Todos nós estamos na encruzilhada

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 18/03/2016)

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Baptista Bastos

A futilidade tomou a dianteira sobre o essencial, e atinge, muitas vezes, a forma da abjecção com as perguntas feitas aos mandantes, sem se curar de saber as causas das coisas.


(Aos meus camaradas mais novos de jornalismo)

Portugal não manda em Portugal. Quase sempre assim foi; agora, porém, a coisa torna-se humilhantemente clara. Sem eleições, com a decidida imposição da vontade germânica e a aquiescência desavergonhada da França de François Hollande, Angela Merkel tornou-se a imperatriz da Europa, e a Alemanha a cabeça de um império repleto de iniquidades. A peregrinação de dirigentes de Estados europeus a Berlim é repugnante pela subserviência. A União Europeia é um ludíbrio, e parece que só poucos recalcitram.

Um artigo de Varoufakis, antigo ministro grego, revela que as mentiras propaladas sobre a decadência dos regimes que fogem à influência da União Europeia, e a prosperidade alcançada por aqueles que abraçam, comovidos, essa influência, é um facto sórdido que envolve a Imprensa colaboracionista. Poucos jornais e quase nenhuma televisão do Continente escapam à sarna do embuste. Aqui, em Portugal, a velhacaria não tem outro nome. Já disse e repito: o “economês”, que assaltou os meios televisivos, com especial realce para a SIC, mais propensa à confusão dos números do que à clareza factual, é um modo de aumentar a nossa comum perplexidade.

De uma maneira geral, a ocultação do que se passa, nos domínios políticos e sociais, chega a ser ultrajante. Em Portugal pouco sabemos do que, na realidade, de passa. A futilidade tomou a dianteira sobre o essencial, e atinge, muitas vezes, a forma da abjecção com as perguntas feitas aos mandantes, sem se curar de saber as causas das coisas.

Gosto muito de jornalistas e, há anos, um preopinante, que passou a ensinador porque nunca soube fazer nada, a não ser praticar a intriga e a sonsice, disse que eu defendia a “corporação.” É verdade. Sei muito bem por que passaram e passam aqueles que alguma vez tocaram no batente do jornalismo. Nos jornais fiz tudo o que havia fazer, com uma excepção: nunca escrevi de economia, por pura ignorância. Um dia, o meu amigo prof. Pereira de Moura, ante esta minha afirmação, esclareceu-me: “Não sabe você mas sabe-o a sua mulher, porque vai às compras.” Sinto quase sempre um pingo de inveja quando vejo jovens repórteres como eu fui, devorados pelo afã da “cacha”, de chegar primeiro, pensar rápido e escrever simples e nítido.

Tudo mudou de jaez e estilo. Mesmo assim, vale a pena entrar no ofício. Conheço e sou visitado por muitos moços e moças que gatinham, agora, na talagarça da reportagem. Como as Redacções (por favor, com R maiúsculo) foram inundadas por dirigentes que não sentem o fulgor da notícia e a grandeza do momento soberano, as coisas têm-se embrulhado. Não há jornalismo sem aproximação; a “distanciação” tem afastado os jornais das pessoas e dessa pressa entusiasmante de chegar primeiro do que os outros

Tive a sorte de trabalhar em grandes Redacções, e aprendi que não há grandes jornalistas sem grandes Redacções. Nestas, todos os que lá trabalham são igualmente úteis e até preciosos. Tenho a convicção profunda de que o grande jornalismo português, que chegou a marcar a diferença, por uma questão de cultura e de História, possui, mesmo nesta hora dramática, os germes que reabilitam e renovam as tradições. Mesmo que alguns trotadores tentem obstar, por ignorância, ao seu desenvolvimento e instância social, e colá-lo a falaciosos modelos estrangeiros.

Temos de entender que Portugal é Europa, mas Portugal não é apenas Europa.

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