As sobras da desgraça

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 24/06/2015)

         Daniel Oliveira

                       Daniel Oliveira

Os políticos nunca são cegos sozinhos. E escusam de pensar que em terra de cegos quem tem olho é Rei. Em terra de cegos, quem tem olho é estranho. A cegueira nota-se nos enganos sobre as consequências do que suceder na Grécia.

Gostamos de acreditar que são grandes os povos e fracos os seus líderes. E que é isso que explica os fracassos da História. Se não penso que assim seja na glória, também me custa a acreditar que as lideranças expliquem todos os fracassos. Ao ler os jornais e ver as televisões, a propósito do resultado morno da negociação entre as instituições europeias, o FMI e a Grécia, que sendo melhor do que estava em cima da mesa não resolve nenhum problema essencial, percebo de onde vem a fraqueza dos nossos líderes. Vem de nós.

À ESQUERDA, HAVIA QUEM DESEJASSE A RUTURA, PROVANDO QUE SÓ A RADICALIZAÇÃO ABSOLUTA FAZ SENTIDO. À DIREITA SONHAVA-SE COM UMA RUTURA ESTRONDOSA, DE PREFERÊNCIA TRÁGICA PARA OS GREGOS. TRISTES SÃO OS POLÍTICOS QUE APOSTAM NA DERROTA OU NO MEDO PARA CHEGAR A ALGUM LADO. CONTENTAM-SE COM AS SOBRAS DA DESGRAÇA ALHEIA

Essa fraqueza está nos títulos dos jornais. Está nas notícias. Está nos comentários deixados por anónimos nos sites noticiosos. Está no Facebook. Parece haver apenas dois assuntos: Tsipras cedeu? O que ganhamos com isto?

Os políticos nunca são cegos sozinhos. E escusam de pensar que em terra de cegos quem tem olho é rei. Em terra de cegos, quem tem olho é estranho. A cegueira nota-se nos enganos sobre as consequências do que suceder na Grécia. Interessa pouco saber se o Syriza cedeu muito ou pouco. Isso apenas diz do poder que as instituições europeias têm sobre os Estados e do poder que os credores têm sobre os devedores. Não há novidades nesta matéria. Têm muito.

Quem quer fazer esta contabilidade tem um objetivo mesquinho: provar que não vale a pena um governo tentar representar o seu povo. Esta mesquinhez repousa numa mentira: que o finca pé grego não mudou nada. Tsipras conseguiu, apesar de tudo, impedir que a austeridade fosse aprofundada. E repousa num oportunismo: quem o quer provar apenas quer mostrar que a sua desistência é não só aceitável como recomendável. Tsipras cedeu porque lhe faltou solidariedade de outros Estados. Mas impediu que fosse pior porque se atreveu a representar o seu povo.

A ideia de que Portugal pode ganhar alguma coisa com uma má solução para a Grécia é abstrusa. Pode até ser que, vincado o seu preconceito político e o seu desrespeito pela vontade dos povos, as instituições europeias permitam a Portugal o que não permitem à Grécia, isolando assim os meninos mal comportados. Mas Portugal nunca ganhará nada com este caminho de isolamento de países periféricos que, desde o nascimento do malfadado euro, caminham em divergência crescente. Pelo contrário, uma solução de longo prazo, sustentável e solidária, com a Grécia seria uma boa notícia para Portugal. Porque seria boa para a Europa.

Na verdade, todos fazem cálculos eleitorais. À esquerda, havia quem desejasse a rutura, provando que não há caminho para a convergência de vontades e que só a radicalização absoluta e muito provavelmente derrotada faz sentido. Também à esquerda, outros esperavam por uma cedência total, que permitisse mostrar que, pelo contrário, não sobra mais do que gerir perdas e derrotas. À direita, sonhava-se com uma rutura estrondosa, de preferência trágica para os gregos, garantindo que mais ninguém se atreve a procurar alternativas. Tristes são os políticos que apostam na derrota ou no medo para chegar a algum lado. Contentam-se com as sobras da desgraça alheia. E é por isso que não posso criticar o acordo que Tsipras pode vir a conquistar. Não chega. Na realidade, serve de muito pouco. Mas, numa Europa onde, à esquerda e à direita, cada um trata de si, muito dificilmente se conseguiria melhor.

O funeral foi muito bonito. E o bebé tem um físico prodigioso

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 24/06/2015)

Nicolau Santos

Nicolau Santos

Foi um funeral muito bonito, sem desprimor para ninguém. A velha TAP foi a enterrar e a família estava toda lá. Quanto à TAP que vai nascer, os pais dizem que vai ser como a mãe, mas em muitíssimo melhor. Aleluia!

Cada vez vou a mais funerais, mas este foi particularmente bonito. Estava toda a gente bem disposta e faladora, como acontece quando já se sabe que o falecido há muito estava para bater a bota. Os responsáveis por mandar desligar as máquinas voltaram a justificar porque o fizeram. A dra. Maria Luís e o dr. Pires de Lima explicaram que tinha de ser assim, porque não podia ser de outra maneira. A TAP precisava de capital como de pão para a boca e o Estado há mais de uma década que não pode meter lá um tostão. É claro que, ao contrário do que foi dito quando tal cenário se perfilou, afinal a TAP podia mesmo receber ajudas de Estado, pois há muito passaram os dez anos onde isso aconteceu pela última vez. Mas se o fizesse, o Governo seria obrigado a mandar reestruturar a empresa, provocando inúmeros despedimentos, coisa a que este Governo é particularmente avesso, e o corte de numerosas rotas, com risco de a companhia passar a voar só nos arredores de Portugal.

Como foi possível garantir o presente e o futuro da TAP, os interesses dos trabalhadores e da companhia, do Governo e do país? Admitamos que é incompreensível que ainda haja uns recalcitrantes que dizem que estão contra a operação nos exatos termos em que está a ser anunciada

Por isso, em nome do interesse da companhia, do país e dos portugueses, a dra. Maria Luís e o dr. Pires de Lima ficam na História por terem sido quem enterrou a TAP como a conhecemos até agora, mas também por darem o sopro de vida à nova TAP que nasceu hoje, tendo por pais David Neeleman e Humberto Pedrosa. E a avaliar pelo que os dois disseram, nem se consegue perceber porque é que houve tanta resistência a uma coisa tão maravilhosa. A TAP vai continuar a ser portuguesa e uma companhia de bandeira (Humberto Pedrosa dixit), não haverá despedimentos, as regalias laborais são para manter, vão ser abertas mais 10 rotas para os Estados Unidos e mais 8 a 10 para o Brasil, os aviões que vêm a caminho são muito mais confortáveis para os passageiros, mesmo para os pindéricos que viajam em económica, a sede da companhia fica cá por dez anos e quanto ao hub nem era preciso o Governo ter prudentemente estipulado que ele terá de continuar na Portela por mais 30 anos, pois Neeleman, o brascano (brasileiro e americano, como se definiu) que vai liderar a companhia, garante que tal vai acontecer por pelo menos cem anos.

Como foi possível uma privatização tão perfeita, a não ser pelo engenho e arte das equipas conjuntas dos ministérios das Finanças e da Economia? Como foi possível garantir o presente e o futuro da TAP, os interesses dos trabalhadores e da companhia, do Governo e do país? Como foi possível fazer nove ou dez em um? Admitamos que é incompreensível que ainda haja uns recalcitrantes que dizem que estão contra a operação nos exatos termos em que está a ser anunciada.

No final houve muitos beijos e muitas assinaturas, sendo possível constatar que Neeleman é canhoto, embora não se tenha percebido se é hiperativo e não toma os medicamentos para se manter assim, como garantiu a revista Visão na sua última edição. Pouco importa. O funeral, no salão nobre do Ministério das Finanças, foi, garanto, muito agradável. Não houve choro nem ranger de dentes e nem António Pedro Vasconcelos apareceu para estragar a cerimónia. E o que vem aí é trezentas vezes melhor. Aleluia!

A granada ainda não rebentou

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 23/06/2015)

         Daniel Oliveira

                          Daniel Oliveira

A propaganda faz-se sempre de meias verdades e simplificações. E a simplificação mais grosseira fez a senhora Lagarde, ao acusar o Governo da Grécia de não ser composto por adultos. Não foi este o Governo responsável pela falsificação das contas. Não foi o Syriza que viveu atolado em casos de corrupção. Não foi Tsipras que permitiu ou pediu a intervenção externa. Pelo contrário, este foi o primeiro Governo grego sem qualquer currículo nos muitos erros que, independentemente das responsabilidades da Europa e do desastre que foi o euro para os países periféricos, foram cometidos na Grécia.

No entanto, a imagem que se tentou passar, ao longo destes meses, foi a de irredutibilidade do governo grego, desmentida pelas sucessivas propostas, cada vez mais recuadas, que os gregos foram fazendo. Ou de um suposto amadorismo, a roçar a irresponsabilidade, do ministro das Finanças Yanis Varoufakis. Até se vendeu a ideia de que este tinha sido afastado do processo por Tsipras, tentando assim enfraquecer a sua imagem pública, elemento importante nesta negociação. Um suposto amadorismo difícil de engolir para quem tem acompanhado as suas intervenções e conhece o seu percurso.

A forma mais eficaz de desmascarar a manipulação foi a que o próprio Varoufakis usou: a transparência. Perante o retrato de exigências delirantes ou insensatas da Grécia, divulgou, na íntegra, a sua intervenção no Eurogrupo e as propostas que apresentou.

Os objetivos definidos pelo Governo grego para esta negociação eram puro bom senso. Ela deveria ser a última a fazer-se no meio da crise. Ou seja, a Grécia não deveria passar por processos destes, de seis em seis meses, enquanto definha. A negociação deveria ter como resultado soluções sustentáveis para tirar a Grécia da crise em que está. Para isso, as reformas deveriam contribuir para pôr fim a uma recessão ininterrupta de seis anos, não para a aprofundar. Elas deveriam poupar os mais pobres, que foram as maiores vítimas de tudo o que aconteceu desde que a troika chegou a Atenas. E deveriam tornar a dívida sustentável, para garantir que a Grécia regressa aos mercados, paga o que deve e se torna autónoma.

OLHAR PARA A PROGRAMA ELEITORAL DO SYRIZA, VER O QUE VAROUFAKIS ESTAVA A PROPOR E INSISTIR QUE O GOVERNO GREGO TINHA UMA POSIÇÃO INFLEXÍVEL ULTRAPASSA A DESONESTIDADE INTELECTUAL. É MENTIR

Todos estes objetivos têm de ser subscritos por qualquer pessoa que esteja a procura de uma solução para a Grécia e para a Europa. Infelizmente, não é o caso. Quem propunha reforçar medidas recessivas que se mostraram desastrosas para a economia grega tencionava continuar a negociar com a Grécia em ambiente de crise, para conseguir, tendo-a sempre com uma corda na garganta, tudo o que deseja. Quem queria cortar em pensões que já sofreram uma contratação de quase 50%, quando sabia que os reformados se tornaram, com o desemprego superior a 25%, no amparo de toda a família, estava-se nas tintas para os efeitos sociais do que defende. Quem insistia na mesma receita, mesmo sabendo que a dívida grega passou, depois de dois perdões, de 115% do PIB para 177%, não queria tornar a dívida sustentável.

Não é verdade, como recordou Varoufakis, que a Grécia não tenha feito a sua parte. Nenhum povo fez tanto como os gregos. Nem os portugueses. O seu défice passou a superavit à custa de um ajustamento de 20%. Nunca se tinha feito. Os salários caíram 37%. As pensões foram reduzidas em 48%. O número de funcionários públicos foi reduzido em 30%. O défice caiu 16%. Isto teve um preço. O PIB caiu 27%, o que corresponde a uma hecatombe económica. O mercado de trabalho informal já corresponde a um terço do total. A dívida pública atingiu números estratosféricos. E a Grécia vive uma gravíssima crise social.

O Governo grego propunha-se a uma verdadeira reforma da economia e do Estado gregos. Aliás, o Syriza, distante do ambiente eticamente pouco recomendável que sempre dominou a política grega, seria dos poucos partidos com condições para as propor. Aceitava continuar a fazer privatizações, cedendo, na minha opinião excessivamente, à pressão europeia. Apenas não queria, como deseja quem tem poder junto de Bruxelas para garantir bons negócios para si, vender ao desbarato e à pressa. Propunha medidas concretas de combate à evasão e fraude fiscal e de controlo do défice, criando estruturas independentes do governo que garantissem transparência e rigor. Queria liberalizar vários sectores importantes da economia e fazer reformas profundas na administração pública. E, contando com o apoio técnico da OCDE, queria avançar com medidas eficazes de combate à corrupção. Nas reformas laborais, propunha trabalhar em parceria com a OIT. Qualquer pessoa moderada, de centro esquerda, abraçaria sem qualquer dificuldade o seu programa. E até com algum incómodo por algumas das cedências.

Mas há três coisas que o governo grego não queria mesmo fazer. A primeira: comprometer-se com metas que toda a gente sabe serem impossíveis. Era uma atitude responsável. Fazer mais cortes nas pensões baixas, num sistema de pensões que sofreu uma diminuição de recursos de cerca de 40%. Era uma atitude humanitária. E aumentar mais o IVA. Era uma atitude economicamente racional. O que pretendia era mais profundo e mais sério: mudar a economia e o Estado gregos. Como explicou Varoufakis, tratava-se de escolher entre fazer “reformas que ataquem ineficiências ou comportamentos parasitas e oportunistas” ou ficar pela receita simples e falhada de fazer “mudanças de parâmetros que aumentem as taxas de juro e reduzem os benefícios dos mais fracos”.

Para além das reformas, o Governo grego propunha-se enfrentar a questão da dívida. Começando por definir um calendário e forma de pagamentos racionais que não se limitassem a adiar mais uns meses a morte grega. Ao contrário de Samaras, de teve direito a uma reestruturação insuficiente de dívida enquanto destruía o país, Tsipras pedia uma plano de pagamento realizável, com a prioridade de tirar o FMI da equação. Depois, propunha um programa de investimentos fundado no Plano Juncker.

Olhar para a programa eleitoral do Syriza, ver o que Varoufakis estava a propor e insistir que o Governo grego tinha uma posição inflexível ultrapassa a desonestidade intelectual. É mentir. Pelo contrário, quando olhamos para a imutabilidade das posições da Europa e do FMI, insistindo numa receita que tão rotundamente falhou na Grécia, sabemos quem andou a negociar e quem, pelo contrário, se ficou pelos ultimatos. Não houve qualquer problema no estilo de negociação que os gregos usaram. Apenas acontece que, para negociar, é preciso que as duas partes o queiram fazer.

O acordo que agora se vai desenhando no horizonte não é propriamente alguma coisa. Insiste em metas impossíveis, a que a Grécia poderá optar por dizer que sim, seguindo, por insistência dos credores, o exemplo do governo antecessor e mentindo aos europeus. Parece que não haverá cortes nas pensões. Apenas mais descontos dos pensionistas para a saúde e aumento da idade da reforma. Há uma brutal redistribuição da carga fiscal, sobretudo sobre as empresas. E a promessa de um plano de investimento de 35 mil milhões de euros. Os mais pobres são salvaguardados. Há mais produtos a irem para a taxa máxima do IVA, o que terá efeitos recessivos. Mas nada se resolve sobre a dívida. O que quer dizer que daqui a seis meses volta tudo ao mesmo.

Se for isto, apesar de não ser tão grave como o que era desejado pelas instituições europeias e pelo FMI, não cumpre o objetivo de Tsipras e Varoufakis: relançar a economia e ser a última negociação em crise e estado de necessidade. Como dizia um amigo meu, é uma granada que continua a ser atirada de um campo para o outro, sem rebentar. O pacote é de austeridade, mas não a aprofunda, ao contrário do que desejava a Europa. Sem nada sobre a dívida, serve de muito pouco. E é isso que pode impedir que o acordo passe no parlamento grego. Não chega a ser um erro. É uma inutilidade. Veremos se faz cumprir um dos objetivos de vários Estados da União: fazer cair o governo do Syriza. Tudo defende de como Tsipras conseguir lidar com a frente interna. Tem uma coisa do seu lado: a ausência de oposição política fora do seu partido, esfrangalhada nas sondagens. Apesar de tudo, os gregos apreciam quem, como vitórias ou derrotas, se bate por eles.