloide é em tudo semelhante à selvajaria do sistema financeiro. É o mercado à solta sem obedecer a outra ética que não seja a mercantil. Dizer que basta não consumir o que agride os direitos de terceiros para a coisa desaparecer é acreditar que o mercado se regula a si mesmo. E isso não é verdade.

Ou os jornalistas e empresas de comunicação social se organizam para se autorregularem, punindo exemplarmente quem viole os direitos dos cidadãos, ou terá de ser o Estado a proteger-nos, apertando muito mais os limites, com assustadores riscos de censura política. A alternativa é toda a comunicação social começar a chafurdar no lixo para sobreviver à concorrência no mercado do voyeurismo. Está a começar a acontecer. E se as coisas levarem esse rumo será difícil continuar a defender a liberdade de imprensa. Em nome dela nunca permitirei que filmem um velório de um filho meu. Em nome dela nunca aceitarei que um jornalista faça o que não permito a um polícia ou a um juiz. Porque a defesa da liberdade de imprensa não tem os jornalistas como sujeito. Tem, como sempre, todos os cidadãos. Se a liberdade de imprensa põe em risco todas as outras deixa de fazer sentido defendê-la.

11 pensamentos sobre “Liberdade de imprensa e selvajaria tabloide

  1. DEMOCRACIA.
    NUNCA EXISTIU EM PORTUGAL.NEM NA UNIÃO EUROPEIA.
    PORQUE NUNCA VOTARAO 100%
    GOVERNAR COM DEMOCRACIA.É QUANDO Á UM VERDADEIRO GOVERNO.
    Como Um Bom Pai; Não Á Crise No País Que Governa.
    1º Ser Português; É Querer Para O Próximo O Que Queremos Para Nos Próprios; Ser Português; É Nunca Violar A Democracia Nem A Cidadania; Nem Os Direitos de Crianças; Formação Cem Educação; Sem Palavra; Sem Sentido de Responsabilidade Global; Não Presta; Numa Democracia Directa, Livre Todos Os Cidadãos Podem Participar Directamente no Processo de Tomada de Decisões.
    2º O Ouro Mais Valioso Do Mundo; É Respeitar O Próximo; Um Homem Com H Grande Move Montanhas; Quando Á Amizade; Boa Vontade Chega Tudo; Nunca À Crise Para Ninguém.
    3º Ser Português é Nunca Violar os Direitos de Igualdade; Mesmo os Que Não Fazem Parte das Redes Partidárias Enganadoras; politicas É Respeitar para ser Respeitado; É Defender Todo, e Todos e Toda a Produtividade. Ser Português; É Não Enganar os Portugueses; Como o Governo está a Fazer Com as Reformas Milionárias Que Recebe Quem Matou Toda a Produtividade de Portugal; Aumentar Impostos Com a Carga Brutal. Mesmo Assim só está Aumentar a Divida Publica; Pagando Reformas Milionárias a Quem Pouco/ou Nada Produz. Ser Português é Ter um Salario Mínimo de 750€; Reforma Mínima de 500€ Portugal; Como a Nossa Vizinha Espanha. Cortando Nas Reformas Milionárias.
    4º Deve é Criar Tetos Máximos de 1.700€ nas Reformas Publicas e Privadas; Como Tem a Suíça para o Dinheiro Chegar para Todos; E a Segurança Social ser Sustentável. Porque Todos Somos Doutores, e Gestores da Nossa Profissão.
    5º A Folga Orçamentar; E a Sustentabilidade da Segurança Social; Aparece com Tetos Máximos nas Reformas Publicas, E Privadas de 1.700€ Mês como na Suíça. Dividindo em Três uma de 700€ outra de 1.000€ e a Máxima 1.700€. Ser Português; É Tudo Ter Regras Peso, Medida, e Limites, e Responsáveis. É Recebermos o que Produzimos; Excepto Deficientes, Pobres, Crianças.
    6º Saída Limpa Da Tróica é com uma Tabela Salarial, com um Teto Máximo de 1.700€ nas Reformas, Públicas, e Salário Mínimo de 750€ Mês; Pois todos somos Doutores, Gestores de Nossa Profissão. Ser Português; É Termos Reforma Máximas no Público, de 1.700€;Como Têm a Suíça; Para não Estarmos a Endividar Portugal, Pessoas, e Crianças.
    7º Reestruturar a Divida Pública só em Nome de Quem Recebe Mais de 1.700€ de Reforma. Cultivar o Futuro. É Acabar com as Desigualdades Escandalosas, Desumanas; Ser Português; É quem tem Reforma Acima de 1.700€ ir logo para casa. Dando o Emprego a quem o Precisa, e não Continuar Empregado, e Reformado como agora Acontece; Isto é Desumano. Pois Todos Precisamos de Trabalhar, e de Receber para Sustento das suas Vidas.

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  2. Pura Perseguição Política a Lula e José Sócrates. Derivados da Mesma Estratégia; Cultura Dogmática de Direita Conservadora Latina, de Injustiça Social. Portugal, País de Emigração, Exploração, Corrupção, Divisão, Atraso Histórico Tradicional.
    Faz Parte da Cultura Dogmática Cultural de Infalibilidade, Mentira, Engano, Má-Fé, Atraso, Divisão, Fraude, Falência Económica e Social, Tradicional. Está em Causa os Direitos Republicanos de Cidadania, Liberdades e Garantias, Constitucional.
    Temos Um Problema de Corrupção Cultural, Dogmático e Idólatra Tradicional, Mentira, Engano, Má-Fé, Atraso, Ocultismo, Injustiça Social, Pobreza Física e Espiritual, Confusão, Divisão, Exploração Social. Desastre Histórico Nacional.

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  3. Concordo em pleno.

    O patamar de “vasculhar” foi lentamente normalizado e na minha opinião, por todos nós em geral.

    A tecnologia “cega-nos” de tal forma que somos nós próprios que temos normalizado o patamar do “vasculhar”. Quando eu me refiro à falta de segurança da maior parte das tecnologias de comunicação (smartphones e afins…), respondem-me “que nada têm a esconder”.

    Por não terem nada a esconder, permitem que as suas vidas possam ser vasculhadas? Será que por não terem nada a esconder, abrem as portas das suas casas a estranhos?

    Sei que são assuntos distintos, mas têm um ponto comum. A normalização do “vasculhar”.

    O mais recente exemplo é a recém exposição da chamada telefónica da Presidente do Brasil. Que “sistemas” de “vasculhar” estiveram em actividade e em sintonia com comunicação social!

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  4. Profissionalmente, já estive em desacordo com certas normas da comunicação social televisiva. Por exemplo: Filmar, para publicação, na televisão, corpos humanos, retirados das águas do mar ou rio, sem respeito pelo defunto e pelos seus familiares. JP

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  5. O Jornal O DIA, perdão correio da manhã, enganei.me pois a diferença entre dois jornais fascistas, não é nenhuma, deveria ter jornalistas e não caçadores de fortunas. Por ser um jornal de MERDA, só leio quando estou triste e preciso de ,me rir um bocado, com as anedotas ditas jornalisticas.

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  6. concordo totalmente. Considero, no entanto, que o próprio público tem muita culpa ao pactuar com este tipo de jornalismo, vendo determinados programas ou comprando certos jornais ou revistas.

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  7. Gostei do termo – selvajaria tabloide. Veja-se a imprensa tabloide americana ou inglesa, que faz corar de vergonha os nossos “tabloides”. Esta porra da democracia é do caraças, chafurda-se a intimidade alheia….e sabe Deus que mais. Pobre Lula, o ser mais honesto do planeta! Pobre Socrates, que está ao nivel do Lula! Mas sem duvida que os critérios deontologicos e morais dos visados jornalistas não são os melhores…. mas fico muito satisfeito ao ouvir as escutas aos grandes simbolos da esquerda mundial e concluir como são pessoas de uma integridade, honestidade, grandeza humana, a toda a prova. Como disse alguem, ainda não inventaram nada melhor que esta porra da democracia e espero bem que, ao contrario do desejo do articulista, não reapareça nenhuma forma de censura, seja por via da “auto-regulação” ou outra coisa travestida mas com o mesmo efeito. Caro Daniel Oliveira, não foi facil para os portugas, conquistar esta coisa da democracia, liberdade de expressão, bla, bla, bla, pois. O Lula disse para a justiça meter o processo no…., e eu digo aos que desejam “moralizar” a imprensa com “autoregulação” e outras tretas censórias, para meterem esse desejo no mesmo sitio. As minhas desculpas caro Daniel, mas como o Lula, tambem fico zangado com algumas coisas.

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  8. Acho que o que se deve lamentar, neste caso, é a não notícia que representa um enterro, salvo seja quando se trata de alguma personalidade, mas o tal “interesse do público” em detrimento do “interesse público” tem destas coisas. Depois, podem falar o mal que quiserem do CM, podem dizer que não lêem, etc. mas o que é certo é que continuará a ser o tablóide diário mais vendido em Portugal, e contra factos não há argumentos. Penso, porém, que isto seja um indicador do tipo de país em que vivemos – pequeno, desinteressado, limítrofe e pouco civilizado, onde as maiores cidades são cópias à escala pequena das grandes cidades europeias (olhe-se para Lisboa, fraca tentativa de cópia de Paris).

    Em relação a liberdade de imprensa, sim, porque não é um sinal de democracia, mas quase democracia em si mesma. Há que separar, porém, o que é de real interesse público do que interessa ao público, mas em tempos em que a imprensa está a definhar, moribunda, por um jornal já não necessitar de jornalistas ou escritores/opinadores para sair diariamente (e quem percebe um pouco de jornalismo sabe do que falo), são jornais como o CM que ainda fazem o público comprar imprensa escrita. Outra vez: quem está por dentro sabe do que se passa em jornais como o CM e o porquê de ser o que é, com um público alvo muito específico, mas as vozes pseudo-intelectuais acham que não é bem e que não é sério e rigoroso, etc. Se me perguntarem, serei o primeiro a dizer que, por vezes, ao tomar café, folheio o CM, pois é o único jornal do café. Se gosto do estilo? Claro que não, é circense de mais para o meu gosto, mas daí a dizer que é isto, aquilo e aqueloutro vai uma grande distância.

    O Daniel Oliveira, sendo jornalista, vai contra tudo aquilo que aprendeu a escrever desta forma, porquanto parece um leigo na matéria.

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