PROVAS NULAS

(Virgínia da Silva Veiga, in Facebook, 21/01/2018)

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Não ignoro, embora não tenha lido nem ouvido em pormenor, que gravações utilizadas como meio de prova no caso Operação Marquês estão infectadas por vírus (Ver notícia aqui). Desconheço tratar-se das escutas telefónicas, feitas ao longo dos tempos, das gravações em interrogatório ou de ambas.

Em qualquer circunstância, há um aspecto que resulta óbvio mesmo a quem não percebe quase nada de informática: como parte considerável desses registos chegou às mãos de terceiros, desconhecendo-se como e em que circunstâncias, nada já demonstrava ao MP não estar o respectivo conteúdo truncado. Ainda há dias um canal televisivo mostrava como é possível alterar por completo uma gravação e usavam para exemplo, nada mais, nada menos, que um discurso de Obama, não apenas gravado em áudio como em vídeo o que é, evidentemente, mais difícil de adulterar.

Ao vir reconhecer terem os ficheiros vírus desde a origem, vírus desconhecidos, a Procuradoria atestou a dúvida sobre a fiabilidade do conteúdo. Mais grave e apreciável, em meio de prova, é nunca a PGR ter descoberto quem e que tipo de acessos os respectivos serviços autorizaram a terceiros, de que a face mais visível veio a lume através da revista Sábado e dos jornais Correio da Manhã e Sol, introduzindo séria dúvida sobre os mesmos corresponderem à realidade ou terem sido alvo de truncagem.

Querem um exemplo interessante só para ilustrar? Aquando da gravação do meu programa de rádio, a dada altura apercebi-me de um erro numa frase. Um engenheiro, neste acaso a meu pedido, comigo à distância de largos quilómetros, foi a três das anteriores gravações, igualmente com a minha voz, tirou uma palavra daqui, outra dali, e no fim o que todos puderam ouvir foram frases que eu nunca disse na vida embora, claro está, neste caso, fossem as que eu quis ter dito.


Não estou por dentro do assunto, mas sei que as gravações – escutas ou interrogatórios da Operação Marquês – deixaram de ter qualquer validade para efeito de prova. Instalar a dúvida sobre a fiabilidade, agora atestada pela PGR como vindo já de origem, foi o remate: escutas e interrogatórios não valem nada para a formação de qualquer convicção ou meio de prova. Zero.

A quem interessa isto? Não, certamente, aos arguidos, cujos, como se sabe, estiveram sem acesso a esses meios e, portanto, sem saber se lhes seriam benéficos ou prejudiciais.
Aí têm também uma das razões pelas quais, como jurista, sempre disse a competência de um(a) Procurador(a) Geral não se aferir pelo estatuto social dos arguidos mas pelos resultados da respectiva actividade onde claramente se incluiu o mais basilar: a capacidade para preservar meios de prova.


PROVAS NULAS II

Ocorreu-me agora:

– Se Joana Marques Vidal, Rosário Teixeira e Carlos Alexandre negam ter sido dos respectivos serviços que saiu qualquer informação para a comunicação social nos casos Operação Marquês e Vistos Gold;
– Se Paulo Silva – o tal Inspector da Autoridade Tributária a quem se deve o caso Operação Marquês, cujo impulso inicial, recordo, não se deve à actual PGR mas a ele -, se este, dizia, terá mantido sigilo enquanto o processo esteve no seu domínio, nada tendo transparecido, vindo a pedir para sair do caso Operação Marquês, e garantindo que as fugas só poderiam ser da Procuradoria ou do Juiz de Instrução;
– Se as fugas existiram;
– Se todos negam ter fornecido os dados;
– Se, por teimosia, os advogados dos arguidos não tiveram a elas acesso senão muito recentemente, não podendo ter sido nenhum deles a revelá-las.

As interrogação são óbvias:
1 – quem e como penetrou nos computadores e registos informáticos da PGR? Quem tem um tal poder e uma tal sabedoria?
2 – quem garante que quem o fez não alterou os registos?

Até aqui desconfiava-se de serviços, funcionários, havia quem dissesse haver promiscuidade entre os gabinetes acusatórios e de instrução com a comunicação social.
Toda a opinião pública estava convencida disso.
Houve queixas. Foram feitas investigações, revelou a PGR. Nada.
Não foi ninguém.
Acreditemos então não ter sido de dentro e o caso – foi o que agora me ocorreu – é bem mais grave ainda: alguém de fora do sistema penetrou nele.

Tais provas, não apenas pela razão de estarem infestadas de vírus, sobretudo por estas questões, são de molde a duvidar seriamente da respectiva autenticidade e, logo, podem vir a ser usadas nos processos como fundamentação a menos que os visados directos, ouvindo-as as corroborem como verdadeiras.
Ao que parece, nem as conseguem ouvir decentemente. Vão subscrevê-las?

É assunto para os próprios e os meus colegas que os representam.

WannaCry e a rede que nos sufoca

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 16/05/2017)

 

A distribuição de ransomware, que encriptou dados de muitos de milhares de computadores exigindo o pagamento de 300 dólares em bircoin para o seu desbloqueio não tem, na sua metodologia, nada de novo. É um ataque corriqueiro e pouco sofisticado. Tão simples que, apesar da sua dimensão, foi travado com dispêndio de apenas 12 euros, por um informático de 22 anos. Apesar do aparato, não terá rendido mais de 32 mil dólares.

A razão para o alarido tem a ver com a dimensão da coisa, que, segundo a Europol, não tem precedentes. O WannaCry correspondeu a 45 mil ataques em 74 países, passado por Espanha, Rússia, Ucrânia, Taiwan, EUA, Reino Unido, China, Itália, Vietname ou Portugal. Afetou computadores com o sistema operativo Windows, da Microsoft. De um hospital oncológico indonésio à PT portuguesa, as vítimas foram variadas e espalhadas por todo o globo. Da Renault, que teve de parar a produção em várias fábricas, ao Serviço Nacional de Saúde britânico, que foi obrigado a encaminhar pacientes para outros serviços.

Só quando deixarmos de olhar para a rede e para a globalização como fenómenos intrinsecamente bons, e não como factos históricos com efeitos contraditórios, poderemos gerir algo que nos deixa tão expostos.

É assustadora a displicência com que empresas e instituições públicas lidam com os seus sistemas informáticos, mesmo sabendo que guardam informação sensível dos cidadãos e que uma ruptura no sistema pode ter efeitos dramáticos nas vidas das pessoas. O ataque aproveitou vulnerabilidades conhecidas. Muitos dos utilizadores institucionais não aplicaram atempadamente as atualizações de segurança ou usam software que já não é suportado pela Microsoft. Quando se pensa que entre as vítimas do ataque estão as maiores multinacionais do mundo e instituições públicas fundamentais de grandes potências europeias temos toda a razão para temer pelo futuro. Outro debate paralelo mas urgente é sobre a continuação de utilização, por parte de organismos públicos, de software proprietário.

É evidente que empresas e Estados ainda não interiorizaram a sua total dependência em relação aos meios informáticos, cometendo erros grosseiros de segurança. Se um ataque tão simples, tão pouco sofisticado e tão fácil de travar, conseguiu, pela sua dimensão, ter estes efeitos, imaginem o que pode o ciberterrorismo mais bem preparado e direcionado. E isto leva a outro debate, para o qual, não havendo soluções, tem de haver reflexão. É um debate continuo, muito abrangente e que ajuda a explicar a ansiedade que dá força a fenómenos como Trump e Le Pen: nunca fomos tão vulneráveis como hoje.

Durante muito tempo vivemos entusiasmados com um mundo cada vez mais pequeno. Hoje, percebemos que a proximidade pode ser claustrofóbica. Assumimos que estarmos todos ligados é genericamente positivo. Também razões para esse otimismo, apesar da proximidade ter favorecido a construção de comunidades de afinidades eletivas que deixaram as pessoas com mais mundo mas menos acesso à diversidade. Mas esta rede incontrolável deixa a economia, a lei e a privacidade muito mais vulneráveis. O mundo em rede desafia tudo o que sabíamos sobre a forma de exercer o poder e de regularmos a nossa vida social. Dizer isto não é um apelo a um impossível e indesejável regresso ao passado. A minha vida profissional melhorou tanto que tal ideia nunca me passaria pela cabeça. É um apelo a contrariarmos o tonto deslumbramento com o progresso, que sempre impediu os humanos de se preparem para os perigos do futuro.

Só quando deixarmos de olhar para a rede e para a globalização como fenómenos intrinsecamente bons, e não como factos históricos com efeitos contraditórios, poderemos gerir, enquanto comunidade humana, algo que nos deixa tão expostos. Foi sempre o pessimismo que nos avisou para os perigos do progresso e nos ajudou a encontrar as melhores formas de os prevenir.


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