Brincando à guerra mundial

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 22/04/2025)


Para os ucranianos, os americanos não estavam dispostos a fazer o que era necessário para os ajudar a vencer. Ao passo que os americanos achavam que os ucranianos não estavam dispostos a fazer o que era imprescindível para serem ajudados a vencer.


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Para os ucranianos, os americanos não estavam dispostos a fazer o que era necessário para os ajudar a vencer. Ao passo que os americanos achavam que os ucranianos não estavam dispostos a fazer o que era imprescindível para serem ajudados a vencer.

Uma reportagem do “New York Times” (29 de março de 2025) trouxe à luz do dia o envolvimento secreto – e direto – dos EUA na guerra da Ucrânia, confirmando aquilo que temos vindo a dizer ao longo dos últimos três anos, e tantas vezes sonegado e/ou desvalorizado pela comunicação social.

Em abril de 2022, os EUA estabeleceram no quartel-general do Exército americano para a Europa e África, em Wiesbaden (Alemanha), um posto de comando (PC) operacional orientado exclusivamente para o planeamento e direção das ações militares ucranianas, “trazendo a América muito mais próximo da guerra do que se sabia do antecedente,” onde, lado a lado, oficiais americanos e ucranianos planeavam as ações militares de Kiev. Esta parceria, a espinha dorsal das operações militares ucranianas, considerada por Moscovo como violação de uma linha vermelha, esteve na base de sucessivas ameaças veladas de uma possível resposta nuclear russa. Nesta aventura participaram também, entre outros, oficiais britânicos, canadianos e polacos.

A atividade desse PC inclui(u) um enorme esforço de recolha de informações sobre alvos russos, que eram posteriormente passadas aos soldados ucranianos no terreno, funcionando como um centro de fusão de intelligence, produzindo informações detalhadas sobre as posições, movimentos e intenções russas. Inicialmente, a identificação dos alvos reportava-se “apenas” a alvos russos em território ucraniano.

Como adiante veremos, com o andamento da guerra essas regras foram sendo alteradas e aplicadas também a alvos em território russo, e ao emprego de drones marítimos, desta feita com recurso ao apoio da CIA e dos britânicos. A sobrevivência ucraniana no campo de batalha deveu-se não só ao equipamento fornecido pelos EUA, mas, sobretudo, a este tipo de apoio responsável pela morte de vários generais russos no início da guerra.

A desconfiança mútua

Apesar da estreita colaboração entre ucranianos e americanos ser apresentada como uma parceria, a reportagem dá-nos nota de uma permanente desconfiança recíproca. “Rivalidades, ressentimentos, imperativos e agendas diferentes” contribuíram para isso.

Ilustrativo desse sentimento foram as palavras do general Oleksandr Syrsky, então comandante das forças terrestres ucranianas, na primeira vez que se encontrou com americanos, “nós estamos a lutar contra os russos. Vocês não. Porque é que havemos de vos dar ouvidos?”. Para essa desconfiança terá contribuído o facto de os ucranianos “verem, por vezes, os americanos como prepotentes e controladores – o protótipo do americano paternalista. Por outro lado, os americanos não conseguiam compreender porque é que os ucranianos não aceitavam simplesmente os seus bons conselhos.”

Como ponto de partida dessa desconfiança estava a distância entre os objetivos estratégicos de cada uma das partes. “Os ucranianos queriam ganhar a guerra de uma vez por todas. Mesmo partilhando essa esperança, os americanos queriam certificar-se [apenas] de que os ucranianos não a perdiam.” O objetivo estratégico de Washington era derrotar estrategicamente a Rússia, numa versão maximalista a sua implosão, e a mudança de regime em Moscovo (sem nunca entendermos qual seria a alternativa de Washington a Putin, se é que havia) sem uma confrontação militar direta.

Foram vários os desencontros entre os principais atores envolvidos nessa parceria. Por um lado, os ucranianos “estavam sempre zangados com o facto de os americanos não poderem, ou não quererem, dar-lhes todas as armas e o equipamento que desejavam.” Por outro, “os americanos estavam irritados com o que consideravam ser exigências pouco razoáveis dos ucranianos.”

Na opinião destes, os americanos não estavam dispostos a fazer o que era necessário para os ajudar a vencer. Por sua vez, os americanos achavam que os ucranianos não estavam dispostos a fazer o que era imprescindível para serem ajudados a vencer. Como pano de fundo de tudo isto estava a soberba norte-americana. Como disse o General Christopher Cavoli, SACEUR e por acumulação de funções comandante das forças americanas na Europa, afinal os ucranianos “não tinham de ser tão bons como os britânicos e os americanos; tinham apenas de ser melhores do que os russos.”

Num assomo de sinceridade, o comandante desta parceria ucraniana-americana instalada em Wiesbaden, o General Christopher Donahue explicou que os ucranianos lutavam e morriam, testavam o equipamento e as táticas americanas e partilhavam as lições aprendidas. “Sem vocês”, disse ele, “nunca poderíamos ter construído todas estas coisas.”

Um dos primeiros acontecimentos que marcou essa desconfiança foi o afundamento do Moskva, o navio almirante da esquadra russa no Mar Negro, em abril de 2022. Numa reunião rotineira de partilha de informações, entre oficiais da marinha americana e ucraniana, o navio apareceu inesperadamente nos radares. A Administração Biden não tinha intenção de permitir que os ucranianos atacassem um símbolo tão importante do poder russo. Não obstante, com a ajuda dos ingleses, e sem avisarem os seus parceiros americanos, nem os informarem de que possuíam mísseis capazes de atingir o navio, afundaram-no contra a sua vontade.

Outro dos momentos do desconforto instalado, foi a contraofensiva ucraniana no verão de 2023, quando os ucranianos contrariando as instruções dos norte-americanos atacaram simultaneamente em três direções, com os resultados conhecidos, comprometendo assim a possibilidade de um volte-face no conflito, dado o volume de meios destruídos nessa operação. O que mereceu o grito desesperado de Cavoli “não é esse o plano!”. “A estratégia concebida em Wiesbaden foi vítima da política interna fraturante” onde a política se intrometia nas operações militares, e os generais competiam entre si por protagonismo.

No início de 2024, Zelensky deu instruções ao general Valery Zaluzhnyi para empurrar os russos de volta para as fronteiras da Ucrânia de 1991, até ao outono desse ano. O general chocou os americanos quando lhes apresentou um plano que exigia cinco milhões de granadas de obuses e um milhão de drones, ao que o general Christopher Cavoli respondeu, em russo fluente: “E onde é que os vou buscar?”

“À medida que os ucranianos foram ganhando maior autonomia na parceria, foram mantendo as suas intenções cada vez mais secretas.” A incursão ucraniana na região de Kursk, no segundo semestre de 2024, veio agravar esse sentimento de desconfiança. Os ucranianos não só mantiveram novamente os americanos na ignorância da operação, como atravessaram secretamente uma linha mutuamente acordada, levando equipamento fornecido pela coligação, em particular o americano, para território russo.

Mais uma vez, os ingleses não desperdiçaram a oportunidade para mostrar serviço e dar uma facada nos americanos, participando ativamente no planeamento da operação, que não contou com o apoio dos HIMARS e dos serviços secretos dos EUA. O resultado desta imprudente operação, decidida pelo presidente Zelensky contra o parecer de Zaluzhny, subordinada a objetivos políticos, também é conhecido. Os danos em material e pessoal foram imensos, e provavelmente irrecuperáveis.

As dificuldades de relacionamento entre os diferentes atores são conhecidas e estão documentadas. Por exemplo, entre Zaluzhny e o seu homólogo americano, o general Mark A. Milley. Mas alargam-se às lutas intestinas entre as lideranças ucranianas, algo que a propaganda ocidental impediu a divulgação. A reportagem dá conta dos choques entre Zelensky e o seu chefe militar general Zaluzhnyi (e potencial rival eleitoral), e entre este e o general Syrskyi, inconformado por o seu subordinado ter passado a ser seu comandante.

Na sequência do incómodo causado pela irrealizável utopia instalada na cabeça de Zelensky de recuperar todos os territórios sob controlo russo, Zaluzhnyi publicou um longo artigo no “The Economist” (1 de novembro de 2023) em que declarava estar a guerra num impasse, precisando os ucranianos de um avanço tecnológico quântico para a vencer, contradizendo o apelo à vitória total do seu presidente.

As linhas vermelhas

Com o prolongar do conflito e a evidente incapacidade de ucranianos e americanos infligirem uma derrota militar a Moscovo, o envolvimento americano foi progressivamente aumentando, fornecendo aos ucranianos armas cada vez mais sofisticadas, ultrapassando muitas das suas próprias linhas vermelhas e avançando para terrenos cada vez mais perigosos e movediços. Passaram a autorizar operações clandestinas anteriormente proibidas, colocando militares no terreno. Foram enviados conselheiros militares para Kiev, posteriormente autorizados a deslocarem-se para a linha da frente, próximo dos combates.

O mesmo fizeram os britânicos enviando secretamente dezenas de militares para a Ucrânia. Uns com a missão de instruir os soldados ucranianos a operar os sistemas anticarro fornecidos por Londres; outros (maio de 2023), após a transferência dos mísseis cruzeiro Storm Shadow para Kiev, para formar os ucranianos a utilizá-los. À semelhança do NYT, o “The Times” dá nota do papel crucial desempenhado pelos comandantes militares britânicos na Ucrânia.

Como atrás referido, numa fase inicial, os americanos apenas identificavam alvos russos em território ucraniano. Se os ucranianos quisessem atacar dentro da Rússia, teriam de o fazer recorrendo aos seus próprios serviços secretos e a armas produzidas pela Ucrânia. “A nossa mensagem [americanos] para os russos era: Esta guerra deve ser travada dentro da Ucrânia.” Os americanos “apenas” informavam os ucranianos onde é que se encontravam as forças russas em território ucraniano.

Perante a ausência dos resultados desejados, os generais Cavoli e Donahue optaram por subir a parada e pediram autorização para se utilizarem os HIMARS (High Mobility Artillery Rocket Systems), o que proporcionou um enorme salto qualitativo nas capacidades ucranianas. A reportagem do NYT chama à atenção para o facto de um oficial americano, num ato de lucidez, se interrogar “se não estamos [americanos] a dar um passo na direção da Terceira Guerra Mundial?” Transformado no back office da guerra, Wiesbaden supervisionou os ataques com os HIMARS.

Os ucranianos pediram autorização para utilizar as armas fornecidas pelos Estados Unidos para atingir o outro lado da fronteira, leia-se, território russo. O que foi autorizado, desde que os alvos se situassem nas designadas “caixas de operações”, isto é, zonas mais ou menos retangulares com cerca de 190 milhas, previamente selecionadas. Os ucranianos passaram a poder utilizar os seus novos ATACMS fornecidos pelos EUA para atingir alvos no interior da Rússia. “O impensável tinha-se tornado real. Os Estados Unidos estavam agora envolvidos na morte de soldados russos em solo russo,” o que legitimava um ataque russo ao quartel-general das forças americanas na Europa.

Neste perigoso processo de sucessivas alterações das regras do jogo, Wiesbaden desempenhava um papel decisivo, orientando os ataques, como vinha fazendo por toda a Ucrânia e na Crimeia fornecendo os objetivos e as coordenadas dos alvos. Oficiais americanos e britânicos supervisionavam todos os aspetos de cada ataque, desde a determinação das coordenadas até ao cálculo das trajetórias de voo dos mísseis.

Em 2024, a continuação da falta de progresso das forças ucranianas e a necessidade de manter os ucranianos à tona de água “forçou” a Administração Biden a ultrapassar novamente as suas próprias linhas vermelhas. Numa entrevista, já depois de ter abandonado a função de conselheiro de segurança nacional, na Administração Biden, Jake Sullivan disse que não foi por medo da 3ª Guerra Mundial que os ATACMS não foram inicialmente distribuídos à Ucrânia, mas porque não os tinham.

O stock existente era insuficiente para satisfazer as necessidades de dissuasão americana. Esse problema foi posteriormente resolvido pelo aumento da produção. Segundo ele, “à medida que tomávamos decisões sobre o fornecimento de equipamentos, avaliávamos o nível de risco aceitável de modo a evitar uma espiral de escalada”, como se eles próprios, com estas decisões, não estivessem a escalar o conflito.

De acordo com esta evolução e contrariando uma política de longa data, que impedia a CIA de fornecer informações sobre alvos em solo russo, a CIA teve luz verde para apoiar ataques a objetivos específicos dentro da Rússia. A Administração Biden autorizou a CIA a ajudar os ucranianos a desenvolverem, fabricarem e instalarem uma frota de drones marítimos para atacar a frota russa do Mar Negro.

Militares e operacionais da CIA em Wiesbaden planearam e apoiaram a campanha de ataques ucranianos à Crimeia. Em outubro, com margem de manobra para atuar na própria Crimeia, a CIA apoiou secretamente os ataques de drones ao porto de Sebastopol. Para além disso, a Casa Branca autorizou os militares e a CIA a trabalharem secretamente com os ucranianos e os britânicos num projeto para derrubar a ponte de Kerch.

Quem, na verdade, combatia com um braço preso atrás das costas, não eram os ucranianos, como se tornou comum afirmar, mas sim os russos, impossibilitados de atacar o olho da serpente localizada em Wiesbaden, responsável pelos ataques ucranianos e protegida pela NATO. Uma resposta russa a Wiesbaden significaria a guerra mundial. Foi com esta espada de Dâmocles que vivemos durante mais de dois anos.

Entretanto, os comentadores nacionais, imitando o que a propaganda internacional ia propalando, apelidavam irresponsavelmente Putin de frouxo e medroso, por recuar nas linhas vermelhas sucessivamente ultrapassadas, esquecendo que “tantas vezes vai o cântaro à fonte, que um dia lá deixa a asa.” Para eles, indiferentes ao perigo, na sua puerilidade e ignorância apregoavam a necessidade de continuar a pressão sobre a Rússia, sem terem a noção de quão perto se encontravam do abismo.

Estamos em crer que outro dirigente russo talvez não tivesse a paciência estratégica de Putin e não tivesse resistido a tamanhas provocações. Não temos muitas dúvidas sobre qual seria a resposta dos EUA, se os russos decidissem reciprocar o tratamento, colocando misseis “defensivos” em Cuba ou na Venezuela.

Portanto, não podemos deixar de assinalar a ligeireza, a insensatez, a falta de preparação e a imprudência com que a Administração Biden lidou com este assunto. Ainda teremos de perceber o quão perto estivemos da catástrofe, a dimensão da irresponsabilidade das lideranças europeias, e o grau de desonestidade do comentariado nacional.” Andaram mesmo a brincar às guerras mundiais.

O paradoxo ocidental da ineficiência: quanto mais crises pagamos, mais crises enfrentamos

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 15/04/2025, Revisão da Estátua)


A nossa “crise” é só uma: fazermos crescer o monstro da ineficiência sistémica que nos asfixia.


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A imposição de políticas proteccionistas pelos EUA e, em parte, pela UE, aparentemente motivadas por objectivos geoeconómicos apresentados como legítimos (reindustrialização), é responsável por um paradoxo da ineficiência do investimento, que deixa antever, uma vez mais, o real caracter que se esconde por detrás das agendas ocidentais: despejar dinheiro sobre a economia, afunilando os recursos económicos disponíveis para uma acumulação de riqueza sem paralelo na história humana, promovendo um sistema cada vez mais ineficiente e que, de tão viciado em rendimentos, tende a optar sempre pelas estratégias mais dispendiosas e, consequentemente, mais desastrosas para os nossos destinos colectivos. Quem o diz não sou eu, é a Golden Sachs, no seu relatório “Carbonomics – Tariffs, deglobalization and the cost of decarbonization”.

Este comportamento, visível, especialmente desde o início do século XXI, acelerou com a crise económica do subprime, ao abrigo da qual, ao invés de se punirem e responsabilizarem os verdadeiros culpados pela especulação desenfreada, os poderes instalados em Washington e os seus servidores na EU, FMI, BCE e Banco Mundial, optaram antes por transferir a culpa para os povos do Sul, nomeadamente do sul da Europa, plantando nas suas cabeças o preconceito de que teriam andado a “viver acima das suas possibilidades”, ao passo que, através de uma política de choque austeritário, não só pilharam os recursos nacionais disponíveis (empresas públicas e recursos fiscais) para fazer face à urgência dos “credores”, como ainda despejaram sobre as economias ocidentais triliões de euros, alimentando o monstro voraz que se esconde por detrás da economia de casino na sua fase gangsterizada.

Como seria de esperar, nada disto resolveu problema algum. Bem pelo contrário! Alimentou-se o monstro da ineficiência e da insensatez, com o único objectivo de promover a circulação, cada vez maior e mais rápida, de capital com destino à acumulação. Como vieram a demonstrar crises posteriores, o caso da Covid 19, da guerra da Ucrânia ou, mais recentemente, da “crise da segurança”, este monstro sugador de recursos produzidos pelo trabalho, tornou-se especialista em inventar “crises”, cuja urgência, gravidade e caracter, precedem sempre a anterior, obrigando, sem excepção e de forma tão repetida quanto previsível, a desviar recursos que outrora eram destinados à educação, habitação, saúde ou segurança social.

Como referiu no canal Substack, Another Angry Voice, num dos seus artigos, chegámos à fase final do capitalismo. Nos últimos 35 anos (pós-URSS) assistimos a uma aceleração tal do sistema capitalista ocidental (o núcleo central do domínio deste modo de produção), que passámos da social democracia – a qual, apesar da sua degeneração já nos anos 90, ainda conseguia reter uma parte importante dos recursos produzidos para serviços públicos -, para o neoliberalismo e, mais recentemente, para uma versão ainda mais brutal deste, à qual Varoufakis chamou de “Tecnofeudalismo”, mas que não passa de capitalismo monopolista – Sam Altman da Open AI dizia que fazia parte daqueles que trabalham para o monopólio, pois a concorrência é para os fracos -, para agora entrarmos na fase “gangsterista”. O resultado é simples: não existe uma única pessoa no Ocidente que me consiga demonstrar que a vida dos trabalhadores desta região (a esmagadora maioria da população) no essencial melhorou, em qualquer que seja o aspecto considerado. Não só não melhorou, como piorou em todos!

A explicação é fácil, de quantitative easing em quantitative easing, tornou-se demasiado fácil à oligarquia exigir dinheiro aos estados e vê-lo jorrar para os seus bolsos em quantidades absolutamente loucas, agravando o nível de endividamento dos países ocidentais, que por sua vez leva ao déficit e, por sua vez ainda, leva a mais austeridade, num processo rotativo de constante esmagamento e sucção dos recursos destinados aos serviços públicos, aos serviços para todos. Atente-se no caso alemão. Um governo constituído pela CDU aprova uma revisão constitucional irregular, para aprovar uma derrogação da regra do deficit das contas públicas, para que se possa gastar mais dinheiro na guerra. Esta CDU, ao tempo de Merkel e Shoebel, era o mesmo partido que, em plena crise do subprime obrigou os PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia, Espanha) a aplicarem uma austeridade brutal, provocando miséria, fome, mortes nas urgências dos hospitais, porque não podiam haver excepções às “contas certas”. Há quem chame a isto “democracia”.

Mas ainda não tínhamos recuperado a respiração de tanto esticão orçamental e já os estados-membros, e a EU, se preparam para fazer jorrar mais uns triliões para as “empresas” poderem enfrentar os efeitos das tarifas de Trump. O governo português, que se prepara para gerir um déficit orçamental (governo da direita liberal (PSD) com a direita reaccionária (CDS) e com apoio da direita ultraliberal (IL)), o que já não sucedia há mais de 8 anos, vem também destinar mais 10 mil milhões de euros para enfrentar o problema. Ou seja, são os trabalhadores quem irá pagar tudo mais caro, mas é o patronato quem leva os subsídios. Enquanto isto, cada vez mais trabalhadores portugueses, incluindo licenciados, vivem e dormem na rua.

O que esta realidade demonstra é que, toda a dificuldade, qualquer ténue turbulência, é amplificada a níveis inauditos por um exército de “órgãos de comunicação social”, comentadores, analistas, politólogos, consultores, com a cartilha tão bem estudada que mais parecem um exército de drones saído de A Guerra das Estrelas, com a função de gerar o alarmismo, o drama, o medo e a consternação, de forma a justificar mais uma excepção, mais um fundo público, num interminável ciclo de apropriação e concentração.

Os dados não deixam mentir, só a EU destinou 1,17 triliões de dólares para “salvar” a banca, sem que fosse feita qualquer exigência ou contrapartida social. Foi só encaixar e distribuir sob a forma de dividendos aos accionistas. Já durante a crise Covid-19, assistimos a políticas monetárias expansionistas, que beneficiaram, uma vez mais a banca, que se financiava a juro 0% junto do BCE e emprestava a juros comerciais de 10, 20 ou 30%, entregando-se triliões de euros a grandes corporações (só o Plano de Resiliência e Recuperação foram 700 mil milhões de euros sem contar com o que os estados-membros haviam dado durante a crise pandémica).

Com a “guerra da Ucrânia”, para além das “ajudas” ao desgraçado país apanhado nas garras do Tio Sam, a EU destinou fundos avultados para a crise energética do gás, para o aumento dos custos com a energia, nomeadamente para os sectores com “uso energético intensivo”, aprovou incentivos fiscais, subsídios para o restabelecimento de cadeias de fornecimentos e incentivos à transição energética, da “dependência da Rússia” para a “dependência dos EUA”. Tudo isto acompanhado de desregulação do mercado de trabalho, ataques aos sindicatos e silenciamento das vozes dissonantes. Quando Rui Tavares, do Partido Livre (uma espécie de Baerbock à portuguesa, mas com barbas) acusa Victor Orban de atacar o estado de direito, engrossa o movimento daqueles que aprovaram a maior vergonha democrática na europa ocidental desde os tempos do fascismo: a anulação das eleições romenas, o impedimento de candidatos de concorrerem por delito de opinião e a escolha administrativa, pela NATO, de candidatos possíveis, apenas do quadrante pró-Aliança Atlântica, logo na Roménia que nem águas tem no Oceano Atlântico!

O facto é que, já desde os anos 20 do século XX – o período dos barões da máfia – que os EUA já não assistiam a um nível tão elevado de concentração da riqueza ( EUA têm maior concentração de riqueza desde os anos 20 – Instituto Humanitas Unisinos – IHU ). De referir que tal período foi também um período em que se desenvolveu a primeira Red Scare (purga vermelha). Os 0,1% mais ricos têm hoje 14% da riqueza nacional, naquele que é um recorde absoluto. Segundo o próprio FED, a metade mais pobre (trabalhadores mais mal remunerados, desempregados, idosos, crianças…), fica apenas com 2,5% da riqueza nacional, enquanto a metade mais rica (a que vota e sustenta o sistema oligárquico), fica com 97,5% da riqueza (Ricos cada vez mais ricos: nos EUA, o 0,1% no topo agora detém 14% da riqueza nacional, um recorde ). Talvez contentes com o nível de democraticidade da coisa, os candidatos dos principais partidos (PS, PSD, IL e Chega), apenas dirigem o seu discurso à “classe média”, nomeadamente quando referem a necessidade de “construir casas para a classe média” (ver em debate entre Pedro Nuno Santos e Mariana Mortágua ontem dia 09/04/2025 e Montenegro e Paulo Raimundo no dia 08/04/2025). Há quem lhe chame “liberdade”.

A adicionar a isto tudo, ainda podemos dizer com grande dose de objectividade que, consideradas as políticas de transição verde e descarbonização no Ocidente, e tomando a “crise” como verdadeira, não apenas os trabalhadores ocidentais pagarão muito do seu bolso, como pagarão para condenar o planeta à morte. É isto mesmo que nos prova o relatório da Golden Sachs que acima referi.

Provam os dados e as conclusões retiradas que as tarifas e incentivos à produção local de tecnologias verdes elevam os custos globais de descarbonização em pelo menos até 30%, contradizendo directamente as metas do Acordo de Paris. Adianta também o relatório Carbonomics 2025 da Goldman Sachs que a tensão criada entre “soberania industrial” e “sustentabilidade ambiental” pode comprometer seriamente a transição energética global.

Ou seja, não apenas despejámos fundos brutais numa transição verde que está agora ameaçada de morte, a não ser que despejemos ainda mais fundos, como teremos de pagar para recuperar industrias que perdemos, apenas e tão só, por causa do neoliberalismo globalista e da financeirização da economia ocidental. Reindustrialização que agravará a transição ambiental que financiámos. O contribuinte europeu financia a doença, a cura, o tratamento e a eutanásia do doente!

Estas conclusões estão amplamente suportadas no relatório em causa, do qual é possível extrair que o “proteccionismo verde” da EU/EUA, que resultou em tarifas aos veículos eléctricos, baterias, painéis fotovoltaicos e turbinas eólicas, tem um custo oculto brutal e que raramente é quantificado pelos governos.  A produção local de painéis solares e baterias, na Europa e EUA, custa 58% a 115% mais que as importações chinesas. Para mitigar essa diferença, seriam necessárias tarifas médias de 115% sobre painéis solares e 55% sobre baterias de veículos eléctricos – medidas que inflacionariam o custo total de descarbonização global em 30%. Ou seja, tanto dinheiro gasto para sermos colocados perante um dilema impossível: ou descarbonizamos, ou ficamos sem trabalho! Eis a eficiência das políticas ocidentais em todo o seu esplendor! Como sempre, pagaremos para as duas, para nada se conseguir.

Por outro lado, tendo deixado transitar para o Oriente, em função de uma visão espartilhada, horizontal, deslocalizada, da economia, daquilo que se considera por “Tecnologias maduras (solar, baterias)”, o facto é que hoje, segundo a GS, as inovações chinesas em 2024 representaram uma redução de custos em pelo menos 30%. Ou seja, os povos europeus pagaram triliões para financiar o seu sistema económico e o resultado é que criaram um monstro da ineficiência e do desperdício, viciado em dinheiro fácil sem metas e contrapartidas. Acresce que, agora, dizem-nos que vamos ter de o refinanciar, desta feita, para, ao abrigo de um suposto “reshoring” (trazer para a nossa costa) dessas tecnologias, passarmos nós a produzir o que os outros, também por nossa culpa e pela melhor governação deles, produzem mais, melhor e mais barato que nós.

Há um exemplo concreto desta situação que é paradigmático: uma pequena Câmara municipal em Portugal, gerida pelo PSD (partido liberal ou neoliberal), no norte do país, numa pequena cidade chamada Monção, faz um alarido enorme por ter comprado 5 autocarros eléctricos por 2,1 milhões de euros. Ou seja, mais de 400 mil euros cada um. Ora, estes autocarros podem ser comprados na China a menos de 60 mil euros cada. Assim sendo, resta perguntar: então vamos pagar mais para quê? Porque são feitos na EU? Ora, este argumento só valeria se o fizéssemos com tudo, mas como no que interessa aos interesses oligárquicos continuamos a comprar na China e em todo o lado, só resta uma conclusão óbvia: é que isto é mesmo para ser assim e trata-se de um imenso jackpot aos gangsters do greenwashig (lavagem verde) que operam no Ocidente.

Mas o relatório da GS ainda aponta outra contradição que corrobora precisamente isto que disse, ou seja, o desenvolvimento de tecnologias brutalmente dispendiosas, mas que justificam os enormes subsídios atribuídos e a rotação de enormes quantidades de capital, que engordarão ainda mais as contas offshore, detidas por uma nova categoria de sanguessugas capazes de sugar continentes inteiros, designadas de super-ricos. Trata-se do desenvolvimento de “Tecnologias emergentes (hidrogénio verde, SAF)” que provocam a estagnação ou alta de custos por falta de escala global associada. A incapacidade para respeitar e negociar com a India, China, Rússia e todos os BRICS, esquemas à escala global, a birra em querer dominar toda a indústria de ponta e em querer controlar as cadeias de valor e suprimentos, faz com que o Ocidente esteja a investir em quimeras que têm como função extorquir mais e mais dinheiro aos seus contribuintes, sabendo que não são competitivas nem escalonáveis. Afinal, as designadas políticas de “friend-shoring” (trazer para os amigos) concentram investimentos em tecnologias menos competitivas, enquanto penalizam sectores onde a cooperação internacional poderia acelerar ganhos de eficiência. E não sou eu que o digo, é a Golden Sachs.

Por fim, para agravar este paradoxo geopolítico-climático, a UE e os EUA destinam US$ 1.7 triliões/ano em subsídios verdes, mas cada dólar investido em produção local de energia solar tem eficiência climática 58% menor versus as importações asiáticas. Ou seja, esta teoria de que temos de ser nós a fazer o que outros já fazem, só porque pensávamos, em primeira mão, que iriamos ganhar a corrida às tecnologias verdes e ficar com o jackpot inteiro, está a fazer-nos embarcar num paradoxo da insustentabilidade: quanto mais dinheiro colocamos nas tecnologias verdes em concorrência à Ásia (para não dizer China), menos eficiência carbónica e ambiental temos! Fantásticos governantes! É o milagre da subtracção!

O facto é que a transição verde exige um reequilíbrio entre segurança económica e eficiência climática. Como mostra o Carbonomics 2025, a fragmentação das cadeias de suprimentos verdes não só encarece a descarbonização como retarda o ponto de inflexão tecnológico necessário para sectores difíceis de abater, como o caso dos sectores ligados às energias fósseis. Não apenas gastamos mais dinheiro, como tornamos tudo mais difícil e tardio. Como diz a própria GS, a solução não reside no isolamento, mas na arquitectura de novos pactos industriais-globais que harmonizem interesses nacionais com imperativos climáticos, económicos e sociais, acrescento eu. Ou seja, ao invés de guerras frias e quentes, devemos proteger-nos, sim, mas também cooperando. Algo que o Ocidente deixou de saber fazer com quem não lhe agrada. Se é que algum dia soube.

O relatório da GS evidencia que as políticas proteccionistas ocidentais, de tão bem desenhadas que foram (talvez tenham sido desenhadas pelos mesmos que desenharam as deslocalizações, privatizações,etc) criam um ciclo vicioso de custos elevados e dependência de subsídios estatais através de três mecanismos principais:

  1. Subsídios industriais como compensação artificial, pois as políticas de “reshoring” (relocalização industrial) exigem investimentos massivos para tornar viáveis sectores estratégicos em território nacional. Por exemplo: a UE destinou US$ 1.7 triliões/ano em subsídios para tecnologias verdes, porém com eficiência climática 58% inferior às importações asiáticas, e os EUA aplicam tarifas de até 54% sobre produtos chineses, mas precisam compensar empresas locais com créditos fiscais equivalentes a 30% do custo de produção. Estes mecanismos geram um efeito de “custos duplos”, pois protegem indústrias menos competitivas e transferem o ónus financeiro para os contribuintes. Fantástico negócio.
  2. Fragmentação de cadeias de suprimentos, pois o proteccionismo força a duplicação de infra-estruturas críticas, por exemplo: os painéis solares custam mais 115% que as importações, aumentando o seu preço em 40% para os sistemas residenciais; as baterias para VE custam mais 55% do que os fornecedores globais, aumentando o custo médio dos veículos em 8.000$. Esta fragmentação exige financiamentos estatais contínuos para manter a viabilidade de sectores estratégicos, criando dependência crónica de fundos públicos. Mas depois, ouvem-se os Trumpistas, o André Ventura do partido mais reaccionário em Portugal, os Orbans, Melonis e muitos outros a dizer, que são os imigrantes quem leva o dinheiro e são os ciganos quem recebe mais subsídios.
  3. Efeito dominó geopolítico, pois as tarifas ocidentais desencadeiam retaliações que amplificam custos sistémicos, amplificados, por exemplo, com a resposta chinesa, da EU, BRICS e outros. Cada medida proteccionista gera novas distorções de mercado, obrigando os estados a injectar recursos adicionais para neutralizar impactos negativos não previstos.

Não que eu seja contra todas as formas de proteccionismo, muito pelo contrário. Contudo, este proteccionismo, uma vez mais e tal como quando se deu a abertura das economias ocidentais à globalização, não visa proteger os trabalhadores e as suas condições de vida. Visa, isso sim, proteger as condições de acumulação de uma elite cada vez mais rica, que se sente incapaz de competir com aqueles que antes via como inferiores.

A própria paranóia da inteligência artificial generativa é também outro logro que qualquer dia será responsável por nos colocar novamente à luz da vela, para que meia dúzia de iluminados possam usá-la para virtualmente enriquecerem. Como refere também a Golden Sachs no seu briefing semanal, a Inteligência artificial aumentará a procura de electricidade em 165% até 2030. O problema é que é mesmo para ser assim, muito dinheiro público a jorrar para uma área de negócio profundamente ineficiente, como veio provar o DeepSeek, sobre o qual escrevi também no passado.

Em conclusão, se dúvidas havia que este sistema está condenado ao fracasso, vejamos como as várias fases do seu desenvolvimento apenas nos trouxeram à dependência, ineficiência e ao atraso em relação aos competidores que tanto parecem assustar a nossa oligarquia.

Quanto mais medo têm da China e da Rússia, mais nos conduzem ao paradoxo da ineficiência ocidental: quanto mais se investe o dinheiro dos contribuintes, mais atrasados ficamos e mais medo temos! Uma espiral destrutiva imparável e sem fundo à vista.

E como se não estivessem contentes, como se não tivessem falhado todas as estratégias trazidas até aqui, como se o neoliberalismo não tivesse deslocalizado a nossa capacidade industrial instalada e know-how, como se o monopolismo tecnológico não tivesse empobrecido milhões e milhões de trabalhadores e como se o gangsterismo capitalista não tivesse usado todos os fundos públicos, a ele destinados desde o início do século, apenas para enriquecer uma minúscula fracção populacional, agora, querem obrigar-nos a pagar mais 800 mil milhões de euros porque identificaram mais uma “crise”. O resultado será simples: quanto mais medo tivermos da Rússia, da China, do Irão, da Coreia do Norte, mais dinheiro gastaremos, tudo para descobrir, no final, que eles continuam sempre a ser mais poderosos.

O facto é que a nossa “crise” é só uma: fazermos crescer o monstro da ineficiência sistémica que nos asfixia. Eis o paradoxo da ineficiência ocidental: quanto mais crises financiamos, mais crises enfrentamos. Até perecermos de vez!

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A Europa, de novo: a cultura da paz e a cultura da guerra

(José Sócrates, in Diário de Notícias, 14/04/2025)

E é isto a Europa…

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O que vejo de pior no recente discurso sobre o rearmamento da Europa é a forma como ele é apresentado — simples questão de bom senso, dizem. Não é uma escolha, não é uma opção política, é apenas bom senso. E sendo uma questão de bom senso, não é necessário debate, nem boas razões — a coisa é autoexplicativa: a invasão russa da Ucrânia e o abandono americano da guerra não deixam alternativa. Assim se constrói o pensamento único — chamando-lhe bom senso.

A pressão do jornalismo pela política de rearmamento é tão forte que qualquer personagem que a ponha em causa é imediatamente banida para o espaço marginal que as democracias reservam aos doidos e aos hereges — não devem ser levados a sério. Eis, portanto, a nova cultura política europeia: o discurso da paz é radical, o da violência é normal. A paz é a retórica dos fracos.

O discurso nas televisões europeias aparece dominado por aquilo a que alguém chamou de fenômeno da “estupidez estruturalmente induzida”. Bem observado: se a proposta de produzir mais armas tem como principal razão de ser a ameaça russa, ela é realmente muito estúpida. Salvo melhor opinião, que não estou a ver qual seja no domínio dos fatos, a invasão da Ucrânia não aumentou a ameaça russa, mas revelou, isso sim, a sua fraqueza. Se o exército russo não conseguiu em três anos derrotar a Ucrânia, não estou a ver como poderia invadir com sucesso a Europa ocidental.

Depois, o argumento do abandono americano. É certo que a atual administração fragilizou a aliança transatlântica e afetou a confiança em que se baseia o artigo 5º da OTAN (um ataque a um é um ataque a todos). Estou de acordo. No entanto, a guerra da Ucrânia veio derrubar um mito de décadas — o de que a Europa precisa dos Estados Unidos para se defender. Há muito que isso deixou de ser verdade.

A Europa tem mais homens, mais tanques e mais jatos de combate que a Rússia. A Europa gasta mais em defesa do que a Rússia (os membros europeus da OTAN gastaram 476 bilhões de dólares em 2024 enquanto a Rússia gastou cerca de 140 bilhões). Estes dois indicadores parecem-me suficientes para contrariar o argumento base da corrida aos armamentos.

Temos ainda o argumento do regime: a ideia implícita de que o regime russo se funda numa necessidade incontrolável de expansão. O perigo russo, dizem os novos belicistas europeus, o verdadeiro perigo russo, é a sua memória histórica imperial. É essa condição que torna a vizinhança com a Rússia perigosa e que obriga os seus vizinhos a prepararem-se para a guerra. Este discurso tem raízes antigas — o perigo eslavo como razão militar. No entanto, nunca houve imperialismo sem força militar e a Rússia não a tem. E se não a tem não constitui uma ameaça.

Por outro lado, se queremos falar de pulsões primárias coletivas, convirá lembrar que os séculos 19 e 20 foram os séculos dos impérios europeus. E, assim sendo, se a história molda a atitude dos países, não se percebe por que razão a Rússia é mais perigosa que a Europa ocidental. O argumento não faz sentido, ou melhor, só faz sentido para quem julga a Rússia como inimigo eterno e os russos como pessoas não dotadas de razão.

Finalmente: o que significa realmente o rearmamento europeu? O que é que se pretende? Por mim, só vejo uma mudança critica — a do rearmamento alemão. Essa será a mudança essencial, tudo o resto será insignificante face ao que agora existe. É isso que a Europa deseja? Fazer regressar os jogos da balança de poder ao interior da Europa? Fazer regressar as desconfianças e os medos? Quantos anos passarão até que a França comece a temer o poder militar do seu vizinho alemão? Quando tempo demorará até que a Inglaterra comece de novo a fazer contas sobre como evitar o domínio do continente por uma única potência militar?

Há uns anos ouvia os dirigentes políticos sul-americanos elogiar a combinação de políticas de economia de mercado e de proteção social do estado a que demos um nome que nos orgulhava — o modelo social europeu. Ouvia-os falar com admiração do projeto de partilha de soberania que inspirou o Mercosul. Nessa altura o projeto europeu irradiava para o mundo como um projeto de paz, um projeto de defesa dos direitos humanos e de respeito pelo direito internacional.

Agora, a Europa está reduzida a isto — a falar de guerra, de armas e de inimigos existenciais. Como se a paz fosse impossível e a guerra eterna. O que está a acontecer na Europa não é apenas uma mudança de prioridades políticas, mas uma séria e profunda mudança de cultura política — a cultura da paz pela cultura da guerra.