O dia em que os jornais não ligaram ao que disse a Moody’s

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 29/02/2016)

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nicolau

O mundo não para de nos surpreender. Nos últimos anos qualquer decisão das agências de rating fazia parangonas nos nossos jornais e dava azo a dezenas ou centenas de comentários e análises escritas ou orais, nos jornais, nas rádios, nas televisões ou nas redes sociais. Desta vez, a decisão da Moody’s, anunciada no dia 25 de fevereiro, mereceu um silêncio ensurdecedor quase total por parte da comunicação social portuguesa. O que se terá passado?

Ora o que se terá passado? É que desta vez a Moody’s, em vez de descer mais uma vez o rating da dívida pública portuguesa ou de dizer que estamos de novo a caminho de 2008, ou que o país está a caminho do inferno de Dante, proferiu um raríssimo e completamente inesperado elogio ao atual Governo que, como se sabe, é perigosamente do PS e ainda mais perigosamente apoiado por BE e PCP. Kathrin Muehlbronner, vice-presidente da agência, disse que o OE 2016 “ilustra a capacidade e a vontade do governo para reverter o rumo e fixar um caminho orçamental mais realista do que tinha sido apresentado no seu primeiro rascunho do orçamento, no início do fevereiro” e que “também elimina o risco de eleições antecipadas”.

Perante isto, o que escreveram os jornais económicos? Nem o “Jornal de Negócios” nem o “Diário Económico” do dia 26 fazem qualquer chamada para o tema. Lá dentro, o “Jornal de Negócios” dá uma página (a 24) à Amundi, que “afasta descidas do rating em Portugal” e pouco mais que uma breve à decisão da agência, com o título “Aprovação do OE é positiva, diz a Moody’s”. Espantosamente, o “Diário Económico”, na sua versão em papel, nem sequer informa os seus leitores sobre esta matéria (embora no on-line tenha dado conta do tema).

Igualmente espantoso é que nenhum dos mais atentos analistas políticos dos dois jornais tenha tocado, nem ao de leve, no assunto – e que nenhum editorial lhe tenha sido dedicado. Só hoje, segunda-feira, Fernando Sobral escreve sobre o tema na última página do “Jornal de Negócios”, na sua habitual coluna de opinião “O pulo do gato”.

Não é também de estranhar que o “Correio da Manhã”, o “Sol” e o jornal “i” tenham passado pelo tema como por vinha vindimada: nem notícia, nem editorial, nem manchete, nem artigo de opinião. Zero. Nada. Coisa sem relevo nem importância que nem uma breve mereceu. O Observador deu a notícia mas ela também não mereceu a atenção de um único dos inúmeros colunistas do site financiado por empresários privados. Nós mesmo, aqui no Expresso, demos com relevo no online a notícia e a reação de Passos Coelho, mas já não a divulgámos no papel, embora Pedro Adão e Silva e Daniel Oliveira a tenham aflorado nos seus textos de opinião.

Eis que temos de ir até ao “Diário de Notícias” para encontrar não só um editorial, escrito pelo subdiretor Nuno Saraiva, com o título “A Moody’s e o Orçamento”, e mais à frente, uma página dedicada ao tema, com foto de António Costa e intitulado “Elogio raro: Moody’s gostou do Orçamento e Governo aplaude”.

Nas televisões, a notícia terá passado mas desta vez, ao contrário do que aconteceu quando a agência canadiana DBRS poderia ter descido o rating da dívida portuguesa, ninguém tomou a iniciativa de ligar para a Moody’s para que alguém esclarecesse melhor esta surpreendente posição da agência. E nenhum dos opinadores de peso foi à pantalha perorar sobre o evento.

Não tiremos, no entanto, conclusões apressadas. Só pode ter sido porque outros temas de relevo se impuseram, nomeadamente um relatório da Comissão Europeia, que mereceu chamada de capa do “Diário Económico”, com o título “Portugal arrisca processo por recuar nas reformas”. Ou o despedimento coletivo no Novo Banco, coisa que, quando a instituição nasceu, o governador do Banco de Portugal nos tinha garantido que nunca aconteceria. Ou qualquer outro grande assunto.

Não sei porquê mas fico com a sensação que sobre o mesmo tema há dois pesos e duas medidas na comunicação social portuguesa. E também não sei porquê vem-me à memória a pergunta de Luiz Felipe Scolari: “e o burro sou eu?” (onde a palavra “burro” deve ser substituída por um qualificativo ideológico-económico…). Aguardemos pelas futuras posições das outras agências de rating, Standard & Poor’s, Fitch e DBRS. Pode ser que sejam muito críticas para o Governo, o orçamento e o país. Nessa altura, tenho a certeza que tudo voltará à normalidade na comunicação social portuguesa e tais análises não passarão despercebidas, como agora infelizmente aconteceu.

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Semanada

Fonte: Semanada

(In Blog O Jumento, 28/02/2016)

Como Portugal é um pouco mais pequeno que a China e entre a fronteira e a Capital é preciso viajar de avião, os nossos governantes têm uma grande preocupação em levar o governo para fora da capital. Já tivemos as presidências abertas, outras fechadas mas com muitos roteiros, Durão Barroso foi um dia a Óbidos lançar um grande programa de investimentos na ciência e Santana Lopes fez mesmo uma espécie de governo itinerante, aquilo mais parecia um circo que andava de feira em feira. Digamos que os nossos políticos gostam muito de dar ares de regionalistas, e António Costa não é diferente, depois de ter mudado a presidência da autarquia para o Intendente parece que vai levar os conselhos de ministros para fora da capital. Esperemos que tenha mais sorte do que Santana, nas primeiras é tudo muito bonito, depois vem a desgraça. Mas parece que Santana Lopes fez escola.
A Catarina Martins deve andar cheia de pilim e decidiu brincar com o Jesus, mas em vez de se meter com o JJ de Alvalade, a personagem preferida dos encarnados, a líder do BE não fez a festa por menos e meteu-se com o J de Belém. Vai daí e sugeriu que o São José pôs o palitos à esposa e amancebou-se com o Criador. Como a coisa com coisa não dá filhos decidiram adoptar o J, recorrendo à Maria como barriga de aluguer. Depois de décadas a apelidar o PCP de revisionista parece que a extrema-esquerda converteu-se ao cristianismo e agora promove a revisão da Bíblia a fim de dar fundamentação divina às suas causas.
As coisas não estão a correr bem ao primeiro-ministro no exílio, agora foi a Moody’s que ignorou as suas obrigações com os partidos da direita portuguesa e em vez de ameaçar Portugal com uma descida no rating optou por aprovar o OE do governo de Costa. EM consequência disso o traste de Massamá mudou a sua avaliação do OE, o inicial era mau, mas depois das alterações o OE é menos mau. Só não se entende porque votou contra um OE que foi aprovado por Bruxelas e pela Moody’s.

Depois de ter promovido a democracia económica vendendo uma boa parte da economia portuguesa aos comunistas da China a direita tem uma nova bandeira nacionalista, a defesa da manutenção dos centros de decisão em Portugal. Vítor Bento foi o ideólogo da austeridade, agora oferece-se para ideólogo das nacionalizações.

Ao que consta um poderoso procurador abriu uma conta bancária para lá depositarem centenas de milhares de euros. A ser verdade não deixa de ser estranha a descontracção, ou o procurador era muito descuidado ou contava com um estatuto de impunidade.

Banca nacional: e ninguém cora de vergonha?

(Nicolau Santos, in Expresso, 27/02/2016)

nicolau

O anúncio de que o Novo Banco registou prejuízos de €980,6 milhões em 2015 e que provavelmente só terá lucros em 2017 é estarrecedor. Se um banco, que nasceu com o conta-quilómetros a zero, como anunciou o governador do Banco de Portugal; se um banco que viu o seu passivo expurgado dos ativos tóxicos; se um banco que arrancou com um capital inicial de €4900 milhões, dos quais 3900 milhões garantidos pelos contribuintes; se um banco que no final de 2015 viu retirados das suas responsabilidades mais €1900 milhões de cinco emissões de dívida sénior, que passaram para o BES “mau”; se um banco que tem um presidente emprestado por uma das maiores instituições financeiras europeias, o Lloyds Bank; pois se um banco com todas estas condições, estes apoios e estas redes de proteção mesmo assim consegue apresentar prejuízos de quase mil milhões de euros, anunciados quase com desfastio e como se fosse normal pelo presidente Stock da Cunha, então o problema é muito mais fundo do que se pensava.

E o problema não é apenas o Novo Banco mas, como começa a ser ululantemente óbvio, o sistema financeiro português, onde quatro dos cinco maiores bancos estão a viver situações muito difíceis. A Caixa Geral de Depósitos necessita de um aumento de capital, na casa dos €1400 milhões, além de ainda não ter pago as ajudas públicas de €900 milhões que recebeu; o BCP já pagou parte mas ainda deve €750 milhões; o Novo Banco tem lá €3900 milhões garantidos pelo Estado e já se sabe que vai precisar de um novo aumento de capital; e o BPI vive uma situação de grande tensão acionista, que o pode levar a ter de vender a posição maioritária que detém no Banco de Fomento de Angola, de onde vêm cerca de 80% dos seus resultados.

O descalabro da banca portuguesa é o reflexo do descalabro da economia nacional após quatro anos de austeridade e sequelas profundas sobre o tecido produtivo. Perante este quadro, qualquer cidadão se interroga como foi possível os bancos portugueses terem passado por sucessivos testes de stresse conduzidos pelas autoridades europeias, saindo sempre aprovados; e como foi possível o Banco de Portugal garantir sucessivamente que o nosso sistema financeiro era sólido e seguro.

Perante este quadro, qualquer cidadão, que já paga mais de €2500 milhões pelo caso de polícia que foi o BPN, que já encaixou perdas de 2100 milhões com o Banif e que vai pagar provavelmente esses dois valores somados pela resolução do BES e pela venda do Novo Banco, qualquer cidadão, dizia, se interroga sobre quando chegará ao fim este filme de terror. E se ninguém — Juncker, Draghi, Constâncio, Carlos Costa, Passos, Maria Luís — cora de vergonha.

Uma coisa é certa: o descalabro da banca portuguesa é o reflexo do descalabro da economia nacional após quatro anos de austeridade e sequelas profundas sobre o tecido produtivo. E a prova, mais uma, de como o ajustamento foi errado tecnicamente e mal conduzido politicamente.


A mão de Angola na Justiça

Depois de ter comprado empresas portuguesas altamente endividadas, bancos descapitalizados, operadores de telecomunicações muito promissores, elétricas de grande potencial e grupos de comunicação em dificuldades, depois de receber mais de 8000 empresas portuguesas e mais de 150 mil portugueses no seu país, depois de, por causa de uma investigação judicial, ter visto o poder político português ajoelhar-se aos seus pés e do poder judicial pedir-lhe desculpa, eis que o dinheiro angolano parece ter chegado a um dos pilares da democracia. O caso do ex-procurador Orlando Figueira, detido por indícios de corrupção relacionados com uma investigação ao vice-presidente de Angola, Manuel Vicente, que o procurador acabou por arquivar, é inquietante; e se se provar que o Banco Privado Atlântico Europa, onde Figueira tinha a conta por onde passou o dinheiro suspeito, não reportou esse movimento ao Banco de Portugal, então pode concluir-se que o poder económico angolano já se sente à vontade para atuar por cá como no seu país: sem quaisquer freios.


A insustentável leveza do Orçamento do Estado 2016

Ao fim de 42 anos de democracia, os partidos de esquerda aprovaram em conjunto um Orçamento do Estado. Mas, por romper com as orientações muito marcadas seguidas nos últimos quatro anos, enfrenta várias dificuldades. A primeira é que este orçamento tem contra si a enorme desconfiança da Comissão Europeia, já que “alguns membros pronunciaram-se a favor da (sua) rejeição”, desconfiança que ainda é mais acentuada no Eurogrupo. E, assim, Bruxelas, que não acredita no cumprimento das metas nele estabelecidas, exigiu um novo pacote de medidas até abril, que serão aplicadas se o OE começar a derrapar — e que vão provocar tensões nos partidos que apoiam o Governo.

A segunda dificuldade é que este orçamento perdeu a oportunidade de causar uma primeira boa impressão. A primeira versão foi zurzida interna e externamente pelo Conselho das Finanças Públicas, UTAO, Comissão Europeia, Eurogrupo e agências de rating. Ter a desconfiança logo à partida de Teodora Cardoso, Jean-Claude Juncker, Valdis Dombrovski, Jeroen Dijsselbloem, Standard & Poor’s, Moody’s e Fitch, não sendo surpreendente, não é bom cartão de visita e fragiliza-o perante os agentes económicos. A terceira grande dificuldade é que, cumprindo o lema do primeiro-ministro — “palavra dada é palavra honrada” — o OE repõe salários e pensões e reduz a sobretaxa do IRS para quase todos os contribuintes, mas noutras áreas (ADSE, tarifa social de eletricidade) parece estar a ir mais além do que prometeu e do que seria prudente, podendo colocar em causa o cumprimento das metas acordadas com Bruxelas. A quarta dificuldade é que este OE, que tinha uma lógica (estimular o consumo, sobretudo das classes mais baixas, para relançar o mercado interno, o investimento e o emprego, mantendo as contas públicas sob controlo), está agora fortemente limitado por ter sido obrigado a introduzir um conjunto de medidas que contrariam essa orientação. Ou seja, este orçamento é agora menos do que queria ser.

Uma coisa é certa: este é um orçamento que irrita os neoliberais europeus. Só por isso, o OE-2016 merece uma oportunidade — para provar que, ao contrário do que tem sido dito, há mais (e melhores) caminhos para chegar à terra prometida.


Minha avó e minha mãe

perdi-as de vista num grande armazém

a fazer compras de Natal

hoje trabalho eu mesma para o armazém

que por sua vez tem tomado conta de mim

uma avó e uma mãe foram-me

entretanto devolvidas

mas não eram bem as minhas

ficámos porém umas com as outras

para não arranjar complicações

(Adília Lopes, ‘Minha avó e minha mãe’, in “De A Pão e Água de Colónia” (1987))