A transumância e a silly season

(Pacheco Pereira, in Sábado, 05/08/2018)

JPP

Pacheco Pereira

Eu devia ter cuidado em não me repetir, mas a verdade é que todos os anos por esta altura fico como o António Barreto e os jacarandás. Lá repito a cena da transumância para os Algarves e o suspiro acomodado com a inauguração oficial da silly season. Na verdade, neste último caso, nem um suspiro devia dar (por falar nisso, o que é um suspiro, que é prática que não uso?) visto que a silly season não é uma estação, mas uma constante anual. Reconheço que recrudesce no Verão com as tolices do costume. Este ano foi precedida pela discussão dos mortos a levar para o Panteão, e pelas miudezas da ida de Ronaldo para Itália. Depois, ele é os “políticos em férias”, “os notáveis em férias”, as famílias entrevistadas nas portagens quando vão de carro para o Algarve, as festas brancas, as festas pretas, as meninas do jet set e os seus meninos que “assumem”, ou que já têm “barriguinha”, os conselhos para o sol, os conselhos de livros para misturar com a areia, os melhores restaurantes de marisco, o Algarve “desconhecido” que espera por si, o senhor Presidente tira mais selfies, cuidado com as arribas, etc., etc.

E mesmo com a há coisas que eu gostava de saber 
Por exemplo, porque é que há cada vez mais Budas nos restaurantes do Algarve?

Táxis, Uber e tuk-tuks 
Os taxistas dizem que já há em Lisboa mais carros da Uber do que táxis. Não sei se é verdade, mas cada vez mais se vê um carro normal parar para receber uns turistas de mala. Na verdade, já vi mais do que uma vez que nem sequer os ajudam a colocar as malas no porta-bagagem, mas podem ser excepções. Mas esta mudança drástica no transporte urbano de Lisboa e do Porto, a que se somam os tuk-tuks por todo o lado, devia merecer mais atenção e mais regulamentação. Ao caos evidente na época turística soma-se a pressão, sobre ruas estreitas e superpovoadas, de um incremento de entregas e recolhas associadas ao boom de hotéis e hostels, de mantimentos, bebidas, roupa de e para lavandarias.

A cidade não cresce, encolhe. E por muito que haja gente a ganhar dinheiro a muito curto prazo, é mais um exemplo da imprevidência irresponsável a que somos muito atreitos. Já lhes passou pela cabeça que uma cidade onde não se pode andar, passear, viver, não é boa para o turismo?

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O caso Robles 
Acabou para já. É muito simples de resumir. Robles, como muita gente no Bloco de Esquerda, confunde política com arrogância moralista. É a escola que Louçã deixou. Tinha que dar torto e deu. E vai dar mais vezes. Os seus críticos, principalmente os discípulos do PAF, são hipócritas na sua indignação. Na verdade, eles acham que são os únicos que podem ganhar dinheiro sem problemas com a especulação imobiliária. É engraçado ver como estão contentes com a queda de Robles os homens e as mulheres do Jacinto Leite Capelo Rego. Estão bem uns para os outros.

Um país que tem o e o … 
….é um grande país. Tem lá o Trump e muita coisa sinistra, mas deste lado das coisas ninguém lhe tira o mérito. Há por lá uma liberdade profunda, que tem resistido ao MAGA e que vem da sua génese como país independente. Tinha de conhecer vicissitudes, como é natural neste tipo irreverente e iconoclasta da liberdade, mas até agora tem resistido a Trump e, neste caso, pior ainda, a Pence.

Nós também queremos o balão do Trump 
Na colecção do Ephemera sempre pretendemos o balão do Trump como bebé que flutuou em Londres, até antes de ele ascender aos céus de fraldas. Estamos a mover alguns cordelinhos, como se diz, mas a competição é muita. Como o Reino Unido é o país que é, o British Museum quer o balão para expor e outros museus querem-no para entrar nas suas colecções. Os activistas, que o fizeram usando financiamento de crowdfunding, querem levá-lo para todo o lado onde esteja Trump, o que é compreensível. Vai para junto dos campos de golfe onde o Presidente gasta aquilo que chama em linguagem orwelliana, o seu “executive time”, jogar golfe, ver a Fox News e espumar com as outras estações televisivas. Até estou disposto a fazer um movimento a convidar o Trump a vir a Portugal, deixá-lo dormir numa igreja barroca entre as colunas douradas, já que o Elefante Branco fechou, para ter o prazer de hastear o balão na Praça do Comércio ou no Castelo de S. Jorge. Bom, há réplicas à venda. Vamos ver.

A cidade do Porto não tem piorio?

(José Pacheco Pereira, in Público, 02/06/2018)

JPP

Pacheco Pereira

De há mais de um ano para cá, quando ia à minha terra, ao Porto, arranjava maneira de parar em S. Lázaro para fotografar e documentar o Quiosque dos Worst Tours, também conhecido como o “Quiosque do Piorio”. Numa última vez pude falar com alguns dos seus animadores. No Ephemera encontram-se muitas fotografias do quiosque, que são bastante esclarecedoras do que é (ou era, porque não sei se à data em que este artigo sairá o quiosque não está já fechado), esse pequeno espaço de liberdade na cidade do Porto.

O quiosque, um quiosque tradicional e bastante antigo, encontra-se num sítio emblemático da cidade. É por isso que o pior argumento para fechar o Quiosque do Piorio é este:

“Naquele local não deve haver um equipamento daquele género e formato, face ao conceito que [a câmara] tem para aquele espaço.”

Se há exemplos de explicações esfarrapadas está é uma delas. Estamos a ser vítimas do terrível “conceito”. Aquele “local” está na intercepção do edifício da Biblioteca Municipal, do jardim romântico de S. Lázaro, da Escola Superior de Belas-Artes e do Café S. Lázaro, ponto de reunião das vanguardas artísticas dos anos 60 e 70. Para um lado, caminha-se para o infame edifício da PIDE, para o outro vai-se para a antiga zona de “ilhas” de S. Vítor e Fontainhas, coração do S. João, a festa democrática e única da cidade. Para cima, começa o Porto oitocentista e novecentista até ao monte onde estiveram colocadas em muitas revoltas as baterias de artilharia. O quiosque é um ponto nesta geografia, mas está lá no sítio certo, numa cidade que à sua volta está ainda viva e na zona limítrofe do Porto turístico, ou melhor, do Porto dos turistas. Talvez seja aí que entra o “conceito”.

PÚBLICO -

O Quiosque do Piorio era um dos animadores da contestação à “gentrificação” do Porto. O Dicionário da Priberam explica a palavra nestes termos:

“Processo de valorização imobiliária de uma zona urbana, geralmente acompanhada da deslocação dos residentes com menor poder económico para outro local e da entrada de residentes com maior poder económico.”

Ou seja, aquilo que se está a passar no Porto e em Lisboa. Na verdade, estão-se a passar muito mais coisas, algumas positivas, como seja a reabilitação de zonas muito degradadas das cidades e um impulso económico muito significativo, mas também um efeito de deterioração que está a fazer estragos nas cidades antigas e que não é sustentável. Quando a onda de turismo diminuir, como naturalmente acontecerá na lógica das modas, vai haver outro tipo de ruínas por tudo o que não foi acautelado pelo deslumbramento destes anos.

A palavra de ordem de “Make Porto podre again” pode ser excessiva, mas há lá uma verdade e um alerta que valia a pena serem ouvidos, antes que seja tarde. Por isso, o Quiosque do Piorio pode ser excessivo, esquerdista, nostálgico de um Porto que não era lá grande coisa, mas uma câmara adulta não só deveria conviver bem com esta contestação, como a deveria considerar boa para cidade, onde fazem falta estas vozes.

Até porque o Porto tinha outra coisa que Lisboa não tinha: uma genuína tradição liberal, burguesa, inscrita nas suas instituições e nas suas práticas. Do 24 de Agosto às lutas liberais, do 31 de Janeiro à revolta de 1927, a mais mortífera rebelião contra a Ditadura, o Porto era mais liberal e democrático do que jacobino, mais socialista do que anarco-sindicalista, e nele o 5 de Outubro não chegou pelo telégrafo, visto que os mortos da República já tinham morrido na Rua 31 de Janeiro, a que a Ditadura chamava, num último insulto, de S. António.

Foi no Porto que se realizaram os maiores comícios e reuniões da oposição a Salazar, o comício de Norton de Matos e a recepção a Humberto Delgado, o ponto de viragem da sua campanha presidencial, com toda a cidade na rua com epicentro na Estação de S. Bento. Nunca houve nada disto antes e nunca houve nada de parecido depois.

E outra coisa que explica esta história é que estamos numa cidade onde a sua “burguesia” pouco se vendeu ao salazarismo, participava nas causas liberais, apoiava a oposição e interessava-se pela arquitectura moderna, pelas artes, pelo teatro, que ajudava a existir, do Teatro Experimental à Cooperativa Árvore. Donos de indústrias, banqueiros, famílias ricas pagavam no Porto aquilo que fora da cidade era muito raro de existir.

Se ainda for a tempo, vale a pena salvar o Quiosque do Piorio da ameaça do “conceito”.

Uma Madonna Lisboa

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 01/09/2017)

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João Quadros

Foi com alguma curiosidade que assisti ao primeiro debate com os candidatos à Câmara Municipal de Lisboa na SIC e, na segunda parte, na SIC Notícias. Moderado por Rodrigo Guedes de Carvalho o debate acabou por ser chocho. Notou-se a falta de uma candidata do PSD. Outra crítica, sendo o debate sobre Lisboa e os seus habitantes fazia sentido terem posto legendas em francês e inglês, porque são as pessoas a quem o debate mais diz respeito.

No final do debate, fiquei com a sensação de que a Teresa Leal Coelho é a única pessoa que tem menos vontade de ser presidente da câmara do que eu tenho que ela seja. Ela só quer que isto acabe. Nem quer arriscar e vai votar Fernando Medina. O que lhe dava jeito era o PSD não eleger ninguém.

Numa das intervenções, Teresa Leal Coelho disse que fazia vídeos sobre Lisboa esquecida. Como, por exemplo, o caminho de sua casa para a câmara. O que Teresa Leal Coelho foi fazer à SIC foi distribuir votos. Cristas esteve todo o debate com um sorriso de habitante de Lisboa extremamente satisfeito. Ou de quem sabe que ganha mais votos cada vez que Teresa Leal Coelho fala do que com o que diz.

Estranhamente, um dos nomes mais referidos no debate foi o de Madonna. Não me perguntem porquê. Segundo sei, Madonna vai viver para Sintra. Há um certo histerismo com isto da Madonna se mudar para Portugal e ser vista aqui e acolá. Nós temos tradição disso. Eu ambiciono ver a Madonna em Fátima. E não é só a Madonna. Há vários famosos que se mudaram para Lisboa e, sem entrar no nosso lado Caras, eu até acho que com o “boom” com que a cidade anda até podíamos apostar na vinda para Lisboa de famosos já mortos. Exemplo: Prince no Panteão, David Bowie nos Jerónimos. Só assim, de repente.

É realmente diferente ver um debate sobre as autárquicas em Lisboa em que se começa por falar da Madonna . Não parecia um debate autárquico, parecia o princípio de um filme do Tarantino. Teresa Leal Coelho parecia estar chateada com a Madonna. Disse que Madonna não veio para Lisboa para estar uma hora fechada dentro do carro. Parece que nunca viu um vídeo com o que a Madonna faz dentro de uma limusina. Uma hora dentro do carro da Madonna está longe de ser a chatice que a Teresa Leal Coelho quer fazer parecer. Depois, acrescentou que os lisboetas “não têm o orçamento da Madonna.” Esta embirração toda com a Madonna só pode ser inveja da colecção de sapatos.

Retirei pouco mais do debate, excepto as vinte estações de metro de Cristas, uma coisa digna da Madonna, incluindo uma estação de metro em Loures. Aposto que o candidato do PSD a Loures não se opõe à ideia desde que a nova estação de metro de Loures se chame Sapo e tenha pinturas com o tema, etc.


TOP 5

Like a virgin

1. EX-PR Aníbal Cavaco Silva diz a estudantes da universidade de verão do PSD para combaterem a censura que quer voltar – Cavaco quer que estudantes combatam a censura e não leiam Saramago.

2. Maria Luís albuquerque “O conflito na Autoeuropa é mais um reflexo da geringonça” – E o da Coreia do Norte.

3. Valentim Loureiro diz que “nada” o impedirá de se candidatar a Gondomar – Até já encomendou centenas de electrodomésticos.

4. Coreia do Norte lança míssil no mar do Japão – Temos de reconhecer que os norte-coreanos têm evoluído mais do que o McLaren-Honda de F1.

5. Cavaco Silva veio de Albufeira, onde estava de férias, até Castelo de Vide para dar um aula na universidade de verão do PSD – Eu percebo que vale tudo para fugir de Albufeira, mas acho um exagero e não compensa.